Refeições festivas são como uma profecia do banquete Divino. Participar delas com alegria e/ou simplicidade de coração, louvando e agradecendo a Deus, como Jesus nas nas bodas de Canãa faz parte dos nossos costumes cristãos. Que bom...
A dona Osmar mora num distrito distante de Belém uns 30 km.
Idosa, 88 anos. É matriarca de uma família muito encrenqueira. Brigona. De vez
em quando acontece um arranca rabo entre os filhos com primos, sobrinhos,
cunhados, genro, noras, etc.. Enfim, sempre tem uma confusão nova pra
administrar . Um detalhe, porém, faz toda diferença nesse modo de convívio
dessa parentela complicada: Da mesma forma que eles se encrencam, eles se
perdoam. Por um período de tempo que pode durar poucos dias ou alguns meses os
rostos ficam trombudos, os perfis são bloqueados nas redes sociais. De repente,
alguém inventa um almoço na casa da dona Osmar. E lá se vão todos pra lá com o
aporte necessário (a intéra). (Ontem eu, que não pude ir, mandei, todavia, a
minha parte. Uma banda de bagre bem porrudinha, já temperada). Com certeza vão
fizeram um avuado. Sem prolegômenos. Todos
que chegam se abraçam e tomam a bênção da dona Osmar. Filhos, netos, bisnetos.
E haja bênçãos. Sobrinhos pedem bênção aos tios e quando a recebem beijam-lhe
às mãos. Som nas alturas. Gargalham de piadas contadas e recontadas em anos e
anos de encontros anteriores. Dançam e bebem. Sim! No planejamento do rega-bofe
todos já sabem com quantas latinhas de cerveja vão contribuir. Pode até ser que
no final, já com a temperatura elevada por causa da ingestão das geladas,
alguém queira fazer um desabafo que pode gerar uma nova cambulhada, mas aí a
maioria já pegou o beco, se a cambulhada vingar acaba sendo motivação pra uma
nova pândega. Sempre foi assim...
Na casa da dona Natércia o almoço da Páscoa é assim.
Diferente da família da dona Osmar que tem dez filhos vivos, a dona Natércia
foi mais comedida, só tem dois. Um casal. O filho homem é engenheiro e mora
noutro Estado e ocupa posição de destaque numa multinacional onde é
funcionário há mais de trinta anos. A filha é economista e mora na área
metropolitana. Pobre. Vive com um velho que também é pobre, e que se diverte debochando
do ditado que diz: “fulano é tão pobre que não tem nem onde cair morto”. O
velho repete sempre: -“Sou é rico. Como morto cai em qualquer lugar, eu tô
garantido...quá quá quá”. Ri. Os dois foram no sábado de Aleluia pra Vigília
Pascal, mas ontem, domingo, se separaram, depois de terem ido à Missa na
capelinha da comunidade onde moram. A madame foi fazer o “almoço de Páscoa” na
casa da mãe, a dona Natércia. O que difere nas duas famílias? Tudo! Na casa da
dona Osmar o prato principal foi bagre; na dona Natércia, bacalhau. Isso mesmo:
bacalhau; na dona Osmar, som, música, cerveja; na dona Natércia, talvez uma
música num volume baixo ou um silêncio respeitoso; na dona Osmar, dança,
gargalhadas, bagunça, muita gente; na dona Natércia, pouca gente e passando um
pelo outro quase sem se cumprimentar, ou falando monossilabicamente. E uma
diferença que é um hiato entre os dois grupos familiares: na família da dona
Osmar, todos tomam a bênção dos parentes obedecendo a hierarquia; na casa da
dona Natércia filhos, netos e bisnetas (duas, já) ninguém toma ou pede a bênção
de ninguém. Ninguém mesmo...
Sou membro das duas famílias. Sou o velho pobre que é marido
da filha da Natércia, e sou filho da dona Osmar. A minha pergunta é, em qual
das duas famílias Deus está mais presente? E a minha resposta é: nas duas. E da
mesma forma. Inteiro. Completo. Deus é o Senhor da vida. E por isso ele é
misericordioso. Enxergar erros nos outros e apontá-los é um mergulho na
escuridão. Se não der pra apontar caminhos de misericórdia, de vida, salvação,
graça e perdão, que nós tenhamos, pelo menos, a coragem e a humildade de pedir
a Deus para o pecado não nos dominar.
Nos barulhentos e briguentos Osmarianos; ou nos silenciosos e
sisudos Natercianos, eu faço o meu reprofundar e vou imergindo, agradado e
jubiloso pelos dois lados, no meu rio de felicidades. Amém...


