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| Greta Garbo, linda para a eternidade. Será que valeu a pena? |
Gravidade. O nome do filme vencedor do Oscar 2014 fez-me lembrar os tempos idos, vividos lá na colônia chicano, lugar onde nasci. Lugarejo que parecia um quilombo, haja vista que mais de noventa por cento da população nativa era negra, e o acesso pra chegar lá era só de canoas. Os rios funcionavam como avenidas, os igarapés como travessas e os “furos” eram as passagens e alamedas. Sendo que esses últimos –“furos”- só tinham serventia quando a maré estava alta, o que possibilitava passar nas canoas de um rio a outro.
O título do filme, gravidade, trouxe as recordações de como desafiávamos essa lei. Quando subíamos nos açaizeiros e descíamos
em velocidade, segurando, muitas vezes, mais de dois cachos de açaí que era quase o dobro do nosso peso. Éramos
crianças, e leves, por isso e porque as árvores eram quase sempre fininhas, o perigo de quebra era iminente. Eu mesmo
levei uma queda horrível. A Árvore quebrou comigo no momento que eu descia com
um enorme cacho de açaí, e na queda fiquei com a cara atolada no tijuco da
beira do rio, só não me finei porque o meu anjo da guarda estava no
plantão naquele dia. E os banhos na maré? Tomávamos distância e nos atirávamos
de cabeça no rio a uma altura de mais de quinze metros.
Muito pano de chão já
foi toalha de mesa.
Tenho 65 anos de idade e estou mais do que esculhambado. Caidaço mesmo. Mas fiquei
muito surpreso quando me encontrei com a Rosa. Dez anos mais nova que eu. Tentei
namorá-la quando éramos jovens. Na realidade, eu fui um franco atirador. Muito
bela a Rosa certamente que não ia me querer nunca. Eu, muito feio, era
justamente o oposto do perfil da bela Rosa. Nasci feio e com o passar dos
tempos essa feiura só fez se acentuar mais. Bom, o certo é que o tempo passou, nossos
destinos tomaram rumos diferentes, e o reencontro, Orlando x Rosa, deu-se ao
acaso, num ajuntamento de idosos em baile da terceira idade, agora esses
tempos, mais de quarenta anos depois que um pretencioso Orlando tentou
incursionar nos sentimentos da bela Rosa.
Bochechas, lóbulos das
orelhas, peles do antebraço, ventre, mamas, papada embaixo do queixo,
sobrancelhas, e bunda. Tudo, tudo arriado. As pernas, outrora tão lindas, estão
deformadas por veias que mais parecem esculpidas em alto relevo. Varizes. Um
espectro. Até os lábios parece que ficaram maiores e pesadões. Assim está a
Rosa. E eu? Por ser negro e praticar esportes (natação e corrida de rua) estou
bem mais inteiro, mas também, feiudão, claro.
Na época que eu fui preterido (na verdade esnobado), a bela
Rosa vivia aquela primeira fase –18/25 anos- quando a mulher só casa-se com o
homem que aparece em um transatlântico cheio de diamantes. Ela olha de cima e
diz: “quem eu quiser”; na segunda
fase -25/30 anos- ela já aceita um que venha num navio carregado com meia carga de ouro, e a frase já muda, no
caso: “quem me com vier”; de 30 anos
para mais, já é a terceira fase, aí ela, já no desespero, acolhe com carinho e
gosto, um caboclinho que venha numa canoa movida a remo carregada de palha de
açaí, e a frase é: “quem vier...”.
O fato é que, brincadeiras a parte, de todos os ciclos da
vida, a velhice é um naufrágio catastrófico, especialmente para as pessoas (principalmente
as mulheres) que têm um excessivo apreço por si mesma, quando se refere a
própria imagem, o que acaba implicando num narcisismo as avessas, que é a fuga
pra longe do espelho quando o envelhecimento chega.
Um conselho: tem um jeito de não ver-se e nem mostrar os
efeitos devastadores que a velhice trás, é só fazer o que fez a Greta Garbo,
atriz sueca considerada a mais linda mulher do século passado, que se tornou
reclusa em pleno verdor da existência, aos 40 anos. Escondeu-se do mundo, viveu
só, até morrer com mais de 80 anos, sem que ninguém contemplasse sua decadência
física.
Ser velho é ser feio, principalmente se for um velho
neurastênico, chato e insuportável. Como eu.
Eh eh eh eh...



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