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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

"EU FI-LO PORQUE QUI-LO"


“Pater noster, qui es in caelis:
Sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua,
sicut in caelo et in terra.
Panem mostrum cotidianum
Da nobis hodie;
Et dimitte nobis debita mostra,
Sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
Et ne nos inducas in tentationem;
Sed libera nos a malo.”
Assim o Papa concluiu a ultima celebração dele em público, rezou a oração do Pai Nosso em latim.
No dia 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas em pleno exercício da Presidência da República, pressionado a renunciar preferiu suicidar-se com um tiro e, numa carta escrita por um puxa-saco, deixou esse recado: “serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”. Ele mesmo, o Getúlio, escreveu, “deixo à sanha dos meus inimigos o legado da morte...” Bom, o certo é que ele morreu. Pronto.
Outro renunciante famoso no Brasil, Jânio Quadros, assumiu a presidência em janeiro, renunciou em agosto de 1961 e escreveu isso: “Encerro assim, com o pensamento voltado para nossa gente... A mim não falta coragem para renunciar...” Tempos depois um repórter  perguntou o  porquê da  renuncia,  ele teria respondido: “eu fi-lo porque qui-lo”.
Percepção Social – é o processo pelo qual formamos impressão a respeito de uma pessoa ou um grupo de pessoas. Sobre pessoas nunca temos impressões desconexas ou isoladas, mas sempre integramos observações numa impressão unificada e coerente, às vezes temos que inventar ou distorcer características percebidas. Acontece muitas vezes, da gente quebrar a cara com a tal da “primeira impressão é a que fica”, porque o tempo, a convivência, mais informações sobre outrem, costumam desmontar uma percepção que “a priori” alterou nosso comportamento de juízo em relação ao outro.
 Digo isso porque nunca gostei do Sr. Joseph Ratzinger. Primeiro por ele ser alemão, depois, no começo do seu pontificado, sem tato nenhum, provocou os muçulmanos (outros que eu não gosto e morro de medo deles), conservador, endureceu mais os dogmas da Igreja e até o retorno do latim como língua oficial nas celebrações, que representava um retrocesso, tornou-se obrigatória, tudo isso aumentou a cisma que eu tinha pelo seu Ratzinger, e até dando uma de futurólogo, previ que ele não ia terminar o papado, mas eu imaginava que um desses malucos que têm espalhados por aí fosse atentar contra sua vida. Qual nada! Eis a surpresa. O Grande, o Inominável, o Super Joseph Ratzinger, o Supremo, O Sumo Pontífice Bento XVI mostrou grandeza, abdicou da glória e do poder e, num gesto de nobreza entregou o cetro, que é a insígnia do Poder Papal. Quem não lembra João Paulo II, caindo aos pedaços, nem a voz saía mais, era um verdadeiro cadáver ambulante e seguiu até o fim como Papa? Mesmo para quem sonha ser canonizado é muito sofrimento.  
 “Eu não tenho mais força, o mundo está agitado, há muita mudança em movimento”. Palavras do Papa quando anunciou que estava saindo de cena, largando o sapatinho vermelho (o nome oficial é múleo). Essa afirmação soa como uma queixa.  Uma confissão de quem está sem força, de quem não está dando conta de levar o barco a um porto seguro, e não é fácil mesmo lidar com movimentos que juntam multidões de católicos no mundo inteiro gritando em favor da aplicação de células tronco, união de homossexuais, novas núpcias de católicos divorciados, uso de preservativos ou anticonceptivos, acesso das mulheres ao sacerdócio, escândalos sexuais na igreja, roubalheira no banco do Vaticano, fim do celibato, etc.. É seu Padre, não é fácil. Mesmo saindo de conservador a revolucionário, porque soube usar o, digamos artigo - Cânone 332 do Direito Canônico - que prevê a renuncia e saiu fora. É, isso mostra que a igreja clama por mudança, mesmo assim melhor era ele, o Papa, ter morrido, porque depois desse gesto, continuar vivo vai atrapalhar mais do que ajudar.
Por tudo que eu escrevi aqui, Deus me abençoe... Amém.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

TRISTEZA, SOFRIMENTO E MORTE. DOR TEM TAMANHO?




“Morte: uma perspectiva a ser encarada com coragem pelos bons, mas com supremo terror pelos maus” (Platão - filósofo grego)

Que tamanho tem a dor? Existem instrumentos para medir pressão arterial, batimentos cardíacos, glicemia, etc. A dor, tem a mais intensa, e a mais leve. E a maior, existe? Qual tamanho terá?
Em 1961 numa colônia isolada no interior de Abaetetuba, aqui no Pará, uma família de cinco pessoas, marido, mulher e três filhos, o mais velho com quatro anos incompletos e o mais novo com quase um ano, eram os únicos habitantes lá onde o pessoal da Vila de Beja chamava de “centro”. Viviam da roça, criavam galinhas, porcos, algumas aves e animais nativos como capivara, jabuti, mutuns e outros que eles vendiam na vila no “retalho ou inteiro”, no linguajar simples caboclo abaetetubense daquelas épocas.
Aos sábados ele arrumava o que comportava nos dois caçuás, engatava na cangalha presa às costas do cavalo e seguia rumo à vila da onde só retornava depois de ter vendido tudo que levara, e que na maioria das vezes, acabava mesmo era sendo trocado por mercadoria de consumo do dia a dia. Chegava na casa já de noite sempre com umas duas na cabeça. Quase cinco anos de casados e a rotina era essa toda semana. Nesse sábado, ao sair, o Zé beijou um a um dos filhos, coisa que nunca fizera antes. Era pouco mais de sete horas da manhã. Lá pelas nove, com o sol já alto, a Zilda colocou o menorzinho escanchado nas cadeiras, uma bacia cheia de roupa na cabeça e foi para o igarapé lavar roupa, deixando na casa os dois pirralhos maiores que ficaram brincando de caçar. Um se escondia atrás duma moita e o outro “pá!”, disparava com uma fofóia de açaizeiro. No igarapé a mãe desocupou a bacia de roupa seca e na medida que ia lavando devolvia as peças já lavadas para dentro de mesma bacia, e o miúdo sentado na areia a beira da água brincava, sob os olhos vigilantes da mãe. De repente, grito e choro de criança vindo da casa.  
- Meu Deus! Gritou a Zilda. Largou tudo e saiu correndo na direção de casa que era distante do igarapé uns cem metros. Quando ela começou subir a ribanceira que separava a casa do riacho, estancou de chofre, ao ver o filho mais velho com a peixeira (faca de 12 polegadas) que o pai usava para sangrar porcos. A enorme faca estava, assim como o menino, ensanguentada. O filho no alto da ribanceira quando enxergou a mãe assustou-se e caiu por cima da faca que trespassou-lhe o abdome. O corpo da criança ainda rolou e ficou escorado nas pernas da mãe, que totalmente aflita, retirou a faca e carregou-o. Junto com o sangue que escorria ela sentiu esvair-se a vida do filho também. Sem saber se levava o pequeno na água para lavá-lo ou seguia para ver o que tinha acontecido no barraco ela seguiu em frente, correndo. No terreiro da casa deparou com o outro pequeno, estava em decúbito ventral, morto no chão. Fora esfaqueado pelo irmão que, supõe-se, brincava de “matar porco”, haja vista, a furada feita pela arma ter sido na jugular, mesmo lugar onde o Zé “vitimava” os suínos no quintal, sempre na presença das crianças. Em desespero, a mãe que carregava um caiu em cima do outro filho, morto.
Zilda, uma mulher de um metro e sessenta, magra quase raquítica, mas era forte não derramara uma lágrima até aquele momento. Com muito esforço ela conseguiu erguer as duas crianças e cambaleando como uma bêbada, totalmente ensopada de sangue, começou caminhar de volta para o igarapé. Um filho em cada braço apertado contra o corpo. Ela lembrou do menor que todos o chamavam de mimim, queria andar ligeiro, correr, mas as pernas não obedeciam. Ao chegar encontrou o caçulinha dentro da água. Estava morto. Ele engatinhou para a morte.
 Sem assistência psicológica, (por aquelas paragens ninguém sabia sequer o significado da palavra “psicólogo”) o casal começou se culpar pela tragédia que atingiu a família.  A Zilda, coitada, passou a vagar por dentro do barraco dia e noite sem se alimentar nem dormir, surtou, morrendo duas semanas depois. O Zé, que só bebia nos finais de semana quando ia fazer venda na vila, passou a se embriagar diariamente. Morreu afogado no rio Jarumã, duas semanas após a morte da mulher, quando saiu para pescar sozinho (estava bêbado) num casquinho a remo. Assim, a fatalidade decretou em menos de dois meses, o extermínio de uma família, duas gerações.
Tragédia, como que aconteceu em Santa Maria/RS, onde morreu muita gente, causa comoção nacional e dor, não é, todavia, maior que a pequena desgraça onde morre só uma pessoa. Para o parente mais próximo – pais principalmente – a dor é a mesma. Minha pergunta: Em Santa Maria tem família que está sofrendo muito porque perdeu quatro filhos. A dor, é maior de quem perdeu só um?
Estatísticas sobre mortes no Brasil, por ano. Trânsito: 40.000; homicídios: 50.000. Em todo lugar por onde passamos, diariamente, tem uma armadilha armada contra a nossa vida. Umas são tão estúpidas, que não dá nem para usar a eterna frase de natureza conformista: foi a vontade de Deus...

Glossário
Caçuás - espécie de cestos gigantes feitos de cipó timbuaçú
Fofóia - parte que fica presa à árvore e sustenta a folha do açaizeiro
Miúdo - criança
Peixeira - faca de 12 polegadas
Casquinho - embarcação pequena movida a remo
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