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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Tenho fome, meu voto é seu.

Estive nos dias 11 e 12/08/2012 na cidade de São João dos Patos, interior do Maranhão, em encontro de leigos que atuam como agentes pastorais da igreja católica, a serviço da Congregação das Irmãs de São José. Entidade religiosa que atua em todo Brasil e em mais de 55 países. É a segunda vez que participo desse encontro, e para a enorme tristeza viajei sem a companheira, cúmplice dos momentos felizes e tristes da nossa caminhada de mais de oito anos, minha mulher Nazaré. A irmãzinha, como eu gosto de tratá-la.

O suplício do viajante começa pela estação rodoviária de Belém onde uma quadrilha do setor de bilhetagem da empresa de transportes Guanabara, vendeu-me, por R$ 20,00, o passe gratuito destinado ao idoso. A eficiente intervenção do funcionário da ANTT, acionado por mim, reverteu a situação. Os espertinhos funcionários devolveram os meus vintinhos. Bem feito. Não quis nem fazer a ocorrência por escrito. Livrei a cara dos malandros. Não sei se fiz o certo.
Essas viagens são verdadeiros périplos. Ao descer do ônibus, doze horas depois de sair de Belém, fica-se no terminal do Peritoró onde a gente paga 1,00 para dar uma mijadinha, a característica principal das cidades que ficam no trajeto de Peritoró a São João dos Patos é o desconforto e a imundície dos banheiros.
 Mas é isso aí, nesses casos os fins justificam os meios. Finalmente cheguei ao destino final da minha viagem, São João dos Patos. Fui acolhido por uma família, que é confirmação de que a Comunhão é a realidade mais profunda, ela unge, dá sentido e razão ao que somos, é essa a causa do existir do amor, da benquerença, da amizade, da doação entre os humanos. Éramos três pessoas na mesma casa e não nos faltaram atenção e carinho em nenhum momento. ISA E TANIÇON, o casal que nos acolheu vão ficar perenes e indeléveis no meu coração.
 Missão cumprida. O retorno. No domingo a noite comecei voltar para casa. São cinco horas de viagem de São João dos Patos a Peritoró. Tudo igualzinho. O diferente é que quando o coletivo chegou à cidade de São Domingo tinha um comício político do candidato a prefeito, olhe o nome, Tratorzão. Incrível! Nada mudou. A relação entre o coronelismo antigo com o atual está na forma, hoje esses senhores não rasgam mais uma cédula no meio para entregar a outra metade depois da confirmação do voto – o lendário voto de cabresto – os tratorzões da vida exploram a miséria do povo.
A quantia de gente nas ruas da cidade impediu a passagem do ônibus, que não conseguiu chegar à estação rodoviária. Um emissário foi enviado com recado aos passageiros que tiveram de carregar as bagagens na cabeça para ir ao encontro do coletivo. E o povaréu? Ah, os políticos aproveitadores sabem que a nossa composição social é uma polifonia de vozes, ideias e sentimentos, embalados em costumes, tradições, culturas regionais e fome. Muita fome. Por isso eles mandam tocar forró e distribuem mingau. Lá em São Domingos o povo andava nas ruas com copos de mingau na mão e pratinhos plásticos. Comiam, riam alegres. E o mais chocante: um enorme contingente de crianças. Caminhonetes, com dois andares improvisadas, superlotadas e, segundo uma religiosa que viajava no ônibus, aquelas pessoas viajariam umas duas horas naquelas conduções e condições, sem nenhuma segurança, até as comunidades de Viola e Bancos, comendo poeira e tendo como sobremesa cem por cento de risco de vida. Não fiz um registro fotográfico porque quem tem joelho tem medo. É, e eu tenho dois, logo...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

POBRE, EIS AÍ O TEU INFERNO


 Pobreza. Segundo os dicionários, estado ou qualidade de pobre, mendigo, pedinte. No popular: ferrado, lascado; aquele que vive coçando o cú com garfo, que tem que viver fritando ovo nas labaredas do inferno. É o meu autorretrato. Assim sou eu. Gosto de pensar. Escrever. Por isso criei neste espaço, aproveitando as facilidades da tecnologia, esta espécie de semanário on line – não me considero um blogueiro , até porque não tenho seguidores e os meus leitores não passam de três (Oh, glória!). Enfim, fiquei mais de um mês sem postar nada porque fui atravessar correndo a Almirante Barroso escapando da chuva, o meu óculos que estava pendurado na blusa caiu e o ônibus passou por cima; a internet que eu tinha era um equipamento emprestado que eu tive que devolver ao dono. Situações vividas só por quem não tem dinheiro. Mesmo sem fazer parte daqueles dezesseis milhões que vivem abaixo da linha da miséria por ter onde morar, engolir as duas mil e quinhentas calorias necessárias do dia-dia e, às vezes, me dou algum lazer, sou pobre. Um liso inveterado. Quando consigo fazer alguma reserva dá, no máximo, para comprar uma cartela de aspirina. É, mas já foi pior. Bem pior.
No ano de 1964, com treze anos, o picolezeiro negrinho, dentes cariados, cheio de pano branco no corpo (que o deixavam esquisitamente malhado), maltrapilho, olhava para dentro de um carro estacionado em frente a um bar onde todos bebiam conversando em voz alta e gargalhando animados. Volante, alavanca, painel de controle, bancos, espelhos, tudo era novidade. E os olhos espichados num êxtase de pura admiração, quase hipnotismo, quando, de repente, o cidadão branco, fortão, prendeu violentamente com a parte dentada de duas tampinhas de garrafa de cerveja as orelhas do indefeso vendedor de picolés que admirava o possante e o afastou para longe, vociferando: ”quer me roubar neguinho filho da puta...”. Chorando e com a orelha sangrando, o negrinho do picolé saiu dali quase correndo, sem nenhum motivo para encarar o futuro com otimismo. Detalhe: a orelha torturada foi a mesma que poucos anos antes, depois de uma traquinagem, tinha levado um aperto tão forte que a unha do polegar da tia castigante trespassou, furou, a ponta da unha varou de um lado para o outro. O certo é que essa orelha, como o próprio dono, nasceu mesmo sem sorte, o ultimo dano que ela sofreu foi causado por uma cacetada dada pela ex-mulher, que num momento de raiva pura, bateu tão forte que o lóbulo arriou. Foi costurado no pronto socorro da cidade nova Vll. Eu acho que essa orelha veio ao mundo de bunda para o sol. Eu acho, já que os sortudos nasceram de bunda para a lua...
O ser humano é um invólucro de pele que acondiciona células, sangues e componentes químicos. Por isso é um resistente especialista em sobrevivência nas situações extremas.
 Cinquenta anos se passaram e pouca coisa mudou. As cicatrizes da orelha desapareceram. Da alma não, vai sangrar sempre. Mas, será que tem alguém que gosta de ser pobre? Tem. Tem sim. Vejamos:
Participava, no auditório do Centro Social Sagrada Família, em Ananindeua, de um seminário promovido pela Cáritas Brasileira dirigida a recicladores (catadores) que trabalham no lixão do Aurá e de vários municípios do Estado, quando, no terceiro e ultimo dia do encontro na hora da minha fala, provoquei com a seguinte pergunta: “alguém aqui tem orgulho, está feliz com o trabalho que faz? O médico, advogado, o engenheiro querem que os filhos sigam a carreira dos pais. Vocês gostariam que seus filhos continuassem no mesmo serviço que vocês fazem?”. Pois é, a maioria disse sim. Eu falei que não acreditava disse o porquê, mas passei por um sufoco! Quase apanhei. No auge da discussão que se sucedeu até arrancaram  o microfone da minha mão.
“É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha, que um rico entrar no reino dos céus” (Lucas 18,24). A Bíblia, em Lucas e Mateus, conforma os pobres com a promessa de uma vida eterna no céu, talvez por isso as pessoas mesmo sem ter onde morar, sem ter o que comer, vestir; não ter como tratar seus doentes, nem um tostão para comprar remédio; viver remendando coador de café, juntando sobras de sabonete para fazer uma bola só; todo mundo usar o vaso para dar só uma descarga, passar o fio dental e cheirar para ver se os dentes estão fedendo; passar óleo queimado no vira latas para matar pira, secar cueca atrás da geladeira, rodar o pau da antena e gritar lá de fora, “melhorou”, e exagerando: usar papel higiênico dos dois lados...Pô! Passar por tudo isso e ainda achar-se uma pessoa virtuosa, cheia de desapego, em favor do crescimento espiritual, ou até criar uma autoimagem positiva do tipo “sou pobre, mas sou honesto”.
 Tudo, tudo isso não passam de belas e filosóficas frases de conformismo, mas não garantem acesso a bens sociais.Eu sei bem disso..
A propósito, será mesmo que depois de passar a vida toda sofrendo agruras, se alimentando com o pão que o diabo amassou, tomando sopa de pedra, alma de pobre ainda vai para o inferno? Não, não acredito que o nosso bom e poderoso Deus faça isso. Conosco, os pobres...
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