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quarta-feira, 28 de março de 2012

FÉ NO QUE VIRÁ? HUM, CUIDADO!


A gente que gosta de escrever não tem jeito, escreve. E eu gosto. Vivia encrencando com a minha mulher porque ela não saia da frente do computador e escutava as broncas dela que me chamava até de tecnofóbico, que eu sim, devia me “atualizar”. De fato, na minha cabeça eu achava que caneta e papel eram os únicos instrumentos capazes e inspiradores de uma boa escrita. Tinha raiva do computador. Comprei (por 20 reais) uma máquina velha de escrever que era para fazer os meus textos. A desculpa da ignorância quando era cobrado sobre o porquê do não uso do computador: “Ah, cachorro velho não late ou papagaio velho não fala”. 
Bom, sou usuário de um CRAS – Centro de Referência e Assistência Social – e lá implantaram curso de informática para os idosos, aí eu fiz digitação. Como trabalhei muitos anos em escritório e a posição das letras no teclado é o mesmo das máquinas datilográficas, foi fácil. Aprendi rápido.
Quando colocamos uma internet em casa, que é mais lenta do que romaria de tartaruga, fui me empolgando. Peguei gosto. Com ajuda da madame criei um blog, o “blogdojambu”, agora acabou a folga. O hipotálamo e o cerebelo estão trabalhando mais. Dá uma certa tristeza porque as pessoas quase não leem . Uma pena. É que a massa gosta mesmo das redes sociais populares – quem está bombando agora é o  “face” – com mensagens do tipo: “Tô tistinha pq vc ñ veio” ou “knsada d+ vou mimi”. E por aí vai. Assuntos bons ficam chatos, cansativos, insuportáveis de ler. Fazer o quê? Não vou parar de escrever, aliás, vou parar sim, quando não puder mais. Até por que:
Assunto não falta. Hoje eu estava em Belém lá pelo centro comercial e passando pela rua Manoel Barata esquina da travessa 7 de setembro, fiquei estupefato. Caramba! De vez em quando o “rapa” da prefeitura sai às ruas arrancando placas de publicidade irregulares, bancas de revistas, tacacazeira, tabuleiro de bombonzeiro, o diabo a quatro. Certo. Certíssimo! A cidade precisa dos espaços onde as pessoas circulem livremente mas, pô! O que me deixou estarrecido é que na esquina mencionada tem um “restaurante” ao ar livre que fecha totalmente a rua.  
Armaram no chão um tabuado (atenção no detalhe: É de madeira), deve ser uma exigência do código de posturas. Armação, lona em cima, fogão, mesas e cadeiras. Tem de tudo lá, menos, é claro, higiene. Eu acho que deve fazer parte do roteiro gastronômico turístico municipal. Meu Deus! Rua fechada. Eu hem!
 Aí me veio na mente algumas recordações desses mandantes efêmeros que deixam heranças eternas. Exemplos não faltam. Um outro prefeito (ô população de sorte) que foi o dono da bola por 8 anos. Dois mandatos. Lembram aos domingos como ficava a Assis de Vasconcelos em toda a extensão da Praça da República? Era a boiódroma popular. Êta, que lindo era. Vatapá, caruru, maniçoba, pato no tucupi, caldo da cabeça de gurijuba; pirarucu, piramutaba, tudo assado com açaí; a imundice que ficava? Ah, irrelevante. Afinal o objetivo do alcaide era nobre: Mostrar o ecletismo da gastronomia belenense na via pública. Que lugar melhor para esses eventos? Praça pública, claro. Afinal estes camaradas quando estão no topo do poder, e a nível municipal o topo é cargo de prefeito, ficam muito criativos. Ih! O criador da boiódroma na praça está batendo na porta do todo poderoso eleitor. “Fé no que virá”. Cuidado! Pode começar tudo de novo.
Um desses, aliás, esse, a pipira já beliscou (morreu). Uma vez um jornalista perguntou assim: “Prefeito o Senhor vai fazer a reforma do Ver o Peso? “Que reforma que nada! o povo gosta é de imundice”. Foi a resposta. Noutra ocasião os médicos do Pronto Socorro estavam em greve. Indagado que atitude tomar em relação aos grevistas. A resposta: “Médico é parece sal:  branquinho, barato e em todo lugar tem”. Já virou anjo. Deus o tenha.
É assim, eles todos (e nós também, claro) um dia saem de cena, viram pó, mas as obras que deixam como herança quando ideológicas ou de concreto sustenido, só o tempo corrói. Pior, na galeria dos ex-prefeitos estão lá todos ostentando no peito o brasão municipal, tanto os que são motivo de orgulho de seus conterrâneos, quanto os pilhadores que sugaram até a seiva das árvores de mangas da “cidade das mangueiras”. Esses a fotografia devia ficar virada de costa ou, se de frente, com uma legenda em baixo do nome do finado: “Só fez merda...”
NB. QUER CONHECER (SE AINDA NÃO CONHECE, LÓGICO) UM ESPAÇO HÍPER LEGAL, VISITE O MABE – MUSEU DE ARTE DE BELÉM. VÁ, VÁ LÁ, É MUITO BACANA. 

domingo, 25 de março de 2012

Na bêra du aquele

Santa Cruz de Urubobó era um desses lugarejos tão distantes que a gente costumava dizer que é "lá onde o diabo perdeu o cachimbo" (ou "cu do judas"). Lá existiam outros lugares como Pau de Remo, Livramento, Fundo de Pote e Cristal - onde o mataram o justiceiro Quintino - tudo no alto Rio Piriá, divisão entre os Estados de Pará e Maranhão.
Era final dos anos 60. O seu Orlando (também conhecido como Jambu) e d. Raimunda, a Dona Mundinha, com muito sacrifício mandaram a filha mais velha, a Núbia, morar com uma família em Belém e como era costume, acho que ainda é, a menina trocava o serviço de doméstica de dia para estudar a noite. Até que deu certo. A Núbia fez o primário, admissão ao ginásio,  o científico depois prestou vestibular e entrou para a Escola Superior de Enfermagem. Uma vitória e tanto. Pobre, preta, meio escravizada e fazendo nível superior, coisa que ninguém da família onde morava e trabalhava não tinha conseguido. Diga-se, como a maioria absoluta das famílias esta não só explorou, ajudou também.
A d. Mundinha e o seu Jambu tinham outros filhos que davam duro na lavoura. A cidade mais movimentada que o casal já tinha visitado era Castanhal. Mas a véia adoeceu. Nasceu uns "negóço na bêra du aquele", era como ele dizia  quando alguém perguntava. Na verdade uns furúnculos, nódulos inflamatórios no anus, que todos os remédios orientados pelos pajés lá no interior não tinham trazido melhoras e só não piorou porque tão logo a filha soube que a mãe estava doente só sossegou quando, após muita insistência, conseguiu trazer o casal para Belém mas com uma condição imposta pela mãe: só viria se fosse acompanhada pelo marido. Não queria tá dando "trabalho p'ros outro".
A Núbia já tinha um razoável conhecimento no mundo acadêmico a que pertencia e conseguiu uma consulta pra mãe com certa facilidade e o pai, coitado, estava lá. Homem analfabeto, rude, tôsco mesmo e vocabulário limitado. Já no consultório umas vinte pessoas, a maioria mulheres que fingiam ler revistas velhas de um monte de diferentes tipos de literaturas já tinham notado a presença do casal, digamos, diferente. Antes da d. Mundinha ser chamada pela atendente a Núbia chamou o pai e orientou:
- Pai, o Senhor é que vai entrar,  mas cuidado como vai falar, não se esqueça que a mãe tá doente do anus, viu? Não esqueça é anus. "Tá, tá bom", respondeu o velho já meio invocado.
Já na sala de consulta e os dois lá travados, envergonhados. E o doutor:
- Diga dona Raimunda, o que a senhora tem?.
Ela, quase desesperada, olhava para o marido. Pedia socorro. E ele prontamente:
- Dotô, ela tá cuns negóço na bera du...Esqueceu o nome que a filha se preocupou tanto em ensiná-lo e pensando em voz alta ainda resmungou:
- Diacho, cuma é o nome du... Aí não se conteve, foi até a porta do consultório, abriu num safanão e falou meio gritando com a filha:
- Ô Nubinha, DROGA! TU INVENTA CADA NOME PRAS COISA, CUMA É MESMO O NOME DO CU DA TUA MÃE?


segunda-feira, 19 de março de 2012

Estamos em Obras: É ano eleitoral!


Começou o fenômeno da euforia trabalhística. E começa com gentilezas como sorrisos, abraços em gente suada, carregamento de crianças, onipresença em velórios, missas de sétimo dia, apertos de mão então nem se fala, e preocupação com os doentes. Muita preocupação. O problema é que doentes saem das salas de cirurgia porque a prioridade é do paciente recomendado pelo vereador tal.  São os efeitos colaterais de ano eleitoral.
 São 5.565 municípios nesse Brasilsão de meu Deus, e na maioria deles, os seus gerentes querem a prorrogação do mandato ou colocar um parceiro, um substituto amigo e leal, de preferência do mesmo partido, que é para evitar aquele negócio de auditoria, essas coisas de quem quer mostrar ao distinto público no início do mandato, os “maus feitos” dos outros e coisa e tal. Parceiro não entrega parceiro. Na bandidagem é assim. Na política também.
Esse é um ano atípico, diferente.  A cor do partido da situação tem de estar, da camisa do chefe ao funcionário mais humilde; das lixeiras dos banheiros nas repartições ao prédio público mais suntuoso. É necessário. Mostrar cores partidárias faz parte do jogo.  Ao  mesmo tempo que dá visibilidade ideológica, essa policromia cega os eleitores, que com seus votos dão uma procuração para que sua excelência se transforme em administrador público, com livre arbítrio para ungir e mugir.
Como parte do método policrômico de chamar atenção pelo colorido em movimento, todo mundo recebe uniformes de graça; assistidos por projetos sociais, dos projovens aos terceiridadistas; operários tem que usar uniformes do tipo “cheguei”. Isso tudo faz parte do toque de Midas, das espertezas e velhacarias dos finórios.
Ah! E as obras que, de tanto tempo paradas estão com limo, inconclusas, paradas a um porrilhão de tempo? Estas agora saem.  Agora tem verba para tudo. Agora as máquinas não param, caçambas, caminhões, e as placas anunciando o “aqui se trabalha”, “interdidado, estamos em obras” ou homens trabalhando passam a fazer parte da paisagem. Os homens agora estão suando até debaixo de chuva. De repente, não mais que de repente, aquela rua que depois de uma chuvinha enchia, enlameava tudo, recebe a visita dum cassaco nível “a” avisando que, “vamos asfaltar a sua rua” e logo no outro dia, pasmem! É verdade. Todo o aparato mecanizado e braçal toma conta do pedaço, e na inauguração a “entourage” vem na frente soltando foguetes, pistola, carro som, puxa-sacos por todos os lados (eles também são parte integrante do sistema).
Enfim, é ano eleitoral. Viva o Brasilsilsil...

domingo, 11 de março de 2012

Somos Humanidade 4

"Cada ser humano possui o direito de escolher sua própria maneira de servir o sagrado e deve fazê-lo sem perseguições ou discriminações. Deve fazê-lo com liberdade" (Encantaria Cigana)

No Brasil, o arttigo 33 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, prevista no texto da Constitução de 88, determina que a educação religiosa nas escolas públicas assegure "o respeito a diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer forma de proselitismo". Será que isso acontece mesmo? O MEC fiscaliza? Humhum...
No ultimo texto eu prometi que ia relacionar, dentro do que se chama de sincretismo religioso, que é a fusão de elementos culturais diferentes, em um só elemento, no caso, os Santos da Igreja Católica e os Orixás Africanos. Funciona mais ou menos assim: (lembrando sempre que aqui se fala do candonblé gueto da Bahia).
Exu: é o orixá mensageiro, guardião das encruzilhadas e da entrada das casas, no sincretismo ele é o diabo - esse não tem nada de Santo;  Ogum: orixá da metalurgia e da tecnologia, deus da guerra, e no sincretismo São Jorge e Santo  Antonio; Oxóssi: (ou Odé), orixá da caça, deus da fauna, e no sincretismo São Sebastião e São Jorge; Ossaim: orixá da vegetação, deus das folhas e no sincretismo: Sato Onofre; Oxumaré: orixá do arco-íris, no sincretismo: São Bartolomeu; Obaluaiê: (ou Omulu), orixa´da varíola, da peste, praga e no sincretismo: São Roque e São Lázaro; Xangô: Orixá do trovão, deus da justiça, no sincretismo:  São Jeronimo e São João Batista; Iansã: (ou Oiá) Orixá do relâmpago, dona do espírito dos mortos, no sincretismo: Santa Bárbara; Obá: orixá da água, deusa do trabalho doméstico e do poder da mulher, sincretismo: Sata Joana D'Arc; Oxum: orixá das águas doces e do ouro, deusa do amor e da fertilidade, no sincretismo: Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora Aparecida; Logum Edé: Orixá dos rios dentro das florestas, no sincretismo: São Miguel Arcanjo; Iemanjá: Orixá das águas grandes, dos mares e oceanos, a grande mãe, deusa da maternidade, no sincretismo: Nossa Senhora das Candeias ou dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição; Nanã: orixá da lama do fundo das águas, no sincretismo: Santa Ana; Oxaguiã: orixá da criação da cultura material  (o Oxalá jovem), no sincretismo: Menino Jesus; Oxalufã: (ou Obatalá): Orixá da criação da humanidade (Orixá Velho), no sincretismo: Cristo Redentor, Senhor do Bonfim.
Tem muita  mas muita coisa ainda sobre religiões de raízes africanas, na realidade o assunto é infindo, vou parar por aqui pelo candomblé que foi na verdade só uma pincelada, ademais eu não sou especialista no assunto, estou só exercendo a curiosidade.
É bom repetir, para os seguidores da umbanda ou do condomblé, o terreiro é um templo sagrado, portanto, merecem e devem ser respeitados assim como são respeitados os templos de igrejas ditas cristãs, principalmente aqueles que chamam os candomblecistas ou umbandistas de "adoradores do diabo".Afinal a verdade não pertence a ninguém. Há um pedacinho dela em cada lugar, em cada crença, dentro de cada um de nós. Próximo assunto: Islamismo

sexta-feira, 9 de março de 2012

Eu trafico, roubo, mato sim, e daí? Sou de menor...

Até julho de 2011 o Brasil tinha 11.442  Leis ordinárias. Leis tão perfeitas que são, inclusive, copiadas por outros Países.  Tem lei para tudo e todos. Não vemos ricos, políticos, juízes, promotores, desembargadores nas cadeias por razões diversas, mas a principal tem raízes lá atrás. Afinal a primeira universidade no Brasil tem só 210 anos (Universidade Federal do Rio de Janeiro, fundada em 1792), antes as elites mandavam seus filhotes para a Europa, principalmente Coimbra em Portugal, de onde vinham doutores e aqui eram os fazedores de leis, leis que já traziam na cerne o escudo de proteção dos seus criadores, como é até hoje e como vai ser até sempre. É o tal fôro privilegiado.
Com ele juiz mata, esfola e recebe uma censura interna como punição, quando o crime cometido pelo meretíssimo é muito grave, escabroso, hediondo, aí ele recebe a pena máxima. Máxima mesmo: é aposentado com os proventos integrais. Enfim, começa que o sujeito com curso superior, caso vá para a cadeia, tem direito a cela especial. Enfim de novo, congressistas e togados vivem em simbiose, tanto os, como diz a Doutora Eliana Calmon, bandidos, como os fichas limpas, dão-se as mãos quando um precisa do outro. É a lei do é dando que se recebe, não está na Constituição mas que é de usufruto vitalício entre os parceiros.
Eu, sinceramente nem ia escrever sobre isso, o assunto era sobre leis mas no momento que eu comecei teclar, li uma notícia no blog do jornalista paraense Lucio Flávio Pinto e fiquei  tão revoltado com que juízes (mais precisamente um deles) fizeram com esse camarada que acabei desviando o tema do meu texto, que são as alterações no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).
Li, reli,  li de novo os artigos que alteraram a Lei. Um saco! E o pior, acabei não entendendo quase nada. É tudo muito difícil.
Mas a verdade é que a Lei 12.594 que instituiu o SINASE, Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativas, agradou as entidades de defesa dos direitos humanos da infância e da juventude e os promotores da área. Agora com mais direitos os menores bandidos, aliás, infratores, estão  mais a vontade para usufruirem o gozo dos benefícios das leis (ou lincenciosidades?). O menor sabe, por exemplo, que se emprenhar a miúda de 12 anos não vai preso. Os avós ou o Estado tomam conta da cria; sabe que se for apreendido, (não é preso, não!) além de poder receber visita íntima, ninquém pode nem olhar  feio para ele, o jovem; ele sabe que quando estiver lá fora tem um patrão que lhe fornece "mercadoria" de cujo lucro, além de poder comprar o tênis "de marca", ajuda a proteger o chefe, que está sempre na moita; ele sabe que assaltos, latrocínios, homicídios não afetam em nada, ou seja, não prejudica a maioridade, quando (e se) atingi-la vai estar limpo. Limpinho. Só uma preocupação: a famigerada justiça com as próprias mãos, faz crescer os grupos de extermínio, assassinato de jovenzinhos infratores. A vingança como punição.
As estastísticas estão aí: depois da Constituição cidadã que trouxe no bojo a Lei  8.069/90, que instituiu o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e agora com os "melhoramentos" introduzidos, aumentam também os efeitos colaterais negativos. Ou não...?

segunda-feira, 5 de março de 2012

Eu vos declaro: Marido e Marido

Na coluna ancelmogois, dia 02/03/2012: "quarta, por volta de 19h30, no bar Chico e Alaíde, no Leblon, uma cliente foi ao banheiro e, ao abrir a porta, viu...duas mulheres no maior beijo de cinema! As namoradas fecharam a porta de novo e lá ficaram".
 No mesmo dia nos telejornais a notícia que mais chamou a atenção foi o nascimento da Maria Tereza, filha de Mailton e Wilson e produto de uma engenharia genética cujo doador de sêmen era um dos pais, o óvulo de uma prima e a geração feita na barriga de outra. Os pais, com 15 anos de casados, realizaram o desejo. O grande desejo: que era "ter um filho, uma família, educar e mostrar para a sociedade que a gente consegue amar da mesma forma que um casal heterossexual". Palavras de um dos pais.
É verdade que o conceito de família vem mudando com o decorrer dos tempos e imagino que cada mudança, até que o freio de arrumação seja dado,  a sociedade tenha que passar por um processo de adaptação.
Em 2008 quando a revista Época estampou na capa dois sargentos do exército gays e o diálogo gravado onde um General  referia-se a dupla como "viados" (se o General fosse cearense ele ia chamar "baitola", no Maranhão é "coalhira"), o caso só se tornou visível porque os dois sargentos resolveram encarar e levaram ao conhecimento da imprensa, mas essa troca de "favores" já acontecia há muito tempo, principalmente na marinha. Longos dias no mar, só homens, sabe como é...
Bom, o assunto é complexo. Imagino o General Ademar que na visão dos sargentos Fernando e Laci é o vilão. E se o mesmo General fosse avô de um dos dois? Será que por ser parente pensaria e agiria de modo diferente? Eu, euzinho aqui que escreve estas mal traçadas linhas e tenho 62 aninhos du-vi-d-o-dó! Eu tenho amigos e parentes de ambos os sexos que fizeram essa opção e assumiram, isto é, que vivem com seus parceiros do mesmo sexo. Beleza.
A gente se acostuma, mas todos - ou quase - que temos  de mais  de 50, inclusive os pais, que por amor aos filhos aceitam, mas é com tristeza que não externam, temos todas as dificuldades do mundo para conviver com essa nova realidade, que são pessoas do mesmo sexo andando de mãos dadas, trocando carícias, beijando-se ou demonstrando qualquer outra manifestação de afeto mais exacerbada em público. Até os juízes do Supremo que disseram "sim", ou os das varas de família que fazem os "casamentos" certamente o fazem porque não querem remar contra a maré e, principalmente, não correrem o risco de serem chamados de reacionários, ridicularizados pela onda do sou a favor.
 É bom não esquecer que por causa da inflexibilidade da Igreja Católica, na caminhada gay do ano passado em São Paulo, no trajeto foram colocados cartazes gigantescos com imagens de Santos de devoção do catolicismo em poses eróticas. Não sei se alguém foi punido mas "ofender publicamente imagens e outros objetos de cultos religiosos é vilipêndio" portanto, crime punível com multa e até detenção, está no Código Penal Brasileiro.
Agora olha nós: qualquer manifestação, individual ou coletiva, contrária a esses movimentos é um Deus nos acuda, nesse caso não tenho a menor dúvida que a Lei 7.716/89 que pune os crimes de  homofobia, vai com tudo para cima do autor do crime homofóbico. No mínimo a pessoa ou grupo vai ser vítima de achincalhe, riso, menosprezo e zombaria, logo, todo cuidado é pouco.
O Juiz de Paz agora deve pronunciar-se assim: "Como acabais de declarar perante mim que aceita esse casamento eu vos declaro, em nome da Lei: MARIDO e MARIDO". Mudou, e como...

sábado, 3 de março de 2012

Meu nome é Raimundo

O Antonio é cearense, que os parentes mais próximos  e conterrâneos chamam "Tôín",  veio para Belém muito jovem. Passou num concurso do, naquele tempo, INPS, onde trabalhou por mais de 20 anos. Já perto de se aposentar pediu transferência foi atendido e retornou ao Ceará. Foi morar no Baturité, há 123 km dos encantos da capital, Fortaleza. O Antonio recomeçou a trabalhar num pequeno e recém inaugurado posto da previdência e agora na triagem.
 Primeiro dia, 2ª feira, uma fila enorme, todo mundo com esperança de ser atendido. Veio o primeiro:
- Seu nome?
- Meu nome é Raimundo.
- Tome seu Raimundo, leve a sua senha. Veio o segundo:
- Seu nome?
- Meu nome é Raimundo. Pegou a senha e foi embora e veio o terceiro.
- Seu nome?
- Meu nome é Raimundo. De novo, retirou-se com a senha na mão e veio o quarto
Aí o Antonio já encafifado, foi  dizendo meio na brinca:
- Não me diga que o seu nome também é Raimundo?
O ceariba baixinho, com a fisionomia de homem sofrido, chapéu de couro preso com as duas mãos na altura do peito, como se tivesse fazendo uma reverência, olhou o Antonio de baixo para cima e respondeu cheio de humildade:
- Sô não sinhô, sou Raimundin, mas o povo lá in casa mi chama de Diquin

sexta-feira, 2 de março de 2012

Culpado? Ele, o Brasil.

Hugo Chaves está em Cuba se tratando de um câncer e ele parece meio inchado; o Fernando Lugo, tem câncer; o Lula está se tratando de um câncer; a D. Lulita (Dilma Roussef) se tratou e ficou curada de um câncer. Essas pessoas têm algo em comum, além do câncer, são presidentes (só um finge-se de ex) aqui da América do Sul. José Alencar, vice-presidente em dois mandatos, resistiu a um câncer por 13 anos e acabou morrendo no dia 29/03/2011. Outra coisa que esses personagens tem em comum na luta contra a doença: o tratamento de primeiríssima reservado a elite da elite. Vejamos:
Um doente pobre coberto pelo SUS não faz chek-up, ele sente uma dorzinha vai "no médico", agenda uma consulta e é atendido em média 30 dias depois; o doutor com a cabeça abaixada pergunta logo ao super paciente logo que ele entra no consultório: "diga seu Zé, o que o senhor tá sentindo".
Depois do relato e um encaminhamento na mão são em média 76 dias para chegar no especialista ( no caso, oncologista), exames pra lá, exames pra cá e mais 30 dias para fazer a primeira quimioterapia e 113 dias para chegar, também, na primeira radioterapia, isso se nesses períodos o médico não faltou, as máquinas não quebraram e monte de outros contratempos que atrasam ainda mais o tratamento, só uma coisa  é real, passaram-se quase ou mais de um ano, se o doente ainda estiver vivo já é quase um milagre. Agora o outro Brasil:
O ainda presidente Lula na inauguração de um hospital, em Recife, fanfarrão, gritou no discurso que "com um hospital desses dá até vontade da gente adoecer...", isso de manhã, a tarde ele teve um pico hipertensivo e rápido foi levado para São Paulo. Porque será que não ficou lá no Recife? Sei não...Quando descobriram o tumor na laringe, era uma sexta, na segunda-feira o homem já estava fazendo quimioterapia. Tudo muito rápido, eficiente, eficaz e com os melhores especialistas que existem no País. É isso.
O José de Alencar, apesar de possuidor de uma das maiores fortunas do País é provável que não tenha tirado um tostão da sua riqueza para gastar com o longo tratamento logo, as despesas devem ter sido pagas pelo governo, ou seja, o meu, o seu, o nosso dinheirinho, afinal todos pagamos impostos e ele  tinha direito, logo, usufruiu. É a Lei (é bom lembrar que o mesmo Zé Alencar negou a paternidade de um filho e desqualificou a mãe chamando-a de "prostituta de cabaré"). Mas atenção patuléia (povão, plebe, ralé) o que está ruim vai piorar, certamente. A verba, o capital, a bufunfa destinada a saúde sofreu um corte brutal.
Os atuais donos do poder estão satisfeitos, lógico, pra eles não falta nada e também não se sentem culpados afinal, como disse agora esses dias o ilustre ministro da educação, "nós não temos culpa do Brasil ser tão grande". É, nem o câncer também...

quinta-feira, 1 de março de 2012

O pote do índio

Xinguara, Sul do Pará, 1962. Tempos idos. Época que índio não falava inglês, não existia televisão, não vestia jeans, não tinha internet. Na taberna do seu Rachid, num canto na entrada do lado direito existia um espaço que ele chamava de "barzinho". Lá, separados dos outros fregueses, ficavam os cachacistas. A razão do "apartheid" na freguesia era por causa das cusparadas no chão, a fumaça dos porroncas e a verborragia dos bebuns.
Aos sábados o movimento era grande e o seu Rachid não gostava de pagar empregado. Alguns índios aculturados circulavam pela taberna sempre aos finais de semana pra filar uma cachacinha, e o seu Rachid, em comum acordo com a mulher, resolveram justo pra economizar, contratar um jovem índio pra ajudar no bar. Era o Tupianã, que mal falava português, mas aceitou o serviço de olho gordo na cachaça que o Rachid prometeu.
Sábado, 27 de outubro de 1962. Bar lotado e o pobre do índio, coitado, parecia cego em tiroteio, completamente zuruó. A freguesia nada seletiva berrava, xingava e o Tupianã lá no meio daquele fordunço tentando dar conta do recado, quando um freguês pediu água. O índio foi lá nos fundos e voltou com uma pequena cuia cheia que o cidadão tomou em duas goladas e pediu outra, e mais outra, na terceira vez o índio demorou e retornou com a cuia vazia. O homem irou-se:
- Cadê a água?
- Acabou. Num tem mais água.
- Como não tem mais água, ô abestalhado?
- Num tem porque num tem.
Respondeu Tupianã, nervoso e sem ter mais o que dizer. Com os berros do freguês o seu Rachid chegou junto e foi logo ademoestando o agoniado Tupianã, já que no estabelecimento não faltava e nem se negava água a ninguém.
- Ô índio, como não tem mais água?
- Num tem porque cara pálida tá sentado no pote.
Seu Rachid meio encucado foi verificar "in loco", saiu andando atrás do índio que, ao invés de ir aonde estava o filtro de barro com água potável, foi direto ao banheiro, abriu a porta meio na marra e lá tinha um homem sentado no vaso cagando.
O Tupianã estava servindo água tirada do vaso sanitário.


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