“Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’strela
tu t’escondes,
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás Senhor Deus? “ (Castro
Alves-1868)
Quem
me dá a honra de ler estes textos deve pensar: ele sempre bate na mesma tecla, vire e mexe o assunto é racismo e a
questão da velhice, ou envelhecimento, com todas as agruras que essas duas
coisas trazem de forma intrínseca à quem o é ou vive essa circunstância.
Bom,
quem é velho vive ocasionalmente essa condição que logo, logo a morte chega e
com ela tudo acaba. Com o negro é diferente, porque ele sempre foi negro e a
negritude trás sofrimento que junto com a velhice, digamos, o sofrimento é
dobrado.
Um
dia desses no Detran, a médica
especialista em medicina do trânsito, que submeteu-me aos testes da saúde para
revisar minha carteira é negra. Negra mesmo. Tivemos uma conversa cheia de
informalidade a ponto de eu perguntar se durante a vida dela (tem 60 anos) alguma
vez tinha sido vítima de racismo. A resposta foi não. Eu não me admirei com a resposta. Preto é assim mesmo, quando
sobe dois degraus na vida ele passa a achar que os outros negros sofrem de analgesia congênita, ou seja, não sentem
dor, e isso não é uma característica do negro brasileiro.
Andando
pelas estradas da vida tive a oportunidade de conhecer as ex-colônias de França,
Holanda e Inglaterra, (Guiana Francesa, Suriname, Martinica, Guadalupe) e Haiti.
São espécies de mini países cujas populações nativas são cem por cento negras. Na
realidade foi a primeira vez que eu vi um negro dirigindo um automóvel Mercedes
sendo ele o dono do carro e não apenas motorista. Foi por lá também que eu constatei
que pouca coisa mudou da época que negro caçava e prendia negros para vender
como escravos; que negros escravos em troca de alguns privilégios se
transformavam em capitães do mato,
caçadores de escravos foragidos. Por lá ainda existe – e muito – negro sendo
escravizado por outro negro.
Tenho
um parente próximo que é negro puro, africano, e que nos tempos de vaca magra quando
morava na casa da minha mãe um dia, ao ver passar ricaços nos seus carrões em
frente onde morávamos, na estrada da Pirelly, falou-me assim:
- olha Jambu, esses quando nasceram Deus estava olhando
pra eles.
Um tempo depois, já com o burro na sombra, no enfrentamento com um vizinho que enchia o saco,
vociferou:
- Pôrra! Por isso que eu tenho raiva de pobre.
Hoje,
alto executivo em uma estatal de mineração angolana, vem duas vezes por ano em
Belém onde plantou profundas raízes familiares, nessas ocasiões costumamos
bater sempre longos papos e foi num momento desses que eu perguntei, - até
lembrando que quando o Pelé, já milionário, fez o milésimo gol ele gentilmente dedicou as crianças pobres do Brasil – a maioria negra, deve ter se alimentado bem
naquela época. Bom a pergunta foi a seguinte:
- Por que negro rico parece detestar negro pobre?
A
resposta foi quase uma dissertação, que no final confirma minha afirmação e
isso é histórico. O Zumbi que é cultuado por nós, negros, como herói, o mais
inteligente estrategista que liderou o quilombo dos Palmares, como comandante em chefe, também tinha
escravos e mandava matar os rebelados. Em 1804 o Haiti se tornou a 1ª República
Negra do mundo, de lá para cá dá um passo a frente e dois, três para trás. A
fome, a doença, a miséria, parecem se perpetuar naquele país, onde o maior
símbolo de resistência, espaço social e cultural do país é o vodu, sistema
misto de magia negra e branca, religião primitiva que predomina em todos os 38 países
da África Negra – que vivem se matando em guerras tribais –, guerras e
conflitos que gera desgraça, que gera fome, que gera miséria.
Ditadores
cruéis como Haile Salassié (Etiópia), Bokassa (República Centro Africana),
Mobutu (Congo), Idi Amin (Uganda) e o Papa Doc e Baby Doc (Pai e filho) esses
dois do Haiti; criaturas hediondas que juntas mataram mais de 5.000.000 de
outros negros. Mas existem também negros presidentes “bonzinhos” em países africanos
que, democraticamente, a custa de esquemas corruptos, são
eleitos e reeleitos, se perpetuam no poder numa ditadura disfarçada. Esses
também matam, mas recebem aplausos internacionais porque não são ditadores, isto é, não comem carne
humana... Em 1830 o americano Joseph Smith fundou os Mórmons, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos
Últimos Dias, colocou lá no livro “sagrado”
deles que um anjo (com certeza o coitado não conhecia as coisas da terra) entre
outras coisas, falou-lhe o seguinte: “você
vê alguns grupos de família humana que são negros, desajeitados, feios,
desagradáveis e baixos em seus costumes, selvagens e aparentemente sem a benção
da inteligência que é normalmente dada à humanidade...”.
O
anjo que o deus racista do Smith mandou era só um porta-voz, tanto que até bem
pouco tempo atrás os catadores de
fiéis dessa organização religiosa andavam em dupla, sempre dois americaninhos branquinhos de pasta na
mão faziam a “praça”. Hoje mudou, já vem um pretinho compondo o dueto.
Mas,
e os negros elevados a condição de elite, porque não mudam em relação aos
outros negros, colocando um braço social de inclusão, lutando por melhorias que
facilite, que abra mais oportunidades, ou que pelo menos, passe pelo negro
ferrado e não o torne mais invisível.
Um
sorriso, um aceno, um bom dia. O negro pobre, casca grossa, pé no chão, com
certeza sorrirá feliz, achando que quando nasceu “Deus estava me olhando...”


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