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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O SACO, O PÃO E A CUECA DO SEU CAZUZA


Dia 12 de outubro, dia das crianças, é comum os mais velhos recordarem as peripécias, engraçadas ou não, dos tempos da infância. E esse ano de 2014 o dia dos miúdos coincidiu com o círio de Nazaré e da Padroeira do Brasil Nossa Senhora Aparecida, aí foi uma trilogia festiva.
Na casa da dona Natércia na rua 3 de maio, na cremação; entre garfadas de pato no tucupi, maniçoba e gargalhadas cada um lembrava e contava proezas e até incidentes que causaram algum vexame naqueles tempos idos. Memorizei essa que irmãzinha trouxe contada pela Luci, na época com sete anos: naquele tempo o plástico não era a embalagem “da hora”. No Ver o Peso, por exemplo, o peixe era embrulhado em folhas de guarumã, nos açougues o açougueiro usava um amolador de faca que tinha um furo, aí ele varava a carne, metia a fibra naquele furo, puxava dava um nó e pronto. A gente levava a carne pra casa pendurada. E assim caminhava a humanidade. Pois é. Mas a estória de criança da Luci aconteceu assim:
A dona Sinamor, a mãe da Luci, fez como todas as donas de casa, um saco comprido exclusivo para transportar o pão comprado no único local perto de casa, que era a taberna da dona Mundica. E dos sete irmãos, Pedro, Alípio, Carlos, Lulu, Chico, Ester e Luci, passavam por um revezamento, ou seja, todos cada um no seu dia tinha que ir cedo antes do pai, seu Cazuza, sair para o trabalho, lá na taberna da dona Mundica comprar os barrocos indispensáveis para o café da manhã. E quem não ia de manhã tinha, obrigatoriamente, que ir a tarde.
- Eu era a mais chata – conta a Luci – no meu dia de ir na taberna eu já me deitava com raiva na véspera. Um dia eu tava escalada pra comprar o pão quentinho das quatro da tarde, mas eu com raiva não achava, de propósito o saco do pão. Eu já tinha reparado um monte de roupa bem branquinha na bacia que tinha sido lavada naquele dia. Foi quando a mamãe deu um berro indicando que o saco tava no meio das roupas lavadas e que eu tratasse logo de encontrar se não ela ia procurar e esfregar na minha cara. Como eu sabia que uma ameaçava  dela era fatal, tratei de ir lá na bacia revirei rápido, peguei o “saco”, enrolei na mão  e saí com raiva pra taberna. Fiquei na fila. Quando chegou a minha vez, pedi os cinco pães e o Nilson filho da dona Mundica que atendia no balcão, mandou eu abrir o saco, quando eu abri, olha o vexame: era uma ceroula, a cuecona do papai. E o Nilson pra querer ser engraçado ainda falou bem alto:
- Ei menina! Mas isso é a cueca do Seu Cazuza.
Foi quando eu me dei conta de que, com preguiça e com raiva acabei não reparando que no meio das roupas eu tinha tirado justamente a cueca do papai.
Eu, morta de vergonha, disparei, parti na carreira batendo todos os recordes de velocidade, entrei em casa chorando. Na minha cabeça eu ouvia as risadas das pessoas  que estavam na fila. A mamãe correu preocupada com a minha choradeira. Quando eu consegui contar o que tinha acontecido, ela deu-me duas lambadas com um cinto que ela já tinha lá pendurado na parede só pra essas emergências. Acabou sobrando pra um dos meninos que eu nem lembro quem foi comprar o pão naquela tarde. Meu Deus! Até hoje o meu estado emocional se abala quando eu lembro...

Só não me mudei de bairro porque não tínhamos nem um parente onde eu pudesse me abrigar e mesmo a mamãe e o papai jamais permitiriam que eu, menina ainda, fosse morar com outra família. Como eu já não gostava de ir na taberna da dona Mundica, por um bom tempo eu não fui mais. Na verdade nem na rua eu queria sair...

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