Pobreza.
Segundo os dicionários, estado ou qualidade de pobre, mendigo, pedinte. No
popular: ferrado, lascado; aquele que vive coçando o cú com garfo, que tem que
viver fritando ovo nas labaredas do inferno. É o meu autorretrato. Assim sou
eu. Gosto de pensar. Escrever. Por isso criei neste espaço, aproveitando as
facilidades da tecnologia, esta espécie de semanário on line – não me
considero um blogueiro , até porque não tenho seguidores e os meus leitores não
passam de três (Oh, glória!). Enfim, fiquei mais de um mês sem postar nada
porque fui atravessar correndo a Almirante Barroso escapando da chuva, o meu
óculos que estava pendurado na blusa caiu e o ônibus passou por cima; a
internet que eu tinha era um equipamento emprestado que eu tive que devolver ao
dono. Situações vividas só por quem não tem dinheiro. Mesmo sem fazer parte
daqueles dezesseis milhões que vivem abaixo da linha da miséria por ter onde
morar, engolir as duas mil e quinhentas calorias necessárias do dia-dia e, às
vezes, me dou algum lazer, sou pobre. Um liso inveterado. Quando consigo fazer
alguma reserva dá, no máximo, para comprar uma cartela de aspirina. É, mas já
foi pior. Bem pior.
No ano de 1964, com treze anos, o
picolezeiro negrinho, dentes cariados, cheio de pano branco no corpo (que o
deixavam esquisitamente malhado), maltrapilho, olhava para dentro de um carro
estacionado em frente a um bar onde todos bebiam conversando em voz alta e
gargalhando animados. Volante, alavanca, painel de controle, bancos, espelhos,
tudo era novidade. E os olhos espichados num êxtase de pura admiração, quase
hipnotismo, quando, de repente, o cidadão branco, fortão, prendeu violentamente
com a parte dentada de duas tampinhas de garrafa de cerveja as orelhas do
indefeso vendedor de picolés que admirava o possante e o afastou para longe,
vociferando: ”quer me roubar neguinho
filho da puta...”. Chorando e com a orelha sangrando, o negrinho do picolé
saiu dali quase correndo, sem nenhum motivo para encarar o futuro com otimismo.
Detalhe: a orelha torturada foi a mesma que poucos anos antes, depois de uma
traquinagem, tinha levado um aperto tão forte que a unha do polegar da tia castigante trespassou, furou, a ponta da
unha varou de um lado para o outro. O certo é que essa orelha, como o próprio
dono, nasceu mesmo sem sorte, o ultimo dano que ela sofreu foi causado por uma
cacetada dada pela ex-mulher, que num momento de raiva pura, bateu tão forte
que o lóbulo arriou. Foi costurado no pronto socorro da cidade nova Vll. Eu
acho que essa orelha veio ao mundo de bunda para o sol. Eu acho, já que os sortudos
nasceram de bunda para a lua...
O ser humano é um invólucro de
pele que acondiciona células, sangues e componentes químicos. Por isso é um
resistente especialista em sobrevivência nas situações extremas.
Cinquenta anos se passaram e pouca coisa mudou.
As cicatrizes da orelha desapareceram. Da alma não, vai sangrar sempre. Mas, será
que tem alguém que gosta de ser pobre? Tem. Tem sim. Vejamos:
Participava, no auditório do
Centro Social Sagrada Família, em Ananindeua, de um seminário promovido pela
Cáritas Brasileira dirigida a recicladores (catadores) que trabalham no lixão do
Aurá e de vários municípios do Estado, quando, no terceiro e ultimo dia do
encontro na hora da minha fala, provoquei com a seguinte pergunta: “alguém aqui
tem orgulho, está feliz com o trabalho que faz? O médico, advogado, o
engenheiro querem que os filhos sigam a carreira dos pais. Vocês gostariam que
seus filhos continuassem no mesmo serviço que vocês fazem?”. Pois é, a maioria
disse sim. Eu falei que não acreditava disse o porquê, mas passei por um
sufoco! Quase apanhei. No auge da discussão que se sucedeu até arrancaram o microfone da minha mão.
“É mais fácil um camelo passar
pelo buraco da agulha, que um rico entrar no reino dos céus” (Lucas 18,24). A
Bíblia, em Lucas e Mateus, conforma os pobres com a promessa de uma vida eterna
no céu, talvez por isso as pessoas mesmo sem ter onde morar, sem ter o que
comer, vestir; não ter como tratar seus doentes, nem um tostão para comprar
remédio; viver remendando coador de café, juntando sobras de sabonete para
fazer uma bola só; todo mundo usar o vaso para dar só uma descarga, passar o
fio dental e cheirar para ver se os dentes estão fedendo; passar óleo queimado
no vira latas para matar pira, secar cueca atrás da geladeira, rodar o pau da
antena e gritar lá de fora, “melhorou”, e exagerando: usar papel higiênico dos
dois lados...Pô! Passar por tudo isso e ainda achar-se uma pessoa virtuosa,
cheia de desapego, em favor do crescimento espiritual, ou até criar uma
autoimagem positiva do tipo “sou pobre, mas sou honesto”.
Tudo, tudo isso não
passam de belas e filosóficas frases de conformismo, mas não garantem acesso a
bens sociais.Eu sei bem disso..
A propósito, será mesmo que
depois de passar a vida toda sofrendo agruras, se alimentando com o pão que o
diabo amassou, tomando sopa de pedra, alma de pobre ainda vai para o inferno?
Não, não acredito que o nosso bom e poderoso Deus faça isso. Conosco, os pobres...


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