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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"AH! VOCÊ ESTÁ TÃO MAGRA"

Corpos perfeitos.  A ditadura da beleza é assim: impõe sacrifícios, mas...

Ah, você está tão magra!
 É o elogio que as mulheres mais gostam de ouvir. Ganha até do “eu te amo”, que fica em 3º lugar.
 Pois é. Esses dias eu ganhei na pracinha, do conjunto próximo de casa, onde faço meus alongamentos umas inimizades, digamos, gordurosas. No mesmo local tem um camarada que é deficiente visual parcial e ex- corredor de rua federado. Com a experiência adquirida como “atleta” corredor, aproveitou a oportunidade que pintou e resolveu ganhar unszinhos, usando os conhecimentos de atividades físicas que aprendera quando estava competindo e aplicando a um grupo de jovens senhorinhas que estão correndo atrás das belas formas.
 O meu “crime” deveu-se a um arroubo verbal. Na verdade, reconheço, eu cometi uma verdadeira hediondez, chamei duas pupilas do Léo (nome do personal trainer) de Gordas. Pois não é que uma das alunas, a quem eu nem tinha me dirigido, irou-se. Pegou santo mesmo. A enfurecida aluna do mestre Léo falou quase nas minhas fuças de que eu estava “querendo era levar uns tapas na cara pra aprender respeitar as pessoas”...
Eu acho que todos nós somos portadores de transtornos explosivos internos. E eu, mesmo sem querer, entrei numa perigosa rota de colisão com uma jovem senhora que ameaçou estapear-me. Caramba! Logo na cara... E o mais incrível: a exuberante senhorinha era (para mim, ainda é) minha amiga. Agora eu estou numa sinuca de bico. Reconheço a minha indiscrição, mas nunca pensei que uma palavrinha de nada viesse causar um bug numa relação de amizade adulta, quase velha. 
Brigar nunca é bom, porque apequena o ser humano e ainda mais quando se trata de algo tão bizarro. Na realidade foi uma intromissão do bem. Aconteceu assim: o “professor” estava com seis “alunas”. Das seis, duas estão bem redondinhas. Como eu sei que ele não sabe por onde passa a fisiologia do exercício, não conhece o que é biomecânica do esporte, essa coisa toda que quem tem formação acadêmica, conhece eu fui lá e disse: “Léo, separa as duas gordinhas e passa atividades aeróbicas, e as magras mete exercício de média e grande intensidade, os anaeróbicos...” Eu penso que tanto o “professor” quanto as suas discípulas de tudo que eu falei só entenderam uma palavra: “gordinhas”. E só uma se aborreceu. Mas se aborreceu muito. Meu Deus!
“Quem não tem colírio usa óculos escuros...” Já dizia o poeta barbudo maluco beleza Raul Seixas. O sonho de um corpo perfeito (no caso, magro), o caixa baixo, a preocupação com a boa forma e a saúde, acaba muitas vezes colocando as pessoas diante dessa dicotomia, que é por em risco a saúde justamente em busca da boa forma e mais saúde. Pior, têm umas criaturas que correm com blusão de frio e isso, segundo os entendidos no assunto, pode até ser prejudicial, porque aumenta a temperatura do corpo e causa hipertermia. É verdade que, como efeito imediato, por causa do corpo abafado e os poros não transpirarem a pessoa vai suar mais, logo, perde mais líquido, que retorna ao organismo assim que é feita a reidratação. Conclui-se daí que os gramas perdidos foram líquidos, e não calorias. É isso.
Pô! Eu não sei é nada. Corri durante quarenta e cinco anos. Tenho sessenta e seis. E o que eu queria mesmo era poder correr de costas. Correr pra trás. Assim mesmo, olhando pra frente. Voltando no tempo. Enganar a morte. Porque eu sei que ela tá pega não me pega. Tá no meu calcanhar. Poder recomeçar, ou começar, tudo de novo, pra ter vergonha na cara e aprender que não se chama de gorda pra uma mulher. Mesmo que ela não esteja assim, tão magra...


terça-feira, 11 de novembro de 2014

O BOFE IMBERBE, E O VÔMITO NA COSTA DO SEU RICARDO

  Já foi pior: Hoje homossexuais não se escondem mais, mas a preferência continua sendo  por bofinhos jovens. Porque será... ?
Traumas. Quem não os tem?   Na maioria das vezes eles surgem na infância e têm reflexos na nossa personalidade. O criminoso em série, sociopata ou o pedófilo, por exemplo, quase sempre vêm de situações vivenciadas no passado. Foram acometidos de algum tipo de violência, física ou psicológica, que acabou de alguma forma sendo determinante nas cicatrizes que ficaram na alma. Por isso, nem sempre o que se aprende na infância é a resposta mais saudável quando chegamos à vida adulta.
De todo ser vivente o homem é o que tem a infância mais longa, e é justo nesse período que o cérebro capta os aprendizados, mais tarde na adolescência outros conhecimentos se somam. Experiências recebidas, o cérebro processa e arquiva, e na fase do amadurecimento, dependendo de fatores diversos como estresse emocional, físico ou psíquico, e até condição social, pode-se, muitas vezes, reproduzir os aprendizados desse período da vida, fazendo distinção entre o que atrapalha e o que ajuda.
 O relato a seguir é um exemplo de acontecimento da existência adolescente, que bem podia ter produzido um adulto “doente”. O nosso personagem, porém, no quadro que  emoldura o mundo, ao invés de retratar o medo, a hediondez, o mal; pintou a unidade, a beleza e a harmonia, com imperfeições e erros, mas sem as danações perversas que estraçalham a vida.
Eram duas horas duma tarde de domingo num mês de verão do ano de 1963. O pequeno trabalhador de quatorze anos tinha terminado mais uma jornada de trabalho na feira do Ver o Peso. Depois de ter lavado a roupa de serviço e tomado banho nas águas barrentas da baia do Guajará, vestido uma bermuda um pouco melhor, uma camisa limpa, almoçado um suculento peixe frito com açaí, o guerreiro foi descansar. Aonde? Sob a sombra de uma mangueira na praça D. Pedro II, na frente do Palácio do Governo (Palácio Lauro Sodré). 
Na calma daquele início de tarde de domingo deitou-se num banco, fez da trouxinha de sua própria roupa, um travesseiro, e preparou-se para usufruir o conforto do vento fresco resfriado pelas águas que sopravam da baía. Era um verdadeiro refrigério para o corpo e para a alma. A única preocupação eram os passarinhos que soltavam seus dejetos lá do alto sem se importar com quem estava embaixo. Sem casa, sem parentes ou amigos, o pequeno lutador descansava de uma manhã de trabalho puxado no máximo de “conforto” que tinha a sua disposição: um banco em praça pública. Se bem que o local escolhido para o repouso era estratégico, ficava a menos de 300 metros do cinema Guarany, onde, às três da tarde, passaria a primeira sessão do filme “Assim que se faz...Amigo”, filme de faroeste, que era o gênero preferido do nosso rapazinho.
  De repente uma movimentação na extremidade do banco, fez o pretinho levantar-se rápido. Meio assustado viu que não estava mais só. Um velhote, que aparentemente se divertia com o susto causado pela sua presença tinha se sentado na pontinha do banco. Cumprimentou-o com uma “boa tarde”, e um sorriso cativante. Puxou conversa:
- Que faz o meu bom rapaz  nesta hora sozinho aqui, e pelo visto está cansado, hem? Trabalhou muito hoje, onde e em quê, e pra aproveitar, como é o seu nome?
A sucessão de perguntas embasbacou o desconfiado negrinho que quis dar uma daquelas respostas aprendidas na escola Veropesiana, conteve-se, porque o velhote deu-lhe uma palmadinha na coxa desnuda, e em tom galhofeiro, brincou:
 - Não se aborreça meu jovem, só estou querendo ser seu amigo. Pronto! Em poucos minutos os dois conversavam animadamente como se, de fato, velhos amigos fossem.
- Bom, eu já sei que o teu nome é Orlando, teu apelido é jambu, trabalhas na feira, moras sozinho num quarto alugado em Canudos. Um dia vou te fazer uma visita. Mas agora és tu que vais comigo no meu apartamento me ajudar fazer uma limpeza. Eu sou gerente da fábrica Palmeira. A minha família está de férias em mosqueiro e eu só vou pra lá na ultima semana. Vou te pagar um bom dinheiro. Vais ganhar mais do que ganhastes hoje na feira. Topas? Proposta aceita.
Mesmo sem saber quanto iria receber, mas só a perspectiva de ganhar mais do que tinha ganhado na feira deixou o marreteirinho todo serelepe. Por ser negro, e ter complexo de inferioridade, ele evitava sempre as pessoas muito pousudas.  Esse senhor, porém, era diferente. Muito gentil. Seguiram juntos. Um detalhe, entretanto, o intrigou: o seu Ricardo, como o homem se identificara, com uma desculpa, pediu que ele fosse pela outra calçada. Quer dizer, seguiam juntos, mas separados.
Edifício Fátima. Décimo terceiro andar. Visão total para a baía de Guajará. Um deslumbre! Pela primeira vez ele enxerga, lá de cima, até aonde a vista alcança, além da baia toda a cidade estava ali, à vista. Que belo visual. Viaja. Devaneia. Encontrava-se debruçado no parapeito quando o Ricardo bate no seu ombro convidando-o para entrar. Entrou. E surpreso, viu que no apartamento não tinha móveis. Era muito limpo. Só uma cama de casal e um guarda roupa compunham o mobiliário do ambiente. E, credo! O anfitrião estava nu. Peladão, foi logo ordenando: “Vamos, meu rapaz, tire a sua roupa”. Todo confuso o atabalhoado Jambu ainda pensou: “ai ai ai que diacho é isso?”. Falou:
- Ei, seu Ricardo, qué isso? O Senhor me chama pra fazer limpeza, mas aqui tá tudo limpo. E porque eu tenho que tirar a minha roupa, também?
- Você ainda não entendeu meu jovem? Respondeu o velho Ricardo, passando a mão na genitália do pobre Jambu, que nervosão não sabia como reagir.
É que naquelas alturas da vida o moço ainda era virgem. Intacto. Ainda não tinha se deitado nem com uma mulher, que dirá que dirá... Mas, quem está no inferno tem que se abraçar mesmo é com o satanás. O mancebo pensou no dinheiro e foi direto:
_ Quanto o senhor vai me dar?
– Cinco Cruzeiros, tá bom? Respondeu o velho Ricardo. E te arrumo um emprego na empresa onde eu trabalho. Prometeu. Cinco. Cincão. Era muitas vezes mais do que ele tinha faturado naquela manhã de trabalho árduo na feira.
 Sonhou. Emprego. Ah! Um emprego. Era tudo que ele sonhava na vida. Suava frio. Os miolos derretiam. Pensava: “Ai meu Deus! Um ano de Seminário, e agora isso aqui...” (Ele passara um ano internado no Seminário Salesiano). E veio, de repente, o Evangelho de Marcos 10-7,8 onde diz “homem deixa os pais para unir-se a sua mulher e os dois serão uma só carne...”
Afinal, a necessidade imediata falou mais alto. Aceitou. Foi para a cama com o velho Ricardo. Desajeitado (e o cérebro martelando pecado, pecado, pec...). Disfunção erétil ele não tinha. Muito pelo contrário. Mas naquelas circunstâncias nada funcionava. A lança de ataque, quase sempre rígida, naquele momento parecia um guardanapo. Isso não foi problema para o velho Ricardo que, cheio de experiência, resolveu o empecilho, e colocou a máquina em funcionamento.
Palavras do Jambu, que tem 64 anos e ainda está vivo:
“Montei em cima do velho com asco. Ele tinha uma bunda mole e peluda. Eu tava com muita repugnância. A verdade é que eu não completei o ‘serviço’. No mesmo tempo que eu comecei ejacular na bundona do velho, vomitei na costa dele todo o almoço da feira, açaí com peixe frito.  A reação do desgraçado foi rápida e violenta. Ágil, ele saltou da cama e me deu uma bofetada. Mesmo tendo feito uma esquiva, ainda acertou-me. Lembram da trouxinha de roupa que eu lavei lá no Ver o Peso que tava lá no chão e tinha deixado perto da porta?. Dum salto alcancei a trouxinha. Tirei meu inseparável canivete corneta e pensei: ‘vou matar esse baitola filho da puta”.
Aí começou uma luta esganiçada. Horrível. Medonha. O velho era forte. O negrinho era ágil. Cada movimento rápido da afiada lâmina na direção da barriga do Ricardo, era um salto que ele dava para trás e rebatia com os braços que iam ficando golpeados. A cena era grotesca, tragicômica, porém, porque aqueles dois homens nus com os balangandãs pendurados, sacudindo, pareciam que a qualquer momento iam despencar. Morto de cansado, sangrando muito pelos golpes levados nos braços e umas goteirinhas na barriga, o velho, de pé em cima da cama, apelou para o diálogo: “calma meu menino. Olha o que você está fazendo. Vamos conversar!”.
Ofegante, o negrinho foi saindo de costa em direção à porta. Juntou a roupa meio molhada que estava no chão. Limpou-se com a própria veste, e sempre com o canivete preparadinho, foi saindo de fininho. Lá embaixo ainda pensou do jeito bem paraense: “Égua! A gente se mete em cada uma...”
Anos depois ao fazer compras no Armarinho Paulista, atacadista de aviamentos que existia em Belém até o início dos anos 80, na sala da gerência onde fora pegar a nota fiscal, olhem quem era o gerente: seu Ricardo. Os dois, Jambu, que já era um homem, e Ricardo já bem envelhecido. Reconheceram-se mutuamente e cumprimentaram-se, respeitosamente.
Fato. O seu Ricardo morava no jurunas num bangalô de dois pavimentos. Era um respeitável chefe de família. Bem casado. Duas filhas. Bissexual. Mantinha o apartamento alugado para os encontros íntimos e tinha preferência por adolescentes. Hoje, com as leis protetivas preconizadas pelo Estatuto da Criança  e do Adolescente ele seria considerado pedófilo. Era um candidato em potencial à cadeia. Certamente.
O imbróglio sexual mal sucedido ocorrido naqueles tempos deixou traumas no personagem que era, na época, muito jovem e recém-saído do seminário. Passou odiar viado. Na verdade um sentimento de ojeriza que perdurou por muitos anos sem, contudo, qualquer ato gerador de violência contra a ‘moçada’ do grupo transgenêro.
 Heterossexual de cultura machista, mas fundamentada em princípios religiosos, o protagonista de ponta desta narrativa fez uma opção: Amar a Deus com todo coração, com toda alma e com todas as forças e ao próximo como a ti mesmo. (Lc 10, 25-28)
“O tempo ajuda esquecer”. Isso não é verdade. Ou pelo menos não foi com o autor   do causo aqui descrito. A estrutura psicótica voltada para as neuropsicoses de defesa, especialmente quando o ego é confrontado com uma experiência aflitiva, não escraviza, mas fica armazenada no espaço do cérebro que serve de depósito das coisas dos tempos de antanho.  O passado fica no passado. Mas de vez em quando um refluir de episódios ocorridos retorna mesmo sem o peso da emoção, dos medos que na época provocou dificuldade para dormir, choro fácil, estado de medo contínuo, aperto no peito e coração acelerado. O fato é que de vez em quando um “sai pra lá” nas lembranças de fatos marcantes são necessários para que o nosso cotidiano deslize de forma mais suave.

O Jambu que o diga...

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

A LINDA "LOUIS VUITTON" DA IRMÃZINHA, MADE IN CHINA

Os pobres, coitados, não podiam usufruir dos mesmos prazeres aí não deu outra: começaram um furtozinho aqui outro acolá e se justificaram: "estamos agindo contra o bando". Hum...


- Ei Naza, que merda é essa? Onde tu arrumaste dinheiro pra comprar uma bolsa dessas? É tua? Quanto custou? Ou, quem te deu? Bóra, faaala!
De propósito, ela fez um gesto que me irritou ainda mais,  respondeu toda lânguida:-Ganhei.
 Mas logo reparou as duas bolas de sangue nos meus olhos,  e, ao escutar o meu ranger de dentes, sabendo que eu estava prestes a  praticar uma lobotomia a frio,  e o temor de  ter a carótida arrancada, tratou logo de me acalmar. Falou consertando:-É pirata, meu velho, ia ser incinerada. Custou só 20 reais. Vin-té-co...-Ah, bom. Balbuciei. Com a calma de um monge. -O homem que me vendeu  tinha um montão dessas bolsas. Completou a Irmãzinha.Contra o Bando/Contrabando. Segundo alguns historiadores esse termo, contrabando teria surgido no ano 44 a.C. na época do Império Romano. O chefe, Júlio César e sua turma, só a eles, o pessoal “dazelite”, como diz o Presidente Lula, era permitido tomar o melhor vinho, comer a melhor azeitona, o melhor chouriço de ovelha. Já os escravos (plebeus) para usufruírem dessas benesses tinham que escamotear, tipo assim, afanar, ou num português bem conhecido, roubar. E eles, os plebeus se justificavam dizendo que estavam agindo contra o bando (de ricos e privilegiados). O Brasil aportuguesou o termo, aí ficou contrabando.  Agora nós, na real.
 Na década de sessenta quem vestia uma calça jeans estava “por cima da carne seca”. Estava podendo. Eram as famosas calças Lee. Chegavam por aqui por estas plagas contrabandeadas, vinham de barco do Suriname, e mais tarde Manaus, depois da Zona Franca. Era o contrabando. Muitos figurões  do Estado começaram ficar poderosos lá atrás, pelos atalhos altamente lucrativos das mercadorias contrabandeadas. Bom! Pelo menos não era droga. O Zé Mané aqui, ainda meninote, ajudou, sem receber nada em troca,  “plaquear” carros novos nas matas do Paricatuba. Na época a estrada  de mosqueiro ainda não existia nem o projeto. As famílias Catanhede e Salame (o chefe do clã era o Oscar salame, muito famoso por que pelo dinheiro e poder que tinha fazia a limpa nas filhas dos caboclos da Colonia Chicana, Arací, Jenipaúba...). Carros que eram trocados por café e pimenta do reino tinham como local de embarque e desembarque o porto  do Candeua, lá em Santa Bárbara, na época município de Ananindeua. Como disfarce, perfeito, aliás, uma serraria de grande movimento dos Salame, onde o tio Zé Matos era foguista, emprestava a fachada de legalidade à atividade principal, que era o descaminho. A história hoje é esta: o grande volume de mercadorias como eletrônicos, tênis, bolsas, roupas, cosméticos, cigarros, bebidas, etc. que os representantes das leis, da receita federal a todas as polícias prendem, que abarrotam os depósitos oficiais, e de vez em quando a imprensa mostra chegando aos fornos crematórios para virar cinzas. São sempre imagens apoteóticas mostrando o Estado cumprindo a lei. Quem é capaz de acreditar que entre a prisão das mercadorias, o depósito, o transporte para o caminhão e o fogo nada ficou escondidinho n‘algum lugar para ser transformado em renda, presentes, ou  instalados nos quartos e sala das luxuosas casas dos funcionários aduaneiros; nas mansões dos xerifes fardados com símbolos e insígnias oficiais;  ou no fim da cadeia  de serviços do submundo do descaminhamento, no caso, motoristas, ajudantes e outros e mais outros atores do  sistema chamado de “jeitinho brasileiro”?
Imagine a prisão de uma carga com TVs. Digitais grandonas telas finas de Led, vão todas para o fogo? E as bolsonas Louis Vuitton, luxuosamente falsificadas? É até compreensível que ao invés das bichinhas (bolsas) se acabarem no fogo elas vão pousar embaixo dos sovacos odorizados das madames  ou amantes dos fiscais da lei, ou então, passadas em frente, a preço camarada, como esta que veio parar aqui no meio dos útiles da minha querida Naza. E é aí que encaixa uma frase que foi cunhada pelo saudoso Sérgio Porto, mais conhecido como Stanilaw Ponte Preta, “restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”. Ah, sim, as suas excelências, os congressistas, quando estão deputando para eles, que incluem emendas sujas, geralmente aprovadas num bolo só (aconteceu recentemente com as empresas de planos de saúde) chamam essas manobras fétidas de contrabando.Pois é. O governo federal criou até o dia nacional de combate a pirataria, 03 de dezembro. Sim, mas no Brasil tem dia da tia solteirona, 30 de março; dia do cão 04 de outubro; dia do orgasmo, 09 de maio, etc.
Enfim, só peço ao santo padroeiro protetor da bolsona Louis Vuitton contrabandeada, que proteja a minha querida Naza no dia 03 de dezembro próximo... Amém!!!

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O SACO, O PÃO E A CUECA DO SEU CAZUZA


Dia 12 de outubro, dia das crianças, é comum os mais velhos recordarem as peripécias, engraçadas ou não, dos tempos da infância. E esse ano de 2014 o dia dos miúdos coincidiu com o círio de Nazaré e da Padroeira do Brasil Nossa Senhora Aparecida, aí foi uma trilogia festiva.
Na casa da dona Natércia na rua 3 de maio, na cremação; entre garfadas de pato no tucupi, maniçoba e gargalhadas cada um lembrava e contava proezas e até incidentes que causaram algum vexame naqueles tempos idos. Memorizei essa que irmãzinha trouxe contada pela Luci, na época com sete anos: naquele tempo o plástico não era a embalagem “da hora”. No Ver o Peso, por exemplo, o peixe era embrulhado em folhas de guarumã, nos açougues o açougueiro usava um amolador de faca que tinha um furo, aí ele varava a carne, metia a fibra naquele furo, puxava dava um nó e pronto. A gente levava a carne pra casa pendurada. E assim caminhava a humanidade. Pois é. Mas a estória de criança da Luci aconteceu assim:
A dona Sinamor, a mãe da Luci, fez como todas as donas de casa, um saco comprido exclusivo para transportar o pão comprado no único local perto de casa, que era a taberna da dona Mundica. E dos sete irmãos, Pedro, Alípio, Carlos, Lulu, Chico, Ester e Luci, passavam por um revezamento, ou seja, todos cada um no seu dia tinha que ir cedo antes do pai, seu Cazuza, sair para o trabalho, lá na taberna da dona Mundica comprar os barrocos indispensáveis para o café da manhã. E quem não ia de manhã tinha, obrigatoriamente, que ir a tarde.
- Eu era a mais chata – conta a Luci – no meu dia de ir na taberna eu já me deitava com raiva na véspera. Um dia eu tava escalada pra comprar o pão quentinho das quatro da tarde, mas eu com raiva não achava, de propósito o saco do pão. Eu já tinha reparado um monte de roupa bem branquinha na bacia que tinha sido lavada naquele dia. Foi quando a mamãe deu um berro indicando que o saco tava no meio das roupas lavadas e que eu tratasse logo de encontrar se não ela ia procurar e esfregar na minha cara. Como eu sabia que uma ameaçava  dela era fatal, tratei de ir lá na bacia revirei rápido, peguei o “saco”, enrolei na mão  e saí com raiva pra taberna. Fiquei na fila. Quando chegou a minha vez, pedi os cinco pães e o Nilson filho da dona Mundica que atendia no balcão, mandou eu abrir o saco, quando eu abri, olha o vexame: era uma ceroula, a cuecona do papai. E o Nilson pra querer ser engraçado ainda falou bem alto:
- Ei menina! Mas isso é a cueca do Seu Cazuza.
Foi quando eu me dei conta de que, com preguiça e com raiva acabei não reparando que no meio das roupas eu tinha tirado justamente a cueca do papai.
Eu, morta de vergonha, disparei, parti na carreira batendo todos os recordes de velocidade, entrei em casa chorando. Na minha cabeça eu ouvia as risadas das pessoas  que estavam na fila. A mamãe correu preocupada com a minha choradeira. Quando eu consegui contar o que tinha acontecido, ela deu-me duas lambadas com um cinto que ela já tinha lá pendurado na parede só pra essas emergências. Acabou sobrando pra um dos meninos que eu nem lembro quem foi comprar o pão naquela tarde. Meu Deus! Até hoje o meu estado emocional se abala quando eu lembro...

Só não me mudei de bairro porque não tínhamos nem um parente onde eu pudesse me abrigar e mesmo a mamãe e o papai jamais permitiriam que eu, menina ainda, fosse morar com outra família. Como eu já não gostava de ir na taberna da dona Mundica, por um bom tempo eu não fui mais. Na verdade nem na rua eu queria sair...

domingo, 14 de setembro de 2014

DENTRE TANTAS "PRIMEIRAS", ENFIM, UMA SECRETÁRIA/ DAMA DE PRIMEIRA...


Estatuto do Idoso- Lei 10.741
Art. 3o É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.

Pois é. Eu já escrevi vários textos aqui tendo como assunto administrações municipais maritubanas. Até porque as peculiaridades administrativas pelas quais passou o município assunto era que não faltava, haja vista que, em dois anos foi batido o recorde de ocupantes no cargo de mandante-mor. Um texto, porém, deu-me alguma preocupação. Eu pensava que ninguém acessava meus escritos até a publicação do “MARITUBAGUNÇA”. Título do despretensioso texto publicado em maio de 2013 que incomodou. Pois não é que ligaram pra minha casa com recados do tipo, “negão, cuidado! tu tá falando muito...” Eu, ao invés de me borrar de medo fiquei feliz da vida. Caramba! Putz! Alguém lê o que escrevo. Tá, mas como não sou besta pra tirar onda de herói (Raul Seixas) e a D. Nazaré (a Irmãzinha) ficou muito preocupada, segurei a minha onda e parti para assuntos, digamos, menos mortais...
Bem, apesar das turbulências a sociedade civil teve algumas conquistas, e uma delas foi homologação do Decreto Lei 112 de outubro de 2013, que criou o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa. Foi uma gestação que de nove anos. Do período de duração, desde a primeira reunião, até o dia de aprovação do Projeto de Lei foram dias de muita expectativa, mas enfim, Marituba é o primeiro município da área metropolitana com um Conselho dos Idosos. Ora viva! E eu, o chato, militei em favor e sou o primeiro presidente (mereço uma placa, porque não?) e tenho orgulho disso. Mas assim como não existem corpos sem alma, nada se faz sozinho. Ao longo do caminho percorrido encontramos pessoas que nos incentivaram, deram forças, nos orientaram.
Nesta lista tem a Patrícia, coordenadora do Cras Emmanuel Rocha – 2004/2006 -, a Ana Lucia, brilhante assistente social e uma batalhadora pela causa. Mas uma criatura muito, muito especial, lutadora, corajosa, que injetava ânimo todas as vezes que a gente esmorecia, Edilena Galvão foi, sem sombra de dúvida, a nossa baluarte na cruzada pela concretização do sonho de criar o nosso Conselho. São pessoas admiráveis, que não cruzam nossos caminhos por acaso, é Deus que orienta nossos passos na mesma direção. Acredito. Tivemos também a boa vontade do gestor que estava de plantão na época, e até o vereador que fez o projeto de Lei e o levou para votação na Câmara Municipal. Foi assim o parto do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa.
Quando a justiça afastou o, até agora, ultimo ocupante da cadeirona, que eu já estava achando-o bonzinho, e empossou o atual, Mário Filho, no dia 25/04/2014, ressabiei-me, e, de novo, muito santo da vida fui à primeira reunião com a nova equipe de governo. Quatro meses depois e várias reuniões (dezessete precisamente), dois fóruns, duas oficinas do Sinase, - André Franzini - uma da Política Nacional de Assistência Social- PNAS - Profª Maria Lucia Gaspar, já dá para traçar um diagnóstico: o município agora está bem servido. O esforço em fazer, e fazer bem, é visível. Existem falhas pontuais, que certamente, vão existir sempre, porém o que se vê deixa os munícipes mais animados. Mais felizes. Elogios prematuros? Não! Existem motivos, principalmente quando a tentativa de acertar é corrigindo falhas como o relato do parágrafo a seguir.
Um funcionário com cinco anos de serviço, 62 anos, vigilante, foi demitido em maio. Através de ofício solicitei, no dia 17 de julho, a reintegração do servidor com base no que preconiza o art. 3º, Lei 10.741 (Estatuto do Idoso). Demorou quase dois meses, mas hoje, 12/09, a Secretária de Assistência Social, Primeira Dama Michele Begot, que lógico, é esposa do chefe, garantiu-me que o idoso voltou ao emprego. Muito bem.
Foi assim, informalmente, que a SECRETÁRIA/DAMA DE PRIMEIRA, comunicou-me a
recondução do funcionário idoso ao emprego
Tem uma frase de um sábio chinês, Confúcio, 551 a.C. que diz: “não corrigir as próprias falhas é cometer a pior delas”. Existe, todavia, pessoas que quando travestidas de autoridade mandonista acha que é mais fácil ser imbecil do que voltar atrás numa decisão. O saudoso Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) dizia “que ninguém é bonzinho de graça”, logo... Bom, o certo é que o homem voltou. Intão tá.
E eu termino esta escrevinhação com a minha própria frase: a primeira Dama Michele Begot não fez nenhum favor, mas a atitude de reconduzir o velho servidor sem judicialização mostra que ela não se conforma em ser apenas uma primeira secretária. Quer mais, quer e tem tudo para ser, uma Secretária de Primeira... Amém !!!
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