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domingo, 25 de março de 2012

Na bêra du aquele

Santa Cruz de Urubobó era um desses lugarejos tão distantes que a gente costumava dizer que é "lá onde o diabo perdeu o cachimbo" (ou "cu do judas"). Lá existiam outros lugares como Pau de Remo, Livramento, Fundo de Pote e Cristal - onde o mataram o justiceiro Quintino - tudo no alto Rio Piriá, divisão entre os Estados de Pará e Maranhão.
Era final dos anos 60. O seu Orlando (também conhecido como Jambu) e d. Raimunda, a Dona Mundinha, com muito sacrifício mandaram a filha mais velha, a Núbia, morar com uma família em Belém e como era costume, acho que ainda é, a menina trocava o serviço de doméstica de dia para estudar a noite. Até que deu certo. A Núbia fez o primário, admissão ao ginásio,  o científico depois prestou vestibular e entrou para a Escola Superior de Enfermagem. Uma vitória e tanto. Pobre, preta, meio escravizada e fazendo nível superior, coisa que ninguém da família onde morava e trabalhava não tinha conseguido. Diga-se, como a maioria absoluta das famílias esta não só explorou, ajudou também.
A d. Mundinha e o seu Jambu tinham outros filhos que davam duro na lavoura. A cidade mais movimentada que o casal já tinha visitado era Castanhal. Mas a véia adoeceu. Nasceu uns "negóço na bêra du aquele", era como ele dizia  quando alguém perguntava. Na verdade uns furúnculos, nódulos inflamatórios no anus, que todos os remédios orientados pelos pajés lá no interior não tinham trazido melhoras e só não piorou porque tão logo a filha soube que a mãe estava doente só sossegou quando, após muita insistência, conseguiu trazer o casal para Belém mas com uma condição imposta pela mãe: só viria se fosse acompanhada pelo marido. Não queria tá dando "trabalho p'ros outro".
A Núbia já tinha um razoável conhecimento no mundo acadêmico a que pertencia e conseguiu uma consulta pra mãe com certa facilidade e o pai, coitado, estava lá. Homem analfabeto, rude, tôsco mesmo e vocabulário limitado. Já no consultório umas vinte pessoas, a maioria mulheres que fingiam ler revistas velhas de um monte de diferentes tipos de literaturas já tinham notado a presença do casal, digamos, diferente. Antes da d. Mundinha ser chamada pela atendente a Núbia chamou o pai e orientou:
- Pai, o Senhor é que vai entrar,  mas cuidado como vai falar, não se esqueça que a mãe tá doente do anus, viu? Não esqueça é anus. "Tá, tá bom", respondeu o velho já meio invocado.
Já na sala de consulta e os dois lá travados, envergonhados. E o doutor:
- Diga dona Raimunda, o que a senhora tem?.
Ela, quase desesperada, olhava para o marido. Pedia socorro. E ele prontamente:
- Dotô, ela tá cuns negóço na bera du...Esqueceu o nome que a filha se preocupou tanto em ensiná-lo e pensando em voz alta ainda resmungou:
- Diacho, cuma é o nome du... Aí não se conteve, foi até a porta do consultório, abriu num safanão e falou meio gritando com a filha:
- Ô Nubinha, DROGA! TU INVENTA CADA NOME PRAS COISA, CUMA É MESMO O NOME DO CU DA TUA MÃE?


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