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| À esquerda, figura perfeita: o olhar de ódio do silvícola na direção do padre santo. À direita, nus com os pintos livres, soltos e felizes mas, para a igreja, pecadores. |
Nossa
Senhora dos Espinhos (Bragança), São Miguel dos Macacos (Baixo Amazonas), Santo
Antônio das Panelas (Oriximiná), São João do Furo (São Miguel do Guamá), São
Benedito de Urupé (Marajó). Esses são nomes de “santos” agregados a vilarejos e
seus respectivos municípios/sede, aqui no Pará. São os primos pobres da Nossa
Senhora de Guadalupe, São Francisco de Assis, Santiago de Compostela (México, Itália
e Espanha, respecivamente).
Pois
é. Antigamente, santos eram figuras míticas da fé cristã, pessoas de conduta e
virtudes ímpares, capazes de se submeter às mais terríveis provações em nome da
religião que professavam. Depois de mortas e já candidatas à santidade, eram
responsáveis por milagres e feitos extraordinários. Com essas exigências, ser santo
era uma meta quase inatingível para seres humanos normais, repletos de defeitos
e fraquezas e expostos às tentações e ao pecado.
O
Papa João Paulo II foi o recordista absoluto na fabricação de Santos. Fez Santo
por atacado. Ao todo canonizou mais de 400 (447, exatamente). Duma tacada só proclamou
120, que segundo ele descobriu, foram cristãos martirizados na China, no
período de 1648 a 1930. Detalhe, durante os 22 anos que ele reinou no comando
da Igreja Católica, foram promovidas mais de 1000 (exatas 1052) beatificações,
que é o penúltimo, ou ultimo (não sei bem direito) estágio para o coroamento da
santidade.
Pois bem, mas, e o
José de Anchieta, Santo, não é demais? Eu acho que a mão pesada do
favorecimento papal pesou em favor do seu Zezinho Anchieta.
Se não vejamos: uma das regras para a
santificação é ter, pelo menos, dois milagres comprovados. Nunca ouvi falar
de nenhum milagre anchietano. O que se sabe,
e não precisa ser historiador, é que todos que vieram nas canoas da
portuguesada, chegaram aqui na terra brasilis, a serviço da coroa portuguesa, e religiosos, como o Anchieta, tinham como
função específica a missionaridade de catequização, conversão e civilização da
turma de cabelos lisos, que andavam pelados, e eram os únicos moradores da
terra invadida e apelidada de “Santa Cruz”. Os métodos tradicionais conhecidos
hoje, com perguntas feitas pelo catequista, ex. “quem é Deus?” certamente que
não existiam. É mais provável que o primeiro beabá da lição era: “Matai vosso
Tupã”. O hoje, santo Anchieta, não morria de amores pelos índios tanto que numa
carta enviada aos patrões ele trata os
tupinambás como inimigos carniceiros, e se alegra com a estratégia de,
aproveitando-se quizila que reinava entre os índios, os franceses e portugueses
ele conseguiu fazer os nativos lutarem entre si. Um trecho da carta diz:
“E foi coisa
maravilhosa que se achavam e encontravam a flechadas irmãos com irmãos, primos
com primos, sobrinhos com tios e mais ainda dois filhos que eram cristãos e
estavam do nosso lado contra seu pai que estava contra nós”.
Outro trecho de um
poema do Zé Anchieta, dedicado ao governador Mem de Sá, referindo-se aos índios
que ele combateu:
“para
este gênero de gente não há melhor pregação do que o ferro e a espada”.
E mais:
“Lá os índios são“lobos vorazes, furiosos cães e
cruéis leões que nutriam o ávido ventre com carnes humanas”. Estes índios “selvagens
e animalescos” abandonaram Deus e precisavam ser catequizados para
escaparem “das garras de Satanás”.
Garras do satanás.
Hum, hum...
Mas a raiva do Anchieta não deixa de ter uma
razão, pô! No meio das bugigangas que os índios recebiam não estavam só espelhos,
fósforo, apito, não! Tinham escapulários, que eles inocentemente penduravam nos
pescoços dos macacos, cotias, veados e tatus que eram criados nos terreiros das
ocas. Bom, pelo menos, o caçula dos santos latino não é do pau oco, já que foi
canonizado, diferente da Nossa Senhora
dos Espinhos, São Miguel dos Macacos, Santo Antônio das Panelas, São João do
Furo e do São Benedito de Urupé. Os coitadinhos estão orgulhosos achando que
ganharam, com a santificação do Anchieta, um parceiro. Tadinhos...
Devo estar cometendo
uma heresia, mas, acho que interesses geopolíticos fizeram o Anchieta santo, só pode. Na minha modesta e
pirenta opinião, o Papa Francisco deu uma bola fora. Pisou feio no tomate. Para
este santo, nem altar. Nem andor. Não! Não mesmo...!!!
O
Conselho Indigenista Missionário órgão ligado a CNBB, produziu esse documento,
em 1979, numa assembleia geral realizada em Goiânia:
“Reconhecendo os erros que cometemos como Igreja na
nossa atuação missionária junto aos povos indígenas, pedimos perdão a eles e a
Deus”.
E mais, o CIMI se
comprometeu mudar a prática e respeitar as religiões indígenas, inclusive,
assumindo os mitos e a vida religiosa, através dos quais cada povo recebe a
Revelação de Deus.
É, os supapuaçus, os
morubichabas, os anuari, que morreram pelas
atrocidades da cambada invasora, da qual fazia parte o novo santo, o Anchieta,
devem estar encarando o Tupã, e com certeza, dizendo em tom ameaçador:
- Ah, esse santo qué
reza. Ah qué! I si ele qué, ele vai tê...



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