Confusão. Susto. Medo. Não fosse o vexame de ter saltado nu pela janela da própria casa e corrido quase meio quarteirão na frente do Portuga da estrebaria, nimguém jamais saberia do que ocorreu com a Guiomarina e o Pedrão
No início da década de 60
existia, mais ou menos onde hoje é o Curro Velho, uma estrebaria. Era do seu
Joaquim, um português. Das 10 vacas, que pastavam na área da estrebaria e em
terrenos desocupados no entorno, o portuga tirava leite que abastecia as boeiras
do Ver o Peso, do Igarapé das Armas (ou das Almas, para muitos), mercado do
telégrafo e algumas famílias de bairros adjacentes. A distribuição era feita em
carroça, e como não existia naquele tempo os sacos plásticos, o leite saia
direto da gamela grande do seu Joaquim para a vasilha do freguês. Era o delivery lácteo do Portuga.
O Pedro, conhecido como Pedrão
por causa do seu 1,90m de altura, casou com a Guiomarina. Morena sestrosa que
quando passava na rua olhares de inveja da mulherada e cobiçosos dos homens
faziam-na andar mais rebolativa ainda. Ela sensualizava legal, e sabia que
causava esse furor.
Logo depois do casamento o Pedrão
arrumou emprego na Marinha Mercante. Era Marinheiro de Convés. E a primeira
viagem durou quase seis meses. A segunda já durava mais de sete meses, quando a
tripulação foi avisada que o cargueiro chegaria em Belém numa data que
coincidia com um final de semana. Um sábado. E, de fato, era meia noite quando o
naviozão brecou as máquinas na baía
do Guajará. Como era grandão o cargueiro ficou fundeado lá fora. A tripulação veio para a terra em pequenos botes.
A Guiomarina tinha sido avisada por telegrama
da chegada do Pedrão e se emperequetou toda. Não dormiu. Uma da manhã o maridão
chegou. Amaram-se! Amaram-se! Amaram-se! Extenuados, era quase seis horas
quando, enfim, dormiram.
Seis e meia o Portuga chegou para
entregar o leite e, toc, toc, toc. Bateu
na porta com os nós dos dedos. De repente, ele escutou um furdunço dentro da
casa, que era de madeira, e como o quarto do casal era o cômodo da frente deu
para o seu Joaquim ouvir bem o que a Guiomarina dizia em desespero:
- Meu Deus do céu! O dia tá claro! Pelamor de Deus foge que o Pepê (era
assim que ela chamava o marido) tá batendo na porta...
E o inusitado aconteceu. Um homem
nu, peladão, saltou pela janela com o monte de roupa nas mãos e saiu correndo.
Era o Pedrão, marido da Guiomar, como o Portuga a tratava.
- Ei Pedrãaoo! Gritou o Portuga
com forte sotaque lusitano: - Ô raios c’os diabo porque estás a correr, assim,
peladão? De chofre o Pedrão parou. Olhou rápido para os lados. Não havia
ninguém na rua àquela hora. Foi quando ele percebeu que estava nu. Voltou
rápido. Protegido pela carroça, vestiu-se. Olhou para a cara do Portuga e num
gesto de grossura disfarçada despachou o homem:
- Vai-te embora, Joaquim! Não
quero leite hoje...
Ele tinha a chave da casa que
estava no bolso da calça. Abriu a porta. Entrou. Encontrou uma Guiomarina na
cozinha ainda de combinação (roupa de dormir que combinava anágua e sutiã numa
peça só) parecia uma barata tonta. Sem fixar o olhar no marido. Ela dispôs a chaleira no fogão para fazer
café, e ao invés de derramar querosene na lenha para começar o fogo, derramou a
água que estava na chaleira, molhando a lenha e o fósforo. Os dois, Pedrão e
Guiomarina, estavam parecidos gato quando derruba o vaso. Desconfiados. Ficaram
por uns longos segundos numa contemplação mútua, enviesada e reflexiva. Até que
ambos, ao mesmo tempo, abraçaram-se longamente. Um abraço de amor, cumplicidade
e compreensão... Aconteceu um milagre. O Amor Venceu.
O Pedrão desembarcou do cargueiro
de longo curso. Passou a trabalhar como marítimo em viagens por municípios da
Amazônia. Ficava no máximo uma semana longe de casa. O casal teve dois filhos. Viveram
juntos quase trinta anos. Aliás, só separaram quando o Pedrão comeu uma pratada
de turú estragado, no barco que ele trabalhava como Primeiro Oficial de
máquinas. Teve infecção intestinal, passou mal e morreu ainda embarcado.
A Guiomar, com 49 anos, mas ainda
muito bela e conservada, foi trabalhar na cozinha do Kokotão, uma boate que
tinha no telégrafo e que era de um antigo amigo, que também foi vizinho do
tempo que o Pedrão era marinheiro de longo curso...



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