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quarta-feira, 14 de maio de 2014

DESPENCAMENTOS - O DNA DO ENVELHECIMENTO

Greta Garbo, linda para a eternidade. Será que valeu a
pena?
Gravidade. O nome do filme vencedor do Oscar 2014 fez-me lembrar os tempos idos, vividos lá na colônia chicano, lugar onde nasci. Lugarejo que parecia um quilombo, haja vista que mais de noventa por cento da população nativa era negra, e o acesso pra chegar lá era só de canoas. Os rios funcionavam como avenidas, os igarapés como travessas e os “furos” eram as passagens e alamedas. Sendo que esses últimos –“furos”- só tinham serventia quando a maré estava alta, o que possibilitava passar nas canoas de um rio a outro.
 O título do filme, gravidade, trouxe as recordações  de como desafiávamos essa  lei. Quando subíamos nos açaizeiros e descíamos em velocidade, segurando, muitas vezes, mais de dois cachos de açaí que  era quase o dobro do nosso peso. Éramos crianças, e leves, por isso e porque as árvores eram quase sempre fininhas,  o perigo de quebra era iminente. Eu mesmo levei uma queda horrível. A Árvore quebrou comigo no momento que eu descia com um enorme cacho de açaí, e na queda fiquei com a cara atolada no tijuco da beira do rio, só não me finei porque o meu anjo da guarda estava no plantão naquele dia. E os banhos na maré? Tomávamos distância e nos atirávamos de cabeça no rio a uma altura de mais de quinze metros.
Muito pano de chão já foi toalha de mesa.
Tenho 65 anos de idade e estou mais do que esculhambado. Caidaço  mesmo. Mas fiquei muito surpreso quando me encontrei com a Rosa. Dez anos mais nova que eu. Tentei namorá-la quando éramos jovens. Na realidade, eu fui um franco atirador. Muito bela a Rosa certamente que não ia me querer nunca. Eu, muito feio, era justamente o oposto do perfil da bela Rosa. Nasci feio e com o passar dos tempos essa feiura só fez se acentuar mais. Bom, o certo é que o tempo passou, nossos destinos tomaram rumos diferentes, e o reencontro, Orlando x Rosa, deu-se ao acaso, num ajuntamento de idosos em baile da terceira idade, agora esses tempos, mais de quarenta anos depois que um pretencioso Orlando tentou incursionar nos sentimentos da bela Rosa.
 Bochechas, lóbulos das orelhas, peles do antebraço, ventre, mamas, papada embaixo do queixo, sobrancelhas, e bunda. Tudo, tudo arriado. As pernas, outrora tão lindas, estão deformadas por veias que mais parecem esculpidas em alto relevo. Varizes. Um espectro. Até os lábios parece que ficaram maiores e pesadões. Assim está a Rosa. E eu? Por ser negro e praticar esportes (natação e corrida de rua) estou bem mais inteiro, mas também, feiudão, claro.
Na época que eu fui preterido (na verdade esnobado), a bela Rosa vivia aquela primeira fase –18/25 anos- quando a mulher só casa-se com o homem que aparece em um transatlântico cheio de diamantes. Ela olha de cima e diz: “quem eu quiser”; na segunda fase -25/30 anos- ela já aceita um que venha num navio carregado com  meia carga de ouro, e a frase já muda, no caso: “quem me com vier”; de 30 anos para mais, já é a terceira fase, aí ela, já no desespero, acolhe com carinho e gosto, um caboclinho que venha numa canoa movida a remo carregada de palha de açaí, e a frase é: “quem vier...”.
O fato é que, brincadeiras a parte, de todos os ciclos da vida, a velhice é um naufrágio catastrófico, especialmente para as pessoas (principalmente as mulheres) que têm um excessivo apreço por si mesma, quando se refere a própria imagem, o que acaba implicando num narcisismo as avessas, que é a fuga pra longe do espelho quando o envelhecimento chega.
Um conselho: tem um jeito de não ver-se e nem mostrar os efeitos devastadores que a velhice trás, é só fazer o que fez a Greta Garbo, atriz sueca considerada a mais linda mulher do século passado, que se tornou reclusa em pleno verdor da existência, aos 40 anos. Escondeu-se do mundo, viveu só, até morrer com mais de 80 anos, sem que ninguém contemplasse sua decadência física.
Ser velho é ser feio, principalmente se for um velho neurastênico, chato e insuportável. Como eu.

Eh eh eh eh...

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