JESUS...foi o último nome que o Miguel Quiroga, piloto do avião que caiu essa semana na Colômbia pronunciou antes que do avião que ele era capitão, dono, comandante, piloto, caísse matando um monte de gente.
No início da década de setenta o time que eu jogava foi pra Moema, um vilarejo que ficava antes de Santa Izabel do Pará. Depois do futebol ficamos para uma festa. Festa do interior. O sonoro que tocava lá era o Santo Rosa, o melhor picarpe que existia por aquelas bandas. Onde ele tocava era sempre casa cheia. Eu não dançava. Ou estava no ônibus dormindo ou ficava vendo o movimento. Serenando. Lá pelas tantas da noite o vendedor de churrasquinho passou a ser importunado por um porre perto onde eu estava. O pinguço perturbador xingou, ofendeu, chamou o outro para briga. E o homem sempre calmo. Na dele. Até que o encrenqueiro partiu com sangue nos olhos para dar uma tapa no vendedor de churrasco, que segurou o espeto de assar e apoiou o cabo com as mãos na altura do abdome. A ponta virada para a frente, e ficou parado. Firme. Na corrida cega que o porre vinha não percebeu que tinha um espetão nada amigo apontado na direção da barriga dele. Os dois caíram juntos. O porre por cima. Mas com mais de dez centímetros de espeto de churrasco aparecendo na costa...enquanto o churrasqueiro se livrava do peso para escapulir dali. Antes do grunhido final o valentão ainda gritou: “AI JESUS...” E finou-se de vez. (Segundo o Dr. Edmundo Oliveira, dentro do Direito penal, esse é um caso típico de Criminologia, isto é, quando o a vítima provoca a própria morte).
Em 1967, quando das minhas andanças pelo mundo, eu estava em Paragominas. Eu juro pela fé da mucura que eu não sei o porquê que na época a cidade era mais conhecida por paragobalas. Pois é. Eu me encontrava na periferia. Tinha acabado de tomar um Guarasuco com pão doce na taberna do Seu Pedro, quando um bêbado, que já estava lá antes de eu chegar, brigava por causa de uma dose de cachaça que tinha sido servida num copinho que o vidro do fundo vinha até quase no meio do pequeno copo. Um pouquinho de pinga e a vasilha já estava transbordando. O quiproquó estava armado. O pingueiro destratou todas as gerações do Seu Pedro com os adjetivos mais chulos que ele conhecia. Por fim, resolveu saltar o balcão. Queria matar o Seu Pedro, que rapidamente pegou a faca, lambedeira de 12 polegadas, que estava em cima do fardo de jabá, e por cima do balcão enfiou a enorme faca até o cabo na barriga do homem porre que brigava por causa da cachaça. Com a lâmina toda enterrada no ventre ele jogou os braços para cima, girou o corpo 180 graus como se estivesse coreografando um passo de dança. Isso em fração de segundos. E caiu de bruços. Antes ouvimos o seu último grito: “AI MEU DEUS...”
Em 1974, eu trabalhava na construção da barragem do Paredão, a usina hidrelétrica do Amapá. Era mês de março. Muita chuva. E acidentes. Presenciei muitos. Como esse. Leiam: Uma caçamba carregada deslizou o barranco e descia desgovernada, quando o Medalha (apelido do motora) sentindo que a capotagem era iminente saltou barranco abaixo descendo de costa como se estivesse em um Tobogã. Caiu em pé e não se machucou na queda. Só que a caçamba desceu no mesmo curso e o Medalha estava atolado e encostado na parede formada pelo aterro. O canto da carroceria da basculante caiu bem no ilíaco, o osso do quadril, que foi seccionado. Arrancamos o Medalha da lama, colocamos na carroceria duma caminhonete C10 e saímos desesperados para Macapá (150 km de distância). O mais incrível é que o Medalha não perdeu os sentidos. E o mais incrível ainda: no início do trajeto o membro inteiro inferior lado direito, separado do corpo, se debatia sozinho. Éramos três. Um no volante e dois na carroceria da caminhonete. Todos sujos de lama. Últimas palavras do nosso colega, o Medalha: “Porra, caralho! Pra onde vocês vão me levar...Eu sei que vou morrer. Ô JESUS....
Foi a última palavra, junto com o último suspiro. O Medalha morreu com a cabeça pousada na coxa de um dos colegas que eu não lembro mais o nome. Nós seguimos, sujos de lama, melados de sangue e com cicatrizes na alma...
Eu me pergunto. O que será eu vou dizer na hora da minha partida. Terei tempo... Uma coisa é certeza: “PAI, EM TUAS MÃOS ENTREGO MEU ESPÍRITO”.
Isso eu não direi. ELE pode me acusar de plágio...




