No final da década de sessenta,
1967, mais ou menos, eu fui barrado na porta do Olympia (queria assistir o Dólar
Furado). Motivo: estava de chinelo. Eu era um pequeno cinéfilo, classe “D”. Fazia parte de um grupo de ferradinhos que, aos domingos, estendia
revistas nas calçadas na frente dos cinemas para fazer um escambo ou descolar algum trocado, vendendo. Era Fantasma,
Mandrake, Zorro, Capitão América, Batman, Homem Aranha, etc...Tudo preto e
branco, não existia ainda as coloridas.
Depois dos negócios, o lazer. Cinema. Às vezes três sessões por tarde. O meu gênero preferido: o faroeste (bang bang). Nos cinemas Palácio, Nazaré,
Moderno, Independência e Ópera (o Ópera daqueles tempos, porque o de hoje...)
não podia entrar de chinelo. Esse complemento do vestuário só era permitido nos
cinemas da periferia, São Jorge e Paraíso, na Pedreira; Guarany, na Cidade
Velha, Cine Art, na Praça Brasil; Cine Brasilândia, na Sacramenta e Cine
Marambaia.
Proibição. São normas que impõem regras de
comportamento. Foi por causa do excesso de proibições que surgiram os
anarquistas. A doutrina do anarquismo pregava a liberdade total, sem qualquer
forma de autoridade e dominação. Seria um tipo de convivência baseada na
autogestão, onde os indivíduos pudessem viver em propriedades coletivas, de
forma solidária e pacífica, sem a formalidade de governos constituídos. Nada de
polícia, escola tradicional, casamentos, etc. Isso está tudo lá na bíblia dos anarquistas, o livro Que é a Propriedade, escrito em 1840 por
um dos principais defensores dessa forma de viver, o filósofo, político e
teórico Pierre-Joseph Proudhon.
Tive a oportunidade de viver
em mini-países, ex-colônias europeias, onde a população nativa é 100% negra
descendentes de povos africanos. Lá, em alguns lugares, o homem pode
tranquilamente colocar a manipeba
para fora e mijar, mesmo tendo mulher por perto. Normal. Falta grave é sacudir
o grandão. (aquela sacudidela básica
que faz cair os dois últimos pingos). Dá até cadeia. É um pouco do anarquismo
já normatizado, afinal, balançar faz
parte do ritual da mijada masculina.
Quando eu era menino assistia um jogo de futebol
no Terêterê, um povoado lá no Rio Tauá. Era o Marituba e o Pau Sêco que
pelejavam em campo. O árbitro era o “Tio Constâncio”. Detalhe que não esqueço:
ele ficava de cócoras no meio do campo de onde apitava o jogo. O Manduca,
atacante rápido, em determinado momento dominou a bola no campo de defesa do
“Pau” e disparou. Foi embora em velocidade passando por todo mundo. Quando ele
se aproximou da grande área do Marituba, trrriiiii.
A jogada foi interrompida. O Manduca,
morto de cansado e muito santo da vida, parou, colocou as mãos nas cadeiras e gritou:
- Que foi, tio Constâncio?
O juizão, passivo, lá de onde
estava, respondeu:
- Tu correstes mais que os outros. É falta.
A falta foi cobrada e o jogo
continuou. Era a lei do Tio Constâncio.
O juiz daquele jogo. Uma idiotice, mas ele fez valer e pronto.
Eu
iniciei esta escreveção lembrando da
proibição de entrar de sandálias, ou chinelas em alguns cinemas de Belém nos
tempos de antanho, em virtude do festival de filmes de faroeste
(bang bang) que aconteceu de 04 a 10/12/2012, no cinema Olympia. No segundo dia
do festival eu fui barrado (a segunda barração em 45 anos), porque estava de
camiseta tipo regata. Não tinha lido o aviso que advertia a respeito do traje.
- Pelo amor de Deus meu amigo, eu venho de Marituba
só pra assistir esse filme. Deixe-me entrar, eu disse.
Resposta:
- Enquanto gente que vem de fora, de São Paulo (fez questão de frisar o foribundo
funcionário, aliás, um velho preto parecido comigo) num entra, magine tu.
Em pouco tempo já tinha um jovem
e musculoso segurança de braço cruzado na minha frente. Eu não podia ficar da área
interna e envidraçada do espaço. Aí chegou a Nazaré, turismóloga e gerente da
casa, pós-graduada na USP (informações dela). Mais choradeira minha, mais
irredutibilidade. Por fim, a minha mulher foi na Loja Americana, ao lado do
cinema, comprou uma blusa baratinha que eu vesti. Só assim eu pude entrar para
ver o resto do filme. Ufa! Ah, ia esquecendo: é proibido entrar com pipocas, também, na sala do cinemão. É verdade. Acredite!
É um pouco festival de idiotices. Mas não poder
se encostar em canhões ,que estão ao ar livre levando sol e chuva, do Forte do
Castelo para tirar fotos; não poder falar alto na Igreja de Santo Alexandre (Museu
de Arte Sacra), onde acontecem concertos sinfônicos que atingem decibéis
altíssimos; não poder fotografar portando
câmeras amadoras com flash de led embutido (que não agride pois, não emitem
raios infra vermelhos) na Igreja da Sé, onde é totalmente escuro. Vá entender...
Proibições esquisitas, idiotas e
até bizarras não é exclusividade nossa. Em Israel, por exemplo, é proibido
meter o dedo no nariz, aos sábados; em Cingapura não se pode fazer sexo oral, a
não ser que seja como entretenimento; no Bahrein médico só pode examinar
genitais das mulheres se for olhando pelo espelho, direto lá, não! Na Indonésia quem for flagrado batendo uma punhetinha, (masturbando-se) é
decapitado. Credo em Cruz! No Brasil, em 1894, uma lei proibia a população
comer melancia.
São proibições idiotas. E falo
só das nossas. Como ser social, temos
que conviver com elas. Duro mesmo é suportar a grossura dos estufados bucéfalos
(como o funcionário do Olympia, que disse, “enquanto gente de fora...”)
agentes, que com ares de prevalência nos empurram no peito e espumando pelos
cantos da boca, rangem os dentes, grunhindo: “Aqui, não!”. Se acham...



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