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sábado, 2 de fevereiro de 2013

TRISTEZA, SOFRIMENTO E MORTE. DOR TEM TAMANHO?




“Morte: uma perspectiva a ser encarada com coragem pelos bons, mas com supremo terror pelos maus” (Platão - filósofo grego)

Que tamanho tem a dor? Existem instrumentos para medir pressão arterial, batimentos cardíacos, glicemia, etc. A dor, tem a mais intensa, e a mais leve. E a maior, existe? Qual tamanho terá?
Em 1961 numa colônia isolada no interior de Abaetetuba, aqui no Pará, uma família de cinco pessoas, marido, mulher e três filhos, o mais velho com quatro anos incompletos e o mais novo com quase um ano, eram os únicos habitantes lá onde o pessoal da Vila de Beja chamava de “centro”. Viviam da roça, criavam galinhas, porcos, algumas aves e animais nativos como capivara, jabuti, mutuns e outros que eles vendiam na vila no “retalho ou inteiro”, no linguajar simples caboclo abaetetubense daquelas épocas.
Aos sábados ele arrumava o que comportava nos dois caçuás, engatava na cangalha presa às costas do cavalo e seguia rumo à vila da onde só retornava depois de ter vendido tudo que levara, e que na maioria das vezes, acabava mesmo era sendo trocado por mercadoria de consumo do dia a dia. Chegava na casa já de noite sempre com umas duas na cabeça. Quase cinco anos de casados e a rotina era essa toda semana. Nesse sábado, ao sair, o Zé beijou um a um dos filhos, coisa que nunca fizera antes. Era pouco mais de sete horas da manhã. Lá pelas nove, com o sol já alto, a Zilda colocou o menorzinho escanchado nas cadeiras, uma bacia cheia de roupa na cabeça e foi para o igarapé lavar roupa, deixando na casa os dois pirralhos maiores que ficaram brincando de caçar. Um se escondia atrás duma moita e o outro “pá!”, disparava com uma fofóia de açaizeiro. No igarapé a mãe desocupou a bacia de roupa seca e na medida que ia lavando devolvia as peças já lavadas para dentro de mesma bacia, e o miúdo sentado na areia a beira da água brincava, sob os olhos vigilantes da mãe. De repente, grito e choro de criança vindo da casa.  
- Meu Deus! Gritou a Zilda. Largou tudo e saiu correndo na direção de casa que era distante do igarapé uns cem metros. Quando ela começou subir a ribanceira que separava a casa do riacho, estancou de chofre, ao ver o filho mais velho com a peixeira (faca de 12 polegadas) que o pai usava para sangrar porcos. A enorme faca estava, assim como o menino, ensanguentada. O filho no alto da ribanceira quando enxergou a mãe assustou-se e caiu por cima da faca que trespassou-lhe o abdome. O corpo da criança ainda rolou e ficou escorado nas pernas da mãe, que totalmente aflita, retirou a faca e carregou-o. Junto com o sangue que escorria ela sentiu esvair-se a vida do filho também. Sem saber se levava o pequeno na água para lavá-lo ou seguia para ver o que tinha acontecido no barraco ela seguiu em frente, correndo. No terreiro da casa deparou com o outro pequeno, estava em decúbito ventral, morto no chão. Fora esfaqueado pelo irmão que, supõe-se, brincava de “matar porco”, haja vista, a furada feita pela arma ter sido na jugular, mesmo lugar onde o Zé “vitimava” os suínos no quintal, sempre na presença das crianças. Em desespero, a mãe que carregava um caiu em cima do outro filho, morto.
Zilda, uma mulher de um metro e sessenta, magra quase raquítica, mas era forte não derramara uma lágrima até aquele momento. Com muito esforço ela conseguiu erguer as duas crianças e cambaleando como uma bêbada, totalmente ensopada de sangue, começou caminhar de volta para o igarapé. Um filho em cada braço apertado contra o corpo. Ela lembrou do menor que todos o chamavam de mimim, queria andar ligeiro, correr, mas as pernas não obedeciam. Ao chegar encontrou o caçulinha dentro da água. Estava morto. Ele engatinhou para a morte.
 Sem assistência psicológica, (por aquelas paragens ninguém sabia sequer o significado da palavra “psicólogo”) o casal começou se culpar pela tragédia que atingiu a família.  A Zilda, coitada, passou a vagar por dentro do barraco dia e noite sem se alimentar nem dormir, surtou, morrendo duas semanas depois. O Zé, que só bebia nos finais de semana quando ia fazer venda na vila, passou a se embriagar diariamente. Morreu afogado no rio Jarumã, duas semanas após a morte da mulher, quando saiu para pescar sozinho (estava bêbado) num casquinho a remo. Assim, a fatalidade decretou em menos de dois meses, o extermínio de uma família, duas gerações.
Tragédia, como que aconteceu em Santa Maria/RS, onde morreu muita gente, causa comoção nacional e dor, não é, todavia, maior que a pequena desgraça onde morre só uma pessoa. Para o parente mais próximo – pais principalmente – a dor é a mesma. Minha pergunta: Em Santa Maria tem família que está sofrendo muito porque perdeu quatro filhos. A dor, é maior de quem perdeu só um?
Estatísticas sobre mortes no Brasil, por ano. Trânsito: 40.000; homicídios: 50.000. Em todo lugar por onde passamos, diariamente, tem uma armadilha armada contra a nossa vida. Umas são tão estúpidas, que não dá nem para usar a eterna frase de natureza conformista: foi a vontade de Deus...

Glossário
Caçuás - espécie de cestos gigantes feitos de cipó timbuaçú
Fofóia - parte que fica presa à árvore e sustenta a folha do açaizeiro
Miúdo - criança
Peixeira - faca de 12 polegadas
Casquinho - embarcação pequena movida a remo

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