Subscribe:

Ads 468x60px

quarta-feira, 2 de março de 2016

ESPOSA ASSUSTA MARIDO QUE SALTA NU PELA JANELA DO PRÓPRIO QUARTO


Confusão. Susto. Medo. Não fosse o vexame de ter saltado nu pela janela da própria casa e  corrido quase meio quarteirão na frente do Portuga da estrebaria, nimguém jamais saberia do que ocorreu com a Guiomarina e o Pedrão 

No início da década de 60 existia, mais ou menos onde hoje é o Curro Velho, uma estrebaria. Era do seu Joaquim, um português. Das 10 vacas, que pastavam na área da estrebaria e em terrenos desocupados no entorno, o portuga tirava leite que abastecia as boeiras do Ver o Peso, do Igarapé das Armas (ou das Almas, para muitos), mercado do telégrafo e algumas famílias de bairros adjacentes. A distribuição era feita em carroça, e como não existia naquele tempo os sacos plásticos, o leite saia direto da gamela grande do seu Joaquim para a vasilha do freguês. Era o delivery lácteo do Portuga.
O Pedro, conhecido como Pedrão por causa do seu 1,90m de altura, casou com a Guiomarina. Morena sestrosa que quando passava na rua olhares de inveja da mulherada e cobiçosos dos homens faziam-na andar mais rebolativa ainda. Ela sensualizava legal, e sabia que causava esse furor.
Logo depois do casamento o Pedrão arrumou emprego na Marinha Mercante. Era Marinheiro de Convés. E a primeira viagem durou quase seis meses. A segunda já durava mais de sete meses, quando a tripulação foi avisada que o cargueiro chegaria em Belém numa data que coincidia com um final de semana. Um sábado. E, de fato, era meia noite quando o naviozão brecou as máquinas na baía do Guajará. Como era grandão o cargueiro ficou fundeado lá fora. A tripulação veio para a terra em pequenos botes.
 A Guiomarina tinha sido avisada por telegrama da chegada do Pedrão e se emperequetou toda. Não dormiu. Uma da manhã o maridão chegou. Amaram-se! Amaram-se! Amaram-se! Extenuados, era quase seis horas quando, enfim, dormiram.
Seis e meia o Portuga chegou para entregar o leite e, toc, toc, toc. Bateu na porta com os nós dos dedos. De repente, ele escutou um furdunço dentro da casa, que era de madeira, e como o quarto do casal era o cômodo da frente deu para o seu Joaquim ouvir bem o que a Guiomarina dizia em desespero:
- Meu Deus do céu! O dia tá claro! Pelamor de Deus foge que o Pepê (era assim que ela chamava o marido) tá batendo na porta...
E o inusitado aconteceu. Um homem nu, peladão, saltou pela janela com o monte de roupa nas mãos e saiu correndo. Era o Pedrão, marido da Guiomar, como o Portuga a tratava.
- Ei Pedrãaoo! Gritou o Portuga com forte sotaque lusitano: - Ô raios c’os diabo porque estás a correr, assim, peladão? De chofre o Pedrão parou. Olhou rápido para os lados. Não havia ninguém na rua àquela hora. Foi quando ele percebeu que estava nu. Voltou rápido. Protegido pela carroça, vestiu-se. Olhou para a cara do Portuga e num gesto de grossura disfarçada despachou o homem:
- Vai-te embora, Joaquim! Não quero leite hoje...
Ele tinha a chave da casa que estava no bolso da calça. Abriu a porta. Entrou. Encontrou uma Guiomarina na cozinha ainda de combinação (roupa de dormir que combinava anágua e sutiã numa peça só) parecia uma barata tonta. Sem fixar o olhar no marido.  Ela dispôs a chaleira no fogão para fazer café, e ao invés de derramar querosene na lenha para começar o fogo, derramou a água que estava na chaleira, molhando a lenha e o fósforo. Os dois, Pedrão e Guiomarina, estavam parecidos gato quando derruba o vaso. Desconfiados. Ficaram por uns longos segundos numa contemplação mútua, enviesada e reflexiva. Até que ambos, ao mesmo tempo, abraçaram-se longamente. Um abraço de amor, cumplicidade e compreensão... Aconteceu um milagre. O Amor Venceu.
O Pedrão desembarcou do cargueiro de longo curso. Passou a trabalhar como marítimo em viagens por municípios da Amazônia. Ficava no máximo uma semana longe de casa. O casal teve dois filhos. Viveram juntos quase trinta anos. Aliás, só separaram quando o Pedrão comeu uma pratada de turú estragado, no barco que ele trabalhava como Primeiro Oficial de máquinas. Teve infecção intestinal, passou mal e morreu ainda embarcado.

A Guiomar, com 49 anos, mas ainda muito bela e conservada, foi trabalhar na cozinha do Kokotão, uma boate que tinha no telégrafo e que era de um antigo amigo, que também foi vizinho do tempo que o Pedrão era marinheiro de longo curso...


terça-feira, 1 de março de 2016

UM DEUS CASCA GROSSA PARA POBRES, OPRIMIDOS E HUMILHADOS

Esse pai enterrou o filho depois do tsunami de lama no desastre em Minas Gerais, e junto com outras vitimas do desastre está sofrendo para ter, pelo menos, onde morar. Oh! que falta faz aquele deus do velho testamento...

Episódio UM  Justiça(IN)
O Odorino tinha acabado de casar e teve que viajar à serviço. O coitado demorou mais do que devia, e principalmente do que podia esperar a senhorinha com quem ele casara. Veio sem avisar. Quando arriou a enorme malona na sala da casa da mãe e tomou a benção,  a velha foi logo buzinando no ouvido do filho:
- Tu já foste na casa da tua mulher?
- Não, mãe. Eu vim primeiro aqui tomar sua benção.
- Pois é. Vou te dizê logo. Ela tá botando chifre em ti. E é com aquele velho fazendeiro que não saía da casa da tua sogra ante de tu viajá.
Era cedo. O Odorino tinha descido no aeroporto às seis da manhã e no estômago estava só com o lanche servido no avião. Fingindo-se forte, sentou-se no banquinho de madeira na cozinha da casa, pousou os dois cotovelos na mesa, uniu as mãos com os dedos entrelaçados formando um ângulo reto e pousou a cabeça no vértice superior. Ficou assim por um bom tempo, com o olhar fixo na beirada da mesa. A mãe serviu um café, acompanhado com  beju de massa que a mesma fabricara lá no interior onde ela tinha roça. Tinha se arrependido de ter dado a notícia da infidelidade da nora, assim, de primeira, antes do filho ter chegado na casa dele. Ela adorava  o filho. Era o terceiro da prole e o primeiro dos quatro homens que formava a família de doze no total. O Odô, como todos o chamavam, não tomou o café. A mãe estava só. O pai tinha saído para o trabalho e os irmãos menores que estudavam estavam na escola, outros nas ruas trabalhando na venda picolé ou pela vizinhança limpando algum terreno. Trabalho duro que rendia alguns trocados. Era uma sexta feira.
Nove horas da manhã, finalmente o Odô chegou na casa dele. Foi recebido pelo “quebra ferro”, o vira lata de estimação que ao vê-lo saltou, latiu, lambeu as pernas do dono, que amargo como estava, se lembrou dum pedacinho da música do Roberto Carlos, “meu cachorro me sorriu latindo...”. A Cleonice, Cléo para o Odorino, estava para o trabalho. Ela era professora em uma escola não muito perto da casa.
Anita,  a moça que tomava conta das crianças, levou um susto ao vê-lo com a malona já no pátio. Toda atrapalhada por causa da casa que ainda estava desarrumada e a própria Anita encontrava-se ainda com a roupa da noite. Uma camisola fina, sem nada por baixo, e a alça do lado esquerdo era um filete de pano frouxo arriado que deixava o seio  à mostra. Respondeu o “bom dia” do patrão já no corredor. Tinha voltado correndo, foi mudar de roupa. Sem nada falar, ele entrou no quarto do casal, deu uma olhada redonda no espaço, encostou a malona na penteadeira sem abri-la. Foi até o quintal passando pela cozinha sem prestar atenção em nada. Se tivesse se detido um pouco, teria visto uma cueca e um par de meias de homem que estavam estendidas na cordinha esticada por cima do tanque de lavar roupa ao lado da porta da cozinha. Espaços separados por uma grade. Quando ele passou direto, a Anita, mais que rapidamente, retirou os utiles masculinos enfiou em um saquinho plástico e meteu dentro da lixeirinha da cozinha. As crianças que ela tomava conta eram quatro (só dois eram filhos biológicos do Odô. Outros dois a Cléo já tinha quando casaram), estavam todas para a casa das avós. Era quase meio dia quando a Cléo chegou. A Anita que já tinha ido embora, ficou estrategicamente próxima a casa dos patrões e avisou a patroa que o Odorino tinha chegado.
Quando a Cléo entrou em casa toda feliz da vida, encontrou um Odô estranho e o volume do rádio estava muito alto. Ela correu para abraçá-lo. Ele, ao invés de corresponder ao abraço, segurou-a pelos ombros forçando-a contra a parede. Falando entredentes, disse:
- Eu já sei de tudo. Sei que tu tá dando o rabo por aí. Eu não sei onde eu tô qu’eu não meto uma bala na tua cabeça e outra na cabeça do teu amante. Vagabunda! Disse isso e saiu. Foi na casa de uma tia, irmã da mãe, que morava próximo, que confirmou: “É verdade, meu filho. Ela tá mesmo saindo com ele...” Conversaram outros assuntos. Almoçaram. A tia armou uma rede e o Odô dormiu.
Era quase três da tarde quando uma patrulhinha da PM parou em frente da casa. Um soldado anunciou que queria falar com o Odorino. “Só esclarecimentos na delegacia...”Disse o policial. Avisado, o Odô, sem reagir, despediu-se da tia e saiu na “carona” no carro da “dura”. Quando chegaram na chefatura de polícia lá estavam a Cléo, a mãe dela dona Rita, o suposto amante e os policiais. Deu-se esse diálogo:
- Foi tu que dissestes que queres meter uma bala na minha cabeça? Fica falando merda. E se eu passar com meu carro por cima de ti? Perguntou o suposto amante da Cléo.
- Se tu me matar o meu cadáver vai ser preso. Porque quando um rico mata um pobre quem vai preso é o defunto. Respondeu o Odorino cheio de sarcasmo.
Foi o suficiente para irritar o delegado, que chamou um policial e deu ordem para enxadrezar o pobre do Odorino. O corno.
A Cléo caiu no choro. A mãe dela resmungou algo como: “Fica falando besteira por aí, resultado é isso...”O policial, cumprindo ordens do superior, levou o Odô para a cela. O Odorino, mesmo sem esboçar nenhuma reação levou um pescoção do meganha, que ainda falou em tom de ameaça:
- Olha bem pra minha cara, vagabundo! Disse isso para marcar território, já que não havia motivo nenhum para tal assertiva.
“Estás aqui por queres, voltarás se quiseres”. O Odorino se deparou com essa frase escrita no alto da parede na cela. (Isso foi em 1973)

Episódio DOIS:
O Leonildo tem 17 anos. Magrinho, usa boné e brinco. E como todo adolescente faz algazarra, Apronta. Mas é um menino bom e não dá dor de cabeça aos pais e nem à  professores. Passeava de bicicleta no conjunto residencial onde mora quando cruzou com uma viatura da polícia. Um policial desceu do carro e ordenou que ela parasse. E começou um mini interrogatório.
- Quantos anos tu tem?
-17
- Tem documento?
- Sim. Meteu a mão no bolso, retirou o RG e mostrou. Revistado, o policial encontrou o celular.
- De quem é esse celular?
- Meu. O policial mexeu no aparelho, viu a foto do Leonildo, devolveu o celular.
- Tás com sorte. Vagabundo!
- Porque vagabundo? Me respeite. Resmungou o Leonildo.
Foi o suficiente para o policial dá-lhe um tapa violento fazendo com que o Leonildo caísse por cima da bicicleta. Foi chutado. Não satisfeito o policial ainda retirou um spray de pimenta que espirrou na cara do Leonildo. Hoje, dois anos depois, o jovem sofre um grave problema na visão com risco de ficar cego. Ah, quando ele caiu por cima do velô quebrou uma costela...(Isso foi em 2014)

Episódio TRÊS
O Roberto foi funcionário do grupo Líder por oito anos. Trabalhava no setor de frios. Um dia qualquer do mês de abril do ano passado,  o parceiro substituto faltou e o Roberto teve que virar serviço. Passava das 21 horas. Morto de fome pediu ao gerente do setor permissão para comer alguma coisa. O gerente negou. Sem alternativa, o Roberto pegou frango no restaurante e comeu de frente para as câmeras. Não fez questão de se esconder porque, segundo ele “não tava roubando”. Três dias depois foi chamado ao DRH onde foi mostrado a imagem dele comendo. E o veredito: demissão por justa causa. Roubo!
O Roberto luta desde abril em busca de uma indenização. Como é pobre e está sobrevivendo com a venda de balas. Não tem dinheiro para contratar um advogado. O sindicato não quer se indisponibilizar com os patrões, largou o Roberto ao léo. Um causídico foi ao socorro do Roberto e assumiu a causa. Prometeu ganhá-la mas ficará com 30% do valor . Bem acima do que manda a lei relativa aos honorários  advocatícios, que é de 20%. Se a causa for ganha, o Roberto sofrerá mais uma injustiça. (Isso foi em 2015)

Assisti todos os capítulos da novela “Os dez Mandamentos” na Tv. Record do Edir Macedo. Não fui ver o filme na telona. Era reprise...No folhetim televisivo Deus mandava as pragas encima dos egípcios porque esses escravizavam e maltratavam os Hebreus. Água transformada em sangue, passando pela invasão de rãs, mosquitos, moscas, gafanhotos, peste em animais, feridas em gente, chuva de pedras, trevas e morte dos primogênitos. Morte!
Essas coisas fazem a gente pensar: Diante de tantas injustiças, será que não está passando da hora de termos um deus assim, justiçador; um deus, que de fato, na prática, se preocupa com os pobres e oprimidos? Um deus casca grossa. Que caia de pau sobre os poderosos que praticam injustiças, que agridem, humilham, matam? Um anjo exterminador ou um dilúvio só para a cambada que comete injustiças contra desgraçados são mais do que bem vindos. Ou diante da nossa impotência temos mesmo que nos conformar e entregar “tudo a Deus...”. Esse Deus perdoador; Deus de amor fraterno bondoso e compassivo; continuar comendo todo dia o pão que o diabo amassa todo dia. Ou vai chegar, se já não chegou sem que percebamos, estarmos comendo o pão que o diabo atira de qualquer maneira, isto é, ele não tem mais nem o trabalho de amassar.

Acostumados ao sofrimento estamos insensíveis. Não prestamos mais atenção ao que comemos... Só pode. 
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...