"Se voce recolher um cão faminto nas ruas, ele nunca te morderá! É a principal diferença entre um cão e um homem". (Mark Twian)
Amor. Sentimento inexplicável e fácil de conceituar. O filósofo vai
dizer que amor é a arte de dizer da boca para fora: “eu amo”; o poeta dirá que
amor está na flor que desabrocha ou num coração afligido pelo desejo de
felicidade do outro; o tarado compulsivo vai afirmar que amor é um nervo duro
arrodeado de pêlos (pentelhos); enfim, para o sentimento de dedicação total e
absoluta de um ser a outrem, objeto de simpatia ditada por laços de família,
inclinação sexual forte por outra pessoa; isso tudo define a palavra Amor e Amizade - que é o esteio da vida, o reflexo da nossa existência. Num
momento que até para fazermos amor condicionado a sexualidade já o fazemos
separados pelo uso do preservativo, o homem vive se cobrando: será mesmo o amor
tudo isso...
E no mundo animal, como explicar
a dedicação, por exemplo, de um cachorro pelo seu dono? Ou, que leva por
impulso instintivo, o animal saber que uma pessoa está morrendo e usar os meios
disponíveis para tentar livrá-la da morte? Vejam este caso:
Pelos fartos, gorda, dengosa e
bem tratada. No primeiro olhar dava para perceber logo: o brilho lustroso na
pelagem. Era o tratamento vip dispensado nos banhos semanais com uso de xampus
e cremes de ervas naturais; biscoito, iogurte, nescau, sorvete, sucos de fruta natural,
eram ingredientes indispensáveis nos acepipes de degustação alimentar; cama, espaço reservado no sofá para assistir o
desenho preferido; vaga no banco da frente do carro da família e visitas periódicas no veterinário. Era
assim, cheia de mordomias, a vida da maria
bianca, a cadela da família do seu
Zé. Ela não provocava inveja só nos outros parceiros da mesma espécie, alguns
humanos também nutriam o mesmo sentimento e outros tinham raiva, justo pelo
tratamento a ela dispensado. Era o caso do Márcio, genro do seu Zé, que não
conseguia disfarçar que detestava a maria
bianca. Começava pelo nome que,
coincidência, era o mesmo duma “ex” que ficara lá atrás no passado, diziam os
tiradores de sarro, e ainda o excesso de privilégios e boa vida da cadela.
O seu Zé mora no telégrafo em
Belém e lá tudo é motivo para festas. Ô povo que gosta de molhar as palavras!
E foi numa dessas celebrações de
alegria explícita regada com muitas geladas num sábado, que comilanças e
beberagens entraram pela madrugada de domingo. Lá pelas quatro horas, já
exaustos e quase todos pra lá de Marrakesh,
foram dormir. Menos o Márcio. Entornou poucas. Estava desde cedo sentindo um
leve mal estar; um pouco de dor na cabeça e no peito. Não disse nada para não
preocupar ninguém. Não queria estragar a festa. Eram quase cinco horas e o mal
estar e enjôos forçaram uma ida ao banheiro. Um pensamento o atormentava:
“esquisito: tontura, náuseas e não tenho vontade de vomitar; dor no peito e
esse formigamento...”. Abriu a porta entrou e a dor foi ficando insuportável. Quis
gritar, pedir socorro, não deu, a garganta parecia se estreitar o grito não
saiu. Procurou se sustentar nas paredes, tentou, mas os braços pareciam pesar
uma tonelada cada. Tontura, desfalecimento, e como um raio uma última recordação:
quando ele pisara por pura maldade no
rabo da maria bianca.
O corpo quedou-se no solo frio,
úmido e nada higiênico do banheiro; os joelhos curvados, a cabeça encostando-se
ao vaso sanitário, os pés na direção da porta. Agora as imagens que passavam na
mente era ele dentro de uma espécie de túnel esfumaçado cor cinza claro cheio de
pessoas já falecidas, que flutuavam, com acenos e sorrisos o chamavam. O Márcio
passava por um EQM – estado de quase morte - Nestas ocasiões o último sentido
que apaga é a audição. Por isso Márcio, mesmo sem ter o domínio dos outros
sentidos (visão, tato, paladar) ainda escutou o som bem distante dos latidos da
maria bianca...
E somente ela não dormia. Deitada no sofá
preferido viu quando o Márcio passou para o banheiro e ficou atenta. Ela sabia
que ele não a suportava. Enroscada estava, enroscada ficou. Não se mexeu e
ainda pensou: “pisastes no meu rabo, seu...” Acompanhou-o
olhando de soslaio. Estranhou quando viu os pés saindo pela porta do banheiro
sem o corpo do dono. Curiosa, saltou do sofá foi verificar “in loco”.
Assustou-se ao ver que o homem estava desfalecido. Sem pensar duas vezes deu alarme.
Começou latir. Desesperada ela literalmente gritava
e chorava latindo. (Lembra música do
Roberto Carlos: “meu cachorro me sorriu latindo...”). Correndo, ia a todos
os cômodos da casa onde tinha pessoas; latia voltava dava umas três lambidas na
cara do Márcio. Latia e latia. A cadela só sossegou quando alguém despertou.
Com todo mundo acordado, sob choro e tristeza levaram o desmaiado para um
hospital. Findo o alvoroço, o coração ainda bastante acelerado, porém tranquila,
a maria bianca voltou à sua zona de
conforto. Enroscadinha, fingiu que
estava dormindo...
Infarto. Uma artéria semi-obstruída
impedia a passagem de sangue para o aurículo ventrículo esquerdo do coração.
Desfibrilador, cateterismo, ponte de safena, respiração por aparelhos e duas
semanas na UTI. Tudo ajudou. Mas
decisivo mesmo foi o socorro prestado a tempo. Dez minutos a mais seriam
fatais. Era óbito certo. Enfatizou o médico cardiologista, que sabendo da
estória ainda brincou: “dêem um abraço na Maria Bianca. Ela me
ajudou também!”.
Dois meses depois. Em forma e
refeito do susto, Márcio foi visitar o sogro, seu Zé. Para variar tinha uma
festa preparada com tudo de direito. Até champagne! Era uma verdadeira saudação à vida! Todos queriam abraçá-lo.
Sônia e Samara, amigas da família, foram de Marituba participar dos
cumprimentos festivos ao “renascido”, que chegou trazendo um pacote volumoso
logo aberto por gente da casa imaginando ser a “intéra”, tira gosto. Surpresa!
Só tinha sorvete, biscoito, nescau e enlatados finos para cachorros. Tudo com
etiqueta do destinatário: “maria bianca”.
Abril de
2012. A maria bianca ainda vive, mas
está bem velhinha. Os pelos perderam o viço e assim como os dentes, estão
caindo; a vista está embaçada, perdeu o apetite. Vive doente, sorumbática, macambúzia,
depressiva. A única pessoa que dá amor, tem paciência e a trata com todo carinho,
é ele: O Márcio...


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