Esse pai enterrou o filho depois do tsunami de lama no desastre em Minas Gerais, e junto com outras vitimas do desastre está sofrendo para ter, pelo menos, onde morar. Oh! que falta faz aquele deus do velho testamento...
Episódio UM Justiça(IN)
O Odorino tinha acabado de casar
e teve que viajar à serviço. O coitado demorou mais do que devia, e
principalmente do que podia esperar a senhorinha com quem ele casara. Veio sem
avisar. Quando arriou a enorme malona na sala da casa da mãe e tomou a benção, a velha foi logo buzinando no ouvido do filho:
- Tu já foste na casa da tua
mulher?
- Não, mãe. Eu vim primeiro aqui
tomar sua benção.
- Pois é. Vou te dizê logo. Ela
tá botando chifre em ti. E é com aquele velho fazendeiro que não saía da casa
da tua sogra ante de tu viajá.
Era cedo. O Odorino tinha descido
no aeroporto às seis da manhã e no estômago estava só com o lanche servido no avião.
Fingindo-se forte, sentou-se no banquinho de madeira na cozinha da casa, pousou
os dois cotovelos na mesa, uniu as mãos com os dedos entrelaçados formando um
ângulo reto e pousou a cabeça no vértice superior. Ficou assim por um bom
tempo, com o olhar fixo na beirada da mesa. A mãe serviu um café, acompanhado com beju de massa que a mesma fabricara lá no
interior onde ela tinha roça. Tinha se arrependido de ter dado a notícia da
infidelidade da nora, assim, de primeira, antes do filho ter chegado na casa
dele. Ela adorava o filho. Era o
terceiro da prole e o primeiro dos quatro homens que formava a família de doze no total. O Odô, como todos o chamavam, não
tomou o café. A mãe estava só. O pai tinha saído para o trabalho e os irmãos
menores que estudavam estavam na escola, outros nas ruas trabalhando na venda
picolé ou pela vizinhança limpando algum terreno. Trabalho duro que rendia
alguns trocados. Era uma sexta feira.
Nove horas da manhã, finalmente o
Odô chegou na casa dele. Foi recebido pelo “quebra ferro”, o vira
lata de estimação que ao vê-lo saltou, latiu, lambeu as pernas do dono, que
amargo como estava, se lembrou dum pedacinho da música do Roberto Carlos, “meu cachorro me sorriu latindo...”. A
Cleonice, Cléo para o Odorino, estava para o trabalho. Ela era professora em
uma escola não muito perto da casa.
Anita, a moça que tomava conta das crianças, levou
um susto ao vê-lo com a malona já no pátio. Toda atrapalhada por causa da casa
que ainda estava desarrumada e a própria Anita encontrava-se ainda com a roupa
da noite. Uma camisola fina, sem nada por baixo, e a alça do lado esquerdo era
um filete de pano frouxo arriado que deixava o seio à mostra. Respondeu o “bom dia” do patrão já
no corredor. Tinha voltado correndo, foi mudar de roupa. Sem nada falar, ele
entrou no quarto do casal, deu uma olhada redonda no espaço, encostou a malona
na penteadeira sem abri-la. Foi até o quintal passando pela cozinha sem prestar
atenção em nada. Se tivesse se detido um pouco, teria visto uma cueca e um par
de meias de homem que estavam estendidas na cordinha esticada por cima do
tanque de lavar roupa ao lado da porta da cozinha. Espaços separados por uma
grade. Quando ele passou direto, a Anita, mais que rapidamente, retirou os utiles masculinos enfiou em um saquinho
plástico e meteu dentro da lixeirinha da cozinha. As crianças que ela tomava
conta eram quatro (só dois eram filhos biológicos do Odô. Outros dois a Cléo já
tinha quando casaram), estavam todas para a casa das avós. Era quase
meio dia quando a Cléo chegou. A Anita que já tinha ido embora, ficou
estrategicamente próxima a casa dos patrões e avisou a patroa que o Odorino
tinha chegado.
Quando a Cléo entrou em casa toda
feliz da vida, encontrou um Odô estranho e o volume do rádio estava muito alto.
Ela correu para abraçá-lo. Ele, ao invés de corresponder ao abraço, segurou-a
pelos ombros forçando-a contra a parede. Falando entredentes, disse:
- Eu já sei de tudo. Sei que tu
tá dando o rabo por aí. Eu não sei onde eu tô qu’eu não meto uma bala na tua
cabeça e outra na cabeça do teu amante. Vagabunda! Disse isso e saiu. Foi na
casa de uma tia, irmã da mãe, que morava próximo, que confirmou: “É verdade,
meu filho. Ela tá mesmo saindo com ele...” Conversaram outros assuntos.
Almoçaram. A tia armou uma rede e o Odô dormiu.
Era quase três da tarde quando
uma patrulhinha da PM parou em frente da casa. Um soldado anunciou que queria
falar com o Odorino. “Só esclarecimentos na delegacia...”Disse o policial.
Avisado, o Odô, sem reagir, despediu-se da tia e saiu na “carona” no carro da
“dura”. Quando chegaram na chefatura de polícia lá estavam a Cléo, a mãe dela
dona Rita, o suposto amante e os policiais. Deu-se esse diálogo:
- Foi tu que dissestes que queres
meter uma bala na minha cabeça? Fica falando merda. E se eu passar com meu
carro por cima de ti? Perguntou o suposto amante da Cléo.
- Se tu me matar o meu cadáver
vai ser preso. Porque quando um rico mata um pobre quem vai preso é o defunto.
Respondeu o Odorino cheio de sarcasmo.
Foi o suficiente para irritar o delegado,
que chamou um policial e deu ordem para enxadrezar o pobre do Odorino. O corno.
A Cléo caiu no choro. A mãe dela
resmungou algo como: “Fica falando besteira por aí, resultado é isso...”O
policial, cumprindo ordens do superior, levou o Odô para a cela. O Odorino,
mesmo sem esboçar nenhuma reação levou um pescoção do meganha, que ainda falou
em tom de ameaça:
- Olha bem pra minha cara,
vagabundo! Disse isso para marcar território, já que não havia motivo nenhum para
tal assertiva.
“Estás aqui por queres, voltarás se quiseres”. O Odorino se deparou
com essa frase escrita no alto da parede na cela. (Isso foi em 1973)
Episódio DOIS:
O Leonildo tem 17 anos. Magrinho,
usa boné e brinco. E como todo adolescente faz algazarra, Apronta. Mas é um
menino bom e não dá dor de cabeça aos pais e nem à professores. Passeava de
bicicleta no conjunto residencial onde mora quando cruzou com uma viatura da
polícia. Um policial desceu do carro e ordenou que ela parasse. E começou um
mini interrogatório.
- Quantos anos tu tem?
-17
- Tem documento?
- Sim. Meteu a mão no bolso,
retirou o RG e mostrou. Revistado, o policial encontrou o celular.
- De quem é esse celular?
- Meu. O policial mexeu no
aparelho, viu a foto do Leonildo, devolveu o celular.
- Tás com sorte. Vagabundo!
- Porque vagabundo? Me respeite. Resmungou
o Leonildo.
Foi o suficiente para o policial
dá-lhe um tapa violento fazendo com que o Leonildo caísse por cima da
bicicleta. Foi chutado. Não satisfeito o policial ainda retirou um spray de
pimenta que espirrou na cara do Leonildo. Hoje, dois anos depois, o jovem sofre
um grave problema na visão com risco de ficar cego. Ah, quando ele caiu por
cima do velô quebrou uma costela...(Isso foi em 2014)
Episódio TRÊS
O Roberto foi funcionário do
grupo Líder por oito anos. Trabalhava no setor de frios. Um dia qualquer do mês
de abril do ano passado, o parceiro
substituto faltou e o Roberto teve que virar serviço. Passava das 21 horas. Morto de fome pediu ao gerente do setor permissão para comer alguma coisa. O
gerente negou. Sem alternativa, o Roberto pegou frango no restaurante e comeu
de frente para as câmeras. Não fez questão de se esconder porque, segundo ele
“não tava roubando”. Três dias depois foi chamado ao DRH onde foi mostrado a
imagem dele comendo. E o veredito: demissão por justa causa. Roubo!
O Roberto luta desde abril em
busca de uma indenização. Como é pobre e está sobrevivendo com a venda de
balas. Não tem dinheiro para contratar um advogado. O sindicato não
quer se indisponibilizar com os patrões, largou o Roberto ao léo. Um causídico foi ao socorro do Roberto e assumiu a causa. Prometeu
ganhá-la mas ficará com 30% do valor . Bem acima do que manda a lei relativa
aos honorários advocatícios, que é de
20%. Se a causa for ganha, o Roberto sofrerá mais uma injustiça. (Isso foi em 2015)
Assisti todos os capítulos da
novela “Os dez Mandamentos” na Tv. Record do Edir Macedo. Não fui ver o filme
na telona. Era reprise...No folhetim televisivo Deus mandava as pragas encima
dos egípcios porque esses escravizavam e maltratavam os Hebreus. Água
transformada em sangue, passando pela invasão de rãs, mosquitos, moscas,
gafanhotos, peste em animais, feridas em gente, chuva de pedras, trevas e morte
dos primogênitos. Morte!
Essas coisas fazem a gente
pensar: Diante de tantas injustiças, será que não está passando da hora de
termos um deus assim, justiçador; um deus, que de fato, na prática, se preocupa
com os pobres e oprimidos? Um deus casca grossa. Que caia de pau sobre os
poderosos que praticam injustiças, que agridem, humilham, matam? Um anjo
exterminador ou um dilúvio só para a cambada que comete injustiças contra desgraçados são mais do que bem vindos. Ou diante da nossa impotência
temos mesmo que nos conformar e entregar “tudo
a Deus...”. Esse Deus perdoador; Deus de amor fraterno bondoso e
compassivo; continuar comendo todo dia o pão que o diabo amassa todo dia. Ou vai
chegar, se já não chegou sem que percebamos, estarmos comendo o pão que o diabo
atira de qualquer maneira, isto é, ele não tem mais nem o trabalho de amassar.
Acostumados ao sofrimento estamos
insensíveis. Não prestamos mais atenção ao que comemos... Só pode.