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quinta-feira, 1 de março de 2012

O pote do índio

Xinguara, Sul do Pará, 1962. Tempos idos. Época que índio não falava inglês, não existia televisão, não vestia jeans, não tinha internet. Na taberna do seu Rachid, num canto na entrada do lado direito existia um espaço que ele chamava de "barzinho". Lá, separados dos outros fregueses, ficavam os cachacistas. A razão do "apartheid" na freguesia era por causa das cusparadas no chão, a fumaça dos porroncas e a verborragia dos bebuns.
Aos sábados o movimento era grande e o seu Rachid não gostava de pagar empregado. Alguns índios aculturados circulavam pela taberna sempre aos finais de semana pra filar uma cachacinha, e o seu Rachid, em comum acordo com a mulher, resolveram justo pra economizar, contratar um jovem índio pra ajudar no bar. Era o Tupianã, que mal falava português, mas aceitou o serviço de olho gordo na cachaça que o Rachid prometeu.
Sábado, 27 de outubro de 1962. Bar lotado e o pobre do índio, coitado, parecia cego em tiroteio, completamente zuruó. A freguesia nada seletiva berrava, xingava e o Tupianã lá no meio daquele fordunço tentando dar conta do recado, quando um freguês pediu água. O índio foi lá nos fundos e voltou com uma pequena cuia cheia que o cidadão tomou em duas goladas e pediu outra, e mais outra, na terceira vez o índio demorou e retornou com a cuia vazia. O homem irou-se:
- Cadê a água?
- Acabou. Num tem mais água.
- Como não tem mais água, ô abestalhado?
- Num tem porque num tem.
Respondeu Tupianã, nervoso e sem ter mais o que dizer. Com os berros do freguês o seu Rachid chegou junto e foi logo ademoestando o agoniado Tupianã, já que no estabelecimento não faltava e nem se negava água a ninguém.
- Ô índio, como não tem mais água?
- Num tem porque cara pálida tá sentado no pote.
Seu Rachid meio encucado foi verificar "in loco", saiu andando atrás do índio que, ao invés de ir aonde estava o filtro de barro com água potável, foi direto ao banheiro, abriu a porta meio na marra e lá tinha um homem sentado no vaso cagando.
O Tupianã estava servindo água tirada do vaso sanitário.


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