Quando se é pobre toda conquista é motivo de satisfação, felicidade.
É aquele negócio, só o fato da gente dar um bom espirro já se sente uma pessoa
realizada. Eu ganhei um pé de mangueira bem jovem e como na frente de casa o
chão é de piçarra pura e compactada, convidei um parceiro e passamos uma manhã
inteira cavando, correndo atrás de terra preta, adubo orgânico, agora eu olho o
pequeno vegetal já taludinho e fico todo pávulo (vem de pavulagem, palavra que
a vovó usava muito).
Sou leigo consagrado da Congregação de São José e como parte
do trabalho missionário participei de muitos movimentos em comunidades e
escolas, tendo como pano de fundo meio
ambiente, realizando diversas
atividades como distribuição de mudas de
umari e palestras de conscientização em algumas escolas públicas. Disso
tudo, o que ficou? Nada! Na-di-nha. Incrível!
Uma das palestras, ministrada na escola Fernando Ferrari, em
Marituba, teve a presença de uma comissão de professores, dos diretores e
alunos do colégio de nível fundamental e médio. Era o projeto Pacto
pela vida, coordenado por uma freira da Congregação, Irmã Dominga
Zolleti. Finalizamos a programação realizando um passeio com alunos e o diretor
do fundamental, em projetos de plantios assistidos por técnicos em agronomia na
área da Cerâmica, Almir Gabriel e Uriboca; plantamos um pé de mogno na área
verde do colégio, tudo devidamente documentado. A frustração veio dois meses
depois numa visita na escolona:
tinham capinado, arrancado, varrido o mogno lá da área plantada. É triste e
verdade. Infelizmente.
ALUNOS PLANTANDO O MOGNO NA ÁREA VERDE DA ESCOLA FERNANDO FERRARI
Mas, o que é meio ambiente mesmo? Será que é só flor e borboleta?
Sou há 45 anos, Maritubano por adoção. Fui adotado no tempo
dos igarapés de águas caudalosas e escuras; que a festa na sede do Marituba,
Flamengo ou Líder terminava 4 horas da manhã (às vezes amanhecia), retornávamos
a pé para casa em Ananindeua ou vice-versa sem nada temer. Isso tudo fazia
parte das relações no meio ambiente físico e biológico daqueles anos, relações
que em tão pouco tempo se degradaram junto com os igarapés. Hoje, além de não
termos mais o conforto e a beleza naturais, somos expostos tantas vezes a violência
intensa e explícita; jovens crescem cometendo agressões, brutalidades, tendo
menos compaixão, logo, quem não valoriza o centro das motivações do ambiente
que se vive, que é o próprio ser humano, qual razão que tem para preservar a
natureza? Imagine...
Marituba tem menos de 20 anos de emancipado. Já teve três
prefeitos. O primeiro sobrevivia como relojoeiro, fez campanha para prefeito de
Ananindeua montando uma bicicleta, ganhou duas eleições virou político
profissional e ganhou o mandato dos eleitores no primeiro pleito realizado no
Marituba independente; o 2º foram 8 anos e o 3º está aí suando camisas e
abraçando até poste, mirando a reeleição. Normal. Isso tudo é parte
contextualizada do elo que nos liga ao ambiente que pertencemos
Quando foi fundado Marituba tinha aproximadamente 49 mil
habitantes, hoje tem mais de 130 mil; tem o privilégio de ter a maior ilha de
mata preservada da área metropolitana – a reserva ambiental da Pirelly - que a
ex-governadora do Estado quase transforma no maior favelão metropolitano. E não
é que a danadinha queria construir 19 mil casas na reserva? Hum, hum, que vale
que ela não se reelegeu!
Mas a população maritubana não tem muito que festejar em
termos de qualidade de vida via política ambiental, porque ganhou o lixão
metropolitano e mais um cemitério que, segundo informações, já está em construção
lá na alça viária. Bom, é assim: cada cidade tem o seu codinome como: Belém,
cidade das mangueiras; Rio de Janeiro, cidade maravilhosa; Marituba pode
perfeitamente ser a cidade da morada
eterna. Alguém conhece outro município no Estado que tenha mais cemitérios
que Marituba? Se alguém provar que existe vai ganhar um bombom de andiroba. E
olhe que a atual secretária de meio ambiente, Tereza Rocha, quando assumiu
disse-me pessoalmente que o sonho dela (só sonho mesmo) era despoluir o rio Uriboca.
O pedagogo Paulo Freire dizia que “se por um lado não devo estimular
sonhos impossíveis, por outro não devo negar a quem sonha o direito de sonhar...”
Lixões a céu aberto, barulho de trios elétricos que não respeitam
horário, sons das aparelhagens, ah, e uma feirinha que vende de tudo um pouco,
mas principalmente peixe sem nada de higiene, na passagem Fé em Deus, que corre
paralela ao muro do cemitério, atrás do mercado municipal. Enfim, eu acho que a
secretária vai continuar sonhando... em como melhorar o nosso meio ambiente ou tendo
pesadelos e insônia, preocupada em dar continuidade na “grande” administração. Se
o chefe se reeleger, claro...


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