Já foi pior: Hoje homossexuais não se escondem mais, mas a preferência continua sendo por bofinhos jovens. Porque será... ?
Traumas. Quem não os tem? Na maioria das vezes eles surgem na infância
e têm reflexos na nossa personalidade. O criminoso em série, sociopata ou o
pedófilo, por exemplo, quase sempre vêm de situações vivenciadas no passado. Foram
acometidos de algum tipo de violência, física ou psicológica, que acabou de
alguma forma sendo determinante nas cicatrizes que ficaram na alma. Por isso,
nem sempre o que se aprende na infância é a resposta mais saudável quando
chegamos à vida adulta.
De todo ser vivente o homem é o que
tem a infância mais longa, e é justo nesse período que o cérebro capta os
aprendizados, mais tarde na adolescência outros conhecimentos se somam.
Experiências recebidas, o cérebro processa e arquiva, e na fase do amadurecimento,
dependendo de fatores diversos como estresse emocional, físico ou psíquico, e
até condição social, pode-se, muitas vezes, reproduzir os aprendizados desse
período da vida, fazendo distinção entre o que atrapalha e o que ajuda.
O relato a seguir é um exemplo de acontecimento da
existência adolescente, que bem podia ter produzido um adulto “doente”. O nosso
personagem, porém, no quadro que
emoldura o mundo, ao invés de retratar o medo, a hediondez, o mal;
pintou a unidade, a beleza e a harmonia, com imperfeições e erros, mas sem as
danações perversas que estraçalham a vida.
Eram duas horas duma tarde de domingo
num mês de verão do ano de 1963. O pequeno trabalhador de quatorze anos tinha
terminado mais uma jornada de trabalho na feira do Ver o Peso. Depois de ter
lavado a roupa de serviço e tomado banho nas águas barrentas da baia do Guajará,
vestido uma bermuda um pouco melhor, uma camisa limpa, almoçado um suculento peixe
frito com açaí, o guerreiro foi descansar. Aonde? Sob a sombra de uma mangueira
na praça D. Pedro II, na frente do Palácio do Governo (Palácio Lauro Sodré).
Na
calma daquele início de tarde de domingo deitou-se num banco, fez da trouxinha
de sua própria roupa, um travesseiro, e preparou-se para usufruir o conforto do
vento fresco resfriado pelas águas que sopravam da baía. Era um verdadeiro refrigério
para o corpo e para a alma. A única preocupação eram os passarinhos que
soltavam seus dejetos lá do alto sem se importar com quem estava embaixo. Sem
casa, sem parentes ou amigos, o pequeno lutador descansava de uma manhã de trabalho
puxado no máximo de “conforto” que tinha a sua disposição: um banco em praça
pública. Se bem que o local escolhido para o repouso era estratégico, ficava a
menos de 300 metros do cinema Guarany, onde,
às três da tarde, passaria a primeira sessão do filme “Assim que se faz...Amigo”, filme de faroeste, que era o gênero
preferido do nosso rapazinho.
De repente
uma movimentação na extremidade do banco, fez o pretinho levantar-se rápido. Meio
assustado viu que não estava mais só. Um velhote, que aparentemente se divertia
com o susto causado pela sua presença tinha se sentado na pontinha do banco. Cumprimentou-o
com uma “boa tarde”, e um sorriso cativante. Puxou conversa:
- Que faz o meu bom rapaz nesta hora sozinho aqui, e pelo visto está
cansado, hem? Trabalhou muito hoje, onde e em quê, e pra aproveitar, como é o
seu nome?
A sucessão de perguntas embasbacou o desconfiado negrinho que quis dar
uma daquelas respostas aprendidas na escola
Veropesiana, conteve-se, porque o velhote deu-lhe uma palmadinha na coxa
desnuda, e em tom galhofeiro, brincou:
- Não se aborreça meu jovem, só estou querendo
ser seu amigo. Pronto! Em poucos minutos os dois conversavam animadamente como
se, de fato, velhos amigos fossem.
- Bom, eu já sei que o teu nome é
Orlando, teu apelido é jambu, trabalhas na feira, moras sozinho num quarto
alugado em Canudos. Um dia vou te fazer uma visita. Mas agora és tu que vais
comigo no meu apartamento me ajudar fazer uma limpeza. Eu sou gerente da
fábrica Palmeira. A minha família está de férias em mosqueiro e eu só vou pra
lá na ultima semana. Vou te pagar um bom dinheiro. Vais ganhar mais do que
ganhastes hoje na feira. Topas? Proposta aceita.
Mesmo sem saber quanto iria receber,
mas só a perspectiva de ganhar mais do que tinha ganhado na feira deixou o marreteirinho todo serelepe. Por ser
negro, e ter complexo de inferioridade, ele evitava sempre as pessoas muito pousudas. Esse senhor,
porém, era diferente. Muito gentil. Seguiram juntos. Um detalhe, entretanto, o
intrigou: o seu Ricardo, como o homem
se identificara, com uma desculpa, pediu que ele fosse pela outra calçada. Quer
dizer, seguiam juntos, mas separados.
Edifício Fátima. Décimo terceiro
andar. Visão total para a baía de Guajará. Um deslumbre! Pela primeira vez ele
enxerga, lá de cima, até aonde a vista alcança, além da baia toda a cidade
estava ali, à vista. Que belo visual. Viaja. Devaneia. Encontrava-se debruçado no
parapeito quando o Ricardo bate no
seu ombro convidando-o para entrar. Entrou. E surpreso, viu que no apartamento
não tinha móveis. Era muito limpo. Só uma cama de casal e um guarda roupa
compunham o mobiliário do ambiente. E, credo! O anfitrião estava nu. Peladão,
foi logo ordenando: “Vamos, meu rapaz, tire a sua roupa”. Todo confuso o
atabalhoado Jambu ainda pensou: “ai ai ai
que diacho é isso?”. Falou:
- Ei, seu Ricardo, qué isso? O
Senhor me chama pra fazer limpeza, mas
aqui tá tudo limpo. E porque eu tenho
que tirar a minha roupa, também?
- Você ainda
não entendeu meu jovem? Respondeu o velho Ricardo,
passando a mão na genitália do pobre Jambu, que nervosão não sabia como reagir.
É que naquelas alturas da vida o moço
ainda era virgem. Intacto. Ainda não tinha se deitado nem
com uma mulher, que dirá que dirá... Mas, quem
está no inferno tem que se abraçar mesmo é com o satanás. O mancebo pensou
no dinheiro e foi direto:
_ Quanto o senhor vai me dar?
– Cinco Cruzeiros, tá bom? Respondeu o
velho Ricardo. E te arrumo um emprego
na empresa onde eu trabalho. Prometeu. Cinco.
Cincão. Era muitas vezes mais do que ele tinha faturado naquela manhã de
trabalho árduo na feira.
Sonhou.
Emprego. Ah! Um emprego. Era tudo que ele sonhava na vida. Suava frio. Os
miolos derretiam. Pensava: “Ai meu Deus! Um
ano de Seminário, e agora isso
aqui...” (Ele passara um ano internado no Seminário Salesiano). E veio, de
repente, o Evangelho de Marcos 10-7,8 onde diz “homem deixa os pais para unir-se a sua mulher e os dois serão uma só carne...”
Afinal, a necessidade imediata falou
mais alto. Aceitou. Foi para a cama com o velho Ricardo. Desajeitado (e o
cérebro martelando pecado, pecado, pec...). Disfunção erétil ele
não tinha. Muito pelo contrário. Mas naquelas circunstâncias nada funcionava. A
lança de ataque, quase sempre rígida, naquele momento parecia um guardanapo. Isso
não foi problema para o velho Ricardo
que, cheio de experiência, resolveu o empecilho, e colocou a máquina em funcionamento.
Palavras do Jambu, que tem 64 anos e
ainda está vivo:
“Montei
em cima do velho com asco. Ele tinha uma bunda mole e peluda. Eu tava com muita
repugnância. A verdade é que eu não completei o ‘serviço’. No mesmo tempo que
eu comecei ejacular na bundona do velho, vomitei na costa dele todo o almoço da
feira, açaí com peixe frito. A reação do desgraçado foi rápida e violenta. Ágil, ele
saltou da cama e me deu uma bofetada. Mesmo
tendo feito uma esquiva, ainda acertou-me. Lembram da trouxinha de roupa que eu
lavei lá no Ver o Peso que tava lá no chão e tinha deixado perto da porta?. Dum
salto alcancei a trouxinha. Tirei meu inseparável canivete corneta e pensei: ‘vou
matar esse baitola filho da puta”.
Aí começou uma luta esganiçada. Horrível.
Medonha. O velho era forte. O negrinho era ágil. Cada movimento rápido da
afiada lâmina na direção da barriga do
Ricardo, era um salto que ele dava para trás e rebatia com os braços que
iam ficando golpeados. A cena era grotesca, tragicômica, porém, porque aqueles
dois homens nus com os balangandãs pendurados, sacudindo, pareciam que a qualquer momento iam
despencar. Morto de cansado, sangrando muito pelos golpes levados nos braços e
umas goteirinhas na barriga, o velho, de pé em cima da cama, apelou para o
diálogo: “calma meu menino. Olha o que
você está fazendo. Vamos conversar!”.
Ofegante, o negrinho foi saindo de costa
em direção à porta. Juntou a roupa meio molhada que estava no chão. Limpou-se
com a própria veste, e sempre com o canivete preparadinho, foi saindo de fininho. Lá embaixo ainda pensou do
jeito bem paraense: “Égua! A gente se
mete em cada uma...”
Anos depois ao fazer compras no Armarinho Paulista, atacadista de
aviamentos que existia em Belém até o início dos anos 80, na sala da gerência
onde fora pegar a nota fiscal, olhem quem era o gerente: seu Ricardo. Os dois,
Jambu, que já era um homem, e Ricardo já bem envelhecido. Reconheceram-se
mutuamente e cumprimentaram-se, respeitosamente.
Fato. O seu
Ricardo morava no jurunas num bangalô de dois pavimentos. Era um respeitável
chefe de família. Bem casado. Duas filhas. Bissexual. Mantinha o apartamento alugado
para os encontros íntimos e tinha preferência por adolescentes. Hoje, com as
leis protetivas preconizadas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente ele seria considerado
pedófilo. Era um candidato em potencial à cadeia. Certamente.
O imbróglio sexual mal sucedido ocorrido
naqueles tempos deixou traumas no personagem que era, na época, muito jovem e recém-saído
do seminário. Passou odiar viado. Na
verdade um sentimento de ojeriza que perdurou por muitos anos sem, contudo,
qualquer ato gerador de violência contra a ‘moçada’
do grupo transgenêro.
Heterossexual
de cultura machista, mas fundamentada em princípios religiosos, o protagonista
de ponta desta narrativa fez uma opção: Amar a Deus com todo coração, com toda alma
e com todas as forças e ao próximo como a ti mesmo. (Lc 10, 25-28)
“O tempo ajuda esquecer”. Isso não é verdade. Ou pelo menos não foi com o
autor do causo
aqui descrito. A estrutura psicótica voltada para as neuropsicoses de defesa,
especialmente quando o ego é confrontado com uma experiência aflitiva, não
escraviza, mas fica armazenada no espaço do cérebro que serve de depósito das
coisas dos tempos de antanho. O passado
fica no passado. Mas de vez em quando um refluir de episódios ocorridos retorna
mesmo sem o peso da emoção, dos medos que na época provocou dificuldade para
dormir, choro fácil, estado de medo contínuo, aperto no peito e coração
acelerado. O fato é que de vez em quando um “sai pra lá” nas lembranças de fatos marcantes são necessários para
que o nosso cotidiano deslize de forma mais suave.
O Jambu que
o diga...