Na contramão da vida, todos na desvantagem.
-Ei, sabe quem morreu? O Marquinho. A pergunta e a resposta
foram feitas pela mesma pessoa. Que ouviu em seguida várias manifestações do
tipo: “bem feito” ou “já foi tarde” ou ainda, “demorou, com certeza tem festa
no inferno...” E por aí foi, e isso quer dizer o seguinte: que o Marquinho era
um sujeito inestimado, odiado, desprezado.
E a bem da verdade ele
era, de fato, tudo isso. Também pudera! A curta existência do Marquinho, menos
de 25 anos de idade, pode-se dizer que ele morreu velho. Explico: depois de
cometer o primeiro latrocínio, aos 16 anos, o homem gostou e não parou mais. Já
tinha mais de quatro no currículo. Jovem bem afeiçoado, calmo, fala mansa.
Impiedoso e cruel, o primeiro assassinato cometido foi contra um velho
desarmado que trabalhava a noite como vigia.
Protótipos – “O homem não é mau,
a natureza que o transforma”(Jacques Rousseau). Concordo. Ninguém nasce ladrão, criminoso,
assassino. Ninguém! Toda criatura como o Marquinho, ou pior, foi uma criancinha
engraçadinha, meiga e doce. Os acontecimentos entre a fase criança/adolescência
são determinantes para o comportamento que vai permear o futuro. Família,
Estado e sociedade são protagonistas nesse contexto e por isso mesmo são os que
cometem as maiores falhas. Exemplos: o Marquinho, ainda fedelho, não era de
amanhecer dormindo. Esperto. Acordava cedo. Às cinco da manhã já estava dando
uns bordejos nos quintais das casas nas circunvizinhanças onde catava os
cupuaçus que caiam à noite. E não escapavam as panelas ou outros utensílios
domésticos que tinham pernoitadas nos
jiraus que ficavam do lado de fora das casas. Na época os quintais das casas na
Estrada da Pirelly eram interligados e sem muros. Portanto, vulneráveis as atividades da
gatunice imberbe.
“O homem não é mau...”.
Pois é. Os pais do Marquinho guardavam, cuidadosamente, os produtos que ele
subtraía. Ele cresceu. E morreu. Sem honra e sem glória. Um confronto com a
polícia, umas balas no peito e na cabeça e, c’est
fini. Acabou. Finou-se. Esse final, mesmo previsível, causa angústia e tristeza
até em quem o odiava. Detalhe: O irmão mais velho do finado Marquinho também é
do ramo, só que mais perigoso. Está preso. É outra vítima dos desvios de
conduta da infância, brandamente tolerados, por adultos com expertises em camuflar, transformar
golfinhos em tubarões predadores... Vem mais lágrimas por aí.
Eu sou o Estado, e colaboro assim:
“Orlando, eu trabalhei um ano e oito meses na ‘casa de
passagem’. Na época passou por lá o Adriano. Ele só não fazia quebra-quebra
quando eu estava no plantão. Uma vez ele chegou muito doido num domingo de
noite. Chegou perto de mim e disse:
-A senhora num tem medo de mim?.
Respondi:
-Eu não. Tu não és bicho.
- Como ele estava muito machucado eu peguei material de
curativo e fiz limpeza nos ferimentos. Aí ele falou:
- Eu posso lhe chamar de tia?
-Pode sim. Aí ele me abraçou e dormiu abraçado no meu colo.
Hoje ele está adulto e de vez em quando vai na minha casa
pedir alguma coisa. Continua me chamando de tia. Vou te contar por que eu saí
da ‘casa de passagem’. Nós tínhamos instruções para não nos envolvermos
emocionalmente com os problemas dos internos. Mas um dia chegou uma menina de
12 anos que morava no Santa Lúcia. O padrasto e a mãe eram viciados.
Desapareceu um dinheiro na casa deles, micharia,
como eles achavam que era a menina que tinha roubado, queimaram as mãos e a
língua da garota que ficou totalmente em carne viva. Ela era alimentada por um
canudinho. Eu chorava muito em ver a
situação daquela menina, e por isso a assistente social me chamou atenção. Eu
não aguentei. Entreguei meu lugar. E lá é horrível! Eles (funcionários) batem
nos menores que passam por lá com lençol molhado, que é pra não deixar marcas.
Eles apanham muito...(Este é o depoimento duma ex-funcionária pública que trabalhava na "casa de passagem" com menores infratores)
E é assim, com a colaboração da família, do Estado e da
sociedade, que funcionam as eficientes fabriquetas, de onde saem da linha de
produção os protótipos de marquinhos,
aptos a atazanar vidas...



0 comentários:
Postar um comentário