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terça-feira, 11 de novembro de 2014

O BOFE IMBERBE, E O VÔMITO NA COSTA DO SEU RICARDO

  Já foi pior: Hoje homossexuais não se escondem mais, mas a preferência continua sendo  por bofinhos jovens. Porque será... ?
Traumas. Quem não os tem?   Na maioria das vezes eles surgem na infância e têm reflexos na nossa personalidade. O criminoso em série, sociopata ou o pedófilo, por exemplo, quase sempre vêm de situações vivenciadas no passado. Foram acometidos de algum tipo de violência, física ou psicológica, que acabou de alguma forma sendo determinante nas cicatrizes que ficaram na alma. Por isso, nem sempre o que se aprende na infância é a resposta mais saudável quando chegamos à vida adulta.
De todo ser vivente o homem é o que tem a infância mais longa, e é justo nesse período que o cérebro capta os aprendizados, mais tarde na adolescência outros conhecimentos se somam. Experiências recebidas, o cérebro processa e arquiva, e na fase do amadurecimento, dependendo de fatores diversos como estresse emocional, físico ou psíquico, e até condição social, pode-se, muitas vezes, reproduzir os aprendizados desse período da vida, fazendo distinção entre o que atrapalha e o que ajuda.
 O relato a seguir é um exemplo de acontecimento da existência adolescente, que bem podia ter produzido um adulto “doente”. O nosso personagem, porém, no quadro que  emoldura o mundo, ao invés de retratar o medo, a hediondez, o mal; pintou a unidade, a beleza e a harmonia, com imperfeições e erros, mas sem as danações perversas que estraçalham a vida.
Eram duas horas duma tarde de domingo num mês de verão do ano de 1963. O pequeno trabalhador de quatorze anos tinha terminado mais uma jornada de trabalho na feira do Ver o Peso. Depois de ter lavado a roupa de serviço e tomado banho nas águas barrentas da baia do Guajará, vestido uma bermuda um pouco melhor, uma camisa limpa, almoçado um suculento peixe frito com açaí, o guerreiro foi descansar. Aonde? Sob a sombra de uma mangueira na praça D. Pedro II, na frente do Palácio do Governo (Palácio Lauro Sodré). 
Na calma daquele início de tarde de domingo deitou-se num banco, fez da trouxinha de sua própria roupa, um travesseiro, e preparou-se para usufruir o conforto do vento fresco resfriado pelas águas que sopravam da baía. Era um verdadeiro refrigério para o corpo e para a alma. A única preocupação eram os passarinhos que soltavam seus dejetos lá do alto sem se importar com quem estava embaixo. Sem casa, sem parentes ou amigos, o pequeno lutador descansava de uma manhã de trabalho puxado no máximo de “conforto” que tinha a sua disposição: um banco em praça pública. Se bem que o local escolhido para o repouso era estratégico, ficava a menos de 300 metros do cinema Guarany, onde, às três da tarde, passaria a primeira sessão do filme “Assim que se faz...Amigo”, filme de faroeste, que era o gênero preferido do nosso rapazinho.
  De repente uma movimentação na extremidade do banco, fez o pretinho levantar-se rápido. Meio assustado viu que não estava mais só. Um velhote, que aparentemente se divertia com o susto causado pela sua presença tinha se sentado na pontinha do banco. Cumprimentou-o com uma “boa tarde”, e um sorriso cativante. Puxou conversa:
- Que faz o meu bom rapaz  nesta hora sozinho aqui, e pelo visto está cansado, hem? Trabalhou muito hoje, onde e em quê, e pra aproveitar, como é o seu nome?
A sucessão de perguntas embasbacou o desconfiado negrinho que quis dar uma daquelas respostas aprendidas na escola Veropesiana, conteve-se, porque o velhote deu-lhe uma palmadinha na coxa desnuda, e em tom galhofeiro, brincou:
 - Não se aborreça meu jovem, só estou querendo ser seu amigo. Pronto! Em poucos minutos os dois conversavam animadamente como se, de fato, velhos amigos fossem.
- Bom, eu já sei que o teu nome é Orlando, teu apelido é jambu, trabalhas na feira, moras sozinho num quarto alugado em Canudos. Um dia vou te fazer uma visita. Mas agora és tu que vais comigo no meu apartamento me ajudar fazer uma limpeza. Eu sou gerente da fábrica Palmeira. A minha família está de férias em mosqueiro e eu só vou pra lá na ultima semana. Vou te pagar um bom dinheiro. Vais ganhar mais do que ganhastes hoje na feira. Topas? Proposta aceita.
Mesmo sem saber quanto iria receber, mas só a perspectiva de ganhar mais do que tinha ganhado na feira deixou o marreteirinho todo serelepe. Por ser negro, e ter complexo de inferioridade, ele evitava sempre as pessoas muito pousudas.  Esse senhor, porém, era diferente. Muito gentil. Seguiram juntos. Um detalhe, entretanto, o intrigou: o seu Ricardo, como o homem se identificara, com uma desculpa, pediu que ele fosse pela outra calçada. Quer dizer, seguiam juntos, mas separados.
Edifício Fátima. Décimo terceiro andar. Visão total para a baía de Guajará. Um deslumbre! Pela primeira vez ele enxerga, lá de cima, até aonde a vista alcança, além da baia toda a cidade estava ali, à vista. Que belo visual. Viaja. Devaneia. Encontrava-se debruçado no parapeito quando o Ricardo bate no seu ombro convidando-o para entrar. Entrou. E surpreso, viu que no apartamento não tinha móveis. Era muito limpo. Só uma cama de casal e um guarda roupa compunham o mobiliário do ambiente. E, credo! O anfitrião estava nu. Peladão, foi logo ordenando: “Vamos, meu rapaz, tire a sua roupa”. Todo confuso o atabalhoado Jambu ainda pensou: “ai ai ai que diacho é isso?”. Falou:
- Ei, seu Ricardo, qué isso? O Senhor me chama pra fazer limpeza, mas aqui tá tudo limpo. E porque eu tenho que tirar a minha roupa, também?
- Você ainda não entendeu meu jovem? Respondeu o velho Ricardo, passando a mão na genitália do pobre Jambu, que nervosão não sabia como reagir.
É que naquelas alturas da vida o moço ainda era virgem. Intacto. Ainda não tinha se deitado nem com uma mulher, que dirá que dirá... Mas, quem está no inferno tem que se abraçar mesmo é com o satanás. O mancebo pensou no dinheiro e foi direto:
_ Quanto o senhor vai me dar?
– Cinco Cruzeiros, tá bom? Respondeu o velho Ricardo. E te arrumo um emprego na empresa onde eu trabalho. Prometeu. Cinco. Cincão. Era muitas vezes mais do que ele tinha faturado naquela manhã de trabalho árduo na feira.
 Sonhou. Emprego. Ah! Um emprego. Era tudo que ele sonhava na vida. Suava frio. Os miolos derretiam. Pensava: “Ai meu Deus! Um ano de Seminário, e agora isso aqui...” (Ele passara um ano internado no Seminário Salesiano). E veio, de repente, o Evangelho de Marcos 10-7,8 onde diz “homem deixa os pais para unir-se a sua mulher e os dois serão uma só carne...”
Afinal, a necessidade imediata falou mais alto. Aceitou. Foi para a cama com o velho Ricardo. Desajeitado (e o cérebro martelando pecado, pecado, pec...). Disfunção erétil ele não tinha. Muito pelo contrário. Mas naquelas circunstâncias nada funcionava. A lança de ataque, quase sempre rígida, naquele momento parecia um guardanapo. Isso não foi problema para o velho Ricardo que, cheio de experiência, resolveu o empecilho, e colocou a máquina em funcionamento.
Palavras do Jambu, que tem 64 anos e ainda está vivo:
“Montei em cima do velho com asco. Ele tinha uma bunda mole e peluda. Eu tava com muita repugnância. A verdade é que eu não completei o ‘serviço’. No mesmo tempo que eu comecei ejacular na bundona do velho, vomitei na costa dele todo o almoço da feira, açaí com peixe frito.  A reação do desgraçado foi rápida e violenta. Ágil, ele saltou da cama e me deu uma bofetada. Mesmo tendo feito uma esquiva, ainda acertou-me. Lembram da trouxinha de roupa que eu lavei lá no Ver o Peso que tava lá no chão e tinha deixado perto da porta?. Dum salto alcancei a trouxinha. Tirei meu inseparável canivete corneta e pensei: ‘vou matar esse baitola filho da puta”.
Aí começou uma luta esganiçada. Horrível. Medonha. O velho era forte. O negrinho era ágil. Cada movimento rápido da afiada lâmina na direção da barriga do Ricardo, era um salto que ele dava para trás e rebatia com os braços que iam ficando golpeados. A cena era grotesca, tragicômica, porém, porque aqueles dois homens nus com os balangandãs pendurados, sacudindo, pareciam que a qualquer momento iam despencar. Morto de cansado, sangrando muito pelos golpes levados nos braços e umas goteirinhas na barriga, o velho, de pé em cima da cama, apelou para o diálogo: “calma meu menino. Olha o que você está fazendo. Vamos conversar!”.
Ofegante, o negrinho foi saindo de costa em direção à porta. Juntou a roupa meio molhada que estava no chão. Limpou-se com a própria veste, e sempre com o canivete preparadinho, foi saindo de fininho. Lá embaixo ainda pensou do jeito bem paraense: “Égua! A gente se mete em cada uma...”
Anos depois ao fazer compras no Armarinho Paulista, atacadista de aviamentos que existia em Belém até o início dos anos 80, na sala da gerência onde fora pegar a nota fiscal, olhem quem era o gerente: seu Ricardo. Os dois, Jambu, que já era um homem, e Ricardo já bem envelhecido. Reconheceram-se mutuamente e cumprimentaram-se, respeitosamente.
Fato. O seu Ricardo morava no jurunas num bangalô de dois pavimentos. Era um respeitável chefe de família. Bem casado. Duas filhas. Bissexual. Mantinha o apartamento alugado para os encontros íntimos e tinha preferência por adolescentes. Hoje, com as leis protetivas preconizadas pelo Estatuto da Criança  e do Adolescente ele seria considerado pedófilo. Era um candidato em potencial à cadeia. Certamente.
O imbróglio sexual mal sucedido ocorrido naqueles tempos deixou traumas no personagem que era, na época, muito jovem e recém-saído do seminário. Passou odiar viado. Na verdade um sentimento de ojeriza que perdurou por muitos anos sem, contudo, qualquer ato gerador de violência contra a ‘moçada’ do grupo transgenêro.
 Heterossexual de cultura machista, mas fundamentada em princípios religiosos, o protagonista de ponta desta narrativa fez uma opção: Amar a Deus com todo coração, com toda alma e com todas as forças e ao próximo como a ti mesmo. (Lc 10, 25-28)
“O tempo ajuda esquecer”. Isso não é verdade. Ou pelo menos não foi com o autor   do causo aqui descrito. A estrutura psicótica voltada para as neuropsicoses de defesa, especialmente quando o ego é confrontado com uma experiência aflitiva, não escraviza, mas fica armazenada no espaço do cérebro que serve de depósito das coisas dos tempos de antanho.  O passado fica no passado. Mas de vez em quando um refluir de episódios ocorridos retorna mesmo sem o peso da emoção, dos medos que na época provocou dificuldade para dormir, choro fácil, estado de medo contínuo, aperto no peito e coração acelerado. O fato é que de vez em quando um “sai pra lá” nas lembranças de fatos marcantes são necessários para que o nosso cotidiano deslize de forma mais suave.

O Jambu que o diga...

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A LINDA "LOUIS VUITTON" DA IRMÃZINHA, MADE IN CHINA

Os pobres, coitados, não podiam usufruir dos mesmos prazeres aí não deu outra: começaram um furtozinho aqui outro acolá e se justificaram: "estamos agindo contra o bando". Hum...


- Ei Naza, que merda é essa? Onde tu arrumaste dinheiro pra comprar uma bolsa dessas? É tua? Quanto custou? Ou, quem te deu? Bóra, faaala!
De propósito, ela fez um gesto que me irritou ainda mais,  respondeu toda lânguida:-Ganhei.
 Mas logo reparou as duas bolas de sangue nos meus olhos,  e, ao escutar o meu ranger de dentes, sabendo que eu estava prestes a  praticar uma lobotomia a frio,  e o temor de  ter a carótida arrancada, tratou logo de me acalmar. Falou consertando:-É pirata, meu velho, ia ser incinerada. Custou só 20 reais. Vin-té-co...-Ah, bom. Balbuciei. Com a calma de um monge. -O homem que me vendeu  tinha um montão dessas bolsas. Completou a Irmãzinha.Contra o Bando/Contrabando. Segundo alguns historiadores esse termo, contrabando teria surgido no ano 44 a.C. na época do Império Romano. O chefe, Júlio César e sua turma, só a eles, o pessoal “dazelite”, como diz o Presidente Lula, era permitido tomar o melhor vinho, comer a melhor azeitona, o melhor chouriço de ovelha. Já os escravos (plebeus) para usufruírem dessas benesses tinham que escamotear, tipo assim, afanar, ou num português bem conhecido, roubar. E eles, os plebeus se justificavam dizendo que estavam agindo contra o bando (de ricos e privilegiados). O Brasil aportuguesou o termo, aí ficou contrabando.  Agora nós, na real.
 Na década de sessenta quem vestia uma calça jeans estava “por cima da carne seca”. Estava podendo. Eram as famosas calças Lee. Chegavam por aqui por estas plagas contrabandeadas, vinham de barco do Suriname, e mais tarde Manaus, depois da Zona Franca. Era o contrabando. Muitos figurões  do Estado começaram ficar poderosos lá atrás, pelos atalhos altamente lucrativos das mercadorias contrabandeadas. Bom! Pelo menos não era droga. O Zé Mané aqui, ainda meninote, ajudou, sem receber nada em troca,  “plaquear” carros novos nas matas do Paricatuba. Na época a estrada  de mosqueiro ainda não existia nem o projeto. As famílias Catanhede e Salame (o chefe do clã era o Oscar salame, muito famoso por que pelo dinheiro e poder que tinha fazia a limpa nas filhas dos caboclos da Colonia Chicana, Arací, Jenipaúba...). Carros que eram trocados por café e pimenta do reino tinham como local de embarque e desembarque o porto  do Candeua, lá em Santa Bárbara, na época município de Ananindeua. Como disfarce, perfeito, aliás, uma serraria de grande movimento dos Salame, onde o tio Zé Matos era foguista, emprestava a fachada de legalidade à atividade principal, que era o descaminho. A história hoje é esta: o grande volume de mercadorias como eletrônicos, tênis, bolsas, roupas, cosméticos, cigarros, bebidas, etc. que os representantes das leis, da receita federal a todas as polícias prendem, que abarrotam os depósitos oficiais, e de vez em quando a imprensa mostra chegando aos fornos crematórios para virar cinzas. São sempre imagens apoteóticas mostrando o Estado cumprindo a lei. Quem é capaz de acreditar que entre a prisão das mercadorias, o depósito, o transporte para o caminhão e o fogo nada ficou escondidinho n‘algum lugar para ser transformado em renda, presentes, ou  instalados nos quartos e sala das luxuosas casas dos funcionários aduaneiros; nas mansões dos xerifes fardados com símbolos e insígnias oficiais;  ou no fim da cadeia  de serviços do submundo do descaminhamento, no caso, motoristas, ajudantes e outros e mais outros atores do  sistema chamado de “jeitinho brasileiro”?
Imagine a prisão de uma carga com TVs. Digitais grandonas telas finas de Led, vão todas para o fogo? E as bolsonas Louis Vuitton, luxuosamente falsificadas? É até compreensível que ao invés das bichinhas (bolsas) se acabarem no fogo elas vão pousar embaixo dos sovacos odorizados das madames  ou amantes dos fiscais da lei, ou então, passadas em frente, a preço camarada, como esta que veio parar aqui no meio dos útiles da minha querida Naza. E é aí que encaixa uma frase que foi cunhada pelo saudoso Sérgio Porto, mais conhecido como Stanilaw Ponte Preta, “restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”. Ah, sim, as suas excelências, os congressistas, quando estão deputando para eles, que incluem emendas sujas, geralmente aprovadas num bolo só (aconteceu recentemente com as empresas de planos de saúde) chamam essas manobras fétidas de contrabando.Pois é. O governo federal criou até o dia nacional de combate a pirataria, 03 de dezembro. Sim, mas no Brasil tem dia da tia solteirona, 30 de março; dia do cão 04 de outubro; dia do orgasmo, 09 de maio, etc.
Enfim, só peço ao santo padroeiro protetor da bolsona Louis Vuitton contrabandeada, que proteja a minha querida Naza no dia 03 de dezembro próximo... Amém!!!

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