Língua – objeto fonador.
Linguagem – forma de expressão. A mamãe tem 85 anos e quando eu me entendi ela
dava um recado bem maneiro, mais ou menos assim: “ele é pávulo cheio de mitra
mas muito impulificante, trastejou ele tá fazendo imbuância, mas dequandenvez
tinha um tapuio plantando-lhe um trampêsco no tutiço”. Tradução: ele é exibido,
tem postura, boa conversa, mas muito encrenqueiro, por qualquer motivo está
criando confusão, mas de vez em quando tem alguém metendo-lhe uns tapas no pé
do ouvido.
No início dos anos setenta eu
escutei dois ladrões conversando. O diálogo era assim: “é irmão, eu meti os
cinco no porão traseiro dum bode, saquei o coringa dele. Saí de pinote, de
repente pintou um maluco de quatro na minha cola, perdi o breque dei de
chavasca com a dura, fui em cana e levei muito produto d’amazônia no teto. A
minha mina passou um fio pro adêvo que me tirou do xaxado”. Tradução: é colega,
eu meti mão no bolso de trás dum velho, roubei a carteira dele, saí correndo
com um cachorro atrás de mim, perdi o sapato e dei de cara com a polícia, fui
preso e levei muita cacetetada na cabeça (os cacetetes da polícia eram de
borrachas). A minha namorada ligou para o advogado que me tirou do xadrez .
É o modo de falar de dois
segmentos sociais diferentes. Um é o normal do caboclo iletrado que conserva
traços e características regionais; o outro é gíria da boca do lixo, do
submundo. Nos dois tipos de linguagem há influências geográficas e econômicas;
enfim, toda a gama de elementos que, circunscritos a um território , fazem dele
uma região distinta das demais até no modo de se comunicar.
O russo Vladimir
Maiakóvski, que era escritor, poeta e pensador, dizia: o povo inventa línguas.
E é verdade. Agora um exemplo de erudição no modo de dar um recado simples onde
o emissor quer mostrar que sabe falar e falar bonito. Um juiz (é só um exemplo,
uma simulação) do alto da sua sapiência, justificando uma sentença proferida a
respeito de um bêbado que fora estuprado:
“O orifício circular corrugado de 37 rugas
localizado na região ínfero-lombar de um cidadão, em elevado grau etílico, deixa
de estar em consonância com os ditames referentes ao direito individual de
propriedade.” O meritíssimo disse: cu de
bêbado não tem dono. Só isso. Simples. Bem simples. Ininteligível,
porém, o enunciado aos simples mortais que não têm formação com o academicismo
necessário para o entendimento da linda falação. (Ou falácia?).
Outro exemplo:
“a peça prembular exordial está de acordo com a increpatória e espeque. O
indigitado que é consorte supérstile ficará no ergásculo público”. Traduzindo:
“a peça inicial está bem fundamentada. O réu, que é viúvo, será recolhido a
cadeia pública”. É mole...?
Foi com esse linguajar rebuscado
que os semideuses, juízes do Supremo, passaram dois dias, 11 e 12/04/2012, desfilando
palavras que só eles sabem os significados para decidirem: podem matar os anencéfalos
(crianças sem cérebro). O magistral truque lingüístico dos magistrados: uso abusivo
do hermetismo, falam coisas que
ninguém entende; latinórios, textos
latinos mal empregados e mal traduzidos. Por quê? Esperteza, claro. Os togadões sabem, o emprego de termos enigmáticos de línguas mortas, como o latim, serve
justamente para que a patuléia não entenda bulhufas do que eles falam.
Foi assim no julgamento dos fichas sujas. Discursos
longos invocando até direito romano e alguns dos salafrários mais notórios do
País receberam licença especial para continuarem batendo bumbo,
caçoando da nossa cara. Ah, porque será que todo endinheirado condenado pela
justiça comum que recorre ao supremo dificilmente perde? Sei não...E os
Meretíssimos são pródigos. Em 1997 a juíza Sandra Mello, mulher do então Ministro
do Supremo Marco Aurélio de Mello, que é primo do ex-presidente e atual senador
Collor de Mello, presidia o Tribunal do Júri de Brasília quando, com palavras
lindas em bom juridiquês desclassificou o crime cometido por jovens bandidos da
classe média alta de Brasília que tocaram fogo no índio pataxó Galdino, de
crime doloso para lesão corporal seguido de morte. Uma brincadeira de
adolescentes.
Paradoxo: a reação humana dos mantos
de lã, acontece sim, quando o arranca rabo é entre eles. Ministros
Barbosa e Gilmar Mendes, discutindo no plenário do STF - quase saindo aos tapas; Barbosa e Peluso, também sairam dos espevitamentos oficiais no espaço vestuto e ao vivo mostraram que sabem falar nosso idioma. É isso, quando a kizumba é entre eles saem coisas do arco da velha. Não parece, mas eles são
humanos sim...


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