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| (HOMENAGEM ESPECIAL A IARA CECÍLIA, MINHA NETA, QUE INSPIROU-ME NESTE TEXTO) |
Toninho coordenava uma equipe de mulheres artesãs que
expunham seus trabalhos nas barracas da praça principal da cidade, Acaputeua. Ele era educador social. Tinha projetos políticos para o futuro, quem sabe uma
vereança. D. Graça, a encarregada de organizar a montagem das barracas nos
finais de semana, estava sempre acompanhada de uma moça negra muito linda.
- Bom dia D. Graça. Cadê as outras?
Perguntou o Toninho
pelas outras mulheres artesãs.
Era domingo quase nove horas. A D. Graça arrumava as tralhas
e o movimento de pessoas na praça já era grande.
-Inda num chegaram Toninho, mas já já elas tão por aqui.
Como que por encanto todas apareceram, quase ao mesmo
tempo. A conversaria tomou conta do espaço, e no meio a gargalhadas e falação
todas as barracas foram rapidinhas montadas e enfeitadas com os mais variados
produtos.
Começava mais um
domingo do arte na praça, nome do
projeto do Toninho, que foi se chegando para junto da D. Graça e tímido, meio
sem jeito, perguntou quem era aquela bela jovem que a acompanhava sempre.
- É a Isa minha filha, mas ela já tem namorado por quê?
Respondeu a D. Graça, de forma bem intimidatória.
O encabulado Toninho disfarçou, saiu de fininho, mas deu um
olhar de esguelha e uma piscadela em direção à moça, que correspondeu com um sorriso
dissimulado.
O tempo passou. Seis meses depois Toninho e Isa estavam
namorando firmes.
O tempo passou. Dois anos mais e os dois estavam casados.
O tempo passou. Cinco anos após o casamento chegou um circo
lá em Acaputeua.
O circo recém chegado armou a lona colorida no terreno ao
lado da praça com o nome vistoso Le Grand
Cirque Français e anunciou a inauguração, tendo como maior atração Margot,
uma francesa com todos os atributos indispensáveis para deixar os homens
malucos. Linda. Desfilou em carro aberto pelas principais ruas da cidadezinha. Toda
garbosa, luxuosa, bela, esplêndida, majestosa. O resultado apareceu nas
bilheterias. O circo ficou lotado. A maioria homens. Dentre os poucos que
estavam acompanhados o Toninho estava lá, com a Isa. Ela meio trombuda, e com
razão. Quando a francesa apareceu foi um furor. Até ele, Toninho, sempre muito
compenetrado, de repente, embasbacou. Ficou com um semblante amortecido,
abrandado. Parecia meio leso. Cara de apaixonado.
O tempo passou. Três meses depois quando o circo levantou
lona o Toninho desapareceu de casa. Sumiu junto com o circo. Fugiu com a
Margot.
E o tempo passou. Muito tempo. Trinta e cinco anos. Era noite
de 24 de dezembro, véspera de Natal.
A Isa escolhia algo simples para fazer uma pequena ceia.
Ainda mantinha os traços da beleza dos tempos idos. Vaidosa, malhava, por isso
tinha um corpo perfeito. Aposentou-se como professora. Levava uma vida
tranquila. De repente, como se tivesse sido atraída por uma força invisível
virou-se rápido, e deparou com um homem idoso de cabelos grisalhos, um pouco
gordo que a olhava com insistência. Ela o encarou, e como um raio sua mente
começou trabalhar e, pimba! Reconheceu o cidadão. Tremendo em cima dos sapatos, porém, com uma firmeza
inusitada, cumprimentou aquele homem macambúzio, abatido, meio envergonhado,
que parecia querer atravessar-lhe com o olhar. Era o Toninho.
- Oi, Toninho. Tudo bem com você? Falou, estendendo-lhe às
mãos.
O encabulado Toninho evitava olhar nos olhos da Isa. Parecia
acabrunhado. Monossilábico, custou engrenar um assunto. Na realidade ambos
evitavam abrir uma mala sobrecarregada de tristes recordações. De repente,
próximo dali da loja de conveniência onde eles se encontravam começou ressoar
os sinos da igreja, que anunciavam o início da missa do galo. Era Noite de Natal. Fez-se um breve silêncio
quebrado pela Isa que, aliás, era a iniciadora dos argumentos de conversação.
- Vamos cear em casa. Ainda moro no mesmo endereço.
- Não! Não fica bem eu e você juntos. O povo vai falar...
- Ô Toninho! Quem vai ligar pra dois velhos andando juntos.
Vamos logo.
Ele aquiesceu. Saíram da lojinha conversando banalidades.
A emoção estava visível na fisionomia do Toninho quando ele
entrou na casa onde fora tão feliz. Sentou-se à mesa no mesmo lugar onde
sentara pela ultima vez mais de trinta anos atrás. Nada tinha mudado na casa a
não ser um ou outro objeto decorativo. Até as fotos emolduradas do casamento
estavam lá penduradas e os sorrisos dos dois, ainda vestidos de noivos, parecia
tirar um sarro com cara que ambos estavam naquele momento. E a Isa pra lá e pra
cá. Enquanto arrumava e abastecia pratinhos
não parava de falar com um Toninho que continuava lacônico. Inquieto ele
não parava de olhar para o quarto do casal, e principalmente para um par de
chinelões masculinos, lá arrumadinhos embaixo
da cama, como que esperando o pé do dono. Já quase duas da manhã, o movimento
nas ruas era grande e a Isa apesar de falante evitava cuidadosamente tocar em
assuntos desagradáveis para os dois, e o Toninho agoniado, não parava de olhar
para aquele par de chinelos de homem lá, embaixo
da cama.
Demonstrando preocupação pelo horário a Isa pediu
para o Toninho ficar. Ele recusou. Alegou que “não fica bem um homem passar
a noite na casa de uma dama que mora só”. Ela insistiu.
- Toninho, nós já estamos bastante velhos pra nos
preocuparmos com falação do povo, não achas? Pior é tu sair essa hora da noite
correndo riscos por aí...
A angústia do Toninho estava virando aflição. Muito nervoso
ele não aguentou. Falou entredentes com a voz trêmula:
- É. Eu até posso
ficar aqui com você, mas, e esse chinelão de homem aí embaixo da cama. De quem
éé...?
Perguntou quase berrando
com os olhos pululando de ódio e ciúme.
Quá quá quá quá quá!!! A Isa caiu na gargalhada. Riu tanto
que quase nem conseguia responder ao ansioso Toninho:
- É o teu chinelo, Toninho. Taí do mesmo jeito que você
deixou na noite que você sumiu de casa...
Lá fora duas pessoas despediam, desejando um ao outro um Feliz
Natal....



