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quarta-feira, 11 de abril de 2012

QUEM AMA, NÃO MORDE


"Se voce recolher um cão faminto nas ruas, ele nunca te morderá! É a principal diferença entre um cão e um homem". (Mark Twian)
Amor. Sentimento inexplicável e fácil de conceituar. O filósofo vai dizer que amor é a arte de dizer da boca para fora: “eu amo”; o poeta dirá que amor está na flor que desabrocha ou num coração afligido pelo desejo de felicidade do outro; o tarado compulsivo vai afirmar que amor é um nervo duro arrodeado de pêlos (pentelhos); enfim, para o sentimento de dedicação total e absoluta de um ser a outrem, objeto de simpatia ditada por laços de família, inclinação sexual forte por outra pessoa; isso tudo define a palavra Amor e Amizade - que é o esteio da vida, o reflexo da nossa existência. Num momento que até para fazermos amor condicionado a sexualidade já o fazemos separados pelo uso do preservativo, o homem vive se cobrando: será mesmo o amor tudo isso...
E no mundo animal, como explicar a dedicação, por exemplo, de um cachorro pelo seu dono? Ou, que leva por impulso instintivo, o animal saber que uma pessoa está morrendo e usar os meios disponíveis para tentar livrá-la da morte? Vejam este caso:
Pelos fartos, gorda, dengosa e bem tratada. No primeiro olhar dava para perceber logo: o brilho lustroso na pelagem. Era o tratamento vip dispensado nos banhos semanais com uso de xampus e cremes de ervas naturais; biscoito, iogurte, nescau, sorvete, sucos de fruta natural, eram ingredientes indispensáveis nos acepipes de degustação alimentar;  cama, espaço reservado no sofá para assistir o desenho  preferido; vaga  no banco da frente do carro da família  e visitas periódicas no veterinário. Era assim, cheia de mordomias, a vida da maria bianca, a cadela da família do seu Zé. Ela não provocava inveja só nos outros parceiros da mesma espécie, alguns humanos também nutriam o mesmo sentimento e outros tinham raiva, justo pelo tratamento a ela dispensado. Era o caso do Márcio, genro do seu Zé, que não conseguia disfarçar que detestava a maria bianca.  Começava pelo nome que, coincidência, era o mesmo duma “ex” que ficara lá atrás no passado, diziam os tiradores de sarro, e ainda o excesso de privilégios e boa vida da cadela.
O seu Zé mora no telégrafo em Belém e lá tudo é motivo para festas. Ô povo que gosta de molhar as palavras!
E foi numa dessas celebrações de alegria explícita regada com muitas geladas num sábado, que comilanças e beberagens entraram pela madrugada de domingo. Lá pelas quatro horas, já exaustos e quase todos pra lá de Marrakesh, foram dormir. Menos o Márcio. Entornou poucas. Estava desde cedo sentindo um leve mal estar; um pouco de dor na cabeça e no peito. Não disse nada para não preocupar ninguém. Não queria estragar a festa. Eram quase cinco horas e o mal estar e enjôos forçaram uma ida ao banheiro. Um pensamento o atormentava: “esquisito: tontura, náuseas e não tenho vontade de vomitar; dor no peito e esse formigamento...”. Abriu a porta entrou e a dor foi ficando insuportável. Quis gritar, pedir socorro, não deu, a garganta parecia se estreitar o grito não saiu. Procurou se sustentar nas paredes, tentou, mas os braços pareciam pesar uma tonelada cada. Tontura, desfalecimento, e como um raio uma última recordação: quando ele pisara por pura maldade no rabo da maria bianca.  
O corpo quedou-se no solo frio, úmido e nada higiênico do banheiro; os joelhos curvados, a cabeça encostando-se ao vaso sanitário, os pés na direção da porta. Agora as imagens que passavam na mente era ele dentro de uma espécie de túnel esfumaçado cor cinza claro cheio de pessoas já falecidas, que flutuavam, com acenos e sorrisos o chamavam. O Márcio passava por um EQM – estado de quase morte - Nestas ocasiões o último sentido que apaga é a audição. Por isso Márcio, mesmo sem ter o domínio dos outros sentidos (visão, tato, paladar) ainda escutou o som bem distante dos latidos da maria bianca...
 E somente ela não dormia. Deitada no sofá preferido viu quando o Márcio passou para o banheiro e ficou atenta. Ela sabia que ele não a suportava. Enroscada estava, enroscada ficou. Não se mexeu e ainda pensou: “pisastes no meu rabo, seu...” Acompanhou-o olhando de soslaio. Estranhou quando viu os pés saindo pela porta do banheiro sem o corpo do dono. Curiosa, saltou do sofá foi verificar “in loco”. Assustou-se ao ver que o homem estava desfalecido. Sem pensar duas vezes deu alarme. Começou latir. Desesperada ela literalmente gritava e chorava latindo. (Lembra música do Roberto Carlos: “meu cachorro me sorriu latindo...”). Correndo, ia a todos os cômodos da casa onde tinha pessoas; latia voltava dava umas três lambidas na cara do Márcio. Latia e latia. A cadela só sossegou quando alguém despertou. Com todo mundo acordado, sob choro e tristeza levaram o desmaiado para um hospital. Findo o alvoroço, o coração ainda bastante acelerado, porém tranquila, a maria bianca voltou à sua zona de conforto.  Enroscadinha, fingiu que estava dormindo...
Infarto. Uma artéria semi-obstruída impedia a passagem de sangue para o aurículo ventrículo esquerdo do coração. Desfibrilador, cateterismo, ponte de safena, respiração por aparelhos e duas semanas na UTI. Tudo ajudou. Mas decisivo mesmo foi o socorro prestado a tempo. Dez minutos a mais seriam fatais. Era óbito certo. Enfatizou o médico cardiologista, que sabendo da estória ainda brincou: “dêem um abraço na Maria Bianca. Ela me ajudou também!”.
Dois meses depois. Em forma e refeito do susto, Márcio foi visitar o sogro, seu Zé. Para variar tinha uma festa preparada com tudo de direito. Até champagne! Era uma verdadeira  saudação à vida! Todos queriam abraçá-lo. Sônia e Samara, amigas da família, foram de Marituba participar dos cumprimentos festivos ao “renascido”, que chegou trazendo um pacote volumoso logo aberto por gente da casa imaginando ser a “intéra”, tira gosto. Surpresa! Só tinha sorvete, biscoito, nescau e enlatados finos para cachorros. Tudo com etiqueta do destinatário: “maria bianca”.
 Abril de 2012. A maria bianca ainda vive, mas está bem velhinha. Os pelos perderam o viço e assim como os dentes, estão caindo; a vista está embaçada, perdeu o apetite. Vive doente, sorumbática, macambúzia, depressiva. A única pessoa que dá amor, tem paciência e a trata com todo carinho, é ele: O Márcio...

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