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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O PAI NOSSO, E O NOSSO FIM DO MUNDO

Anos atrás aí por volta de 1977 mais ou menos eu estava na casa da minha irmã, em Benevídes. Era um domingo, início da noite e desabava um temporal. De repente, um estrondo ensurdecedor, as luzes da casa e da rua se apagaram, ao mesmo tempo que um clarão iluminava tudo na rua. Algo assustador jamais visto por ali. O pavor tomava conta de todo mundo causando histeria. Ouviam-se gritos e choro nas duas casas vizinhas mais próximas.
 Na residência de um dos vizinhos, a dona da casa, Dalva, ajoelhou-se diante do marido que surpreso, atônito e estupefato, ouviu da madame uma inesperada confissão: a jovem senhora, em desespero, ajoelhada ,contou-lhe que o traía com um cidadão que, na época, era prefeito local. Contou tudo e implorou que a perdoasse. Ela estava certa que aquele estrondo seguido do enorme clarão era o fim do mundo. Queria morrer “limpa”. Perdoada.
Tudo acalmou. Voltou escurecer. Aquele destampatório todo foi causado por um  transformador da rede de energia que tinha estourado e incendiou a fiação em toda a extensão da rua. Velas acesas, e começou outra solitária gritaria com muito choro e pedido de socorro. Corremos para ver o que estava acontecendo. Deparamos com a Dalva caída numa poça d’água no terreiro da casa, ao lado de uma trouxa de roupa com olho roxo, muito machucado. Chorava. Chorava muito. Pois não é que pobrezinha pensando em ir para o céu, depois de ter “pulado a cerca” abriu o jogo? A coitada se deu mal. Quando caiu na real, apanhou. Apanhou muito, e  nesse tempo não tinha a Maria da Penha.
Em 1999 quando anunciaram, de novo, o fim do mundo, o Tio Isaac, irmão do meu pai,  mas que já tinha 60 anos, se suicidou à véspera do dia anunciado para o fim. Disse antes para alguns colegas e gente da família que não queria morrer junto com todo mundo.
Estamos a menos de uma semana do início de mais um ano, o dois mil e treze, e os profetas do apocalipse falharam mais uma vez. O dois mil e doze vai entregar o bastão para seu sucessor, o dois mil e treze, lépido e fagueiro, na boa. É a 12ª derrota dos anunciadores do fim do mundo. E o mais interessante é que a próxima data para o outro fim, já está marcada: será em 2060, segundo previsões do físico Isaac Newton.
Na realidade, segundo pesquisas, o fim acontece diariamente para 6.178 e começa para 211 mil pessoas no mundo todo – essa é a relação de mortos e nascimentos/dia - Nas duas guerras mundiais que aconteceram o mundo  findou, no atacado,  para mais de 90 milhões de pessoas. Desastres naturais como terremotos, maremotos, tsunamis e mais os conflitos armados, tudo isso faz findar o mundo de multidões, e seria terrível se não fosse assim. São fins extremamente necessários. Pensemos: a população mundial tem sete bilhões de pessoas. Não tivessem acontecido as duas grandes guerras e outras hecatombes, qual seria a população do mundo hoje? Vinte, trinta bilhões? Provavelmente...Aí, canibalismo seria algo já bem natural. Bom, aquele número estimado de mortos aí no alto destes escritos é uma balela, porque segundo a ONU, a cada um minuto morrem doze crianças, só de fome, no mundo.
                É isso. Como eu estou postando este texto hoje na noite de Natal, vou terminá-lo refletindo a oração que todos rezam ou oram, O PAI NOSSO. Antes desejando para os que leem estas “coisas” qu’eu escrevo um abençoado Natal; um 2013 pior que 2011 e muito, muito mesmo, melhor que 2012. Amém?...
“SE EM NOSSAS VIDAS NÃO AGIMOS COMO FILHOS DE DEUS, FECHAMOS O CORAÇÃO PARA O AMOR, SERÁ INUTIL DIZERMOS: PAI NOSSO QUE ESTÁS NO CÉU; SE NOSSOS VALORES SÃO REPRESENTADOS PELOS BENS DA TERRA, SERÁ INUTIL DIZERMOS: SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME; SE NO FUNDO O QUE NÓS QUEREMOS É QUE TODOS OS NOSSOS DESEJOS SE REALIZEM, SERÁ INUTIL DIZERMOS: VENHA A NÓS O VOSSO REINO; SE ACHAMOS MAIS SEDUTORA A VIDA AQUI, CHEIA DE SUPÉRFLUOS E FUTILIDADES, SERÁ INUTIL DIZERMOS: SEJA FEITA A VOSSA VONTADE ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU. SE PREFERIMOS ACUMULAR RIQUEZAS DESPREZANDO NOSSOS IRMÃOS QUE PASSAM FOME, SERÁ INUTIL DIZERMOS: O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE; SE NÃO NOS IMPORTAMOS EM INJUSTIÇAR, FERIR, MAGOAR OS QUE ATRAVESSAM NOSSOS CAMINHOS, SERÁ INUTIL DIZERMOS: PERDOAI NOSSAS OFENSAS, ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS QUEM NOS TEM OFENDIDO; SE ESCOLHE SEMPRE O CAMINHO MAIS FÁCIL, QUE NEM SEMPRE É O CAMINHO DE CRISTO, SERÁ INUTIL DIZERMOS: NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO; SE, PELA NOSSA VONTADE, PROCURAMOS SÓ OS PARAZERES MATERIAIS E TUDO QUE É PROIBIDO NOS SEDUZ, SERÁ INUTIL DIZERMOS: LIVRAI-NOS DO MAL; SE, SABENDO QUE SOMOS ASSIM, NADA FAZEMOS PARA NOS MODIFICAR, SERÁ INUTIL DIZERMOS: AMÉM

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

PROIBIÇÃO: A "IDIOTOCRETINICE" PERMITIDA


No final da década de sessenta, 1967, mais ou menos, eu fui barrado na porta do Olympia (queria assistir o Dólar Furado). Motivo: estava de chinelo. Eu era um pequeno cinéfilo, classe “D”. Fazia parte de um grupo de ferradinhos que, aos domingos, estendia revistas nas calçadas na frente dos cinemas para fazer um escambo ou descolar algum trocado, vendendo. Era Fantasma, Mandrake, Zorro, Capitão América, Batman, Homem Aranha, etc...Tudo preto e branco, não existia ainda as coloridas.
Depois dos negócios, o lazer. Cinema. Às vezes três sessões por tarde.  O meu gênero preferido: o faroeste (bang bang). Nos cinemas Palácio, Nazaré, Moderno, Independência e Ópera (o Ópera daqueles tempos, porque o de hoje...) não podia entrar de chinelo. Esse complemento do vestuário só era permitido nos cinemas da periferia, São Jorge e Paraíso, na Pedreira; Guarany, na Cidade Velha, Cine Art, na Praça Brasil; Cine Brasilândia, na Sacramenta e Cine Marambaia.
                Proibição. São normas que impõem regras de comportamento. Foi por causa do excesso de proibições que surgiram os anarquistas. A doutrina do anarquismo pregava a liberdade total, sem qualquer forma de autoridade e dominação. Seria um tipo de convivência baseada na autogestão, onde os indivíduos pudessem viver em propriedades coletivas, de forma solidária e pacífica, sem a formalidade de governos constituídos. Nada de polícia, escola tradicional, casamentos, etc. Isso está tudo lá na bíblia dos anarquistas, o livro Que é a Propriedade, escrito em 1840 por um dos principais defensores dessa forma de viver, o filósofo, político e teórico Pierre-Joseph Proudhon.
 Tive a oportunidade de viver em mini-países, ex-colônias europeias, onde a população nativa é 100% negra descendentes de povos africanos. Lá, em alguns lugares, o homem pode tranquilamente colocar a manipeba para fora e mijar, mesmo tendo mulher por perto. Normal. Falta grave é sacudir o grandão. (aquela sacudidela básica que faz cair os dois últimos pingos). Dá até cadeia. É um pouco do anarquismo já normatizado, afinal, balançar faz parte do ritual da mijada masculina.
                 Quando eu era menino assistia um jogo de futebol no Terêterê, um povoado lá no Rio Tauá. Era o Marituba e o Pau Sêco que pelejavam em campo. O árbitro era o “Tio Constâncio”. Detalhe que não esqueço: ele ficava de cócoras no meio do campo de onde apitava o jogo. O Manduca, atacante rápido, em determinado momento dominou a bola no campo de defesa do “Pau” e disparou. Foi embora em velocidade passando por todo mundo. Quando ele se aproximou da grande área do Marituba, trrriiiii. A jogada foi interrompida. O Manduca, morto de cansado e muito santo da vida, parou, colocou as mãos nas cadeiras e gritou:
- Que foi, tio Constâncio?
O juizão, passivo, lá de onde estava, respondeu:
- Tu correstes mais que os outros. É falta.
A falta foi cobrada e o jogo continuou. Era a lei do Tio Constâncio. O juiz daquele jogo. Uma idiotice, mas ele fez valer e pronto.
                Eu iniciei esta escreveção lembrando da proibição de entrar de sandálias, ou chinelas em alguns cinemas de Belém nos tempos de antanho,  em virtude do festival de filmes de faroeste (bang bang) que aconteceu de 04 a 10/12/2012, no cinema Olympia. No segundo dia do festival eu fui barrado (a segunda barração em 45 anos), porque estava de camiseta tipo regata. Não tinha lido o aviso que advertia a respeito do traje.
- Pelo amor de Deus meu amigo, eu venho de Marituba só pra assistir esse filme. Deixe-me entrar, eu disse.
Resposta:
- Enquanto gente que vem de fora, de São Paulo (fez questão de frisar o foribundo funcionário, aliás, um velho preto parecido comigo) num entra, magine tu.
Em pouco tempo já tinha um jovem e musculoso segurança de braço cruzado na minha frente. Eu não podia ficar da área interna e envidraçada do espaço. Aí chegou a Nazaré, turismóloga e gerente da casa, pós-graduada na USP (informações dela). Mais choradeira minha, mais irredutibilidade. Por fim, a minha mulher foi na Loja Americana, ao lado do cinema, comprou uma blusa baratinha que eu vesti. Só assim eu pude entrar para ver o resto do filme. Ufa! Ah, ia esquecendo: é proibido entrar com pipocas, também, na sala do cinemão. É verdade. Acredite!
 É um pouco festival de idiotices. Mas não poder se encostar em canhões ,que estão ao ar livre levando sol e chuva, do Forte do Castelo para tirar fotos; não poder falar alto na Igreja de Santo Alexandre (Museu de Arte Sacra), onde acontecem concertos sinfônicos que atingem decibéis altíssimos;  não poder fotografar portando câmeras amadoras com flash de led embutido (que não agride pois, não emitem raios infra vermelhos) na Igreja da Sé, onde é totalmente escuro. Vá entender...
Proibições esquisitas, idiotas e até bizarras não é exclusividade nossa. Em Israel, por exemplo, é proibido meter o dedo no nariz, aos sábados; em Cingapura não se pode fazer sexo oral, a não ser que seja como entretenimento; no Bahrein médico só pode examinar genitais das mulheres se for olhando pelo espelho, direto lá, não! Na Indonésia quem for flagrado batendo uma punhetinha, (masturbando-se) é decapitado. Credo em Cruz! No Brasil, em 1894, uma lei proibia a população comer melancia.
São proibições idiotas. E falo só das nossas. Como ser social, temos que conviver com elas. Duro mesmo é suportar a grossura dos estufados bucéfalos (como o funcionário do Olympia, que disse, “enquanto gente de fora...”) agentes, que com ares de prevalência nos empurram no peito e espumando pelos cantos da boca, rangem os dentes, grunhindo: “Aqui, não!”.  Se acham... 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

POR AMOR A ALÁ, EU VOU TE MATAR



       
“E diz-lhes: A verdade emana de Vosso Senhor; assim, pois quem desejar que creia, e quem quiser que descreia” (Alcorão 18:29)

Jesus quando andava pelo mundo fez muitos milagres. Alguns fazem parte das narrativas bíblica outros não, normal, afinal tem muita coisa da vida de Jesus que ninguém sabe mesmo. Tem estórias, por exemplo, de quando ele era menino que tinha um amiguinho de traquinagens, seu nome era Arnon, que o pai não aprovava a amizade entre os dois e por isso quando o velho saia ele deixava o moleque trancado em casa, evitando assim, que os dois brincassem juntos.
Ele sabia que o menino amigo do filho dele era “menino”, só não sabia que era o menino Jesus. E olhem o que o Jesus menino fazia: Ele ficava na mutuca, quando o pai do Arnon saía ele ia lá rapidinho e pela fresta da casa tirava o amigo e saiam para brincar; quando o velho estava para chegar o Arnon era empurrado de volta pela fresta para dentro de casa. Isso durou até o tempo que aconteceu um acidente com Arnon. Eles brincavam numa ribanceira quando o guri levou uma topada caiu, rolou para abaixo, bateu com a cabeça numa pedra e morreu. Aí não teve jeito. Não dava para enfiá-lo pela fresta de volta. Ele já estava morto. Mortinho. E o pior, o pai do menino morto acusou Jesus, alguém que viu os dois brincando perto da ladeira, entregou. A situação, como dizia o professor Astromar (personagem da novela Roque Santeiro/globo 1975) estava acroática para o lado de Jesus. Aí ele não se conteve, entrou lá na casa onde o defuntinho estava sendo velado e ordenou:
-Arnon, te levanta e fala a verdade.
Ato seguinte, o morto ressuscitou, sentou e falou:
-Ele não me empurrou. Eu que levei uma topada, rolei ribanceira abaixo, bati com a cabeça na pedra e morri.
Em seguida o Jesus menino, ordenou:
-Pronto, agora pode morrer de novo. O moleque retornou à morte. Agora eterna.
Já na época de adulto, antes dos 33 anos, num dia de muito calor, e cercado por enorme multidão, Jesus atendia a galera. Fazia milagres. Uns buscavam cura para alguma doença, outros ovacionavam, gritavam, aplaudiam. Atraídos pelos gritos dois amigos que andavam juntos há muito tempo se aproximaram da multidão. Era o Nhanhanha e o Cotó.
Um era fanhoso e outro era aleijado, não tinha as duas pernas. Os dois chegaram junto e insistiram para serem atendidos. Cansado, suado, exausto, já quase sem paciência, mas Jesus era Jesus, logo, acabou atendendo os dois amigos e depois de escutá-los foi logo ordenando:
-Tá bem, tá bem. Vão os dois lá pra trás daquela árvore (Baoba, árvore milenar da África)
        Os dois ficaram atrás da grande árvore e a multidão lá em expectativa e Jesus de cabeça inclinada começou a orar. Orou, orou e gritou.
-Aleijado, joga a primeira muleta. Aí uma muleta voou detrás da árvore. A multidão aplaudia.  Mais oração e a segunda ordem:
-Aleijado, joga a segunda muleta. Mais uma muleta voou e mais aplauso e gritaria, a galera delirava. Em seguida mais uma ordem, a última, o verídicto final:
-Fanho, fala!
-O Cotó se esborrachou todinho no chão. Respondeu o Nhanhanha com a mesma voz fanhosa. (Alguma coisa deu errado que o milagre não funcionou)
Esta é uma piada sem graça baseada na doutrina religiosa do Cristianismo. Agora se eu contar uma assim: “O Maomé, 40 anos, ex-mercador, bom de papo, irresistível na arte de convencer pessoas, não tinha seguidores (até porque na época ele era só o Mohammad), teve uma ideia. Fazia parte da sua rotina afastar-se de todo mundo por muitos dias para longos períodos de meditação. Foi após um desses retiros espirituais que, ao retornar, ele sondou o ambiente, viu que o momento era propício e colocou em prática a ação já bastante pensada.
Se aproximou da montanha (Monte Hira) e começou falar sozinho em voz alta, quase gritando. Dizia: ‘Eu sou o último profeta enviado à humanidade, e com o poder que me foi confiado por Deus vou fazer com que aquela montanha venha até mim’.
Pessoas foram chegando, chegando, chegando, até que se formou uma enorme multidão. É, mas a montanha, claro, não se mexeu. Aí ele com toda calma do mundo disse a frase que até hoje é repetida: ‘se a montanha não vem até Maomé, Maomé vai até  a montanha’. Em seguida andou em direção à montanha sendo seguido pelo povo. Assim se tornou líder religioso.”
Incrível! Mas eu posso morrer por causa de uma brincadeira dessas. É difícil para nós, seres humanos comuns, imaginar que uma religião que tem um livro sagrado – Alcorão – com 114 capítulos (suras), que destaca a onipotência de Deus (Alá) e a importância da bondade, da generosidade, da justiça e do relacionamento social espalhe tanto ódio, tantas mortes pelo mundo. Charges, livros, filmes só são tolerados se for para enaltecer a figura sagrada do Maomé, do contrário...Que o diga o escritor indiano de nacionalidade inglesa Salman Rushdie, autor do livro Versos Satânicos e Nakoula Basseley que recentemente filmou o vídeo Inocência dos Muçulmanos. Todos estão com as cabeças a prêmio.
O Islão numa tradução livre quer dizer submissão a vontade de Deus. Com a morte do seu fundador, em 632, e muitas guerras (aliás, guerra é uma constante na história dos muçulmanos) acabaram se dividindo dando origem aos xiitas e sunitas.
A história do Islamismo é longa, linda, e impressiona pelo radicalismo quando se trata de matar ou morrer em nome do Alá. Eu hem! Como diz o paraense da gema: É-GU-Á....

terça-feira, 27 de novembro de 2012

REDES SOCIAIS: INTEGRAÇÃO E TRANSGRESSÃO


                                                                                        
                                                                  “A beleza de tudo é a certeza de nada"
                                                                                    (Zeca Baleiro)
        
           Em meados dos anos 60 na colônia Chicano do Tauá, zona rural na época município de Ananindeua, um dos sistemas de comunicação bastante usado era a batida na sapupema da sumaumeira, indicava direção; soprar numa fenda feita com as mãos em forma de concha, o som de acordo com o timbre emitido mandava uma mensagem diferente; viajando pelos rios batendo ritmado com os remos na beirada da canoa, sinalizando que ali ia um defunto a caminho do cemitério. Era a nossa conectividade cabocla. Na construção da estrada de ferro de Bragança, por volta de 1910, os engenheiros americanos responsáveis pela obra no setor de manutenção escreviam recados curtos nas costas do tio Gregório. Ele era negrinho e os ianks faziam isso de pura sacanagem, divertiam-se, humilhando.
        Com a chegada do primeiro rádio a pilha, foi uma verdadeira revolução em termos de comunicação através dos programas radiofônicos das emissoras AM, com as mensagens para o interior. Em 1967 eu tive o meu primeiro contato com um telefone – número 1516 na casa do Dr. Caubi Cruz, meu escravizador (já está no andar de cima) - e em 1998 instalamos o primeiro aparelho em casa. Vieram a internet e o celular (não exatamente nesta ordem) junto com as redes sociais. O mundo diminuiu. Quase não escreve-se mais cartas, passa-se e-mail. A quantia de “amigos”, que não se abraçam e nem se olham nos olhos; onde o calor, nada humano, está restrito a temperatura do aparelho usado na emissão das mensagens virtuais. Abraço físico, percepção de sutilezas nas expressões faciais, no tom de voz e nos gestos? Impossível, claro. Agora as mensagens são de texto, instantâneas, o bate-papo verbal até que acontece, mas por vídeo.
        Afinal, o que é rede social?
        É um site (sítio eletrônico, em língua portuguesa) que permite aos usuários compartilhar informações entre si. No Brasil os mais populares são Orkut, twiter, myspace, Yahoo e facebook, esse ultimo com mais de 800 milhões de usuários no mundo. As redes têm seus perigos e vantagens. O perigo depende mais de como o usuário utiliza essa tecnologia, por exemplo, revelar detalhes demais do seu perfil, fotos e atualizações de status (mensagens breves enviadas a todos de sua lista de amigos) e seus comentários (suas respostas às atualizações de status de outras pessoas). Esses detalhes podem revelar onde você mora, quando está ou não em casa, onde trabalha ou estuda. Aqueles comentários cheios de pavulagem do tipo “vamos viajar amanhã”, de repente pode ser tudo que seu menino precisa para lhe dar uma gatunada. De tão democrático que é o uso das redes que alguns perdem a noção de como usá-la. Elas dizem coisas que normalmente não diriam numa conversa de verdade. Algumas não percebem que uma postagem de mau gosto pode lhe custar sua boa reputação.
         No livro A hora da Geração Digital do escritor e pesquisador Don Tapscott, o autor escreve: “Dê uma olhada em sua página do ponto de vista de outra pessoa. Pergunte-se: “É assim mesmo que quero ser vista pelos outros? Se alguém visse as fotos que postei e me descrevesse com base nelas, o que provavelmente diria? ‘Que sou linda’? ‘Provocante’? ‘Sensual’? ‘Ou alguém que está querendo se exibir’? Será que é mesmo essa impressão que eu estou querendo causar, será que isso, de fato, representa meus valores?
        Se você é jovem, pergunte-se: ‘E se meus pais, meu professor ou adultos que admiro vissem minha página? Será que eu ficaria envergonhada por causa das coisas que eles poderiam ver ou ler?”Bom, tudo é muito relativo. Certamente se você é uma jovem de bom nível intelectual, independente total, vai esnobar a teoria do cuidado com que posta, ainda vai dizer, ou postar, “tô cagando pra vocês e suas teorias, faço parte de uma estrutura social composta por pessoas que adoram a minha autoadmiração, meu narcisismo. Essa é a minha forma de pensar, interagir, trabalhar, socializar, tô nem aí. Ó, procês...” e ainda vai dobrar os dedos anelar e indicador deixando o médio todo inteiro e teso fazendo um sinal que simboliza bem a raiva contra alguém ou alguma coisa, (o popularíssimo cotôco).
No livro A Liberdade do Ver, do poeta, escritor e pensador Artur da Távola, ele escreve: “O processo de tomada de contato com a realidade vem através de mecanismos que, por mobilizarem mais os sentidos, diminuem a carga de esforço e atuação de outros elementos componentes do sistema neuropsíquico do indivíduo, principalmente a razão...”.
        Todos os nossos sonhos e atitudes são revistos o tempo todo. Eis que intelectuais urbanos ou matutos pirentos (como eu) que detestava computador e internet, mudamos, nos adaptamos. Que bom que somos assim. Acredito que da mesma forma que a TV, nos anos 50/60, mudou toda a forma de ver, pensar e conviver por causa da novidade daquela época, a internet hoje é também, um marco transformador e ajuda na fixação do homem do campo na sua cidade, sem o risco da asfixia cultural de anos atrás. Mas cuidado! Rede social popular como facebook, por exemplo, é como um tabuleiro, revirando tudo se encontra coisa boa. E é como um redemoinho que suga a pessoa para dentro dele, excelente, porém, desde que usado com cautela. O mais irônico na internet: facilita o contato quando pessoas da família estão distante fisicamente, e os mantém afastados quando estão muito próximo, que é em casa...
        Orkut já era. Agora é face. Questione-se: você não se acha uma pessoa chata quando posta com frases prontas, tristezas, desabafos, frustrações, repetidamente e ainda pede, compartilhe. Imagine a cara das outras pessoas “amigas” lá na outra telinha. Hum hum...     

terça-feira, 6 de novembro de 2012

NA SALA EXTRA



Dos 3.185.000 candidatos submetidos à prova do Enem eu era um deles. Nem sei por que faço isso. Nos dois anos anteriores que eu me submeti a prova fui classificado em duas universidades particulares, mas em cursos que não tinham nada a ver comigo e ainda por cima em horário noturno, hum, tenho quase 64 anos e sem nenhuma disposição para estar saindo cinco da tarde e retornando meia noite. Nem pensar!
Mas tenho certa fissura em estar disputando alguma coisa, colocando algo novo no hipotálamo, tanto que esse ano que está já no limiar fiz dois cursos – eletricidade predial e manutenção de micro – eu acho mesmo que na real, no fundo, eu quero mesmo é dar-me alguma compensação pelo tempo passado que não estudei. Não me preparo estudando forte. Sei alguma coisa de língua portuguesa, gramática e literatura pelo fato de viver lendo. E só. Consigo sempre notas razoáveis em redação o resto é na base do anabububú quem sai é tu pelo rabo do tatu, quem escolheu foste tu...
Sou negro, logo, gosto de cores vivas e por isso uso boina com cores afros. Em 2009 revalidei a minha CNH usando boina na fotografia e foi permitida (ainda tenho a carteira), este ano quando fui revalidar novamente o documento fui impedido de usar na foto a minha tão querida boina. Recorri ao jurídico do Detran com uma carta feita de próprio punho anexando a foto da carta vencida, demonstrei que a Resolução nº 192/206 é anterior a data que eu renovei a habilitação, no caso em 2009, e mesmo assim a doutora Zaíra Cecília Costa Diniz, coordenadora do consultivo foi inflexível, fez valer a Resolução do Contran. O que não tem jeito está ajeitado, aceitei. É a lei, afinal. O que tem a ver isso com o Enem? Explico.
É a tal da boina. No primeiro dia da prova eu entrei na sala de boina na cabeça. Quase uma hora depois de iniciada a prova o fiscal pediu para que eu tirasse o meu adereço do bestunto. E lá se foi a boina para o saco e ficou agasalhadinha embaixo da carteira. Embaixo da minha bunda. Nada nobre para quem está acostumada na parte alta corpo.
No segundo dia, domingo, cheguei cedo e fui direto à coordenação pedir para deixarem eu  emboinado, aleguei, inclusive, como sou asmático que me protege a cabeça já quase toda despelada do frio e que nas regras a serem obedecidas relacionadas com as proibições estavam: boné, chapéu, viseira e gorro, ou seja, artigos de chapelaria. Nada! E lá se foi a boina para o saco novamente, era a condição sine qua non para que eu fizesse a prova, foi-me, todavia, dado uma alternativa: fazer a prova na SALA EXTRA. Manda quem pode... Obedeci e não me arrependi.
Na SALA EXTRA ficamos eu, uma outra candidata, o fiscal responsável e mais uns 300 lugares desocupados. Temperatura controlada, calma absoluta, ninguém deslizando de braço cruzado parecendo uns fantasmas na sala. Calma na alma.
                Agradeci a inflexibilidade das regras, da lei. Eu e minha boina dessa vez não nos sentimos menores, derrotados. Foi uma prova longa, sofrida, mas com muita CALMA NA ALMA. Graças a SALA EXTRA da Universidade da Amazônia – Unama.

sábado, 27 de outubro de 2012

CUIDADO! NEM TUDO QUE PARECE, É.


A doutora Raimunda Nazaré já não sabia mais o que fazer. Depois que a d. Maria, doméstica que trabalhou mais de vinte anos na casa dela, e que foi praticamente mãe substituta das duas filhas – atualmente uma tem 19 outra 17 anos – ambas já são universitárias, de repente a família ficou sem a faz-tudo da casa. O problema é que a d. Maria de tanto ser explorada pelo clã classe média alta, adoeceu. Feriu o pé ao pisar descalça em um caco de vidro. Só deram merthiolate pra ela passar na sisura (no linguajar da doutora um “golpezinho de nada”). Só que a pobre velha, com mais de cinquenta anos de idade, era portadora de diabetes. O ferimento piorou. E foi nesse tempo que ela foi mandada embora do emprego.
Um ano depois, muitos anúncios em jornais, cadastro no SINE (SISTEMA NACIONAL DE EMPREGO), que toda semana mandava uma candidata lá para a casa da Dra. Raimundinha, e nada. Não parava ninguém. Até que apareceu a Érica. Um perfil diferente. Alta, loura, rosto fino. “Até se parece com a minha filha”. Chegou a comentar com amigas, a patroa.
O certo é que, depois de dois telefonemas para pessoas que a Érica indicou e que a referendaram como uma pessoa “de bem”, zás trás. A Érica estava empregada. A dra. sequer pediu os documentos da nova funcionária (a moça, afinal, era branca e loura) que além de bonita tinha bom nível de escolaridade – médio completo – e falava um pouco francês. Foi simpatia na primeira vista. Toda família foi contaminada pela alegria e educação da nova empregada. Até o Doutor Ferdinando, sempre muito sisudo, passou dar uns sorrisinhos e uns olhares de esguelha à doméstica diferente.
Já há oito meses na casa, saía de vez em quando com as meninas. Era de confiança. Nunca atrasara um dia. Dava conta do trabalho, esticava o expediente sem brigar pela renumeração das horas extras. Era eficaz e eficiente. Quiseram contratar uma auxiliar, ela disse logo que “não precisa doutora, eu dou conta do serviço”. E dava mesmo. Na boa, nem se importava em ser explorada.
O que tem de dar errado, vai dar errado. É a Lei de Murphy.
Era uma segunda feira. A Érica ainda estava trocando de roupa quando a doutora bateu forte na porta do quarto, quase gritando, ordenou:
- Vem rápido aqui que queimou a lâmpada do meu quarto.
                E lá foi a pobre da Érica, toda agoniada ajeitando a saia porque não tinha dado nem tempo de vestir a calça comprida que ela gostava de usar no serviço. Quando chegou na suíte da madame esta já tinha posicionado a escada e a Érica foi logo subindo. A doutora se segurava na escada com a mão direita e na esquerda ela tinha a lâmpada nova que entregou para a Érica. Neste momento ela olhou para cima e, de repente, deu um grito. Um grito desesperado. Grito de susto. Gritou e deslizou para o chão, desmaiando. As filhas ouviram no outro cômodo da casa o berro da mãe e invadiram a suíte, foram direto acudir a velha. A Érica estava lá em cima, estática. A madame se recuperou logo e sem olhar apontava para cima sinalizando que às filhas olhassem também. Elas obedeceram. As meninas olharam e o que viram deixou-as paralisadas,  estupefatas, admiradas.
A Érica era um travesti. E bem dotado. Estava sem “calcinha” e, involuntariamente, mostrava aquele montão de coisa lá, pendurado, balançando acima da cabeça das três. Era um visual incrível! Uma surpresa inesperada. Foi o maior furdunço.
 As meninas tinham que sair. A madame também. Assim foi feito. A Érica ficou só, triste, executando suas tarefas, preocupada.
À noite o patrão chegou. A situação era tensa, mas reinava calma. Foi feito um relato. A mãe e as duas filhas apelaram para que a Érica ficasse, mas o doutor estava uma fera e não quis acordo. Não admitia de jeito nenhum, nem um minuto a mais a presença daquela aberração que tinha visto sua mulher e filhas peladas muitas vezes, e até despertara nele uns pensamentos meios safadinhos... ”Não! Aqui não! Não quero ver mais a cara dessa, sei lá, desse troço aqui”.
 A Érica foi demitida. Perdeu o emprego que ela conseguiu manter por quase nove meses. Trabalhou e viveu honestamente naquele período. É, mas acabou.
 Duas semanas depois uma carta intimava a família a comparecer na justiça do trabalho. O ex-empregado doméstico Onório Orlando de Oliveira, pleiteava seus direitos trabalhistas.
Érica...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

TÔ ELEITO, MÃOS AO ALTO!


Festa da Democracia. A campanha eleitoral, onde o povo participa de verdade, acabou.  Aff! Graças a Deus. Fotografias tamanho gigante, bandeiras, carros som, jingles, “santinhos”, gritarias, discussões e brigas. Essas manifestações verbais, sonoras e policrômicas, confirmam, na real, onde a população participa de verdade.  Uns ganharam uns trocados empunhando bandeira (bandeirantes do asfalto da era moderna), outros levam um capilezinho a sorrelfa, e até uma promessa de emprego deixa o fanatismo tomar conta do eleitor, fazendo dele um ardoroso defensor do seu candidato podendo até sair no braço em defesa do seu “preferido”. Mas a festa do povaréu termina por aí.
Depois que o candidato eleito assume, entra no gabinete com sua entourage, c’est fini. Acabou. Já era. O povo sai de cena. Aquele carinho com intimidade, o abraço aconchegante, o aperto de mão; aquele sorriso gracioso e alegre dispensado aos eleitores no período dos festejos na caça ao voto, é substituído pelo isolamento do reizinho ou da princesa, que dentro do seu palácio vai olhar a massa pelas frestas das persianas ou pelo vão do balancim do banheiro aonde ele vai se esconder quando alguém procurá-lo no seu domicílio. Ah! Sim, na rua ele passará por aquela criatura, um ex-abraçado, no seu possante com o vidro fumê levantado. E lá no gabinete? Lá, os assessores funcionarão como uma barreira de proteção. É aí que o ex-todo poderoso e paparicado eleitor vai descobrir que ajudou eleger alguém que não tem vínculo com os anseios coletivos.
                A maioria deles passam representar a si mesmos e por tabela os interesses espúrios do submundo da política. Traição de candidato? Não! Ingenuidade do eleitor que se deixou empolgar pelos paparicos e logo depois da eleição esquece o candidato eleito, deixa de lado, só o procurando quando, individualmente, precisa de algum favor; que não se junta a outros eleitores para fiscalizar as condutas suspeitas e repugnantes dos seus parlamentares. Infelizmente, para o eleitor brasileiro, depois que ele aperta os botões da urna, pronto! Tudo acaba ali. Não temos o hábito de marcar no corpo a corpo nossos legisladores, saber o que eles fazem na vida pública, cobrar. Isso é ótimo para os eleitos. Eles têm a certeza que seis meses, ou antes até, depois de eleitos, ninguém lembra mais nem em quem votou, e isso só reforça o que “eles” já usam como filosofia, a de que não estão subordinado a ninguém, principalmente os mais calhordas, aqueles que enxovalham a vida pública, já tão  fértil de malfeitorias.
Amoralidade. O eleitor não é vítima, é apenas uma espécie de vírgula em uma redação maior cujo tema são artimanhas que de republicanas não têm nada, a não ser o desejo de atingir e se manter no poder. Existem políticos nas casas legislativas com inúmeros mandatos emendados um no outro. Alguém acha que essa cambada dedica uma vida inteira em favor da causa alheia? Claro que não! O que interessa são seus próprios interesses, seus sonhos, que até são os sonhos do eleitor também, só que o pobre do eleitor dorme e acorda com pesadelos, a realização dos sonhos fica para o ilustre candidato que ele ajudou eleger; candidato que eleito financia sua boa vida, de familiares e amigos com o dinheiro dos desdentados; que se transformam (ou às vezes já são) em delinquentes políticos especializados em roubar cofres públicos; aves de rapina que são capazes de subir no cangote da própria mãe como suporte para decolar em voos mais altos.
Uns se perpetuam no poder e formam feudos, outros menos espertos – ou mais burros – se ferram. Ganham (?), esbanjam e empobrecem. Conheço um que foi vereador duas vezes e prefeito uma, nadava em benesses, hoje, já velho, sobrevive com um BPC - Benefício de Prestação Continuada. Bem feito!
Curiosidades. Esse ano, na Hungria, Alemanha, Nova York, não foi roubalheira, mas por algum deslize menor, Presidente, Primeiro Ministro e Governador, respectivamente, renunciaram; no regime Talibã o castigo para um furto simples é ter uma das mãos amputadas. Aqui políticos ladrões (oh, desculpe, corruptos) são cheios de pose e orgulhosos. Ah! Também não queremos um país de manetas...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O Zezinho pé de Ferro e a biografia eleitoral

O Zezinho Pé de Ferro recebe um lançamento do goleiro ainda no campo do seu time, avança e dribla seis adversários, quando o goleiro sai, já desesperado, prevendo que pode acontecer o pior para ele, acontece. O Pé de Ferro dá-lhe um chapéu, recebe a bola de volta descaindo, mata no peito, gira no próprio eixo, de costa eleva o corpo no ar e faz um gol de bicicleta. Um golaço. Se o time dele é de primeira divisão o lance vai ser repetido no jornal do esporte no dia seguinte ao jogo. E só. Quem fez o gol, afinal, foi o Zezinho Pé de Ferro.
O lateral direito do time do Neymar dribla toda a defesa adversária e entrega a bola de “mão beijada” para o craque que com um simples toque faz o gol. O gogó do narrador quase arrebenta com o grito de gooll-laço-laço-laço. O lance vai ficar sendo repetido a semana inteira em todos dos “melhores momentos” nos programas de esportes. O Neymar é um dos jogadores mais feios em atividade nos times do grupo “A” no Brasil; tem uma cara de quati, topete de iguana e canelas de cambito, mas aonde ele chega as “mariazinhas chuteiras” berram, se descabelam, choram, ficam histéricas, é, mas ele, segundo a rádio grama de campo, tem um salário com cifras que somam uns três milhões de reais por mês, logo...
Na política também é assim. Quem leva não é o mais qualificado, na realidade os melhores ficam de fora. Ficam fora porque muitas vezes não têm dinheiro para fazer campanhas milionárias; éticos, se recusam fazer alianças com Deus e o diabo ao mesmo tempo; evitam a mentira deslavada prometendo solução para tudo (sinceridade em política é fatal); não atacam adversários com termos chulos e grosseiros,  não nivelam  campanha por baixo. Com esses defeitos ninguém ganha eleição.
No meu Município, Marituba/Pa, os três candidatos majoritários que estão polarizando a atenção do povão é o Cinquenta e Cinco, o Quarenta e Cinco e o Vinte e Três. E o eleitor cérebro de galinha, coitado, esquece tudo em pouco tempo. Por isso que muitas vezes os escolhidos nem sempre são os melhores. Veja:
 O 45. Já esteve à frente da governança municipal por oito anos. Nesse período na inauguração da caixa acústica na praça principal da cidade uma parte da construção caiu e acidentou vários operários; uma caixa d’água caiu no bairro do Japão matando um vigia; um trator da prefeitura passou por cima de um motoqueiro entregador de gás, matando-o (não foi culpa do chefão, claro, apenas mão de obra despreparada a serviço da prefeitura); um ginásio coberto foi demolido para a construção de outro, iniciou-se a construção, só iniciou, a edificação está apodrecendo – é dinheiro do povo jogado fora. O slogan da campanha é pra Marituba voltar a brilhar. Dá para acreditar?
O 23. Esse cumpriu o primeiro mandato, disputa a reeleição e nas pesquisas informais, o boca a boca, tem um alto índice de rejeição. O slogan de campanha é pra Marituba não parar de crescer. Hum hum...
O 55. Tenta pela segunda vez. Tem uma claque poderosa e faz uma campanha muito forte. Nesta segunda tentativa o candidato já não é um aventureiro presunçoso, é barulhento e está a caça dos votos com alguma chance. O slogan é pela reconstrução de MaritubaI. Re-cons-truir...Ó meu Deus, perdoai-vos.
Nos carros som dos candidatos escuta-se de tudo e o tempo inteiro. É um festival de paródias ridículas. Parece  corrutela  dos garimpos de ouro na década de setenta. Era um cabaré no lado do outro com música em som de péssima qualidade num volume altíssimo, a gente ficava zonzo sem saber o que escutar. Assim estão as principais ruas da nossa cidade. Que coisa! Meu Deus. Somos vítimas dessa barafunda sonora horrível, com carros se cruzando até alta hora da noite. Será que essa lambança resulta em votos? Sei não... No vale-tudo das promessas e soluções para qualquer problema, nos estridentes e berradores carros som, não sei por que na gritalhada dos comícios, os candidatos só não prometem acabar com a corrupção, despotismo, e o tráfico... Porque será, hem?
             No meio desse cipoal de mesmice repetitiva existe coisa boa: tem gente com perfil diferenciado dos outros em tudo. É o candidato que nem parece ser candidato. Ele é Filósofo (formado pela UFPa), Avaliador de projetos de captação de recursos, Técnico em Planejamento Estratégico, Participante efetivo em Conferências e Seminários onde se debatem Problemas Sociais, Políticos, Econômicos e Ambientais; atualmente é Assessor no Instituto da Pastoral Regional 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB. Ele é o 50. Ele é o Adelino Bessa. Ele deve ser também o Zezinho Pé de Ferro nessa corrida. Tem as melhores propostas, é o mais bem preparado, mas não tem marqueteiro e nem faz parte do festim de acordos e conchavos espúrios. Com o slogan Mudança com certeza o candidato se apresenta ao eleitorado portando o grave defeito da sinceridade, logo, quem aposta nele?

domingo, 9 de setembro de 2012

E a sua, onde está?


No dia 16 de setembro se comemora o Dia da Imigração Japonesa no Pará. Foi a Lei 7.319 sancionada pela ex-governadora Ana Julia, em 2008, quando fez cem anos da vinda dos japoneses para o Brasil. Não sei se noutros Estados “eles” têm o dia deles, Aqui tem, também pudera, fora São Paulo no Sudeste, o Estado do Norte onde mais ficaram japoneses foi aqui no Pará, principalmente em Tomé-Açu.
Na terra do “fura filas”, do “jeitinho”, os japoneses não se deixaram contaminar e conseguiram se manter como referência em cultura, educação, serenidade e respeito coletivo onde no bem “dos outros” é “meu” também. É a influência budista, penso eu. E olhe que o Getúlio Vargas proibiu, durante a segunda guerra mundial, todas as manifestações culturais e até uso do idioma japonês em todo o Brasil.
Em 1960, cinco anos depois de emancipado, Tomé-Açu tinha tanto issei ( 1ª geração de imigrante do Japão) que mais parecia um território japonês. E foi lá que aconteceu um caso inusitado.
No Município quase não existiam estradas, e as que tinham eram para carroças puxadas por boi ou cavalo, e na área rural mesmo eram só caminhos estreitos. Casas eram muito distantes uma das outras. E foi numa dessas rotas a caminho da roça de pimenta do reino (forte da cultura e economia do município) que um velho japonês, o “seu” Kagaru Nutashu foi flagrado pela Itelvina, uma mulher gorducha, que usava um pano amarrado na cabeça e cara de poucos amigos. O velho Japonga como todos o chamavam pelas redondezas, estava com as calças arriadas, de cócoras, um chapéu de palha na cabeça.
No primeiro momento a d. Itel, como era conhecida se irritou porque tinha levado um enorme susto. Ela ia fumando um porronca que tinha um cheiro horrível, mas ajudava espantar muriçoca e cantarolava bem baixinho uma música “du tempu da mucidade”, quando deparou com “aquela arrumação”- no dizer dela. O pior, no susto, o cigarro que ainda estava pela metade, quando ela gritou “aai! Que diabo é isso..”, caiu da boca para dentro da blusa invadiu o porta seio e se aninhou entre os dois enormes peitões, e no espalhafato para se livrar da baganona que já estava queimando ela jogou o facão no chão, arrancou a blusa que estava por dentro da saia e um dos seios ficou a mostra. Só então ela percebeu que o seu Japonga tinha cagado na beira do caminho. Um pecado imperdoável! Ah, que raiva. Que fedor.
Aí ela desancou o "seu" Kagaru Nutashu. Xingou durante uns cinco minutos. E o velho japonês lá, impassível, silencioso, nem se limpou. Ergue-se, levantou a calça, sempre de costa com cuidado para não mostrar “outras coisas”. Só se manifestou quando a d. Itel, sem mais o que dizer já indo embora ainda gritou:
- tamanho velho e não tem vergonha na cara .
Foi quando ele respondeu, com a característica calma oriental:
- Japonês caga assim, de frente pro mato e de costa pro caminho, porque japonês tem vergonha na cara, japonês não tem vergonha no cú...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Jesus, meu Deus! Que cor tu tens?


“Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’strela
tu t’escondes,
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás Senhor Deus? “    (Castro Alves-1868)

Quem me dá a honra de ler estes textos deve pensar: ele sempre bate na mesma tecla, vire e mexe o assunto é racismo e a questão da velhice, ou envelhecimento, com todas as agruras que essas duas coisas trazem de forma intrínseca à quem o é ou vive essa circunstância.
Bom, quem é velho vive ocasionalmente essa condição que logo, logo a morte chega e com ela tudo acaba. Com o negro é diferente, porque ele sempre foi negro e a negritude trás sofrimento que junto com a velhice, digamos, o sofrimento é dobrado.
Um dia desses no  Detran, a médica especialista em medicina do trânsito, que submeteu-me aos testes da saúde para revisar minha carteira é negra. Negra mesmo. Tivemos uma conversa cheia de informalidade a ponto de eu perguntar se durante a vida dela (tem 60 anos) alguma vez tinha sido vítima de racismo. A resposta foi não. Eu não me admirei com a resposta. Preto é assim mesmo, quando sobe dois degraus na vida ele passa a achar que os outros negros sofrem de analgesia congênita, ou seja, não sentem dor, e isso não é uma característica do negro brasileiro.
Andando pelas estradas da vida tive a oportunidade de conhecer as ex-colônias de França, Holanda e Inglaterra, (Guiana Francesa, Suriname, Martinica, Guadalupe) e Haiti. São espécies de mini países cujas populações nativas são cem por cento negras. Na realidade foi a primeira vez que eu vi um negro dirigindo um automóvel Mercedes sendo ele o dono do carro e não apenas motorista. Foi por lá também que eu constatei que pouca coisa mudou da época que negro caçava e prendia negros para vender como escravos; que negros escravos em troca de alguns privilégios se transformavam em capitães do mato, caçadores de escravos foragidos. Por lá ainda existe – e muito – negro sendo escravizado por outro negro.
Tenho um parente próximo que é negro puro, africano, e que nos tempos de vaca magra quando morava na casa da minha mãe um dia, ao ver passar ricaços nos seus carrões em frente onde morávamos, na estrada da Pirelly, falou-me assim:
- olha Jambu, esses quando nasceram Deus estava olhando pra eles.
 Um tempo depois, já com o burro na sombra, no enfrentamento com um vizinho que enchia o saco, vociferou:
- Pôrra! Por isso que eu tenho raiva de pobre.
Hoje, alto executivo em uma estatal de mineração angolana, vem duas vezes por ano em Belém onde plantou profundas raízes familiares, nessas ocasiões costumamos bater sempre longos papos e foi num momento desses que eu perguntei, - até lembrando que quando o Pelé, já milionário, fez o milésimo gol ele gentilmente dedicou as crianças pobres do Brasil – a maioria negra, deve ter se alimentado bem naquela época. Bom a pergunta foi a seguinte:
- Por que negro rico parece detestar negro pobre?
A resposta foi quase uma dissertação, que no final confirma minha afirmação e isso é histórico. O Zumbi que é cultuado por nós, negros, como herói, o mais inteligente estrategista que liderou o quilombo dos Palmares, como comandante em chefe, também tinha escravos e mandava matar os rebelados. Em 1804 o Haiti se tornou a 1ª República Negra do mundo, de lá para cá dá um passo a frente e dois, três para trás. A fome, a doença, a miséria, parecem se perpetuar naquele país, onde o maior símbolo de resistência, espaço social e cultural do país é o vodu, sistema misto de magia negra e branca, religião primitiva que predomina em todos os 38 países da África Negra – que vivem se matando em guerras tribais –, guerras e conflitos que gera desgraça, que gera fome, que gera miséria.
Ditadores cruéis como Haile Salassié (Etiópia), Bokassa (República Centro Africana), Mobutu (Congo), Idi Amin (Uganda) e o Papa Doc e Baby Doc (Pai e filho) esses dois do Haiti; criaturas hediondas que juntas mataram mais de 5.000.000 de outros negros. Mas existem também negros presidentes “bonzinhos” em países africanos que, democraticamente, a custa de esquemas corruptos, são eleitos e reeleitos, se perpetuam no poder numa ditadura disfarçada. Esses também matam, mas recebem aplausos internacionais porque não são ditadores, isto é, não comem carne humana... Em 1830 o americano Joseph Smith fundou os Mórmons, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, colocou lá no livro “sagrado” deles que um anjo (com certeza o coitado não conhecia as coisas da terra) entre outras coisas, falou-lhe o seguinte: “você vê alguns grupos de família humana que são negros, desajeitados, feios, desagradáveis e baixos em seus costumes, selvagens e aparentemente sem a benção da inteligência que é normalmente dada à humanidade...”.
O anjo que o deus racista do Smith mandou era só um porta-voz, tanto que até bem pouco tempo atrás os catadores de fiéis dessa organização religiosa andavam em dupla, sempre dois americaninhos branquinhos de pasta na mão faziam a “praça”. Hoje mudou, já vem um pretinho compondo o dueto.
Mas, e os negros elevados a condição de elite, porque não mudam em relação aos outros negros, colocando um braço social de inclusão, lutando por melhorias que facilite, que abra mais oportunidades, ou que pelo menos, passe pelo negro ferrado e não o torne mais invisível.
Um sorriso, um aceno, um bom dia. O negro pobre, casca grossa, pé no chão, com certeza sorrirá feliz, achando que quando nasceu “Deus estava me olhando...” 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Tenho fome, meu voto é seu.

Estive nos dias 11 e 12/08/2012 na cidade de São João dos Patos, interior do Maranhão, em encontro de leigos que atuam como agentes pastorais da igreja católica, a serviço da Congregação das Irmãs de São José. Entidade religiosa que atua em todo Brasil e em mais de 55 países. É a segunda vez que participo desse encontro, e para a enorme tristeza viajei sem a companheira, cúmplice dos momentos felizes e tristes da nossa caminhada de mais de oito anos, minha mulher Nazaré. A irmãzinha, como eu gosto de tratá-la.

O suplício do viajante começa pela estação rodoviária de Belém onde uma quadrilha do setor de bilhetagem da empresa de transportes Guanabara, vendeu-me, por R$ 20,00, o passe gratuito destinado ao idoso. A eficiente intervenção do funcionário da ANTT, acionado por mim, reverteu a situação. Os espertinhos funcionários devolveram os meus vintinhos. Bem feito. Não quis nem fazer a ocorrência por escrito. Livrei a cara dos malandros. Não sei se fiz o certo.
Essas viagens são verdadeiros périplos. Ao descer do ônibus, doze horas depois de sair de Belém, fica-se no terminal do Peritoró onde a gente paga 1,00 para dar uma mijadinha, a característica principal das cidades que ficam no trajeto de Peritoró a São João dos Patos é o desconforto e a imundície dos banheiros.
 Mas é isso aí, nesses casos os fins justificam os meios. Finalmente cheguei ao destino final da minha viagem, São João dos Patos. Fui acolhido por uma família, que é confirmação de que a Comunhão é a realidade mais profunda, ela unge, dá sentido e razão ao que somos, é essa a causa do existir do amor, da benquerença, da amizade, da doação entre os humanos. Éramos três pessoas na mesma casa e não nos faltaram atenção e carinho em nenhum momento. ISA E TANIÇON, o casal que nos acolheu vão ficar perenes e indeléveis no meu coração.
 Missão cumprida. O retorno. No domingo a noite comecei voltar para casa. São cinco horas de viagem de São João dos Patos a Peritoró. Tudo igualzinho. O diferente é que quando o coletivo chegou à cidade de São Domingo tinha um comício político do candidato a prefeito, olhe o nome, Tratorzão. Incrível! Nada mudou. A relação entre o coronelismo antigo com o atual está na forma, hoje esses senhores não rasgam mais uma cédula no meio para entregar a outra metade depois da confirmação do voto – o lendário voto de cabresto – os tratorzões da vida exploram a miséria do povo.
A quantia de gente nas ruas da cidade impediu a passagem do ônibus, que não conseguiu chegar à estação rodoviária. Um emissário foi enviado com recado aos passageiros que tiveram de carregar as bagagens na cabeça para ir ao encontro do coletivo. E o povaréu? Ah, os políticos aproveitadores sabem que a nossa composição social é uma polifonia de vozes, ideias e sentimentos, embalados em costumes, tradições, culturas regionais e fome. Muita fome. Por isso eles mandam tocar forró e distribuem mingau. Lá em São Domingos o povo andava nas ruas com copos de mingau na mão e pratinhos plásticos. Comiam, riam alegres. E o mais chocante: um enorme contingente de crianças. Caminhonetes, com dois andares improvisadas, superlotadas e, segundo uma religiosa que viajava no ônibus, aquelas pessoas viajariam umas duas horas naquelas conduções e condições, sem nenhuma segurança, até as comunidades de Viola e Bancos, comendo poeira e tendo como sobremesa cem por cento de risco de vida. Não fiz um registro fotográfico porque quem tem joelho tem medo. É, e eu tenho dois, logo...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

POBRE, EIS AÍ O TEU INFERNO


 Pobreza. Segundo os dicionários, estado ou qualidade de pobre, mendigo, pedinte. No popular: ferrado, lascado; aquele que vive coçando o cú com garfo, que tem que viver fritando ovo nas labaredas do inferno. É o meu autorretrato. Assim sou eu. Gosto de pensar. Escrever. Por isso criei neste espaço, aproveitando as facilidades da tecnologia, esta espécie de semanário on line – não me considero um blogueiro , até porque não tenho seguidores e os meus leitores não passam de três (Oh, glória!). Enfim, fiquei mais de um mês sem postar nada porque fui atravessar correndo a Almirante Barroso escapando da chuva, o meu óculos que estava pendurado na blusa caiu e o ônibus passou por cima; a internet que eu tinha era um equipamento emprestado que eu tive que devolver ao dono. Situações vividas só por quem não tem dinheiro. Mesmo sem fazer parte daqueles dezesseis milhões que vivem abaixo da linha da miséria por ter onde morar, engolir as duas mil e quinhentas calorias necessárias do dia-dia e, às vezes, me dou algum lazer, sou pobre. Um liso inveterado. Quando consigo fazer alguma reserva dá, no máximo, para comprar uma cartela de aspirina. É, mas já foi pior. Bem pior.
No ano de 1964, com treze anos, o picolezeiro negrinho, dentes cariados, cheio de pano branco no corpo (que o deixavam esquisitamente malhado), maltrapilho, olhava para dentro de um carro estacionado em frente a um bar onde todos bebiam conversando em voz alta e gargalhando animados. Volante, alavanca, painel de controle, bancos, espelhos, tudo era novidade. E os olhos espichados num êxtase de pura admiração, quase hipnotismo, quando, de repente, o cidadão branco, fortão, prendeu violentamente com a parte dentada de duas tampinhas de garrafa de cerveja as orelhas do indefeso vendedor de picolés que admirava o possante e o afastou para longe, vociferando: ”quer me roubar neguinho filho da puta...”. Chorando e com a orelha sangrando, o negrinho do picolé saiu dali quase correndo, sem nenhum motivo para encarar o futuro com otimismo. Detalhe: a orelha torturada foi a mesma que poucos anos antes, depois de uma traquinagem, tinha levado um aperto tão forte que a unha do polegar da tia castigante trespassou, furou, a ponta da unha varou de um lado para o outro. O certo é que essa orelha, como o próprio dono, nasceu mesmo sem sorte, o ultimo dano que ela sofreu foi causado por uma cacetada dada pela ex-mulher, que num momento de raiva pura, bateu tão forte que o lóbulo arriou. Foi costurado no pronto socorro da cidade nova Vll. Eu acho que essa orelha veio ao mundo de bunda para o sol. Eu acho, já que os sortudos nasceram de bunda para a lua...
O ser humano é um invólucro de pele que acondiciona células, sangues e componentes químicos. Por isso é um resistente especialista em sobrevivência nas situações extremas.
 Cinquenta anos se passaram e pouca coisa mudou. As cicatrizes da orelha desapareceram. Da alma não, vai sangrar sempre. Mas, será que tem alguém que gosta de ser pobre? Tem. Tem sim. Vejamos:
Participava, no auditório do Centro Social Sagrada Família, em Ananindeua, de um seminário promovido pela Cáritas Brasileira dirigida a recicladores (catadores) que trabalham no lixão do Aurá e de vários municípios do Estado, quando, no terceiro e ultimo dia do encontro na hora da minha fala, provoquei com a seguinte pergunta: “alguém aqui tem orgulho, está feliz com o trabalho que faz? O médico, advogado, o engenheiro querem que os filhos sigam a carreira dos pais. Vocês gostariam que seus filhos continuassem no mesmo serviço que vocês fazem?”. Pois é, a maioria disse sim. Eu falei que não acreditava disse o porquê, mas passei por um sufoco! Quase apanhei. No auge da discussão que se sucedeu até arrancaram  o microfone da minha mão.
“É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha, que um rico entrar no reino dos céus” (Lucas 18,24). A Bíblia, em Lucas e Mateus, conforma os pobres com a promessa de uma vida eterna no céu, talvez por isso as pessoas mesmo sem ter onde morar, sem ter o que comer, vestir; não ter como tratar seus doentes, nem um tostão para comprar remédio; viver remendando coador de café, juntando sobras de sabonete para fazer uma bola só; todo mundo usar o vaso para dar só uma descarga, passar o fio dental e cheirar para ver se os dentes estão fedendo; passar óleo queimado no vira latas para matar pira, secar cueca atrás da geladeira, rodar o pau da antena e gritar lá de fora, “melhorou”, e exagerando: usar papel higiênico dos dois lados...Pô! Passar por tudo isso e ainda achar-se uma pessoa virtuosa, cheia de desapego, em favor do crescimento espiritual, ou até criar uma autoimagem positiva do tipo “sou pobre, mas sou honesto”.
 Tudo, tudo isso não passam de belas e filosóficas frases de conformismo, mas não garantem acesso a bens sociais.Eu sei bem disso..
A propósito, será mesmo que depois de passar a vida toda sofrendo agruras, se alimentando com o pão que o diabo amassou, tomando sopa de pedra, alma de pobre ainda vai para o inferno? Não, não acredito que o nosso bom e poderoso Deus faça isso. Conosco, os pobres...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Velhos "Fora das Leis"


Faz aproximadamente um mês que um padre, numa cidade no Sul do Pará, foi flagrado junto com um adolescente dentro de uma Kombi, ambos pelados.  Outro: Quarta, dia 13, às 23 horas, um padre foi preso dentro de um carro numa vicinal em Castanhal com um garoto de 12 anos. O padre, coitadinho, disse que foi “aliciado” pelo garoto. Os sacerdotes estão presos. Se esses padres pilantras fossem castrados o castigo ainda seria pouco, mesmo que fosse castração química.
 O que vai acontecer, se forem julgados e condenados, a pena máxima para esses crimes são 15 anos de prisão, que numa equação simples vem o presente: pegarão no máximo três anos de cadeia – réu primário, bom comportamento... É a lei. Esse é o Brasil. Perdoados pelos chefes serão transferidos para outra arquidiocese bem distante, e lá serão de novo, párocos. É assim com a igreja católica, outras organizações religiosas, até policiais que cometem delitos graves dentro da corporação. Os desapadrinhados, claro.
O Ivan Lessa dizia que “de 15 em 15 anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos 15 anos anteriores”. Eu acho que é por isso que nós temos um exagerado número de Leis. Umas que pegam fazem lembrar outras que não pegam.
No dia 15 de junho, foi o Dia Mundial Contra Maus Tratos a Idosos. O Conselho Estadual da Pessoa Idosa aproveitou a data e promoveu uma audiência pública na Assembleia Legislativa, no auditório João Batista. O Presidente do Cedpi/PA, José Eduardo Pontes, coordenou os trabalhos. Na composição de Mesa representando o Ministério Público Estadual/Promotoria do Idoso e Deficiente Público, o Doutor Waldir Macieira; Soranda Nascimento, titular da DEAI (Delegacia Especializada no Atendimento ao Idoso);  Francimar Lopes de Oliveira, Coordenador  Municipal da Saúde do Idoso; Guilherme, Coordenador Estadual da Saúde do Idoso; Walquiria Cristina Batista Lopes e Emídio Ribeiro, Conselheiros. A Secretária Adjunta da Secretaria de Estado de Assistência Social/Seas, Meive Ausonia Piacesi (Que nome!), chegou atrasada, falou, pediu desculpas, e saiu... Adiantada.
O papo nessas reuniões é o de sempre.  São os representantes do governo de plantão, cada qual com suas planilhas, explicando, justificando, acrescentando um pouco mais naquilo que está sendo feito e nunca pedindo desculpas pelo que não estão fazendo. Faz parte da liturgia do cargo e produz aplausos.
Audiência Pública na Assembléia Legislativa no dia 15/06/2012
Só o conselheiro Emídio Ribeiro usou a palavra num tom mais crítico. Reportou-se ao não cumprimento da legislação em vigor. E eu concordo. No papel está sempre tudo perfeito. Nos discursos idem. Na prática, nem sempre. E dissemos acima, lei é que não falta. Exemplo:
Em 1994 quando foi sancionada a Lei 8.842, o maior instrumento legal de proteção aos velhos brasileiros, foi festejado, e merecia. Só que o filhote nascido dez anos depois, o Estatuto, Lei 10.741, parece que foi gerado de um útero podre. É um acinte, verdadeiro esbulho a forma desrespeitosa como essas leis são ignoradas. Melhor para alguns segmentos.
Os amigos do Rei se locupletam em funções renumeradas com criação de conselhos de fiscalizadores. É como a madame que contrata uma empregada extra para monitorar o marido que está de olho na babá gostosona. Enquanto Conselheiros oficiais renumerados fazem discursos, os velhos vivem uma espécie de purgatório público em filas de banco, hospitais, ponto de ônibus, etc.
Coloquei há dias atrás um texto neste blog com o título “ÓDIO, NOJO, REPUGNAÇÃO. REVOLTA!”. É uma demanda pessoal que, dependendo do resultado, terá reflexos abrangentes aos idosos usuários dos transportes coletivos, especialmente as cooperativas de micro-ônibus, que fazem o trecho Benevídes/Belém, essa foi a razão de eu ter participado da audiência pública na Assembleia Legislativa em busca de apoiFora dFFo. Na 2ª feira estarei na DEAI com a Doutora Soranda Nascimento (jovem e muito linda delegada, por sinal) e quando tudo terminar seja qual for o resultado, os leitores destes textos ficarão sabendo, portanto, você que me lê e que tem idoso na família que anda de ônibus, torça, me apoiem. Fim.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

BAILANDO NO INFERNO


O Zangão e a Abelha Rainha há dias, meses, não saiam do casulo, a não ser aquelas saídas triviais obrigatórias. Psicólogos e terapeutas em orientação de casal e familiar recomendam que, para desligar o hemisfério direito do cérebro, que é a parte responsável pela sensação de preocupação e medo, é necessário além de ocupar a mente com leitura, por exemplo, praticar atividades físicas.
O exercício físico melhora a oxigenação cerebral, que é uma forma de liberação das energias negativas, tensões e preocupações. Bom, existem outras recomendações como evitar álcool, chocolates, refrigerantes, café, etc... Seguir essas recomendações significa ganhos na qualidade de vida porque diminui a irritabilidade, aumenta o gasto energético e corporal, a capacidade de concentração e resolução de problemas. Principalmente para quem já passou a bastante tempo dos 40, que é o caso do Zangão com a Abelha Rainha.
Os dois têm uma rotina de exercício físico. Praticam corrida de rua três vezes por semana, e o Zangão ainda faz natação. Para sair da rotina o casal foi a um baile de debutantes das jovens da terceira idade do projeto Vida Ativa, no salão nobre da sede social da Assembléia Paraense, isso no dia 31 de maio. Domingo, 3 de junho, resolveram apelar: decidiram ir a um baile de saudade. Os dois são dançarinos amadores de um ritmo só: brega saudade. Pela localização escolheram o Cangalha, um dançará que fica às margens da BR próximo ao ponto de ônibus.
Tinha chovido muito a tarde. Ingressos nas mãos, apalpadelas dos seguranças e a chegada no “salão de dança”.O trecho que separa o portão de entrada até o espaço de dançante é feito por pontes e completamente cheio de água por baixo, a noite com o reflexo da luz artificial fica com uma visão bucólica, parece um clube de pesque & pague. Guarda chuva guardado com a vendedora de balas, os dois começaram o enfrentamento, ou seja, o sofrimento. Enfrentaram o rusch e chegaram ao espaço de dança. Em 10 minutos já tinha arrebentado as duas alças do sapato da Abelha Rainha. Mas a festa não pode parar.
Cotoveladas, rasteiras, empurrões, safanões e suor. Muito suor. Seis pessoas por metro quadrado é o parâmetro usado para conferência de aglomerados humanos, isso se estiverem juntinhos, espremidos. Agora imagine essa mesma quantia, ou a metade disso, “guerreando” em ritmo de dança (?), e ainda mais com uns “dançarinos” que para mostrar categoria de verdadeiros pés de ouro arregaçam os braços e ficam parece alça de chaleira, aí já viu, o cotovelo do “Carlinho de Jesus ao tucupi” se transforma numa arma. É um perigo. Mas tudo bem resolvido. Tudo na paz. O bom no ser humano é que nosso corpo e cérebro reagem a partir do momento que precisamos sobreviver. E para sobreviver precisa se adaptar. Um filósofo alemão, não lembro o nome, dizia que “a natureza da maleabilidade humana é inimaginável, o homem é capaz de adaptar-se até ao inferno”. E é. Nessa espécie de sub-mundo da diversão, o Zangão e a Abelha Rainha ficaram lá durante 120 minutos dançando. Perfeitamente adaptados...
Existe uma Lei Federal nº 9.605/1998 que preconiza: durante o dia é permitido altura máxima de som em 55 decibéis, a noite 50. A fonte sonora lá no baile do Cangalha era o Rubi Saudade. Painéis com luzes de led, verborragia do DJ (assim que eles gostam de ser chamados) e som altíssimo de péssima qualidade. A gritaria do matraca berrador, misturado ao som mal equalizado,  na altura máxima, acaba transformando boas músicas num quiprocó melódico.  E a Secretaria de Meio Ambiente, porque é tão permissiva com essas empresas donas dessas aparelhagens sonoras que escancaram, botam no doze, (no linguajar da moçada) o volume nos espaços de diversão popular, prejudicando a saúde auditiva dos usuários, dos vizinhos desses locais e até dos trabalhadores das tais aparelhagens, que com certeza sofrerão, se já não sofrem, as conseqüências dessa irracionalidade.
Pior, fazem propaganda enganosa. Anunciam Baile de Saudade e empurram tecnobrega pancadão no freqüentador “de maior”, que quando se empanturra, é cerveja mesmo, não usa outros estimulantes próprios dos festões tecnos que são freqüentados pela juventude que curte um som, digamos, mais avassalador. É, além de terrivelmente barulhentos, enganam também.
Baile, festa, arrasta pé, rala bucho, seja lá que nome for, com esse tipo de som, a Abelha Rainha e o Zangão, fecharam: Nunca! Nunca mais mesmo... E já conheço muitos madurões que estão deixando de freqüentar os bailes com esses aparelhões.
E pensar que um ilustre vereador de Belém queria transformar isso tudo em patrimônio cultural do Estado. Pode? Eu hem...
 NB. O Zangão e a Abelha Rainha citados acima são, respectivamente: 
Eu, Orlando/Jambu e Nazaré, minha querida companheira nos bailes da vida.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

NÃO BASTA PREGAR, TEM QUE COMUNICAR!


 Na semana da comunicação a arquidiocese de Belém fez um concurso de redação com premiação para o primeiro lugar. O vencedor ganhou seis meses de assinatura do jornal O Liberal. Iniciativa louvável e a intenção melhor ainda, que é melhorar a comunicação igreja-fiéis, ou seja, padre e povo. O coordenador do concurso foi o padre Cláudio Pighin, doutor em teologia, mestre em missiologia e comunicação. A entrega do prêmio ao vencedor aconteceu no dia 20 de maio na Igreja da Santa Edwiges, no Panorama 21.
Uma perguntinha de um simples católico praticante. Qual é a falha mais gritante, em termos de comunicação, que existe entre o sacerdote e os fiéis numa celebração? O Ministro da Cultura do Vaticano, cardeal Giafranco Ravasi – parece que é esse o nome do homem, no início desse ano, chamou a atenção de padres em todo mundo, ao declarar que os sermões carecem de conhecimentos cultural, espiritual e intelectual, classificando as homilias de “incolores, inodores e sem sabor”. Verdade. E um exemplo: a missa do Domingo de Ramos, na igreja do Menino Deus, onde eu me congrego, em Marituba, o presidente da celebração proferiu uma homilia longa, foram 35 minutos de pura monotonia.
A leitura era do Evangelho de Marcos (11,1-10 e 15,1-39) e a igreja estava lotada. Muitas pessoas em pé, depois de uma procissão de 1 km sob um sol escaldante, e o ensinamento espiritual longo acaba se materializando em desatenção, sono e desleixo dos fiéis. A falta de atualização dos textos bíblicos, que foram escritos há mais de dois mil anos atrás, sem a inclusão de uma dinâmica, sem uma interação com a assembléia, provavelmente sejam essas algumas das falhas na comunicação.
Quem vai à missa sempre, sabe, que após a leitura de passagens do Evangelho e do Antigo Testamento, vem o sermão. Esta é a parte da missa, que, dependendo de quem preside a celebração (Bispo, padre, diácono ou outro ministro) pode ficar cansativa ou alegre e interessante, que vão desde a linguagem utilizada, a capacidade de dialogar com os públicos, passando pela arte oratória e até tom da voz. Quando esse conjunto não funciona de forma sincronizada, entristece, desanima, e talvez essa seja uma das razões da descristianização em massa. Segundo o cardeal chefão do Vaticano, o Giafranco, padres não devem se privar de falar de assuntos que “perturbem, questionem e causem preocupação”.
Agora o paradoxo: uma notícia publicada no jornal O Liberal, no dia 6 de maio: “Dom Alberto Taveira está agindo com rigor para que os sacerdotes respeitem o tradicional rito da Santa Missa. Nada de invenções, como cânticos fora de hora, palmas e agitações de mãos. Quem fugir das normas, desde que Sua Excelência Reverendíssima esteja presente, pode ser repreendida na hora...”
Vale lembrar que o atual Papa quando assumiu, endureceu as normas tradicionais da igreja, incluindo a volta do latim como idioma oficial nas celebrações religiosas. Que bom que não colou. Até porque a nova ordem viria contra as decisões tomadas no Concílio Vaticano II, 62/65, o Sacrosanctum Concilium que, entre outras coisas, colocou o padre de frente para a assembléia falando a língua local, antes, na maior parte do tempo, era de costas e falando em latim. Tinha um charme, mas, pô! Era complicado: Pai nosso, que estás no céu, santificado seja o vosso nome, era: Pater noster, qui es in caelis, sanctificetur nomen tuum... o bom que onde quer que estivéssemos o idioma da celebração era único. O problema estava no entendimento, na tradução.
A celebração litúrgica como ação conjunta exige a participação comunitária, como: rezar, cantar, envolver-se na ação. Em tempo de grandes espetáculos religiosos e líderes espirituais que estão aí arrebatando corações com seus discursos inflamados (uns inventam verdades); se a igreja católica continuar com padres obedecendo a cúpula, mantendo as celebrações insossas, breve seremos minoria. Bom, pelo menos continuarão os melhores...
 NB. Incrível! Mas verdadeiro. A TV Cultura retransmite uma missa aos domingos, que é celebrada na paróquia da Ressurreição, no Rio de Janeiro, pelo Monsenhor José Roberto, onde não se fala nada em termos de crítica ao governo federal.
Na oração dos fiéis, os primeiros nomes da lista enorme das pessoas que são contempladas com pedidos estão a “presidenta” Dilma, o Lula, Tereza Cruvinel (agora é o Nelson Breve), atual presidente e todo o corpo curador da EBC – Empresa Brasileira de Comunicação. É o governo usando os favores da igreja para promoção institucional. Em resposta a um email que me foi enviado pela EBC, a razão dos pedidos de oração à “presidenta” d. Lulita, e o tutor dela, o novo messias, o ex-presidente, é uma compensação pelo “favor” de transmitir a missa, porque existe uma liminar que desobriga a EBC de fazer essa transmissão televisada. É a igreja se agachando de novo. Uma volta ao passado... hum hum.
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