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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A MINHA PRISÃO ESTAVA DE PORTAS ABERTA

Rua não é moradia. Viver na rua é castigo, é sofrimento
Era um meio de tarde dum dia qualquer do mês de dezembro. Eu dormia um sono solto em plena praça do relógio embaixo duma mangueira, no Ver o Peso, num banco que eu já considerava “meu”. De repente, um susto! Levantei-me dum salto. Sentei-me. Olhei para os lados e não passava ninguém. A praça estava deserta naquela hora. Também pudera! Era domingo. Aí que eu fui verificar que tinha sido uma folha da própria mangueira que me dava o conforto da sombra que caíra no meu peito e me pregou aquele susto. Calmão da silva deitei de novo, mas não consegui dormir mais. É que eu caí na real. Pensei, caramba, já vem chegar o inverno.
Ô meu Deus, mais um inverno. Não me recordava   certo quantos anos eu já estava morando na rua. Uma coisa, porém, eu não esquecia. Não dava para esquecer: o período chuvoso era o pior tempo para quem tinha como teto o céu e como cama papelões. Aí, logo imaginei com meus botões, vou cometer um delito leve, serei preso por, no máximo seis meses, e lá estarei protegido da chuva, do frio e com a vantagem de não ter que encarar trampo em troca de comida. Tudo planejado. Mãos às obras.
 Entrei num restaurante lá na praça do Carmo, sentei-me, e o garçom com vontade de expulsar-me. Não expulsou, mas perguntou com a sutileza de um elefante:
-Fala! O que queres?
-Claro que eu quero comer. Respondi com cara de raiva também. Fiz o meu pedido: um bife de fígado bem suculento com dois ovos estrelados e uma garrafa de refrigerante.
Me saciei. Pensando: “não pago, ele chama a polícia, eu vou preso e pronto. O plano tá perfeito.”
Deu tudo errado. Quando eu falei que tava liso o homem enfurecido agarrou-me pela gola da camisa, me arrastou até a calçada, deu-me um tapa tão forte que eu caí  e mesmo caído ele ainda me deu uns chutões, só parou porque um ciclista que ia passando parou e encarou o garçom caloteado, e os dois ainda quase saem no tapa também. Aproveitei a discussão dos dois e saí meio correndo, meio cambaleando. Ainda escutei o meu salvador gritar: “tu só bate em mendigo...”
A primeira tentativa flopou. Parti para a segunda.
Dei uns bordos por várias ruas da Cidade Velha com um olho roxo inchado, corpo todo dolorido e uma ideia fixa: ser preso.
Cheguei à praça do Arsenal de Marinha (Praça da Armada) que estava com uma movimentação inusitada para um domingo inicio de noite. Crianças andavam de motocicletas de brinquedo, bicicletinhas, velocípedes, patinetes. As senhoras mães tomando conta da gurizada. E guardas. Vários guardas. Pensei: “agora dá”. Me aproximei duma senhora que estava perto do policial, botei a manipeba pra fora e comecei mijar quase no pé da madame. O guarda pegou-me pelo cós da calça foi me empurrando até chegar ao meio fio do outro lado da rua, quando eu fiquei longe do alcance da visão das pessoas ele deu uma cacetetada tão forte no meu membro que acabei me mijando sem querer. Agora de dor. Em seguida deu-me mais um pescoção tão forte que eu saí catando cavaco com o nariz rés ao chão. Escutei o homem da lei vociferando: “isso é pra ti aprender respeitar, vagabundo...” Ele foi embora. Eu fiquei lá me contorcendo de dor.
Mas brasileiro não desiste. Me recuperei,  e continuei a minha via crucis. E um pensamento obsessivo: “tenho que ser preso...”.
Já eram mais de oito da noite. Cheguei à praça da Sé a Igreja estava aberta, lotada, e a música era de natal. Caramba! Me lembrei: além de domingo era noite de Natal também.  Eu já estava com fome. Fui me aproximando. Fiquei na porta esperando que alguém me desse algum trocado. Pela movimentação percebi que antes da Missa do Galo haveria um casamento. Uma jovem se aproximou com um pacotinho na mão, entregou-me junto com uma cédula de cinco cruzeiros. Quando eu disse “muito obrigado” ela fixou o olhar no meu rosto e disse:
-Parece que eu conheço a sua voz. Como é o seu nome? Eu relutei em dar o meu nome verdadeiro, mas, enfim, respondi:
-Meu nome é Edelvanio mais conhecido como Edel... A menina enlouqueceu saiu correndo pelo centro da igreja gritando:
-É ele é ele é ele!!! O papai tá aqui.
Foi um furdunço. A noiva que ia casar era a minha filha mais nova, que eu não lembrava nem quantos anos tinha, e a mais velha foi que me reconheceu.
Meia noite. Eu, banhado, barba raspada, cabelo cortado, todo cheiroso, roupa social limpa e bonita, sapato novo, participava ainda todo encabulado, da ceia natalina e do regabofe do casório. Triste. A minha ex-mulher morrera fazia dois anos.
Conclusão: Procurava um cárcere, achei minha família. E justo na Noite de Natal. Prometo: álcool e drogas nunca mais! Nunca mais...







quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"AH! VOCÊ ESTÁ TÃO MAGRA"

Corpos perfeitos.  A ditadura da beleza é assim: impõe sacrifícios, mas...

Ah, você está tão magra!
 É o elogio que as mulheres mais gostam de ouvir. Ganha até do “eu te amo”, que fica em 3º lugar.
 Pois é. Esses dias eu ganhei na pracinha, do conjunto próximo de casa, onde faço meus alongamentos umas inimizades, digamos, gordurosas. No mesmo local tem um camarada que é deficiente visual parcial e ex- corredor de rua federado. Com a experiência adquirida como “atleta” corredor, aproveitou a oportunidade que pintou e resolveu ganhar unszinhos, usando os conhecimentos de atividades físicas que aprendera quando estava competindo e aplicando a um grupo de jovens senhorinhas que estão correndo atrás das belas formas.
 O meu “crime” deveu-se a um arroubo verbal. Na verdade, reconheço, eu cometi uma verdadeira hediondez, chamei duas pupilas do Léo (nome do personal trainer) de Gordas. Pois não é que uma das alunas, a quem eu nem tinha me dirigido, irou-se. Pegou santo mesmo. A enfurecida aluna do mestre Léo falou quase nas minhas fuças de que eu estava “querendo era levar uns tapas na cara pra aprender respeitar as pessoas”...
Eu acho que todos nós somos portadores de transtornos explosivos internos. E eu, mesmo sem querer, entrei numa perigosa rota de colisão com uma jovem senhora que ameaçou estapear-me. Caramba! Logo na cara... E o mais incrível: a exuberante senhorinha era (para mim, ainda é) minha amiga. Agora eu estou numa sinuca de bico. Reconheço a minha indiscrição, mas nunca pensei que uma palavrinha de nada viesse causar um bug numa relação de amizade adulta, quase velha. 
Brigar nunca é bom, porque apequena o ser humano e ainda mais quando se trata de algo tão bizarro. Na realidade foi uma intromissão do bem. Aconteceu assim: o “professor” estava com seis “alunas”. Das seis, duas estão bem redondinhas. Como eu sei que ele não sabe por onde passa a fisiologia do exercício, não conhece o que é biomecânica do esporte, essa coisa toda que quem tem formação acadêmica, conhece eu fui lá e disse: “Léo, separa as duas gordinhas e passa atividades aeróbicas, e as magras mete exercício de média e grande intensidade, os anaeróbicos...” Eu penso que tanto o “professor” quanto as suas discípulas de tudo que eu falei só entenderam uma palavra: “gordinhas”. E só uma se aborreceu. Mas se aborreceu muito. Meu Deus!
“Quem não tem colírio usa óculos escuros...” Já dizia o poeta barbudo maluco beleza Raul Seixas. O sonho de um corpo perfeito (no caso, magro), o caixa baixo, a preocupação com a boa forma e a saúde, acaba muitas vezes colocando as pessoas diante dessa dicotomia, que é por em risco a saúde justamente em busca da boa forma e mais saúde. Pior, têm umas criaturas que correm com blusão de frio e isso, segundo os entendidos no assunto, pode até ser prejudicial, porque aumenta a temperatura do corpo e causa hipertermia. É verdade que, como efeito imediato, por causa do corpo abafado e os poros não transpirarem a pessoa vai suar mais, logo, perde mais líquido, que retorna ao organismo assim que é feita a reidratação. Conclui-se daí que os gramas perdidos foram líquidos, e não calorias. É isso.
Pô! Eu não sei é nada. Corri durante quarenta e cinco anos. Tenho sessenta e seis. E o que eu queria mesmo era poder correr de costas. Correr pra trás. Assim mesmo, olhando pra frente. Voltando no tempo. Enganar a morte. Porque eu sei que ela tá pega não me pega. Tá no meu calcanhar. Poder recomeçar, ou começar, tudo de novo, pra ter vergonha na cara e aprender que não se chama de gorda pra uma mulher. Mesmo que ela não esteja assim, tão magra...


terça-feira, 11 de novembro de 2014

O BOFE IMBERBE, E O VÔMITO NA COSTA DO SEU RICARDO

  Já foi pior: Hoje homossexuais não se escondem mais, mas a preferência continua sendo  por bofinhos jovens. Porque será... ?
Traumas. Quem não os tem?   Na maioria das vezes eles surgem na infância e têm reflexos na nossa personalidade. O criminoso em série, sociopata ou o pedófilo, por exemplo, quase sempre vêm de situações vivenciadas no passado. Foram acometidos de algum tipo de violência, física ou psicológica, que acabou de alguma forma sendo determinante nas cicatrizes que ficaram na alma. Por isso, nem sempre o que se aprende na infância é a resposta mais saudável quando chegamos à vida adulta.
De todo ser vivente o homem é o que tem a infância mais longa, e é justo nesse período que o cérebro capta os aprendizados, mais tarde na adolescência outros conhecimentos se somam. Experiências recebidas, o cérebro processa e arquiva, e na fase do amadurecimento, dependendo de fatores diversos como estresse emocional, físico ou psíquico, e até condição social, pode-se, muitas vezes, reproduzir os aprendizados desse período da vida, fazendo distinção entre o que atrapalha e o que ajuda.
 O relato a seguir é um exemplo de acontecimento da existência adolescente, que bem podia ter produzido um adulto “doente”. O nosso personagem, porém, no quadro que  emoldura o mundo, ao invés de retratar o medo, a hediondez, o mal; pintou a unidade, a beleza e a harmonia, com imperfeições e erros, mas sem as danações perversas que estraçalham a vida.
Eram duas horas duma tarde de domingo num mês de verão do ano de 1963. O pequeno trabalhador de quatorze anos tinha terminado mais uma jornada de trabalho na feira do Ver o Peso. Depois de ter lavado a roupa de serviço e tomado banho nas águas barrentas da baia do Guajará, vestido uma bermuda um pouco melhor, uma camisa limpa, almoçado um suculento peixe frito com açaí, o guerreiro foi descansar. Aonde? Sob a sombra de uma mangueira na praça D. Pedro II, na frente do Palácio do Governo (Palácio Lauro Sodré). 
Na calma daquele início de tarde de domingo deitou-se num banco, fez da trouxinha de sua própria roupa, um travesseiro, e preparou-se para usufruir o conforto do vento fresco resfriado pelas águas que sopravam da baía. Era um verdadeiro refrigério para o corpo e para a alma. A única preocupação eram os passarinhos que soltavam seus dejetos lá do alto sem se importar com quem estava embaixo. Sem casa, sem parentes ou amigos, o pequeno lutador descansava de uma manhã de trabalho puxado no máximo de “conforto” que tinha a sua disposição: um banco em praça pública. Se bem que o local escolhido para o repouso era estratégico, ficava a menos de 300 metros do cinema Guarany, onde, às três da tarde, passaria a primeira sessão do filme “Assim que se faz...Amigo”, filme de faroeste, que era o gênero preferido do nosso rapazinho.
  De repente uma movimentação na extremidade do banco, fez o pretinho levantar-se rápido. Meio assustado viu que não estava mais só. Um velhote, que aparentemente se divertia com o susto causado pela sua presença tinha se sentado na pontinha do banco. Cumprimentou-o com uma “boa tarde”, e um sorriso cativante. Puxou conversa:
- Que faz o meu bom rapaz  nesta hora sozinho aqui, e pelo visto está cansado, hem? Trabalhou muito hoje, onde e em quê, e pra aproveitar, como é o seu nome?
A sucessão de perguntas embasbacou o desconfiado negrinho que quis dar uma daquelas respostas aprendidas na escola Veropesiana, conteve-se, porque o velhote deu-lhe uma palmadinha na coxa desnuda, e em tom galhofeiro, brincou:
 - Não se aborreça meu jovem, só estou querendo ser seu amigo. Pronto! Em poucos minutos os dois conversavam animadamente como se, de fato, velhos amigos fossem.
- Bom, eu já sei que o teu nome é Orlando, teu apelido é jambu, trabalhas na feira, moras sozinho num quarto alugado em Canudos. Um dia vou te fazer uma visita. Mas agora és tu que vais comigo no meu apartamento me ajudar fazer uma limpeza. Eu sou gerente da fábrica Palmeira. A minha família está de férias em mosqueiro e eu só vou pra lá na ultima semana. Vou te pagar um bom dinheiro. Vais ganhar mais do que ganhastes hoje na feira. Topas? Proposta aceita.
Mesmo sem saber quanto iria receber, mas só a perspectiva de ganhar mais do que tinha ganhado na feira deixou o marreteirinho todo serelepe. Por ser negro, e ter complexo de inferioridade, ele evitava sempre as pessoas muito pousudas.  Esse senhor, porém, era diferente. Muito gentil. Seguiram juntos. Um detalhe, entretanto, o intrigou: o seu Ricardo, como o homem se identificara, com uma desculpa, pediu que ele fosse pela outra calçada. Quer dizer, seguiam juntos, mas separados.
Edifício Fátima. Décimo terceiro andar. Visão total para a baía de Guajará. Um deslumbre! Pela primeira vez ele enxerga, lá de cima, até aonde a vista alcança, além da baia toda a cidade estava ali, à vista. Que belo visual. Viaja. Devaneia. Encontrava-se debruçado no parapeito quando o Ricardo bate no seu ombro convidando-o para entrar. Entrou. E surpreso, viu que no apartamento não tinha móveis. Era muito limpo. Só uma cama de casal e um guarda roupa compunham o mobiliário do ambiente. E, credo! O anfitrião estava nu. Peladão, foi logo ordenando: “Vamos, meu rapaz, tire a sua roupa”. Todo confuso o atabalhoado Jambu ainda pensou: “ai ai ai que diacho é isso?”. Falou:
- Ei, seu Ricardo, qué isso? O Senhor me chama pra fazer limpeza, mas aqui tá tudo limpo. E porque eu tenho que tirar a minha roupa, também?
- Você ainda não entendeu meu jovem? Respondeu o velho Ricardo, passando a mão na genitália do pobre Jambu, que nervosão não sabia como reagir.
É que naquelas alturas da vida o moço ainda era virgem. Intacto. Ainda não tinha se deitado nem com uma mulher, que dirá que dirá... Mas, quem está no inferno tem que se abraçar mesmo é com o satanás. O mancebo pensou no dinheiro e foi direto:
_ Quanto o senhor vai me dar?
– Cinco Cruzeiros, tá bom? Respondeu o velho Ricardo. E te arrumo um emprego na empresa onde eu trabalho. Prometeu. Cinco. Cincão. Era muitas vezes mais do que ele tinha faturado naquela manhã de trabalho árduo na feira.
 Sonhou. Emprego. Ah! Um emprego. Era tudo que ele sonhava na vida. Suava frio. Os miolos derretiam. Pensava: “Ai meu Deus! Um ano de Seminário, e agora isso aqui...” (Ele passara um ano internado no Seminário Salesiano). E veio, de repente, o Evangelho de Marcos 10-7,8 onde diz “homem deixa os pais para unir-se a sua mulher e os dois serão uma só carne...”
Afinal, a necessidade imediata falou mais alto. Aceitou. Foi para a cama com o velho Ricardo. Desajeitado (e o cérebro martelando pecado, pecado, pec...). Disfunção erétil ele não tinha. Muito pelo contrário. Mas naquelas circunstâncias nada funcionava. A lança de ataque, quase sempre rígida, naquele momento parecia um guardanapo. Isso não foi problema para o velho Ricardo que, cheio de experiência, resolveu o empecilho, e colocou a máquina em funcionamento.
Palavras do Jambu, que tem 64 anos e ainda está vivo:
“Montei em cima do velho com asco. Ele tinha uma bunda mole e peluda. Eu tava com muita repugnância. A verdade é que eu não completei o ‘serviço’. No mesmo tempo que eu comecei ejacular na bundona do velho, vomitei na costa dele todo o almoço da feira, açaí com peixe frito.  A reação do desgraçado foi rápida e violenta. Ágil, ele saltou da cama e me deu uma bofetada. Mesmo tendo feito uma esquiva, ainda acertou-me. Lembram da trouxinha de roupa que eu lavei lá no Ver o Peso que tava lá no chão e tinha deixado perto da porta?. Dum salto alcancei a trouxinha. Tirei meu inseparável canivete corneta e pensei: ‘vou matar esse baitola filho da puta”.
Aí começou uma luta esganiçada. Horrível. Medonha. O velho era forte. O negrinho era ágil. Cada movimento rápido da afiada lâmina na direção da barriga do Ricardo, era um salto que ele dava para trás e rebatia com os braços que iam ficando golpeados. A cena era grotesca, tragicômica, porém, porque aqueles dois homens nus com os balangandãs pendurados, sacudindo, pareciam que a qualquer momento iam despencar. Morto de cansado, sangrando muito pelos golpes levados nos braços e umas goteirinhas na barriga, o velho, de pé em cima da cama, apelou para o diálogo: “calma meu menino. Olha o que você está fazendo. Vamos conversar!”.
Ofegante, o negrinho foi saindo de costa em direção à porta. Juntou a roupa meio molhada que estava no chão. Limpou-se com a própria veste, e sempre com o canivete preparadinho, foi saindo de fininho. Lá embaixo ainda pensou do jeito bem paraense: “Égua! A gente se mete em cada uma...”
Anos depois ao fazer compras no Armarinho Paulista, atacadista de aviamentos que existia em Belém até o início dos anos 80, na sala da gerência onde fora pegar a nota fiscal, olhem quem era o gerente: seu Ricardo. Os dois, Jambu, que já era um homem, e Ricardo já bem envelhecido. Reconheceram-se mutuamente e cumprimentaram-se, respeitosamente.
Fato. O seu Ricardo morava no jurunas num bangalô de dois pavimentos. Era um respeitável chefe de família. Bem casado. Duas filhas. Bissexual. Mantinha o apartamento alugado para os encontros íntimos e tinha preferência por adolescentes. Hoje, com as leis protetivas preconizadas pelo Estatuto da Criança  e do Adolescente ele seria considerado pedófilo. Era um candidato em potencial à cadeia. Certamente.
O imbróglio sexual mal sucedido ocorrido naqueles tempos deixou traumas no personagem que era, na época, muito jovem e recém-saído do seminário. Passou odiar viado. Na verdade um sentimento de ojeriza que perdurou por muitos anos sem, contudo, qualquer ato gerador de violência contra a ‘moçada’ do grupo transgenêro.
 Heterossexual de cultura machista, mas fundamentada em princípios religiosos, o protagonista de ponta desta narrativa fez uma opção: Amar a Deus com todo coração, com toda alma e com todas as forças e ao próximo como a ti mesmo. (Lc 10, 25-28)
“O tempo ajuda esquecer”. Isso não é verdade. Ou pelo menos não foi com o autor   do causo aqui descrito. A estrutura psicótica voltada para as neuropsicoses de defesa, especialmente quando o ego é confrontado com uma experiência aflitiva, não escraviza, mas fica armazenada no espaço do cérebro que serve de depósito das coisas dos tempos de antanho.  O passado fica no passado. Mas de vez em quando um refluir de episódios ocorridos retorna mesmo sem o peso da emoção, dos medos que na época provocou dificuldade para dormir, choro fácil, estado de medo contínuo, aperto no peito e coração acelerado. O fato é que de vez em quando um “sai pra lá” nas lembranças de fatos marcantes são necessários para que o nosso cotidiano deslize de forma mais suave.

O Jambu que o diga...

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A LINDA "LOUIS VUITTON" DA IRMÃZINHA, MADE IN CHINA

Os pobres, coitados, não podiam usufruir dos mesmos prazeres aí não deu outra: começaram um furtozinho aqui outro acolá e se justificaram: "estamos agindo contra o bando". Hum...


- Ei Naza, que merda é essa? Onde tu arrumaste dinheiro pra comprar uma bolsa dessas? É tua? Quanto custou? Ou, quem te deu? Bóra, faaala!
De propósito, ela fez um gesto que me irritou ainda mais,  respondeu toda lânguida:-Ganhei.
 Mas logo reparou as duas bolas de sangue nos meus olhos,  e, ao escutar o meu ranger de dentes, sabendo que eu estava prestes a  praticar uma lobotomia a frio,  e o temor de  ter a carótida arrancada, tratou logo de me acalmar. Falou consertando:-É pirata, meu velho, ia ser incinerada. Custou só 20 reais. Vin-té-co...-Ah, bom. Balbuciei. Com a calma de um monge. -O homem que me vendeu  tinha um montão dessas bolsas. Completou a Irmãzinha.Contra o Bando/Contrabando. Segundo alguns historiadores esse termo, contrabando teria surgido no ano 44 a.C. na época do Império Romano. O chefe, Júlio César e sua turma, só a eles, o pessoal “dazelite”, como diz o Presidente Lula, era permitido tomar o melhor vinho, comer a melhor azeitona, o melhor chouriço de ovelha. Já os escravos (plebeus) para usufruírem dessas benesses tinham que escamotear, tipo assim, afanar, ou num português bem conhecido, roubar. E eles, os plebeus se justificavam dizendo que estavam agindo contra o bando (de ricos e privilegiados). O Brasil aportuguesou o termo, aí ficou contrabando.  Agora nós, na real.
 Na década de sessenta quem vestia uma calça jeans estava “por cima da carne seca”. Estava podendo. Eram as famosas calças Lee. Chegavam por aqui por estas plagas contrabandeadas, vinham de barco do Suriname, e mais tarde Manaus, depois da Zona Franca. Era o contrabando. Muitos figurões  do Estado começaram ficar poderosos lá atrás, pelos atalhos altamente lucrativos das mercadorias contrabandeadas. Bom! Pelo menos não era droga. O Zé Mané aqui, ainda meninote, ajudou, sem receber nada em troca,  “plaquear” carros novos nas matas do Paricatuba. Na época a estrada  de mosqueiro ainda não existia nem o projeto. As famílias Catanhede e Salame (o chefe do clã era o Oscar salame, muito famoso por que pelo dinheiro e poder que tinha fazia a limpa nas filhas dos caboclos da Colonia Chicana, Arací, Jenipaúba...). Carros que eram trocados por café e pimenta do reino tinham como local de embarque e desembarque o porto  do Candeua, lá em Santa Bárbara, na época município de Ananindeua. Como disfarce, perfeito, aliás, uma serraria de grande movimento dos Salame, onde o tio Zé Matos era foguista, emprestava a fachada de legalidade à atividade principal, que era o descaminho. A história hoje é esta: o grande volume de mercadorias como eletrônicos, tênis, bolsas, roupas, cosméticos, cigarros, bebidas, etc. que os representantes das leis, da receita federal a todas as polícias prendem, que abarrotam os depósitos oficiais, e de vez em quando a imprensa mostra chegando aos fornos crematórios para virar cinzas. São sempre imagens apoteóticas mostrando o Estado cumprindo a lei. Quem é capaz de acreditar que entre a prisão das mercadorias, o depósito, o transporte para o caminhão e o fogo nada ficou escondidinho n‘algum lugar para ser transformado em renda, presentes, ou  instalados nos quartos e sala das luxuosas casas dos funcionários aduaneiros; nas mansões dos xerifes fardados com símbolos e insígnias oficiais;  ou no fim da cadeia  de serviços do submundo do descaminhamento, no caso, motoristas, ajudantes e outros e mais outros atores do  sistema chamado de “jeitinho brasileiro”?
Imagine a prisão de uma carga com TVs. Digitais grandonas telas finas de Led, vão todas para o fogo? E as bolsonas Louis Vuitton, luxuosamente falsificadas? É até compreensível que ao invés das bichinhas (bolsas) se acabarem no fogo elas vão pousar embaixo dos sovacos odorizados das madames  ou amantes dos fiscais da lei, ou então, passadas em frente, a preço camarada, como esta que veio parar aqui no meio dos útiles da minha querida Naza. E é aí que encaixa uma frase que foi cunhada pelo saudoso Sérgio Porto, mais conhecido como Stanilaw Ponte Preta, “restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”. Ah, sim, as suas excelências, os congressistas, quando estão deputando para eles, que incluem emendas sujas, geralmente aprovadas num bolo só (aconteceu recentemente com as empresas de planos de saúde) chamam essas manobras fétidas de contrabando.Pois é. O governo federal criou até o dia nacional de combate a pirataria, 03 de dezembro. Sim, mas no Brasil tem dia da tia solteirona, 30 de março; dia do cão 04 de outubro; dia do orgasmo, 09 de maio, etc.
Enfim, só peço ao santo padroeiro protetor da bolsona Louis Vuitton contrabandeada, que proteja a minha querida Naza no dia 03 de dezembro próximo... Amém!!!

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O SACO, O PÃO E A CUECA DO SEU CAZUZA


Dia 12 de outubro, dia das crianças, é comum os mais velhos recordarem as peripécias, engraçadas ou não, dos tempos da infância. E esse ano de 2014 o dia dos miúdos coincidiu com o círio de Nazaré e da Padroeira do Brasil Nossa Senhora Aparecida, aí foi uma trilogia festiva.
Na casa da dona Natércia na rua 3 de maio, na cremação; entre garfadas de pato no tucupi, maniçoba e gargalhadas cada um lembrava e contava proezas e até incidentes que causaram algum vexame naqueles tempos idos. Memorizei essa que irmãzinha trouxe contada pela Luci, na época com sete anos: naquele tempo o plástico não era a embalagem “da hora”. No Ver o Peso, por exemplo, o peixe era embrulhado em folhas de guarumã, nos açougues o açougueiro usava um amolador de faca que tinha um furo, aí ele varava a carne, metia a fibra naquele furo, puxava dava um nó e pronto. A gente levava a carne pra casa pendurada. E assim caminhava a humanidade. Pois é. Mas a estória de criança da Luci aconteceu assim:
A dona Sinamor, a mãe da Luci, fez como todas as donas de casa, um saco comprido exclusivo para transportar o pão comprado no único local perto de casa, que era a taberna da dona Mundica. E dos sete irmãos, Pedro, Alípio, Carlos, Lulu, Chico, Ester e Luci, passavam por um revezamento, ou seja, todos cada um no seu dia tinha que ir cedo antes do pai, seu Cazuza, sair para o trabalho, lá na taberna da dona Mundica comprar os barrocos indispensáveis para o café da manhã. E quem não ia de manhã tinha, obrigatoriamente, que ir a tarde.
- Eu era a mais chata – conta a Luci – no meu dia de ir na taberna eu já me deitava com raiva na véspera. Um dia eu tava escalada pra comprar o pão quentinho das quatro da tarde, mas eu com raiva não achava, de propósito o saco do pão. Eu já tinha reparado um monte de roupa bem branquinha na bacia que tinha sido lavada naquele dia. Foi quando a mamãe deu um berro indicando que o saco tava no meio das roupas lavadas e que eu tratasse logo de encontrar se não ela ia procurar e esfregar na minha cara. Como eu sabia que uma ameaçava  dela era fatal, tratei de ir lá na bacia revirei rápido, peguei o “saco”, enrolei na mão  e saí com raiva pra taberna. Fiquei na fila. Quando chegou a minha vez, pedi os cinco pães e o Nilson filho da dona Mundica que atendia no balcão, mandou eu abrir o saco, quando eu abri, olha o vexame: era uma ceroula, a cuecona do papai. E o Nilson pra querer ser engraçado ainda falou bem alto:
- Ei menina! Mas isso é a cueca do Seu Cazuza.
Foi quando eu me dei conta de que, com preguiça e com raiva acabei não reparando que no meio das roupas eu tinha tirado justamente a cueca do papai.
Eu, morta de vergonha, disparei, parti na carreira batendo todos os recordes de velocidade, entrei em casa chorando. Na minha cabeça eu ouvia as risadas das pessoas  que estavam na fila. A mamãe correu preocupada com a minha choradeira. Quando eu consegui contar o que tinha acontecido, ela deu-me duas lambadas com um cinto que ela já tinha lá pendurado na parede só pra essas emergências. Acabou sobrando pra um dos meninos que eu nem lembro quem foi comprar o pão naquela tarde. Meu Deus! Até hoje o meu estado emocional se abala quando eu lembro...

Só não me mudei de bairro porque não tínhamos nem um parente onde eu pudesse me abrigar e mesmo a mamãe e o papai jamais permitiriam que eu, menina ainda, fosse morar com outra família. Como eu já não gostava de ir na taberna da dona Mundica, por um bom tempo eu não fui mais. Na verdade nem na rua eu queria sair...

domingo, 14 de setembro de 2014

DENTRE TANTAS "PRIMEIRAS", ENFIM, UMA SECRETÁRIA/ DAMA DE PRIMEIRA...


Estatuto do Idoso- Lei 10.741
Art. 3o É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.

Pois é. Eu já escrevi vários textos aqui tendo como assunto administrações municipais maritubanas. Até porque as peculiaridades administrativas pelas quais passou o município assunto era que não faltava, haja vista que, em dois anos foi batido o recorde de ocupantes no cargo de mandante-mor. Um texto, porém, deu-me alguma preocupação. Eu pensava que ninguém acessava meus escritos até a publicação do “MARITUBAGUNÇA”. Título do despretensioso texto publicado em maio de 2013 que incomodou. Pois não é que ligaram pra minha casa com recados do tipo, “negão, cuidado! tu tá falando muito...” Eu, ao invés de me borrar de medo fiquei feliz da vida. Caramba! Putz! Alguém lê o que escrevo. Tá, mas como não sou besta pra tirar onda de herói (Raul Seixas) e a D. Nazaré (a Irmãzinha) ficou muito preocupada, segurei a minha onda e parti para assuntos, digamos, menos mortais...
Bem, apesar das turbulências a sociedade civil teve algumas conquistas, e uma delas foi homologação do Decreto Lei 112 de outubro de 2013, que criou o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa. Foi uma gestação que de nove anos. Do período de duração, desde a primeira reunião, até o dia de aprovação do Projeto de Lei foram dias de muita expectativa, mas enfim, Marituba é o primeiro município da área metropolitana com um Conselho dos Idosos. Ora viva! E eu, o chato, militei em favor e sou o primeiro presidente (mereço uma placa, porque não?) e tenho orgulho disso. Mas assim como não existem corpos sem alma, nada se faz sozinho. Ao longo do caminho percorrido encontramos pessoas que nos incentivaram, deram forças, nos orientaram.
Nesta lista tem a Patrícia, coordenadora do Cras Emmanuel Rocha – 2004/2006 -, a Ana Lucia, brilhante assistente social e uma batalhadora pela causa. Mas uma criatura muito, muito especial, lutadora, corajosa, que injetava ânimo todas as vezes que a gente esmorecia, Edilena Galvão foi, sem sombra de dúvida, a nossa baluarte na cruzada pela concretização do sonho de criar o nosso Conselho. São pessoas admiráveis, que não cruzam nossos caminhos por acaso, é Deus que orienta nossos passos na mesma direção. Acredito. Tivemos também a boa vontade do gestor que estava de plantão na época, e até o vereador que fez o projeto de Lei e o levou para votação na Câmara Municipal. Foi assim o parto do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa.
Quando a justiça afastou o, até agora, ultimo ocupante da cadeirona, que eu já estava achando-o bonzinho, e empossou o atual, Mário Filho, no dia 25/04/2014, ressabiei-me, e, de novo, muito santo da vida fui à primeira reunião com a nova equipe de governo. Quatro meses depois e várias reuniões (dezessete precisamente), dois fóruns, duas oficinas do Sinase, - André Franzini - uma da Política Nacional de Assistência Social- PNAS - Profª Maria Lucia Gaspar, já dá para traçar um diagnóstico: o município agora está bem servido. O esforço em fazer, e fazer bem, é visível. Existem falhas pontuais, que certamente, vão existir sempre, porém o que se vê deixa os munícipes mais animados. Mais felizes. Elogios prematuros? Não! Existem motivos, principalmente quando a tentativa de acertar é corrigindo falhas como o relato do parágrafo a seguir.
Um funcionário com cinco anos de serviço, 62 anos, vigilante, foi demitido em maio. Através de ofício solicitei, no dia 17 de julho, a reintegração do servidor com base no que preconiza o art. 3º, Lei 10.741 (Estatuto do Idoso). Demorou quase dois meses, mas hoje, 12/09, a Secretária de Assistência Social, Primeira Dama Michele Begot, que lógico, é esposa do chefe, garantiu-me que o idoso voltou ao emprego. Muito bem.
Foi assim, informalmente, que a SECRETÁRIA/DAMA DE PRIMEIRA, comunicou-me a
recondução do funcionário idoso ao emprego
Tem uma frase de um sábio chinês, Confúcio, 551 a.C. que diz: “não corrigir as próprias falhas é cometer a pior delas”. Existe, todavia, pessoas que quando travestidas de autoridade mandonista acha que é mais fácil ser imbecil do que voltar atrás numa decisão. O saudoso Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) dizia “que ninguém é bonzinho de graça”, logo... Bom, o certo é que o homem voltou. Intão tá.
E eu termino esta escrevinhação com a minha própria frase: a primeira Dama Michele Begot não fez nenhum favor, mas a atitude de reconduzir o velho servidor sem judicialização mostra que ela não se conforma em ser apenas uma primeira secretária. Quer mais, quer e tem tudo para ser, uma Secretária de Primeira... Amém !!!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

AS GUERRAS E O PROGRESSO, SÃO IRMÃOS SIAMESES?


 
A 3ª da esquerda para a direita, é a Jaqueline Almeida, jornalista, trabalha no Instituto Peabiru, que presta serviço à Unicef, foi a responsável pela capacitação da equipe de trabalho do Fórum Comunitário 

As guerras deixam algum legado bom? Deixam. Deixam Sim! E como...
Agora em agosto a primeira guerra mundia aniversaria. Completa 100 anos. E foi uma espécie de treino para a segunda, iniciada 25 anos depois, em 1939. Todas duas chefonas das guerras deixaram grandes benefícios à humanidade. Exemplos: Imagine o sofrimento que era soldado atirando com espingardas velhas que com certeza falhavam na hora fatal; quando isso acontecia, a luta tinha  que ser para enfiar baioneta na barriga um do outro. Credo! Era muito sofrimento.
O Avanço tecnológico já foi visto na segunda guerra: metralhadoras, fuzis e submarinos modernos, capacetes, encouraçados, armas químicas. Tudo de bom! Até a bomba atômica! Não fosse ela, a Segunda guerra se prolongaria por muito tempo.
Ao longo da história está provado, que nada é capaz de causar saltos tecnológicos tão grandes quanto uma guerra. E tem mais, quanto mais longa e sangrenta mais a tecnologia avança. Vejamos a aviação: na primeira guerra um Zepelim parecia uma tartarugona flutuando no ar e hoje, as super máquinas como os aviões de guerra americanos, modelos f 22, espalhando morte a 2.400km/h; na indústria automotiva, antes da primeirona,  a briga era em lombo de cavalos e foi justamente aí um dos maiores avanços, vieram os carros blindados, as motos Halley, por exemplo; na saúde, o raio X, o absorvente, os antibióticos.
A cirurgia plástica não começou agora esses dias com o Dr. Pitangui, não! Foi o esforço de um grupo de médicos que se juntou para remendar os rostos mutilados dos veteranos de guerra. Enfim, do banco de sangue, a lamina de barbear, alimentos enlatados e até, o hoje, absorvente íntimo, todos esses produtos são legados das duas guerras que mais mataram gente. Na comunicação então nem se fala. A internet de hoje, controle de tráfego aéreo e muitas e muitas outras coisas boas que  temos atualmente vieram, principalmente, como resultado das duas guerras mundiais. Ah, danadinhas...
Preste  atenção nessas siglas. Todas surgiram após as duas guerronas:
ONU= Organização das Nações Unidas
IAEA= Agência Internacional de Energia Atômica 
FAO= Organização de Comida e Agricultura  
OTAN= Organização do Tratado do Atlântico Norte
UNICEF= Fundo das Nações Unidas para a Infância
Pois é, de todos esses organismos que nasceram depois das maiores tragédias humanas e sociais, a UNICEF, fundada em 1946, justamente para ajudar crianças vítimas de guerras, isso a priori, porque hoje, presente em mais de 190 países em programas de desenvolvimento em longo prazo nos setores da saúde, educação, nutrição, água, saneamento e também em situações de emergência para defender as crianças vítimas não só de guerras, mas de outras catástrofes (que não são poucas), esta é, portanto,  a organização que merece o maior respeito pela proficuidade das atividades desenvolvidas em todo mundo, praticamente
Dos 610 municípios da Amazônia Legal onde o Unicef se faz presente, Marituba, no Pará, está se organizando em busca do Selo Unicef, que qualifica o município no quesito inclusão social, e é um dos mecanismos de estímulo às políticas públicas voltadas para a infância e adolescência. O pontapé inicial acontece no dia 8 de agosto, com a realização do 1º Fórum Comunitário.
 O Fórum faz parte da metodologia que a Unicef usa como estratégia para que os municípios partícipes elaborem um diagnóstico de como está a população de zero a dezessete anos, e tem como objetivo promover o fortalecimento  e a participação da comunidade nos processos de planejamento, execução, monitoramento e avaliação das políticas públicas voltadas para a criança e o adolescente, reunindo representantes e lideranças de associações de bairro, grupos religiosos, Conselhos e demais organizações que integram o sistema de garantia de direitos. 
 A Unicef é um dos maiores legados das guerras na área social e humana. Imaginemos: na primeira guerra morreram 19 milhões de pessoas, na segunda 60 milhões. Não fossem essas duas guerras e mais as catástrofes naturais onde morrem zilhões de criaturas, o mundo estaria hoje com uma superpopulação e quem, provavelmente, mataria as crianças, seriam os adultos... Para se alimentarem...
Dona Guerra! Feliz Aniversário pelos seus cem anos,  mas, por favor, pelo amor de Deus, não volte mais. ..

terça-feira, 22 de julho de 2014

"EI, ATENDE LOGO! É O MÁRIO...O PREFEITO..."



Ética, Respeito e Humanização. Sonhos impossíveis na política?

Na Grécia Antiga, período que vai de 1.100 ao ano 146 a.C., o  maior castigo que se podia impor a um ser humano, como pena a ser cumprida, não eram castigos físicos e nem pena de morte. Era o isolamento. O desterro. Era impedir o apenado de se comunicar com outras pessoas. E a comunicação entre criaturas é tão importante quanto  comer e beber. A incomunicabilidade é capaz de nos levar à morte. O homem se revela pelo que fala, pelo que escuta, e até pelo que lê. Logo, falar, escutar e ler pode ser terapêutico. A palavra certa dita no momento certo pode curar;  mas também a palavra errada, no caso, ofensiva, e dita na hora errada pode adoecer, quem sabe até, matar.  Não pode haver forma mais eficiente de se aproximar do semelhante do que pelo exercício  da palavra. Relacionar-se pelo exercício da palavra é uma chance preciosa de crescimento. É a vitrine que expõe de verdade quem você é para si e para os outros. Tá.
No dia 17/07/2014 aconteceu no auditório do IESP, aqui em Marituba, uma audiência pública. Era o executivo municipal fazendo um demonstrativo da LDO – Lei de Diretrizes Orçamentárias – para o exercício de 2015 (foi o que eu entendi).  Mas o  inusitado não foi a audiência, e sim, o que aconteceu na véspera. Eram quase dez horas da noite o telefone   em casa tocou, a minha mulher atendeu, me passou o aparelho e deu-se o seguinte diálogo:
- Alô, é seu Orlando?
- Sim. Sou eu, quem fala?
- Seu Orlando, aqui é o Mário...
- Que Mário?
- Mário Filho, seu Orlando.
- Mário Filho, o prefeito?
- Sim, seu Orlando.
- Bom, tô surpreso. A que devo a honra?
- Seu Orlando amanhã tem uma audiência pública lá no IESP e eu queria o senhor lá representando o Conselho do idoso...
Despedimo-nos com um “boa noite” recíproco e eu fui comentar com a irmãzinha o “estranho” e quase inacreditável telefonema, ponderando: - Caramba! O prefeito tem tanto secretário, assessor e puxa-sacos e ele mesmo faz essa convocação. Ah! Tô lisonjeado. Brinquei...
Bom, audiência pública é instrumento democrático de participação popular e um dos seus principais instrumentos é a oralidade. É quando executivo e legislativo ficam frente a frente com o eleitor reivindicante. Por isso que detentores de mandato nesse momento se escondem. Não aparecem. É que uma boa parte deles depois de eleitos costumam fugir  do povo como o diabo foge da água benta. Lá na audiência do IESP só dois vereadores apareceram, o presidente da Câmara e outro que está no primeiro mandato (ainda não exala o mau cheiro dos políticos profissionais).
O telefonema do prefeito pode até ser marketing pessoal, se for o alcaide vai economizar, e muito, dos R$ 2.400.000,00 previstos na LDO como despesa de ENCARGOS COM PUBLICIDADE DO PODER EXECUTIVO para o ano 2015, já que não vai precisar pagar marqueteiro, e além do mais, boa imagem se faz com trabalho e isso, felizmente, já é visível no município. Amém! O gesto do prefeito, também, é um “upgrade” na nova funcionalidade da gestão. Manter linha direta com pessoas do povo funciona como um catalisador de humanização. O Zé Mané que atende a ligação tende a se sentir o tal..., e isso é bom.
Na audiência, os dois minutos que me foi permitido falar, eu usei quase todo para fazer esta reivindicação que está neste ofício:
CONSELHO MUNICIPAL DOS DIREITOS DA PESSOA IDOSA
LEI 112/2013
MARITUBA - PARÁ

Ofício nº 002/2014
Ilustríssimo Sr. Mário Filho
Prefeito Municipal de Marituba

Eu, Orlando Mescouto Ramos, Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa no município de Marituba, sirvo-me do presente para, valendo-me do Artigo 3º da Lei 10.741 – Estatuto do Idoso, que diz:  Dentre outros atores que é obrigação do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, direito ao trabalho. Reforçado no parágrafo único do capítulo VI, artigo 27. Textuais: “o primeiro critério de desempate em concurso público é a idade, dando-se preferência ao de idade mais elevada”. Dito isto venho solicitar a Vossa Excelência a recondução ao quadro funcional da Prefeitura desse município, do Sr. HENRIQUE PENICHE BARBOSA, 62 anos, que há cinco anos era funcionário da Prefeitura, trabalhando na função de vigia e ultimamente exercia essa atividade no colégio Santa Tereza D’Ávila, tendo como agravante o fato de ter sido contratado, para substituí-lo, funcionários mais jovens.
Em anexo, cópia dos documentos  do referido ex-funcionário.
Certo de que a solicitação será atendida, fique com meus votos de estima e consideração.
Marituba,  17 de julho de 2014.
____________________________________
Orlando Mescouto Ramos
O diplomata americano Henry Kissinger dizia que noventa por cento dos políticos dão aos dez por cento exemplos de péssima reputação. Entristece-nos esta constatação. Ainda não sei o resultado desta minha solicitação, mas o fato  de um idoso, com 62 anos que não cometeu falhas graves, há cinco anos na mesma função, trabalhando no mesmo emprego, ser demitido para a vaga ser ocupada por funcionário mais jovem (provavelmente pagamento de favores políticos) é a confirmação de que a velha prática de fazer política continua metendo um pé na bunda dos gestos nobres e bem intencionados. Infelizmente...


















sexta-feira, 4 de julho de 2014

FILHO, SEGUE TEU TRILHO, QUE O ESTADO TE ABENÇOE...

Último momento. A foto da turma após uma dinâmica. O André Franzini é o camisa preta na fila dos agachados.
O politicamente correto hoje aqui no GIGANTÃO PELA PRÓPRIA NATUREZA é falar bem de índio, mesmo daqueles que falam dois ou mais idiomas e só andam com filmadora a tiracolo e têm sky na aldeia, dizer sim para o estatuto da criança e do adolescente batendo palmas para o SINASE, não virar a cara quando ver duas mulheres se beijando na boca ou homens (?) fazendo juras de amor, fazer campanha para retirada dos símbolos sagrados catolicismo (imagem do crucifixo, ex.) dos tribunais alegando a laicidade do Estado, e tem a questão do negro, bolsa família, etc.
Eu sou negro e velho, logo, tenho que ter muito cuidado quando assumo uma posição contrária à maioria. Quando isso acontece sou olhado como se eu fosse uma jiboia de biquíni que rebolativamente começa uma sessão de strip-tease. Por pena, ou respeito, as pessoas do grupo onde estou me poupam. Tá. Mas hoje, 03/07, eu passei por um massacre. Uma derrota acachapante. Não sei bem quantos éramos, mas certamente que o grupo tinha aproximadamente 30 pessoas e participávamos de uma oficina que visava minudenciar o SINASE – Sistema Nacional do Atendimento Socioeducativo – Lei 12.594, e a exposição era feita por um dos luminares do assunto no Brasil e que ajudou na elaboração da Lei, o ítalo-brasileiro boa praça André Francini,  que presta consultoria à prefeitura de Marituba. A plateia era predominantemente composta de mulheres assistentes sociais, pedagogas, psicólogas e conselheiros. Homens? Só cinco, aliás, só quatro: três homens e um velho, no caso eu, e mais o preletor e um psicólogo.
Sala com ar condicionado perfeito, merenda farta e saborosa e um explicador muito, muito competente. Domina o assunto. Não é norma, mas nessas situações para os atentos aprendizes o sim é incontestável. Então. É nesses momentos que eu lembro Nelson Rodrigues. Ele cunhou a frase: “toda unanimidade é burra”. Provoquei:
- O Estado entrou tão forte nas famílias que agora não podemos criar nossos filhos segundo a nossa vontade. São tantas as leis e estatutos que a gente só faz o que o estado quer... Hum! Sofri um mas-sa-cre. Uma desqualificação branca. Os argumentos  foram reforçados com exemplos da "presença" do Estado na vida (bpc, acs, estatuto do idoso, até o Contran entrou na lista...) e não nas famílias como eu perguntei, deixaram-me mais mudo do que a Múmia de Ramsés. Também pudera. Perdi de 30 a 1. Mas será que foi uma derrota mesmo assim esmagadora?
Sabe jumento velho quando empaca que nem fogo debaixo da barriga o tira do lugar? Às vezes eu sou assim, teimoso. Mas a pergunta que eu fiz, na realidade, foi essa: 1 “se as  políticas convencionais de direitos humanos são hipocrisias políticas  institucionalizadas utópicas?”. A avalanche de argumentos factuais como resposta tomou mais de quinze minutos (exatos 18 minutos) da palestra/aula. E eu? Claro, sou teimoso, mas não sou tão burro, logo, calei-me. Detalhe: o professor/palestrante foi ajudado por algumas das escutantes da plateia.
Um dia antes, numa fila  da lotérica eu escutei duas pessoas conversando, transcrevo aqui: “pois é vizinho! Porque a senhora não quis dá o bombom o menino que devia ter uns três anos, mas era todo gordinho, deu uma tapa tão forte na cara da mãe dele que ela lagrimou. Senti que ela ficou com vergonha...” O senhorzinho contra argumentou, com gestos fortes e uma cara de raiva: “ eu tenho um filho de oito anos e digo mesmo pra ele, o dia que eu não puder mais contigo eu te meto uma bala na cabeça. E ele tem medo de mim...”A dúvida é: Qual dos dois está errado, a que cumpre a lei ou o que descumpre? Ou será eu ambos estão certos?
Um político mineiro que em votações complicadas sempre ficava em cima do muro e ainda argumentava que não era “contra nem a favor  muito pelo contrário...”  Pois sim, eu às vezes sou até  inconsequente no que digo, mas prefiro-me assim do que  ter problemas de refluxo com aquilo que ficou entalado na garganta por medo de falar. Dou sim, minhas opiniões. Sofro reveses, mas eles (os reveses) me fazem bem. Aprendo. E aprendo muito.
Lei da palmada, proíbe pais infligirem qualquer ação que resulte em sofrimento com suposta intenção de educar;  
ECA, conjunto de normas do ordenamento jurídico brasileiro que tem como objetivo a proteção integral da criança e do adolescente;
Sinase, regulamenta a execução das medidas socioeducativas destinadas a adolescentes que praticam ato infracional.
Bom, a mãe apanha uma tapa do filho que não pode devolver porque o Estado a proíbe; o “de menor” mete uma bala na cabeça no momento que rouba o celular,  só porque a vítima olhou-o no rosto, e é protegido pelo Estado (sob a tutela do Estado o amizade não é bandido e nem mais menor infrator é um “socioeducando”); jovens e até crianças se envolvem mais cedo e mais rapidamente na criminalidade em comparação com algumas décadas atrás, quando não era só palmada mas cinturãozada, rimpada, cipoada com galho de goiabeira (um conselheiro tutelar anda com uma borracha pregada num pau para ilustrar as palestras dele, que foi mostrada  para ajudar me desqualificar e uma lamparina. Não entendi o por quê da lamparina). Eu sei que o super André Franzini não vai perder tempo lendo as baboseiras que eu escrevo aqui. Mas, para encerrar,  eu vou fazer mais perguntas.
Pergunta 2 (a 1 está lá em cima): Será que os ideólogos/humanistas/esquerdistas não estão querendo a todo custo anular o conceito de submissão de autoridade dos pais para submetê-los (filhos) ao domínio do Estado?
Pergunta 3: Será que esses atores não estão ansiando tornar a família um laboratório de pesquisa para psicopatias ideológicas com a intenção de implantar na sociedade uma consciência anestesiada incapaz de reagir às intromissões do Estado em assuntos privados (lembrar Hitler)?
Ultima pergunta, a 4:
Será que não é hora da sociedade brasileira reagir ao esvaziamento da autoridade dos pais antes que venha uma lei que decrete a total impossibilidade deles (pais) impor disciplina aos filhos?
Bom, irmãozinhos, é assim que eu penso...Quem concordar, maravilha,  Vá Fá I. Quem não concordar, paciência, Vá Fá II...

quinta-feira, 26 de junho de 2014

SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO HOMENAGEADO

Rindo, sorrindo, ou apenas mostrando os belos dentes, no cartaz gigante todos mostram só a felicidade que sentem quando são fotografados
              Em 2009, quando o prefeito eleito nas eleições de 2008 foi empossado, Marituba parecia ressurgir. O prefeitão  que largava o osso depois de oito anos, (dois mandatos)  vivia mergulhado até o pescoço em denúncias de corrupção. Roubalheira. Roubalheira. Roubalheira.
             Na base da pirâmide dos expert em canalhice roubar é o verbo que os vigaristas aprendem conjugar desde criança. Honestidade vem de berço, mas essas criaturas hediondas parece que foram criadas em balaios ou cocheiras. Não sabem ser honestas. Tem um detalhe que só a sociologia da corrupção deve explicar, é que muitas vezes alguns nasceram em famílias ricas, mas o DNA parece que  já veio deformado, ou deteriora-se, na hora que o pirralho escapole do bojo onde ficou curtindo a terrível espera, antes de pular fora e respirar o cheiro da turma da qual vai herdar as manhas e mumunhas. A chegada de mais   um seteunzinho é sempre motivo de festa, é a certeza que o sobrenome da família vai continuar em evidência. Eles. Todos eles, políticos profissionais, fazem dos filhos seus continuadores, logo, quando que corrupção vai acabar? Nunca! Nunquinha da silva...
               Quando o alcaide maritubano eleito em 2008 assumiu, menos de seis meses depois ele já estava “ganhando prêmios” nacionais. Dentre tantas “premiações” teve o “Destaque Brasil” (recebido em Santa Catarina). Seria cômico se não fosse trágico, mas tem outro desses “prêmios” que é difícil de esquecer, se não me engano em 2011, que foi o de  prefeito luz. Pô! Prefeito luz. Isso significa sabe o quê? Não sei. Aliás, só mesmo a assessoria de imprensa e comunicação do chefe da época tem a explicação. Mas o homem fez até declarações de amor à esposa  em grandes e vistosos outdoors espalhados pela beirada da BR. Bom, isso é passado (graças a Deus). Mas vieram outros, e cada um que passou deixou a sua marca registrada em propaganda visual do modelo pôster ou cartaz gigante. Muito bem.
                 Pôster ou cartaz gigante. Foi assim que o prefeito atual foi homenageado agora no dia 19 de maio passado. Deve ter sido data do seu aniversário. Lá estava escrito: “Parabéns Mário Filho, 19 de maio”, e a citação bíblica Feliz a nação cujo Deus é o Senhor (Salmo 33,12)- “homenagem vereador RAÍ”. Ponto.  Na foto o homenageado está sorridente. Feliz da vida. Merece. Afinal o homem lutou, lutou, lutou e chegou lá. É prefeito. Os homenageadores também são os de sempre e não são bajuladores. Faz parte do processo. Todos que ocuparam a cadeira mais cobiçada do município (sete em dois anos) foram agraciados com tais honrarias. Segundo o historiador francês Marc Bloch prestar homenagem é vassalagem, que significa submissão daquele que presta a homenagem,  mas este é um conceito da idade média e naquele tempo não eram cartazes ou placas gigantes. Eram atos práticos, lúdicos e românticos. Mais ou menos assim: o adulador ajoelhava-se aos pés do adulado, pronunciava umas palavras, e pra simbolizar o acordo e a amizade entre os dois,  beijavam-se na boca. Isso mesmo, na bo-qui-nha ..Argh! Pior, na época não tinham os cremes dental. Listerine? Nem pensar.
                Isso foi na época feudal, lá pelo século XIII, mais ou menos. Magine. O prefeito atual além da vassalagem natural que o cerca, ele ainda por cima é evangélico. Hum! Fosse igual como naqueles tempos de antanho o coitado já não tinha mais saliva.
 Acho até, que não tinha mais nem beiços...

terça-feira, 3 de junho de 2014

A NOSSA SENHORA DOS ESPINHOS, O VATICANO E O JOSÉ DE ANCHIETA SANTO

À esquerda, figura perfeita: o olhar de ódio do silvícola na direção do padre santo. À direita, nus com os pintos livres, soltos e felizes mas, para a igreja, pecadores.

        Nossa Senhora dos Espinhos (Bragança), São Miguel dos Macacos (Baixo Amazonas), Santo Antônio das Panelas (Oriximiná), São João do Furo (São Miguel do Guamá), São Benedito de Urupé (Marajó). Esses são nomes de “santos” agregados a vilarejos e seus respectivos municípios/sede, aqui no Pará. São os primos pobres da Nossa Senhora de Guadalupe, São Francisco de Assis, Santiago de Compostela (México, Itália e Espanha, respecivamente).
Pois é. Antigamente, santos eram figuras míticas da fé cristã, pessoas de conduta e virtudes ímpares, capazes de se submeter às mais terríveis provações em nome da religião que professavam. Depois de mortas e já candidatas à santidade, eram responsáveis por milagres e feitos extraordinários. Com essas exigências, ser santo era uma meta quase inatingível para seres humanos normais, repletos de defeitos e fraquezas e expostos às tentações e ao pecado.
O Papa João Paulo II foi o recordista absoluto na fabricação de Santos. Fez Santo por atacado. Ao todo canonizou mais de 400 (447, exatamente). Duma tacada só proclamou 120, que segundo ele descobriu, foram cristãos martirizados na China, no período de 1648 a 1930. Detalhe, durante os 22 anos que ele reinou no comando da Igreja Católica, foram promovidas mais de 1000 (exatas 1052) beatificações, que é o penúltimo, ou ultimo (não sei bem direito) estágio para o coroamento da santidade.
Pois bem, mas, e o José de Anchieta, Santo, não é demais? Eu acho que a mão pesada do favorecimento papal pesou em favor do seu Zezinho Anchieta.
 Se não vejamos: uma das regras para a santificação é ter, pelo menos, dois milagres comprovados. Nunca ouvi falar de  nenhum milagre anchietano. O que se sabe, e não precisa ser historiador, é que todos que vieram nas canoas da portuguesada, chegaram aqui na terra brasilis, a serviço da coroa portuguesa,  e religiosos, como o Anchieta, tinham como função específica a missionaridade de catequização, conversão e civilização da turma de cabelos lisos, que andavam pelados, e eram os únicos moradores da terra invadida e apelidada de “Santa Cruz”. Os métodos tradicionais conhecidos hoje, com perguntas feitas pelo catequista, ex. “quem é Deus?” certamente que não existiam. É mais provável que o primeiro beabá da lição era: “Matai vosso Tupã”. O hoje, santo Anchieta, não morria de amores pelos índios tanto que numa carta enviada aos patrões  ele trata os tupinambás como inimigos carniceiros, e se alegra com a estratégia de, aproveitando-se quizila que reinava entre os índios, os franceses e portugueses ele conseguiu fazer os nativos lutarem entre si. Um trecho da carta diz:
 “E foi coisa maravilhosa que se achavam e encontravam a flechadas irmãos com irmãos, primos com primos, sobrinhos com tios e mais ainda dois filhos que eram cristãos e estavam do nosso lado contra seu pai que estava contra nós”.
Outro trecho de um poema do Zé Anchieta, dedicado ao governador Mem de Sá, referindo-se aos índios que ele combateu:
 “para este gênero de gente não há melhor pregação do que o ferro e a espada”.
E mais:
“Lá os índios são“lobos vorazes, furiosos cães e cruéis leões que nutriam o ávido ventre com carnes humanas”. Estes índios “selvagens e animalescos” abandonaram Deus e precisavam ser catequizados para escaparem “das garras de Satanás”.
Garras do satanás. Hum, hum...
Mas  a raiva do Anchieta não deixa de ter uma razão, pô! No meio das bugigangas que os índios recebiam não estavam só espelhos, fósforo, apito, não! Tinham escapulários, que eles inocentemente penduravam nos pescoços dos macacos, cotias, veados e tatus que eram criados nos terreiros das ocas. Bom, pelo menos, o caçula dos santos latino não é do pau oco, já que foi canonizado, diferente da  Nossa Senhora dos Espinhos, São Miguel dos Macacos, Santo Antônio das Panelas, São João do Furo e do São Benedito de Urupé. Os coitadinhos estão orgulhosos achando que ganharam, com a santificação do Anchieta, um parceiro. Tadinhos...
Devo estar cometendo uma heresia,  mas,  acho que interesses geopolíticos fizeram  o Anchieta santo, só pode. Na minha modesta e pirenta opinião, o Papa Francisco deu uma bola fora. Pisou feio no tomate. Para este santo, nem altar. Nem andor. Não! Não mesmo...!!!
O Conselho Indigenista Missionário órgão ligado a CNBB, produziu esse documento, em 1979, numa assembleia geral realizada em Goiânia:
“Reconhecendo os erros que cometemos como Igreja na nossa atuação missionária junto aos povos indígenas, pedimos perdão a eles e a Deus”.
E mais, o CIMI se comprometeu mudar a prática e respeitar as religiões indígenas, inclusive, assumindo os mitos e a vida religiosa, através dos quais cada povo recebe a Revelação de Deus.
É, os supapuaçus, os morubichabas, os  anuari, que morreram pelas atrocidades da cambada invasora, da qual fazia parte o novo santo, o Anchieta, devem estar encarando o Tupã, e com certeza, dizendo em tom ameaçador:
- Ah, esse santo qué reza. Ah qué! I si ele qué, ele vai tê...
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