Era um meio de tarde dum dia qualquer do mês de dezembro. Eu dormia um sono solto em plena praça do relógio embaixo duma mangueira, no Ver o Peso, num banco que eu já considerava “meu”. De repente, um susto! Levantei-me dum salto. Sentei-me. Olhei para os lados e não passava ninguém. A praça estava deserta naquela hora. Também pudera! Era domingo. Aí que eu fui verificar que tinha sido uma folha da própria mangueira que me dava o conforto da sombra que caíra no meu peito e me pregou aquele susto. Calmão da silva deitei de novo, mas não consegui dormir mais. É que eu caí na real. Pensei, caramba, já vem chegar o inverno.
Ô meu Deus, mais um inverno. Não
me recordava certo quantos anos eu já estava morando na rua.
Uma coisa, porém, eu não esquecia. Não dava para esquecer: o período chuvoso
era o pior tempo para quem tinha como teto o céu e como cama papelões. Aí, logo
imaginei com meus botões, vou cometer um delito leve, serei preso por, no
máximo seis meses, e lá estarei protegido da chuva, do frio e com a vantagem de
não ter que encarar trampo em troca
de comida. Tudo planejado. Mãos às obras.
Entrei num restaurante lá na praça do Carmo,
sentei-me, e o garçom com vontade de expulsar-me. Não expulsou, mas perguntou
com a sutileza de um elefante:
-Fala! O que queres?
-Claro que eu quero comer. Respondi
com cara de raiva também. Fiz o meu pedido: um bife de fígado bem suculento com
dois ovos estrelados e uma garrafa de refrigerante.
Me saciei. Pensando: “não pago,
ele chama a polícia, eu vou preso e pronto. O plano tá perfeito.”
Deu tudo errado. Quando eu falei
que tava liso o homem enfurecido
agarrou-me pela gola da camisa, me arrastou até a calçada, deu-me um tapa tão
forte que eu caí e mesmo caído ele ainda
me deu uns chutões, só parou porque um ciclista que ia passando parou e encarou
o garçom caloteado, e os dois ainda quase saem no tapa também. Aproveitei a
discussão dos dois e saí meio correndo, meio cambaleando. Ainda escutei o meu
salvador gritar: “tu só bate em mendigo...”
A primeira tentativa flopou. Parti para a segunda.
Dei uns bordos por várias ruas da Cidade Velha com um olho roxo inchado, corpo
todo dolorido e uma ideia fixa: ser preso.
Cheguei à praça do Arsenal de
Marinha (Praça da Armada) que estava com uma movimentação inusitada para um
domingo inicio de noite. Crianças andavam de motocicletas de brinquedo,
bicicletinhas, velocípedes, patinetes. As senhoras mães tomando conta da
gurizada. E guardas. Vários guardas. Pensei: “agora dá”. Me aproximei duma senhora que estava perto do policial, botei
a manipeba pra fora e comecei mijar
quase no pé da madame. O guarda pegou-me pelo cós da calça foi me empurrando até
chegar ao meio fio do outro lado da rua, quando eu fiquei longe do alcance da
visão das pessoas ele deu uma cacetetada tão
forte no meu membro que acabei me mijando sem querer. Agora de dor. Em seguida
deu-me mais um pescoção tão forte que eu saí catando cavaco com o nariz rés ao
chão. Escutei o homem da lei vociferando: “isso
é pra ti aprender respeitar, vagabundo...” Ele foi embora. Eu fiquei lá me
contorcendo de dor.
Mas brasileiro não desiste. Me
recuperei, e continuei a minha via crucis. E um pensamento obsessivo: “tenho que ser preso...”.
Já eram mais de oito da noite.
Cheguei à praça da Sé a Igreja estava aberta, lotada, e a música era de natal. Caramba! Me lembrei: além de domingo
era noite de Natal também. Eu já estava
com fome. Fui me aproximando. Fiquei na porta esperando que alguém me desse
algum trocado. Pela movimentação percebi que antes da Missa do Galo haveria um
casamento. Uma jovem se aproximou com um pacotinho na mão, entregou-me junto
com uma cédula de cinco cruzeiros. Quando eu disse “muito obrigado” ela fixou o
olhar no meu rosto e disse:
-Parece que eu conheço a sua voz.
Como é o seu nome? Eu relutei em dar o meu nome verdadeiro, mas, enfim,
respondi:
-Meu nome é Edelvanio mais
conhecido como Edel... A menina
enlouqueceu saiu correndo pelo centro da igreja gritando:
-É ele é ele é
ele!!! O papai tá aqui.
Foi um
furdunço. A noiva que ia casar era a minha filha mais nova, que eu não lembrava
nem quantos anos tinha, e a mais velha foi que me reconheceu.
Meia noite. Eu,
banhado, barba raspada, cabelo cortado, todo cheiroso, roupa social limpa e
bonita, sapato novo, participava ainda todo encabulado, da ceia natalina e do
regabofe do casório. Triste. A minha ex-mulher morrera fazia dois anos.
Conclusão:
Procurava um cárcere, achei minha família. E justo na Noite de Natal. Prometo:
álcool e drogas nunca mais! Nunca mais...



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