A doutora
Raimunda Nazaré já não sabia mais o que fazer. Depois que a d. Maria, doméstica
que trabalhou mais de vinte anos na casa dela, e que foi praticamente mãe
substituta das duas filhas – atualmente uma tem 19 outra 17 anos – ambas já são
universitárias, de repente a família ficou sem a faz-tudo da casa. O problema é que a d. Maria de tanto ser
explorada pelo clã classe média alta,
adoeceu. Feriu o pé ao pisar descalça em um caco de vidro. Só deram merthiolate
pra ela passar na sisura (no linguajar
da doutora um “golpezinho de nada”). Só que a pobre velha, com mais de
cinquenta anos de idade, era portadora de diabetes. O ferimento piorou. E foi
nesse tempo que ela foi mandada embora do emprego.
Um ano depois,
muitos anúncios em jornais, cadastro no SINE (SISTEMA NACIONAL DE EMPREGO), que
toda semana mandava uma candidata lá para a casa da Dra. Raimundinha, e nada.
Não parava ninguém. Até que apareceu a Érica.
Um perfil diferente. Alta, loura, rosto fino. “Até se parece com a minha filha”.
Chegou a comentar com amigas, a patroa.
O certo é que,
depois de dois telefonemas para pessoas que a Érica indicou e que a
referendaram como uma pessoa “de bem”, zás trás. A Érica estava empregada. A dra.
sequer pediu os documentos da nova funcionária (a moça, afinal, era branca e
loura) que além de bonita tinha bom nível de escolaridade – médio completo – e
falava um pouco francês. Foi simpatia na primeira vista. Toda família foi
contaminada pela alegria e educação da nova empregada. Até o Doutor Ferdinando,
sempre muito sisudo, passou dar uns sorrisinhos e uns olhares de esguelha à
doméstica diferente.
Já há oito
meses na casa, saía de vez em quando com as
meninas. Era de confiança. Nunca atrasara um dia. Dava conta do trabalho,
esticava o expediente sem brigar pela renumeração das horas extras. Era eficaz
e eficiente. Quiseram contratar uma auxiliar, ela disse logo que “não precisa
doutora, eu dou conta do serviço”. E dava mesmo. Na boa, nem se importava em
ser explorada.
O que tem de dar errado, vai dar errado. É a Lei de Murphy.
Era uma
segunda feira. A Érica ainda estava trocando de roupa quando a doutora bateu
forte na porta do quarto, quase gritando, ordenou:
- Vem rápido aqui que queimou a
lâmpada do meu quarto.
E
lá foi a pobre da Érica, toda agoniada ajeitando a saia porque não tinha dado
nem tempo de vestir a calça comprida que ela gostava de usar no serviço. Quando
chegou na suíte da madame esta já tinha posicionado a escada e a Érica foi logo
subindo. A doutora se segurava na escada com a mão direita e na esquerda ela
tinha a lâmpada nova que entregou para a Érica. Neste momento ela olhou para
cima e, de repente, deu um grito. Um grito desesperado. Grito de susto. Gritou
e deslizou para o chão, desmaiando. As filhas ouviram no outro cômodo da casa o
berro da mãe e invadiram a suíte, foram direto acudir a velha. A Érica estava
lá em cima, estática. A madame se recuperou logo e sem olhar apontava para cima
sinalizando que às filhas olhassem também. Elas obedeceram. As meninas olharam
e o que viram deixou-as paralisadas, estupefatas, admiradas.
A Érica era um travesti. E bem dotado. Estava
sem “calcinha” e, involuntariamente, mostrava aquele montão de coisa lá,
pendurado, balançando acima da cabeça das três. Era um visual incrível! Uma
surpresa inesperada. Foi o maior furdunço.
As meninas tinham que sair. A madame também.
Assim foi feito. A Érica ficou só, triste, executando suas tarefas, preocupada.
À noite o
patrão chegou. A situação era tensa, mas reinava calma. Foi feito um relato. A
mãe e as duas filhas apelaram para que a Érica ficasse, mas o doutor estava uma
fera e não quis acordo. Não admitia de jeito nenhum, nem um minuto a mais a
presença daquela aberração que tinha visto sua mulher e filhas peladas muitas
vezes, e até despertara nele uns pensamentos meios safadinhos... ”Não! Aqui não! Não quero ver mais a cara dessa, sei
lá, desse troço aqui”.
A Érica
foi demitida. Perdeu o emprego que ela conseguiu manter por quase nove meses.
Trabalhou e viveu honestamente naquele período. É, mas acabou.
Duas semanas depois uma carta intimava a
família a comparecer na justiça do trabalho. O ex-empregado doméstico Onório
Orlando de Oliveira, pleiteava seus direitos trabalhistas.
Érica...



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