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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O PAI NOSSO, E O NOSSO FIM DO MUNDO

Anos atrás aí por volta de 1977 mais ou menos eu estava na casa da minha irmã, em Benevídes. Era um domingo, início da noite e desabava um temporal. De repente, um estrondo ensurdecedor, as luzes da casa e da rua se apagaram, ao mesmo tempo que um clarão iluminava tudo na rua. Algo assustador jamais visto por ali. O pavor tomava conta de todo mundo causando histeria. Ouviam-se gritos e choro nas duas casas vizinhas mais próximas.
 Na residência de um dos vizinhos, a dona da casa, Dalva, ajoelhou-se diante do marido que surpreso, atônito e estupefato, ouviu da madame uma inesperada confissão: a jovem senhora, em desespero, ajoelhada ,contou-lhe que o traía com um cidadão que, na época, era prefeito local. Contou tudo e implorou que a perdoasse. Ela estava certa que aquele estrondo seguido do enorme clarão era o fim do mundo. Queria morrer “limpa”. Perdoada.
Tudo acalmou. Voltou escurecer. Aquele destampatório todo foi causado por um  transformador da rede de energia que tinha estourado e incendiou a fiação em toda a extensão da rua. Velas acesas, e começou outra solitária gritaria com muito choro e pedido de socorro. Corremos para ver o que estava acontecendo. Deparamos com a Dalva caída numa poça d’água no terreiro da casa, ao lado de uma trouxa de roupa com olho roxo, muito machucado. Chorava. Chorava muito. Pois não é que pobrezinha pensando em ir para o céu, depois de ter “pulado a cerca” abriu o jogo? A coitada se deu mal. Quando caiu na real, apanhou. Apanhou muito, e  nesse tempo não tinha a Maria da Penha.
Em 1999 quando anunciaram, de novo, o fim do mundo, o Tio Isaac, irmão do meu pai,  mas que já tinha 60 anos, se suicidou à véspera do dia anunciado para o fim. Disse antes para alguns colegas e gente da família que não queria morrer junto com todo mundo.
Estamos a menos de uma semana do início de mais um ano, o dois mil e treze, e os profetas do apocalipse falharam mais uma vez. O dois mil e doze vai entregar o bastão para seu sucessor, o dois mil e treze, lépido e fagueiro, na boa. É a 12ª derrota dos anunciadores do fim do mundo. E o mais interessante é que a próxima data para o outro fim, já está marcada: será em 2060, segundo previsões do físico Isaac Newton.
Na realidade, segundo pesquisas, o fim acontece diariamente para 6.178 e começa para 211 mil pessoas no mundo todo – essa é a relação de mortos e nascimentos/dia - Nas duas guerras mundiais que aconteceram o mundo  findou, no atacado,  para mais de 90 milhões de pessoas. Desastres naturais como terremotos, maremotos, tsunamis e mais os conflitos armados, tudo isso faz findar o mundo de multidões, e seria terrível se não fosse assim. São fins extremamente necessários. Pensemos: a população mundial tem sete bilhões de pessoas. Não tivessem acontecido as duas grandes guerras e outras hecatombes, qual seria a população do mundo hoje? Vinte, trinta bilhões? Provavelmente...Aí, canibalismo seria algo já bem natural. Bom, aquele número estimado de mortos aí no alto destes escritos é uma balela, porque segundo a ONU, a cada um minuto morrem doze crianças, só de fome, no mundo.
                É isso. Como eu estou postando este texto hoje na noite de Natal, vou terminá-lo refletindo a oração que todos rezam ou oram, O PAI NOSSO. Antes desejando para os que leem estas “coisas” qu’eu escrevo um abençoado Natal; um 2013 pior que 2011 e muito, muito mesmo, melhor que 2012. Amém?...
“SE EM NOSSAS VIDAS NÃO AGIMOS COMO FILHOS DE DEUS, FECHAMOS O CORAÇÃO PARA O AMOR, SERÁ INUTIL DIZERMOS: PAI NOSSO QUE ESTÁS NO CÉU; SE NOSSOS VALORES SÃO REPRESENTADOS PELOS BENS DA TERRA, SERÁ INUTIL DIZERMOS: SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME; SE NO FUNDO O QUE NÓS QUEREMOS É QUE TODOS OS NOSSOS DESEJOS SE REALIZEM, SERÁ INUTIL DIZERMOS: VENHA A NÓS O VOSSO REINO; SE ACHAMOS MAIS SEDUTORA A VIDA AQUI, CHEIA DE SUPÉRFLUOS E FUTILIDADES, SERÁ INUTIL DIZERMOS: SEJA FEITA A VOSSA VONTADE ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU. SE PREFERIMOS ACUMULAR RIQUEZAS DESPREZANDO NOSSOS IRMÃOS QUE PASSAM FOME, SERÁ INUTIL DIZERMOS: O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE; SE NÃO NOS IMPORTAMOS EM INJUSTIÇAR, FERIR, MAGOAR OS QUE ATRAVESSAM NOSSOS CAMINHOS, SERÁ INUTIL DIZERMOS: PERDOAI NOSSAS OFENSAS, ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS QUEM NOS TEM OFENDIDO; SE ESCOLHE SEMPRE O CAMINHO MAIS FÁCIL, QUE NEM SEMPRE É O CAMINHO DE CRISTO, SERÁ INUTIL DIZERMOS: NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO; SE, PELA NOSSA VONTADE, PROCURAMOS SÓ OS PARAZERES MATERIAIS E TUDO QUE É PROIBIDO NOS SEDUZ, SERÁ INUTIL DIZERMOS: LIVRAI-NOS DO MAL; SE, SABENDO QUE SOMOS ASSIM, NADA FAZEMOS PARA NOS MODIFICAR, SERÁ INUTIL DIZERMOS: AMÉM

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

PROIBIÇÃO: A "IDIOTOCRETINICE" PERMITIDA


No final da década de sessenta, 1967, mais ou menos, eu fui barrado na porta do Olympia (queria assistir o Dólar Furado). Motivo: estava de chinelo. Eu era um pequeno cinéfilo, classe “D”. Fazia parte de um grupo de ferradinhos que, aos domingos, estendia revistas nas calçadas na frente dos cinemas para fazer um escambo ou descolar algum trocado, vendendo. Era Fantasma, Mandrake, Zorro, Capitão América, Batman, Homem Aranha, etc...Tudo preto e branco, não existia ainda as coloridas.
Depois dos negócios, o lazer. Cinema. Às vezes três sessões por tarde.  O meu gênero preferido: o faroeste (bang bang). Nos cinemas Palácio, Nazaré, Moderno, Independência e Ópera (o Ópera daqueles tempos, porque o de hoje...) não podia entrar de chinelo. Esse complemento do vestuário só era permitido nos cinemas da periferia, São Jorge e Paraíso, na Pedreira; Guarany, na Cidade Velha, Cine Art, na Praça Brasil; Cine Brasilândia, na Sacramenta e Cine Marambaia.
                Proibição. São normas que impõem regras de comportamento. Foi por causa do excesso de proibições que surgiram os anarquistas. A doutrina do anarquismo pregava a liberdade total, sem qualquer forma de autoridade e dominação. Seria um tipo de convivência baseada na autogestão, onde os indivíduos pudessem viver em propriedades coletivas, de forma solidária e pacífica, sem a formalidade de governos constituídos. Nada de polícia, escola tradicional, casamentos, etc. Isso está tudo lá na bíblia dos anarquistas, o livro Que é a Propriedade, escrito em 1840 por um dos principais defensores dessa forma de viver, o filósofo, político e teórico Pierre-Joseph Proudhon.
 Tive a oportunidade de viver em mini-países, ex-colônias europeias, onde a população nativa é 100% negra descendentes de povos africanos. Lá, em alguns lugares, o homem pode tranquilamente colocar a manipeba para fora e mijar, mesmo tendo mulher por perto. Normal. Falta grave é sacudir o grandão. (aquela sacudidela básica que faz cair os dois últimos pingos). Dá até cadeia. É um pouco do anarquismo já normatizado, afinal, balançar faz parte do ritual da mijada masculina.
                 Quando eu era menino assistia um jogo de futebol no Terêterê, um povoado lá no Rio Tauá. Era o Marituba e o Pau Sêco que pelejavam em campo. O árbitro era o “Tio Constâncio”. Detalhe que não esqueço: ele ficava de cócoras no meio do campo de onde apitava o jogo. O Manduca, atacante rápido, em determinado momento dominou a bola no campo de defesa do “Pau” e disparou. Foi embora em velocidade passando por todo mundo. Quando ele se aproximou da grande área do Marituba, trrriiiii. A jogada foi interrompida. O Manduca, morto de cansado e muito santo da vida, parou, colocou as mãos nas cadeiras e gritou:
- Que foi, tio Constâncio?
O juizão, passivo, lá de onde estava, respondeu:
- Tu correstes mais que os outros. É falta.
A falta foi cobrada e o jogo continuou. Era a lei do Tio Constâncio. O juiz daquele jogo. Uma idiotice, mas ele fez valer e pronto.
                Eu iniciei esta escreveção lembrando da proibição de entrar de sandálias, ou chinelas em alguns cinemas de Belém nos tempos de antanho,  em virtude do festival de filmes de faroeste (bang bang) que aconteceu de 04 a 10/12/2012, no cinema Olympia. No segundo dia do festival eu fui barrado (a segunda barração em 45 anos), porque estava de camiseta tipo regata. Não tinha lido o aviso que advertia a respeito do traje.
- Pelo amor de Deus meu amigo, eu venho de Marituba só pra assistir esse filme. Deixe-me entrar, eu disse.
Resposta:
- Enquanto gente que vem de fora, de São Paulo (fez questão de frisar o foribundo funcionário, aliás, um velho preto parecido comigo) num entra, magine tu.
Em pouco tempo já tinha um jovem e musculoso segurança de braço cruzado na minha frente. Eu não podia ficar da área interna e envidraçada do espaço. Aí chegou a Nazaré, turismóloga e gerente da casa, pós-graduada na USP (informações dela). Mais choradeira minha, mais irredutibilidade. Por fim, a minha mulher foi na Loja Americana, ao lado do cinema, comprou uma blusa baratinha que eu vesti. Só assim eu pude entrar para ver o resto do filme. Ufa! Ah, ia esquecendo: é proibido entrar com pipocas, também, na sala do cinemão. É verdade. Acredite!
 É um pouco festival de idiotices. Mas não poder se encostar em canhões ,que estão ao ar livre levando sol e chuva, do Forte do Castelo para tirar fotos; não poder falar alto na Igreja de Santo Alexandre (Museu de Arte Sacra), onde acontecem concertos sinfônicos que atingem decibéis altíssimos;  não poder fotografar portando câmeras amadoras com flash de led embutido (que não agride pois, não emitem raios infra vermelhos) na Igreja da Sé, onde é totalmente escuro. Vá entender...
Proibições esquisitas, idiotas e até bizarras não é exclusividade nossa. Em Israel, por exemplo, é proibido meter o dedo no nariz, aos sábados; em Cingapura não se pode fazer sexo oral, a não ser que seja como entretenimento; no Bahrein médico só pode examinar genitais das mulheres se for olhando pelo espelho, direto lá, não! Na Indonésia quem for flagrado batendo uma punhetinha, (masturbando-se) é decapitado. Credo em Cruz! No Brasil, em 1894, uma lei proibia a população comer melancia.
São proibições idiotas. E falo só das nossas. Como ser social, temos que conviver com elas. Duro mesmo é suportar a grossura dos estufados bucéfalos (como o funcionário do Olympia, que disse, “enquanto gente de fora...”) agentes, que com ares de prevalência nos empurram no peito e espumando pelos cantos da boca, rangem os dentes, grunhindo: “Aqui, não!”.  Se acham... 
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