“Morte: uma perspectiva a ser encarada com coragem pelos bons, mas com
supremo terror pelos maus” (Platão - filósofo grego)
Que tamanho tem a dor? Existem
instrumentos para medir pressão arterial, batimentos cardíacos, glicemia, etc.
A dor, tem a mais intensa, e a mais leve. E a maior, existe? Qual tamanho terá?
Em 1961 numa colônia isolada no
interior de Abaetetuba, aqui no Pará, uma família de cinco pessoas, marido,
mulher e três filhos, o mais velho com quatro anos incompletos e o mais novo
com quase um ano, eram os únicos habitantes lá onde o pessoal da Vila de Beja
chamava de “centro”. Viviam da roça, criavam galinhas, porcos, algumas aves e
animais nativos como capivara, jabuti, mutuns e outros que eles vendiam na vila
no “retalho ou inteiro”, no linguajar simples caboclo abaetetubense daquelas
épocas.
Aos sábados ele arrumava o que comportava
nos dois caçuás, engatava na cangalha
presa às costas do cavalo e seguia rumo à vila da onde só retornava depois de
ter vendido tudo que levara, e que na maioria das vezes, acabava mesmo era
sendo trocado por mercadoria de consumo do dia a dia. Chegava na casa já de noite
sempre com umas duas na cabeça. Quase
cinco anos de casados e a rotina era essa toda semana. Nesse sábado, ao sair, o
Zé beijou um a um dos filhos, coisa que nunca fizera antes. Era pouco mais de
sete horas da manhã. Lá pelas nove, com o sol já alto, a Zilda colocou o menorzinho escanchado nas cadeiras, uma bacia cheia de roupa na
cabeça e foi para o igarapé lavar
roupa, deixando na casa os dois pirralhos maiores que ficaram brincando de caçar. Um se escondia atrás duma moita e
o outro “pá!”, disparava com uma fofóia de
açaizeiro. No igarapé a mãe desocupou a bacia de roupa seca e na medida que ia
lavando devolvia as peças já lavadas para dentro de mesma bacia, e o miúdo sentado na areia a beira da água
brincava, sob os olhos vigilantes da mãe. De repente, grito e choro de criança
vindo da casa.
- Meu Deus! Gritou a Zilda. Largou tudo e saiu correndo na
direção de casa que era distante do igarapé uns cem metros. Quando ela começou
subir a ribanceira que separava a casa do riacho, estancou de chofre, ao ver o
filho mais velho com a peixeira (faca
de 12 polegadas) que o pai usava para sangrar porcos. A enorme faca estava,
assim como o menino, ensanguentada. O filho no alto da ribanceira quando
enxergou a mãe assustou-se e caiu por cima da faca que trespassou-lhe o abdome.
O corpo da criança ainda rolou e ficou escorado nas pernas da mãe, que
totalmente aflita, retirou a faca e carregou-o. Junto com o sangue que escorria
ela sentiu esvair-se a vida do filho também. Sem saber se levava o pequeno na
água para lavá-lo ou seguia para ver o que tinha acontecido no barraco ela
seguiu em frente, correndo. No terreiro da casa deparou com o outro pequeno,
estava em decúbito ventral, morto no chão. Fora esfaqueado pelo irmão que,
supõe-se, brincava de “matar porco”, haja vista, a furada feita pela arma ter
sido na jugular, mesmo lugar onde o Zé “vitimava” os suínos no quintal, sempre na
presença das crianças. Em desespero, a mãe que carregava um caiu em cima do
outro filho, morto.
Zilda, uma mulher de um metro e
sessenta, magra quase raquítica, mas era forte não derramara uma lágrima até
aquele momento. Com muito esforço ela conseguiu erguer as duas crianças e cambaleando
como uma bêbada, totalmente ensopada de sangue, começou caminhar de volta para
o igarapé. Um filho em cada braço apertado contra o corpo. Ela lembrou do menor
que todos o chamavam de mimim, queria
andar ligeiro, correr, mas as pernas não obedeciam. Ao chegar encontrou o caçulinha
dentro da água. Estava morto. Ele engatinhou para a morte.
Sem assistência psicológica, (por aquelas paragens
ninguém sabia sequer o significado da palavra “psicólogo”) o casal começou se
culpar pela tragédia que atingiu a família. A Zilda, coitada, passou a vagar por dentro do
barraco dia e noite sem se alimentar nem dormir, surtou, morrendo duas semanas
depois. O Zé, que só bebia nos finais de semana quando ia fazer venda na vila,
passou a se embriagar diariamente. Morreu afogado no rio Jarumã, duas semanas
após a morte da mulher, quando saiu para pescar sozinho (estava bêbado) num
casquinho a remo. Assim, a fatalidade decretou em menos de dois meses, o
extermínio de uma família, duas gerações.
Tragédia, como que aconteceu em Santa
Maria/RS, onde morreu muita gente, causa comoção nacional e dor, não é,
todavia, maior que a pequena desgraça onde morre só uma pessoa. Para o parente
mais próximo – pais principalmente – a dor é a mesma. Minha pergunta: Em Santa
Maria tem família que está sofrendo muito porque perdeu quatro filhos. A dor, é
maior de quem perdeu só um?
Estatísticas sobre mortes no Brasil, por
ano. Trânsito: 40.000; homicídios: 50.000. Em todo lugar por onde passamos,
diariamente, tem uma armadilha armada contra a nossa vida. Umas são tão
estúpidas, que não dá nem para usar a eterna frase de natureza conformista: foi a vontade de Deus...
Glossário
Caçuás - espécie de cestos gigantes feitos de cipó timbuaçú
Fofóia - parte que fica presa à árvore e sustenta a folha
do açaizeiro
Miúdo - criança
Peixeira - faca de 12 polegadas
Casquinho - embarcação pequena movida a remo



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