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domingo, 29 de abril de 2012

Jeitos de falar


Língua – objeto fonador. Linguagem – forma de expressão. A mamãe tem 85 anos e quando eu me entendi ela dava um recado bem maneiro, mais ou menos assim: “ele é pávulo cheio de mitra mas muito impulificante, trastejou ele tá fazendo imbuância, mas dequandenvez tinha um tapuio plantando-lhe um trampêsco no tutiço”. Tradução: ele é exibido, tem postura, boa conversa, mas muito encrenqueiro, por qualquer motivo está criando confusão, mas de vez em quando tem alguém metendo-lhe uns tapas no pé do ouvido.
No início dos anos setenta eu escutei dois ladrões conversando. O diálogo era assim: “é irmão, eu meti os cinco no porão traseiro dum bode, saquei o coringa dele. Saí de pinote, de repente pintou um maluco de quatro na minha cola, perdi o breque dei de chavasca com a dura, fui em cana e levei muito produto d’amazônia no teto. A minha mina passou um fio pro adêvo que me tirou do xaxado”. Tradução: é colega, eu meti mão no bolso de trás dum velho, roubei a carteira dele, saí correndo com um cachorro atrás de mim, perdi o sapato e dei de cara com a polícia, fui preso e levei muita cacetetada na cabeça (os cacetetes da polícia eram de borrachas). A minha namorada ligou para o advogado que me tirou do xadrez .
É o modo de falar de dois segmentos sociais diferentes. Um é o normal do caboclo iletrado que conserva traços e características regionais; o outro é gíria da boca do lixo, do submundo. Nos dois tipos de linguagem há influências geográficas e econômicas; enfim, toda a gama de elementos que, circunscritos a um território , fazem dele uma região distinta das demais até no modo de se comunicar. 
O russo Vladimir Maiakóvski, que era escritor, poeta e pensador, dizia: o povo inventa línguas. E é verdade. Agora um exemplo de erudição no modo de dar um recado simples onde o emissor quer mostrar que sabe falar e falar bonito. Um juiz (é só um exemplo, uma simulação) do alto da sua sapiência, justificando uma sentença proferida a respeito de um bêbado que fora estuprado:
 “O orifício circular corrugado de 37 rugas localizado na região ínfero-lombar de um cidadão, em elevado grau etílico, deixa de estar em consonância com os ditames referentes ao direito individual de propriedade.” O meritíssimo disse: cu de bêbado não tem dono. Só isso. Simples. Bem simples. Ininteligível, porém, o enunciado aos simples mortais que não têm formação com o academicismo necessário para o entendimento da linda falação. (Ou falácia?). 
Outro exemplo: “a peça prembular exordial está de acordo com a increpatória e espeque. O indigitado que é consorte supérstile ficará no ergásculo público”. Traduzindo: “a peça inicial está bem fundamentada. O réu, que é viúvo, será recolhido a cadeia pública”. É mole...?
Foi com esse linguajar rebuscado que os semideuses, juízes do Supremo, passaram dois dias, 11 e 12/04/2012, desfilando palavras que só eles sabem os significados para decidirem: podem matar os anencéfalos (crianças sem cérebro). O magistral truque lingüístico dos magistrados: uso abusivo do hermetismo, falam coisas que ninguém entende; latinórios, textos latinos mal empregados e mal traduzidos. Por quê? Esperteza, claro. Os togadões sabem, o emprego de termos enigmáticos de línguas mortas, como o latim, serve justamente para que a patuléia não entenda bulhufas do que eles falam. 
Foi assim no julgamento dos fichas sujas. Discursos longos invocando até direito romano e alguns dos salafrários mais notórios do País receberam licença especial para continuarem batendo bumbo, caçoando da nossa cara. Ah, porque será que todo endinheirado condenado pela justiça comum que recorre ao supremo dificilmente perde? Sei não...E os Meretíssimos são pródigos. Em 1997 a juíza Sandra Mello, mulher do então Ministro do Supremo Marco Aurélio de Mello, que é primo do ex-presidente e atual senador Collor de Mello, presidia o Tribunal do Júri de Brasília quando, com palavras lindas em bom juridiquês desclassificou o crime cometido por jovens bandidos da classe média alta de Brasília que tocaram fogo no índio pataxó Galdino, de crime doloso para lesão corporal seguido de morte. Uma brincadeira de adolescentes.
Paradoxo: a reação humana dos mantos de lã, acontece sim, quando o arranca rabo é entre eles. Ministros Barbosa e Gilmar Mendes, discutindo no plenário do STF - quase saindo aos tapas; Barbosa e Peluso, também sairam dos espevitamentos oficiais no espaço vestuto e ao vivo mostraram que sabem falar nosso idioma. É isso, quando a kizumba é entre eles saem coisas do arco da velha. Não parece, mas eles são humanos sim...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

HELÔO, BOFES! FUI EU TÁAA...


Meu avô materno eu não conheci. Os paternos sim, e morreram bem velhinhos. Lembro muito bem do tratamento carinhoso, o amor, o cuidado dispensado pelos parentes no final de suas vidas. Os índios ainda são assim, têm sempre um respeito muito grande por seus anciãos. Nas cidades grandes, as famílias que tem dinheiro não gastam tempo cuidando dos seus velhos, por mais que este tenha tido uma vida toda de sacrifícios para prover de conforto a descendência toda. Esses idosos terão que conviver com seus “cuidadores”, e existem empresas especializadas nesse métier.
Um dia desses conversando com uma técnica em enfermagem, que é cuidadora, ela contou-me: cuida de um paciente de 93 anos, ao higienizá-lo, o velhinho todo nervoso pegou a mão dela levou até ao pênis que, revelou a enfermeira: “tava duro parecia um guardanapo”, e suplicou balbuciando todo trêmulo:
- “Bata uma bronha pra mim minha filha,  bata!”.  
-“E aí, que tu fizeste?” Perguntei.
Ela entortou o canto da boca numa meia careta, fez um trejeito e não respondeu. Acho que nem gostou da minha pergunta.
 Minha opinião: isso não é coisa de “velho tarado”. É parte da luta que a razão trava contra os sentimentos.
 Luxo, ódio, amor, ambição, ciúme, altivez, ferocidade e brandura, são matérias palpáveis da vida e que fazem parte do nosso cotidiano. Quantas vezes nós rimos para uma pessoa que na verdade gostaríamos mesmo era de esganá-la; ou temos que ser indiferentes e mostrar até desprezo por alguém que amamos tanto. Muitas vezes precisamos nos mostrar cruéis para sermos bons ou nos fazer de idiotas para sermos admirados. Foi mais ou menos que aconteceu com o personagem que relato a seguir:
Portugal. Universidade de Coimbra. Evento: Uma conferência. Conferencistas defendiam seus grupos, escola ou classe social a qual pertenciam, respectivamente. No auge dos debates alguém que figurava como espreita solta um formidável peido: “puuumm!”. Naquele ambiente de acústico perfeito o som ressoou na sala e foi escutado por todo mundo.
Fingindo admiração, palestrantes se olharam e um deles perguntou, com certa dose de cinismo:
- Que foi isso?
- A meu ver, respondeu um médico, são gases odóríficos repelidos pelo ânus provenientes de matérias cagais;
- Pois para mim, disse o filósofo, essa é a ridícula pretensão do cu querer falar;
- Pois eu acho, falou o poeta, que esse é o suspiro do coração saído pelo cu, por engano;
- Não! Gritou o comunista, isso é um grito de desespero de merda oprimida;
- Estão todos enganados! Gritou um militar, colérico, isso é um grito de guerra de um cu revoltoso;
Levantou-se então um padre, todo calmo e apaziguador, que falou com voz pausada:
- Calma meus irmãos! Esta com certeza é a alma do feijão subindo ao céu.
As opiniões se sucederam cada vez mais contraditórias, como não chegassem a uma conclusão foi feito um acordo, no caso se apresentaria o autor do peido que com suas próprias palavras definisse o estranho fenômeno.
Apresentou-se então um pederasta, que passivo e de mãos postas, assim se expressou:
- “Maus.Todos maus.Não têm o menor respeito por um cu que suspira a-pai-xo-na-da-men-te...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

QUEM AMA, NÃO MORDE


"Se voce recolher um cão faminto nas ruas, ele nunca te morderá! É a principal diferença entre um cão e um homem". (Mark Twian)
Amor. Sentimento inexplicável e fácil de conceituar. O filósofo vai dizer que amor é a arte de dizer da boca para fora: “eu amo”; o poeta dirá que amor está na flor que desabrocha ou num coração afligido pelo desejo de felicidade do outro; o tarado compulsivo vai afirmar que amor é um nervo duro arrodeado de pêlos (pentelhos); enfim, para o sentimento de dedicação total e absoluta de um ser a outrem, objeto de simpatia ditada por laços de família, inclinação sexual forte por outra pessoa; isso tudo define a palavra Amor e Amizade - que é o esteio da vida, o reflexo da nossa existência. Num momento que até para fazermos amor condicionado a sexualidade já o fazemos separados pelo uso do preservativo, o homem vive se cobrando: será mesmo o amor tudo isso...
E no mundo animal, como explicar a dedicação, por exemplo, de um cachorro pelo seu dono? Ou, que leva por impulso instintivo, o animal saber que uma pessoa está morrendo e usar os meios disponíveis para tentar livrá-la da morte? Vejam este caso:
Pelos fartos, gorda, dengosa e bem tratada. No primeiro olhar dava para perceber logo: o brilho lustroso na pelagem. Era o tratamento vip dispensado nos banhos semanais com uso de xampus e cremes de ervas naturais; biscoito, iogurte, nescau, sorvete, sucos de fruta natural, eram ingredientes indispensáveis nos acepipes de degustação alimentar;  cama, espaço reservado no sofá para assistir o desenho  preferido; vaga  no banco da frente do carro da família  e visitas periódicas no veterinário. Era assim, cheia de mordomias, a vida da maria bianca, a cadela da família do seu Zé. Ela não provocava inveja só nos outros parceiros da mesma espécie, alguns humanos também nutriam o mesmo sentimento e outros tinham raiva, justo pelo tratamento a ela dispensado. Era o caso do Márcio, genro do seu Zé, que não conseguia disfarçar que detestava a maria bianca.  Começava pelo nome que, coincidência, era o mesmo duma “ex” que ficara lá atrás no passado, diziam os tiradores de sarro, e ainda o excesso de privilégios e boa vida da cadela.
O seu Zé mora no telégrafo em Belém e lá tudo é motivo para festas. Ô povo que gosta de molhar as palavras!
E foi numa dessas celebrações de alegria explícita regada com muitas geladas num sábado, que comilanças e beberagens entraram pela madrugada de domingo. Lá pelas quatro horas, já exaustos e quase todos pra lá de Marrakesh, foram dormir. Menos o Márcio. Entornou poucas. Estava desde cedo sentindo um leve mal estar; um pouco de dor na cabeça e no peito. Não disse nada para não preocupar ninguém. Não queria estragar a festa. Eram quase cinco horas e o mal estar e enjôos forçaram uma ida ao banheiro. Um pensamento o atormentava: “esquisito: tontura, náuseas e não tenho vontade de vomitar; dor no peito e esse formigamento...”. Abriu a porta entrou e a dor foi ficando insuportável. Quis gritar, pedir socorro, não deu, a garganta parecia se estreitar o grito não saiu. Procurou se sustentar nas paredes, tentou, mas os braços pareciam pesar uma tonelada cada. Tontura, desfalecimento, e como um raio uma última recordação: quando ele pisara por pura maldade no rabo da maria bianca.  
O corpo quedou-se no solo frio, úmido e nada higiênico do banheiro; os joelhos curvados, a cabeça encostando-se ao vaso sanitário, os pés na direção da porta. Agora as imagens que passavam na mente era ele dentro de uma espécie de túnel esfumaçado cor cinza claro cheio de pessoas já falecidas, que flutuavam, com acenos e sorrisos o chamavam. O Márcio passava por um EQM – estado de quase morte - Nestas ocasiões o último sentido que apaga é a audição. Por isso Márcio, mesmo sem ter o domínio dos outros sentidos (visão, tato, paladar) ainda escutou o som bem distante dos latidos da maria bianca...
 E somente ela não dormia. Deitada no sofá preferido viu quando o Márcio passou para o banheiro e ficou atenta. Ela sabia que ele não a suportava. Enroscada estava, enroscada ficou. Não se mexeu e ainda pensou: “pisastes no meu rabo, seu...” Acompanhou-o olhando de soslaio. Estranhou quando viu os pés saindo pela porta do banheiro sem o corpo do dono. Curiosa, saltou do sofá foi verificar “in loco”. Assustou-se ao ver que o homem estava desfalecido. Sem pensar duas vezes deu alarme. Começou latir. Desesperada ela literalmente gritava e chorava latindo. (Lembra música do Roberto Carlos: “meu cachorro me sorriu latindo...”). Correndo, ia a todos os cômodos da casa onde tinha pessoas; latia voltava dava umas três lambidas na cara do Márcio. Latia e latia. A cadela só sossegou quando alguém despertou. Com todo mundo acordado, sob choro e tristeza levaram o desmaiado para um hospital. Findo o alvoroço, o coração ainda bastante acelerado, porém tranquila, a maria bianca voltou à sua zona de conforto.  Enroscadinha, fingiu que estava dormindo...
Infarto. Uma artéria semi-obstruída impedia a passagem de sangue para o aurículo ventrículo esquerdo do coração. Desfibrilador, cateterismo, ponte de safena, respiração por aparelhos e duas semanas na UTI. Tudo ajudou. Mas decisivo mesmo foi o socorro prestado a tempo. Dez minutos a mais seriam fatais. Era óbito certo. Enfatizou o médico cardiologista, que sabendo da estória ainda brincou: “dêem um abraço na Maria Bianca. Ela me ajudou também!”.
Dois meses depois. Em forma e refeito do susto, Márcio foi visitar o sogro, seu Zé. Para variar tinha uma festa preparada com tudo de direito. Até champagne! Era uma verdadeira  saudação à vida! Todos queriam abraçá-lo. Sônia e Samara, amigas da família, foram de Marituba participar dos cumprimentos festivos ao “renascido”, que chegou trazendo um pacote volumoso logo aberto por gente da casa imaginando ser a “intéra”, tira gosto. Surpresa! Só tinha sorvete, biscoito, nescau e enlatados finos para cachorros. Tudo com etiqueta do destinatário: “maria bianca”.
 Abril de 2012. A maria bianca ainda vive, mas está bem velhinha. Os pelos perderam o viço e assim como os dentes, estão caindo; a vista está embaçada, perdeu o apetite. Vive doente, sorumbática, macambúzia, depressiva. A única pessoa que dá amor, tem paciência e a trata com todo carinho, é ele: O Márcio...

sábado, 7 de abril de 2012

Marituba, cidade da morada eterna


Quando se é pobre toda conquista é motivo de satisfação, felicidade. É aquele negócio, só o fato da gente dar um bom espirro já se sente uma pessoa realizada. Eu ganhei um pé de mangueira bem jovem e como na frente de casa o chão é de piçarra pura e compactada, convidei um parceiro e passamos uma manhã inteira cavando, correndo atrás de terra preta, adubo orgânico, agora eu olho o pequeno vegetal já taludinho e fico todo pávulo (vem de pavulagem, palavra que a vovó usava muito).
Sou leigo consagrado da Congregação de São José e como parte do trabalho missionário participei de muitos movimentos em comunidades e escolas, tendo como pano de fundo meio ambiente, realizando diversas atividades como distribuição de mudas de umari e palestras de conscientização em algumas escolas públicas. Disso tudo, o que ficou? Nada! Na-di-nha. Incrível!
Uma das palestras, ministrada na escola Fernando Ferrari, em Marituba, teve a presença de uma comissão de professores, dos diretores e alunos do colégio de nível fundamental e médio. Era o projeto Pacto pela vida, coordenado por uma freira da Congregação, Irmã Dominga Zolleti. Finalizamos a programação realizando um passeio com alunos e o diretor do fundamental, em projetos de plantios assistidos por técnicos em agronomia na área da Cerâmica, Almir Gabriel e Uriboca; plantamos um pé de mogno na área verde do colégio, tudo devidamente documentado. A frustração veio dois meses depois numa visita na escolona: tinham capinado, arrancado, varrido o mogno lá da área plantada. É triste e verdade. Infelizmente.                                                   
ALUNOS PLANTANDO O MOGNO NA ÁREA VERDE DA ESCOLA FERNANDO FERRARI












    





  


Mas, o que é meio ambiente mesmo? Será que é só flor e borboleta?
Sou há 45 anos, Maritubano por adoção. Fui adotado no tempo dos igarapés de águas caudalosas e escuras; que a festa na sede do Marituba, Flamengo ou Líder terminava 4 horas da manhã (às vezes amanhecia), retornávamos a pé para casa em Ananindeua ou vice-versa sem nada temer. Isso tudo fazia parte das relações no meio ambiente físico e biológico daqueles anos, relações que em tão pouco tempo se degradaram junto com os igarapés. Hoje, além de não termos mais o conforto e a beleza naturais, somos expostos tantas vezes a violência intensa e explícita; jovens crescem cometendo agressões, brutalidades, tendo menos compaixão, logo, quem não valoriza o centro das motivações do ambiente que se vive, que é o próprio ser humano, qual razão que tem para preservar a natureza? Imagine...
Marituba tem menos de 20 anos de emancipado. Já teve três prefeitos. O primeiro sobrevivia como relojoeiro, fez campanha para prefeito de Ananindeua montando uma bicicleta, ganhou duas eleições virou político profissional e ganhou o mandato dos eleitores no primeiro pleito realizado no Marituba independente; o 2º foram 8 anos e o 3º está aí suando camisas e abraçando até poste, mirando a reeleição. Normal. Isso tudo é parte contextualizada do elo que nos liga ao ambiente que pertencemos
Quando foi fundado Marituba tinha aproximadamente 49 mil habitantes, hoje tem mais de 130 mil; tem o privilégio de ter a maior ilha de mata preservada da área metropolitana – a reserva ambiental da Pirelly - que a ex-governadora do Estado quase transforma no maior favelão metropolitano. E não é que a danadinha queria construir 19 mil casas na reserva? Hum, hum, que vale que ela não se reelegeu!
Mas a população maritubana não tem muito que festejar em termos de qualidade de vida via política ambiental, porque ganhou o lixão metropolitano e mais um cemitério que, segundo informações, já está em construção lá na alça viária. Bom, é assim: cada cidade tem o seu codinome como: Belém, cidade das mangueiras; Rio de Janeiro, cidade maravilhosa; Marituba pode perfeitamente ser a cidade da morada eterna. Alguém conhece outro município no Estado que tenha mais cemitérios que Marituba? Se alguém provar que existe vai ganhar um bombom de andiroba. E olhe que a atual secretária de meio ambiente, Tereza Rocha, quando assumiu disse-me pessoalmente que o sonho dela (só sonho mesmo) era despoluir o rio Uriboca.
O pedagogo Paulo Freire dizia que “se por um lado não devo estimular sonhos impossíveis, por outro não devo negar a quem sonha o direito de sonhar...” Lixões a céu aberto, barulho de trios elétricos que não respeitam horário, sons das aparelhagens, ah, e uma feirinha que vende de tudo um pouco, mas principalmente peixe sem nada de higiene, na passagem Fé em Deus, que corre paralela ao muro do cemitério, atrás do mercado municipal. Enfim, eu acho que a secretária vai continuar sonhando... em como melhorar o nosso meio ambiente ou tendo pesadelos e insônia, preocupada em dar continuidade na “grande” administração. Se o chefe se reeleger, claro...

domingo, 1 de abril de 2012

O CHOURIÇO DO HÉLIO

A Av.Almirante Barroso já foi Tito Franco; o primeiro nome da atual av. João Paulo II foi estrada do utinga mas o nome que a maioria da população ainda não se desacostumou de chamar é 1º de dezembro e foi lá bem próximo que por volta de 1967  inaugurou um dos mais antigos Terreiros de culto Afro-brasileiro em Belém: o Terreiro da Maria Aguiar (a casa era onde hoje é a passagem Maria Aguiar). Pioneira e corajosa a D. Maria Aguiar encarou o preconceito, que na época era bem pior do que é hoje, fez rufar os tambores festejando seus orixás.
Pitôco e Hélio. Cresceram juntos, eram vizinhos e moravam na Francisco Monteiro, em Canudos.Cascateiros, os dois davam nós em pingos d'água. Todo dia de trabalho na Maria Aguiar os colegas estavam lá, marcando ponto só pra tomar cachaça de graça.
 Dezembro de 1968, dia de Nossa Senhora da Conceição, festa de Iemanjá e pra surpresa da dupla acabou cedo, uma hora da manhã encerrou. Os dois sairam já meio bêbados mas não estavam contentes, queriam mais, afinal tinha um feriado todinho pela frente.
- Pitôco, bora continuar...
- Mas como? Sem dinheiro....
- Tenho uma idéia. Disse Hélio. Metendo a mão no bolso donde tirou um pedação de chouriço mostrou pro colega e acrescentou: "roubei da trempe do churrasco lá na cozzinha da velha"
- Sim, e daí?
- Daí que a gente vai lá pro bar do seu Durval e lá nós tomamos  umas cervejas, quando a conta já estiver alta eu ponho o chouriço saindo da braguilha como se fosse a minha rôla, aí tu chupa, brabo do jeito que ele é, vai botar nós pra correr, aí a gente corre, some, e não volta mais.
O outro assentiu. O plano parecia perfeito, e foi. O seu Durval expulsou os dois e ficou no preju.Repetiram a fórmula no Bar Qluz e no Frank Bar. Mas não se contentaram e partiram na direção do Itamarati, um outro bar, o 4º. Já era umas quatro da madruga, cambaleantes, lingua enrolada. Aí o Pitôco, que já não suportava mais tá chupando chouriço, falou:
- Ô, ô Héelliooo, pô cara! Ic, agoora é a tututua vêiss de chuuppáá a drrooga ic dêêissi choouriçu ic...
- Ôõõ quêê? chouchouriço?
- Ssssiimm, iissooo mesmmmo o chouchouriiçooo!
- Tuo vaaiii mii ic diisscuuppaaar meeuu collega maass o chouchouriço caiu naa primeeirra corriida lá du baarr do seu Durvaal...

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