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sábado, 12 de maio de 2012

VIVER É PRECISO, ENVELHECER PRA QUÊ?

Quando eu era criança que morava no interior (colônia Chicana, na época município de Ananindeua, hoje, Santa Bárbara), uma das atrações que animava os domingos era quando jogadores do Progresso (time local), formavam um “solteiro x casado” que saía faísca. Era muito bacana. E o melhor, não tinha briga. Eu, por causa do papai, que era goleiro do time, torcia sempre pelos casados. Acabou que isso praticamente se transformou numa filosofia de vida, pois, passei a ficar mais a vontade no meio de pessoas mais velhas, que, aliás, me tratavam com muito carinho. E eu gostava. Quando comecei namorar o meu broto (linguajar da época, lá pelos idos de 1965) ela tinha dez aninhos a mais, e por aí foi.  Hoje vejo que esta minha particularidade perdeu um pouco a graça. Envelhecí. Agora sou um velho no meio dos velhos. E um desvio de rota está marcando a linha de chegada quando o fim se aproxima, o destino me prega uma peça: a minha mulher atual é quinze anos mais nova. Não foi fácil a adaptação, mas, sabe-se, desde o nascimento, nós, humanos, vivemos num constante processo de interação com nossos semelhantes, e a conclusão é que, praticamente, todos os comportamentos da humanidade são resultantes da convivência com os demais. Sou feliz com a com a minha novinha. Agora um novo paradigma prevalece: um velho com uma “mina” mais nova, ou uma velha com um “gato” mais novo, talvez seja essa uma das idéias mais criativas que existem para embelezar a velhice. 
Assistindo uma entrevista do arquiteto Oscar Niemayer quando ele fez 103 anos, o repórter perguntou: “como o senhor se sente fazendo 103 anos?”. Resposta: “me sinto uma merda, preferia tá fazendo 20”. Sinceramente, ao invés de 20, eu preferia mesmo ter morrido com 40, ou no máximo 50; com 63, também, me sinto uma merda. Só que do cavalo do bandido...Pior para  os jovens de hoje quando envelhecerem - os que...-, já que  com o avanço da ciência a longevidade aumenta, com certeza  a lei 10.741 que dispõe sobre o estatuto do idoso vai ser alterada. Idoso? Só a partir dos 75. Esses que vão estar ferrados, principalmente se forem velhos e pobres, como eu.
Brigava com meu pai porque ele bebia o caldo na beirada do prato e fazia aquele barulinho de água quando está no fim sendo sugada pelo cano da pia; com a d. Osmar, minha mãe, eu implicava quando ela estava mastigando nada; e aquele limpar de boca , ou o nariz, na base do  esfregão com a costa da mão em diagonal, que pega meia cara e em vez de limpar espalha na fuça o material que o velho quer ser ver livre. Terrível!  
Eu hoje: já estou na rua quando sinto um friozinho resfriando a minha coxa. Esqueci a braguilha aberta. A minha companheira de vez em quando me adverte: “para, Orlando, tu já estás mastigando de novo”. E não adianta eu me justificar dizendo que falo só “por que gosto de conversar e ouvir uma pessoa inteligente”. É mera justificativa cheia de ufanismo de um velho caducando, que vive conversando com um interlocutor inexistente; aquele cochilo com a cabeça pendida para baixo, o queixo quase encostado no peito, o lábio inferior fica meio arriado com umas gotas de saliva pingando (acho que por isso o termo “velho babão”); e a eterna mania de dar palpites em tudo, achando que sempre tem razão; desfiar detalhes intermináveis de mazelas e doenças; a repetição de coisas, histórias e causos contados e recontados. Ah, meu Deus! Ninguém merece. É ,tudo isso faz parte do comportamento e atitudes no processo de envelhecimento, que eu não gostaria de viver, mas, fazer o quê, já está acontecendo. Meu Deus, não sei por que vivemos tanto! Chego a ter inveja de outros mamíferos que morrem logo.
Para que serve a velhice? Biologia, genética, e fisiologia geriátrica talvez tenham a resposta. Qual, portanto, a justificativa para o envelhecimento, que não seja um processo que nos leva a inutilidade, e depois a morte? A única liberdade que um velho pode usufruir é da imaginação. E aí entra nível cultural, econômico, educação, religião, família e meio social. Nos devaneios imaginativos dos vovôs está presente a sexualidade, que, segundo alguns pesquisadores do comportamento humano na velhice, no velho a fantasia é mais enfocada nos órgãos; na velha, é mais imprecisa e abrangente. Exemplo: Se uma mulher é muito velha ela é visitada por pensamentos de beijos românticos embaixo de uma árvore ou no banco de uma praça; já no homem velho, o pensamento é uma vagina escorregadia num ato sexual feito em pé apoiado na borda da mesa do escritório. Esses pensamentos levam o velho, já impotente, incharem os órgãos genitais (não endurece, incha); aí ele quer aproveitar, começa um ato sexual, quase inútil, porque a lubrificação feminina da velha está seca, e a ereção masculina murcha, (é como um balão de aniversário cheio que a gente deixa escapar o ar) como se isso não bastasse, a ansiedade aumenta, e o fracasso do desempenho é inevitável. É a tragicomédia de corpos envelhecidos tentando funcionar. Segundo alguns especialistas em reprodução humana e sexualidade, os ovários nas mulheres e a capacidade sexual dos homens declinam mais depressa do que qualquer outro órgão do corpo, aí não tem jeito: pênis e vagina se tornam decorativos, fantásticos e ridículos.
É errado dizer que velho não serve para nada. Serve sim. É um excelente material para massa de manobra de gestores, que aproveitam, principalmente em anos de eleição. Eles sabem que cada velho assistido nos centros de referência sustenta cinco pessoas, em média, com seu salário. Isso faz com que os velhos sejam assediados, contemplados com festas e muitos, muitos abraços. Outra provável serventia: será que velhos moribundos internados em hospitais públicos, não são submetidos a algumas experiências médicas antes de morrerem? (medicamentos recém lançados, por exemplo, quem sabe hem...); velhos pobres, claro.
Os ricos. Os ricos são as jóias da coroa dos planos de saúde, e de médicos, que tentam de tudo, com tratamento de ponta, transferência para centros mais adiantados, até no exterior, mesmo sabendo que o doutor bunda branca já é pré-defunto; a luta esganiçada para mantê-lo vivo é proporcional ao seu saldo bancário. Quanto mais dias numa UTI do frustrado “tratamento”, mais dinheiro no caixa.
Ambição, subir na vida, carreira, classe social, estar entre pessoas bonitas, subir no pódio, ser o último biscoito da lata; tudo isso não nos atrai mais, porque, também, deixamos de ser atração. O poeta americano, Carl Sandburg, disse que velho, “é um balde de cinzas”. É mais, acrescento: é um monte de coisas caídas. Na velhice a lei da gravidade passa dominar sobre o corpo humano. O psicanalista James Hillman, no livro a força do caráter, descreve esse vir abaixo como o Grande Despencamento: tudo pende para o chão – pálpebras, queixo, mandíbulas, seios, a pele sob o antebraços, barriga, nádegas, lábia vaginal, pinguelo, testículos (o culhão do velho parece com uma laranja dentro de uma meia, engraçado: o pinto encolhe, some), até o lóbulo das orelhas desce.
O olhar é para baixo – olhamos para o chão com medo de tropeçar, cair.
Essas sinalizações do corpo é um recado: estamos a caminho do cemitério...

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