A dona Antônia, divorciada, 45 anos, e a Melissa, 16, mãe e filha, moravam na passagem Bom Sossego, entre Rua da Paz e Alameda Bom Jesus, no Bairro Jardim Paraíso.
As duas saíam juntas todos os dias bem cedo e sempre arrumadinhas. A mãe ia para o trabalho e a filha ficava pelo meio do caminho, no colégio onde cursava a segundo ano do ensino médio. Era bolsista numa escola particular. A mãe era funcionária pública. Professora, contratada há 17 anos. Como sempre, levava a tiracolo a enorme bolsona Louis Vuitton pirata; e a filha, um celular de ultima geração duma marca famosa, largo, chato, grandão. Super vistoso. Na rua onde elas moravam ela era única ter um daquela marca e modelo e se vangloriava disso. A mãe sentia-se orgulhosa. Por ser unigênita, Melissa gozava desses privilégios. As duas já pouco conversavam porque a menina vivia grudada no celularzão, e pior, fazia questão de sair à rua com os olhos fixos na tela sem se importar de levar topada em pedra ou pisar na lama e até olhar para as pessoas por quem passava. Quando a mãe brigava mandando que tivesse cuidado, a resposta era a de sempre:
-Ah, mãe! Esses malandros daqui todos têm a minha idade e me conhecem. Deles eu não tenho medo.
A dona Antônia ia refletindo sobre o que a filha falara quando avistou dois meninos que vinham em sentido contrário montados numa bicicleta. Preocupou-se. Mas ficou aliviada quando eles passaram porque um deles cumprimentou a Melissa:
- Oi Gata!
Ninguém respondeu. Na verdade sequer olharam. A mãe que estava cismando dos meninos ficou aliviada, porque, imaginou ela, eles deviam ser conhecidos da filha. Ia ainda imersa nesses pensamentos quando escutou uma ordem:
-Perdeu! Perdeu! Passa a bolsa tia ou te meto bala na cabeça! Susto e surpresa. Os meliantes eram os dois garotos que passaram por elas de bicicleta.
Ela desistiu logo da bolsona, que lhe foi arrancada com violência desnecessária.
- E tu porra! m'entrega o celular. E a resposta:
-Não! O meu celular eu não vou te dar.
Com a bolsa na mão esquerda, e a temível pistola ponto quarenta na mão direita, sem ter muito como lutar, e mais, com a reação da Larissa de sair correndo e gritando, o mocinho não titubeou, disparou um tiraço na cabeça da jovem, dona do tão querido aparelho. Foi só um tiro. A bala entrou na nuca e saiu pela tireóide fazendo estragos. Morte instantânea. A mãe saltou sobre a filha moribunda, gritando:
-Maldito! Desgraçado! Que tu fizestes com a minha filha...
Ser chamado de desgraçado foi o suficiente para o jovenzinho gastar mais uma bala. Dessa vez na mãe, que estava com o corpo encurvado sobre a filha. Um tiro no tórax rompendo com os alvéolos pulmonares. O sangue jorrou causando forte isquemia. A bala varou no outro lado, mas como se tratava de tecidos moles o rombo que ficou não foi letal, porém, a dona Antônia desmaiou sobre o cadáver da Larissa. Os dois jovenzinhos, levando uma bolsona e um celularzão, meteram o pé na magrela, que eles tinham tomado dum trabalhador que ia para o emprego momento antes (a policia descobriu) e fugiram em disparada.
A visão macabra das duas mulheres, uma dobrada por cima da outra que estava em decúbito dorsal, parecendo ambas mortas, atraiu a atenção de muita gente e ainda ficou por um bom tempo no meio da rua.
O sangue que coagulava no local visto de longe, emitia um raio brilhoso, reflexo dos primeiros raios de sol que penetravam por entre folhas dos açaizeiros, plantados na frente da casa da vizinha, e que cresceram no mesmo tempo que a Larissa adolescia e onde, ela agora, jazia. Um enfermeiro que ia trabalhar no posto de saúde próximo daquele local, verificou que a mulher mais velha respirava. Foi providenciada a remoção da vítima viva para a emergência. E só mais tarde o IML chegou para levar o cadáver da jovem Larissa.
Os dois jovenzinhos foram presos numa outra área de invasão, a Morada dos Deuses, próximo o Jardim Paraíso, quando tentavam vender o celular numa birosquinha. Levados para o Conselho Tutelar foi constatado que o mais velho tinha dezesseis anos; o mais jovem, o que atirou, 14. A arma era alugada e ainda estava com eles. Quando a policia chegou à casa do dono ele já tinha se escafedido. Um dos policiais que estava na missão ao sair do prédio da sede do Conselho, resmungou:
- Fosse um parente meu eu num tava nem aí pra que viesse acontecer comigo, mas eu passava cerol nesses dois. Esses filhos da puta iam logo, logo ver o diabo de perto. Pior, daqui a pouco eles tão solto na rua, e mais fortes. E aí algum de nós é que vai dançar na balas deles...
Um ano se passara. A dona Antônia vivia, numa cadeira de rodas, morando na casa duma irmã mais velha onde se recuperava. A casa dela lá no Jardim Paraíso tinha sido vendida, porque os colegas do assassino passavam debochando dos parentes da dona Antônia, que passara três meses hospitalizada. A parede enfraquecida de uma artéria do cérebro não aguentou a pressão causada pelos traumas físicos e psicológicos dos últimos meses, rompeu. Diagnóstico: aneurisma cerebral. Daquela bela mulher quarentona com jeito de balzaquiana, um metro e setenta e cinco, olhos azulados brilhantes, sorriso constante nos lábios, ar de permanente felicidade, não existia mais. Tudo acabou. Agora um substrato. Um espectro sobrevivia naquela cadeira em constante depressão. Uma visão embaçada e um olhar fixo no nada.
O Estado negligenciou. Ela era, há 17 anos, funcionária pública contratada. Sem segurança social. Com a venda do dinheiro da casa a irmã pagava o tratamento e deu algum ao defensor público para ele mover uma ação de indenização contra o seu patrão, o Estado. Os meninos que tiraram a vida da Larissa e transformaram aquela mulher numa morta-viva, segundo o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo – Lei Federal 12.594 -, são vítimas. A dona Antônia e a filha Larissa, vítimas das vítimas das vítimas. A diferença está no fato dela ter sido punida e condenada com a perda da filha e a levar uma vida (?) vegetativa. E os jovenzinhos que dispararam contra elas terão, de acordo com a Lei, três anos de internamento. E mesmo tendo cometido um latrocínio e uma tentativa de homicídio – crime hediondo –, não poderão ser chamados de assassinos, bandidos, delinquentes, facínoras. Chamar-se-ão “socioeducandos”. No momento que completarem dezoito anos sairão limpinhos. Limpinhos da Silva.
Agora esses dias a Câmara Federal, por uma boa maioria, aprovou a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. O espírito da Larissa deve ter ficado confuso por causa da separação precoce do corpo da sua dona. Mas já sossegou, e com certeza perdoou os algozes que ajudaram na “passagem". A dona Antônia, coitada, percebe o ambiente ao redor, mas não interage. É incapaz de esboçar reações. Não sabe o porquê de tanta felicidade entre parentes, amigos e vizinhos. Um celebration! Era alguém da comunidade que, com um pedaço recortado de um jornal na mão, gritava para todos ouvirem:
- Aprovaram! Aprovaram! Finalmente assassinos que nem os matadores da Larissa, que acabaram com a dona Antônia vão pra cadeia... O infeliz, semianalfabeto e desinformado não sabia que ainda tem um caminho longo pela frente para isso vir acontecer. Se acontecer...E pior, o pedaço de jornal era velho...
O seu Ananias, 65 anos, viúvo, sem filhos, tio da dona Antônia, ajudou criar a Larissa a quem ela chamava de avô. Era membro do apostolado da oração, da igreja católica, lá do bairro Jardim do Paraíso e coordenava um trabalho social com menores infratores. Vivia arrasado. Um pensamento martelava-lhe a cabeça depois que ele largou a coordenação do trabalho com os socioeducandos:
“Cadeia é poucos pra esses desgraçados. Deviam ser condenados a morte. Isso sim!
Ah! Meu Deus me perdoe...”
O seu Ananias fez o sinal da cruz e continuou caminhando cabisbaixo, encurvado. Tinha envelhecido uns 20 anos nos últimos 12 meses...


