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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

MEU FILHO, MEU NETO; MEU INIMIGO, MEU ALGOZ...



O velho Celino tem mais de 90 anos. Doente, com a visão comprometida,  só se locomove com ajuda de outra pessoa. Um estorvo. Mas ele tem uma coisa muito boa: um cartão bancário que é usado para sacar o salário de aposentado. Separado da mulher, D. Darci, os dois moram em casas separadas dentro do mesmo terreno. São vizinhos. No terreno  tem mais três casas ocupadas por filhos e netos. Uma espécie de condomínio familiar, onde os conflitos são constantes. Dos cinco filhos que ele criou só um levantou a bandeira da independência e bateu asas.
A qualidade de vida dos velhos depende muito dos seus cuidadores. O velho Celino, neste quesito, não teve muita sorte. Dos filhos que ficaram morando na  propriedade onde fica a casa do velho, quem ficou habitando no mesmo espaço foi a Marilena. Ma-ri-le-na. Pois é. E foi esta santa criatura que se apropriou do cartão de recebimento do benefício previdenciário, como  procuradora do pai. E isso não é pecado. O problema é que a Mari de vez em quando vira cavalo do cão. Quando isso acontece ela bate no velho. Ela arria o malho no seu Celino. Arma-se com que encontra pela frente e bota todo mundo pra correr, inclusive a mãe, D. Darci, que está com o telhado todo cheio de buracos e os vidros das janelas quebrados ou trincados, vitimados pelas pedradas que a endiabrada Marilena atira. Quando ela pega umas carraspanas aí é que não tem quem a segure. Já foi em cana uma vez e processada duas vezes. Agora ela não bate mais no velho Celino. Faz pior: cospe-lhe no rosto. Porque é indolor e não deixa marcas. Depois do casamento com o Orlando, um cirurgião dentista reformado da marinha e aposentado da sespa, a Mari ficou mais fortalecida. Era o aliado que ela precisava pra continuar fazendo as marilenices  que amedronta a parentada toda. Credo...
            Como presidente do CMDPI – Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa - fui procurado esses dias pela mãe da Madá, D. Darci, que me passou as informações aqui contidas. A idosa vem tendo crise de nervos e quer providências.
Apesar de ter lutado quase dez anos pela criação do Conselho, hoje, como presidente, estou igual barata tonta, não sei o que fazer com o cargo. O Conselho não tem sala, secretária, carro, computador, não tem nada. Ou seja, existe de direito, de fato, porém...
            Sou um dos líderes da Pastoral do Idoso da minha Paróquia  e conheço muito bem essas mazelas sociais. Existem idosos bem tratados, idosos maltratados, idosos abandonados dentro de casa no meio dos parentes. Reféns da intolerância e do desamor. Todos, porém, têm algo em comum: sustentam com seus parcos proventos a maioria dos seus algozes, e outro detalhe que os iguala: quase todos, por amor ou temor, esconde que é vítima de maus tratos por parte do filho, neto ou outro parente, tutelado pelo próprio idoso.
            Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS), Política Nacional do Idoso (PNI), Estatuto do Idoso, etc. Tudo isso são siglas de leis das políticas sociais de proteção aos velhos. E ainda tem a Igreja Católica com a Pastoral da Pessoa Idosa que em todo Brasil ajuda na assistência aos que tem a sorte ou, dependendo do caso, a desdita de envelhecer. Nada disso seria necessário se a vida não  fosse cheia de marilenas; se nós não tivéssemos esquecidos que o velho que hoje está na nossa frente como um espectro “incomodando” com suas dores, gemidos, resmungos; que não escuta e nem enxerga direito; com sua teimosia repetindo várias vezes o mesmo assunto, é o mesmo ser humano que lá atrás quando éramos crianças nos carregou no colo, segurou na nossa mão, nos deu segurança e proteção. Desnecessárias seriam leis protetivas se ao invés de brutalizarmos nossos velhos os tratássemos com respeito e amor; nada disso seria necessário se, ao invés de cusparadas no rosto encriquilhado o velho recebesse afago e carícia.
 Infelizmente muitos esquecem que respeitar o velho hoje é tratar o próprio futuro com respeito. Bom, talvez a certeza que não envelhecerão faz agirem dessa forma. Só pode ser isso. Sabe Deus. Meu Deus...

NB.O caso aqui relatado é real, só os nomes foram trocados. Porquê? Medo, sim, tenho medo...

1 comentários:

  1. Prezado Sr.Mescouto,
    Li a sua postagem. Infelizmente a situação é recorrente. Na condição de presidente do Conselho Municipal, formalize denuncia à Delegacia de Polícia e Promotoria de Maritura, para as providências. Quanto as dificuldades que está enfrentando para funcionar o Conselho é decepcionante. Lembro-me que na cerimônia de posse do Conselho, solicitei em minha fala o apoio da Prefeitura e da Câmara de Vereadores ao Conselho, para que tivesse condições dignas de funcionamento. O prefeito em sua fala foi mais além do que pedi, prometendo que construiria um espaço único para abrigar todos os Conselhos do Municipio. Enquanto isto não acontece, pois ´e um processo demorado deveria ter alocado um espaço e adquirido equipamentos necessários ao funcionamento do Conselho. Reuna o conselho e aprovem o encaminhamento de uma moção solicitando o cumprimento do prometido. Tomei conhecimento pela imprensa que o mandato do presidente da câmara foi cassado. Não desanime, pois as dificuldades são grandes. Estamos a seu dispor para o que for necessário e possível fazer.
    Um abraço
    José Eduardo B.Pontes
    Presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Idosa do Pará.

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