
Não é lenda. Quando a pessoa começa contar uma mentira, principalmente se for cabeluda, micros vasos sanguíneos alojados no septo nasal dilatam, inflam. O nariz fica vermelho, provocando comichão, por isso o mentiroso fica coçando o nariz o tempo todo.
O Paizote é um senhor de
quase 60 anos, tem um filho de oito. Uma gracinha de garoto. Esperto.
Inteligente. Falante. O menino brincava na moto movida à pilha na praça do
residencial quando a motocicletinha
enguiçou. O pai mexeu, remexeu, escarafunchou.
Consertou a máquina e entregou ao irrequieto garotinho.
- Taí. Tá boa. Pode montar. Ordenou.
O guri montou rápido, mas não deu partida.
Pensou um pouco, desceu e testou a moto. Quando montou de novo, o pai
resmungou: - Não acredita em mim, caralho?
Testar primeiro. Até alguns
casais, antes de casarem “de verdade”,
costumam passar por um período de amigação (espécie de estágio), que nesse caso,
talvez nem seja porque um não acredita no outro, mas o fato é que os dois querem
ter a certeza que a união vai dar certo. Crer e confiar, para aí sim, atar o nó
definitivo.
As duas coisas que eu achei
interessante no episódio entre o pai, já quase sessentão, e o miudinho: o guri
se certificar que o pai não estava mentindo, que, de fato, o equipamento estava
cem por cento. E a reação do pai, admoestando o filho com a frase: “não acredita em mim, caralho?”.
Aí me veio aqui na bola
pensante: com certeza esse pai já prometeu coisas para o filho, e não cumpriu. Mentiu.
O menino está ressabiado (Cachorro mordido de cobra tem medo até de
linguiça...).
Bom, na real mesmo, a
mentira, com certeza é uma instituição universal. Em qualquer lugar do mundo,
se mente. Um ser humano comum que não tem fama de engrupir ninguém; que não é um enganador inveterado; um inocentinho
qualquer; mente, em média, 200 vezes por dia. Du-zen-tas... E isso é confirmado
por especialistas no assunto, que até recomendam aos pais quando a criança não
mente levarem ao médico. Porque não é normal não mentir. Mentir é sinal de
evolução. E faz não apanhar da avó. Vejamos o exemplo:
A Karine, 7 anos, brincava com a Bia, 8. No
meio das peripécias alguém bateu no vaso que decorava a sala, que não quebrou
(que vale!), mas espalhou areia e flores pelo ambiente todo. Aí começou um
corre corre liderado pela mais nova, a Karine, que murmurava baixinho: “bora limpar rápido antes
da vó ver. Bora Bia, mais rápido...” (eu estava deitado numa rede na sala e
fingia que dormia). A limpeza ficou mal feita e o vaso retornou para o lugar
dele com as flores meio desarrumadas. Quando a vó viu a desarrumação as duas
falaram ao mesmo tempo: “a Malu passou correndo e derrubou o vaso. Nós
ajeitamos...”. A Malu é a cadela da casa. As duas articularam e executaram uma
mentira, porque sabiam se falassem a verdade seriam punidas.
No livro “Porque as Pessoas
Mentem” do filósofo e psicólogo David Smith, especialista em estudo do
comportamento, diz que: “Mentir é o pilar das relações sociais. É um sinal de
evolução, sem ela o mundo seria um caos...” Mas... Hum!
Veja isso: O Cornélio, marido
da Odentina, já tinha se acostumado com a situação. Ele chegava do serviço
sempre à noite, e tinha reparado que a mulher, de vez em quando recebia, ou
trazia para casa, algum objeto de valor – Tv, som, móveis ou dinheiro vivo - e
justificava dizendo que ganhava no “Bingão”, uma casa de jogo que funcionava no
outro bairro. Até que num dia de muito frio com a temperatura beirando os 10
graus, na hora do banho, o Cornélio verificou que a Odentina estava com a ducha
de água direto no sexo, que fazia uma assepsia só na vagina, evitando molhar-se
por completo. Aí ele olhou de esguelha o banho
inglês da madame, e perguntou em
tom de ironia: “E aí, hoje vai lavar só o cartão
do bingo...?.
Chato. O mentiroso cai do galho. Fica sem graça quando descobre que a pessoa a quem
ele mente conhece a verdade verdadeira das suas inverdades. O mentiroso
eventual. O mitômano, o inveterado, esse não
tá nem aí...
O filósofo Confúcio deixou
uma frase: “Os idiotas da época antiga eram honestos. Os idiotas modernos
mentem...”.
A gente nasce, cresce e
morre mentiroso. A mentira assim como a alegria, a tristeza e a raiva é parte
inseparável da índole humana. E para ajudar, existem profissões que exige do
profissional habilidade para mentir. Separemos apenas duas: advogado e
político. Qual dos dois mente mais? A minha mulher, a irmãzinha, respondeu que é o político. Não sei. Mas tenho um
exemplo recente. Há bem poucos dias atrás, este Zé Mané aqui, num evento
público restrito aos idosos, foi chamado à parte pelo prefeito Municipal do
nosso Município, que propôs ao escriba cá escrever a sua biografia, a partir da
batalha que ele teve que enfrentar até assumir o cargo máximo como gestor
Municipal. Vixi! Fiquei como diria o falecido Jamelão, parece pinto no lixo,
todo serelepe. Me achando. De repente,
murchou tudo. Eu acho que o homem esqueceu. Ah! Meu Deus. Será que era mais uma
mentira social...?
A dona mentira que me
perdoe. Com toda sua boa fama e o know-how que você tem na arte da manipulação
e seu renome como imprescindível nas relações humanas, mas a franqueza, a honestidade, a
verdade, ditas com jeito e muito carinho, devem ser sempre privilegiadas em uma
relação.
“eu ví o teu marido em
bundas, tod’inrolado cum dois viado lá num motel perto de casa. Ele num me viu,
mas pelamô de deus num vai dizê que fui eu qui te contei. Ah! Na verdade num
sei nem por que tô te contando... Tchau!
Com uma verdade contada desse jeito qualquer versão mentirosa
que diminua ou elimine o impacto da notícia é muito mais saudável. Por isso,
mentira, tu és a tal. Reinas poderosa
e impávida com o nariz empinado no meio das bundas moles e chatas de algumas verdades.
N’est pas...?

