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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Orgulho Inocente

O ano era 1972, Rio de Janeiro. Um tempo romântico. O  molequinho preto e magrelo de 9 anos descia o morro, vestido no seu calção surrado, e ia mostrar o talento inato de futebolista mirim nas areias da praia, onde, na hora da divisão dos times era sempre disputado, todos queriam-no em seus times. Jorginho o nome do pirralho. 
Dos colegas de bola tinha um da mesma idade, o Lucas, branco, bonito, bem criado, que sempre trazia no meio de seus "utliles" uns bringuedinhos eletrônicos que só ricos podiam ter.
Jogo acabado. O Jorginho nesse dia jogou na equipe do  Lucas que meteu um chocolate no outro time,  8 a 1, e o Jorginho fez, nada mais, nada menos que 7, sete gols.
O Lucas gostava do Jorginho no time dele, mas nutria um certo despeito porque o moleque favelado, preto, todo esfarrapado, tocava a redonda com maestria e sabia fazer gol. Já o Lucas, se não fosse dono da bola não tinha vaga no time. Mas na partida daquele dia foi demais. "Sete". Isso não saia da cabeça de Lucas, que resolveu maquinar uma vingança. Reteve o Jorginho de propósito e como quem não quer nada, puxou conversa:
- Jorginho, na tua casa tem tapete?
- Não
- Em casa tem até no quarto da empregada.
- Teu pai tem carro?
- Não.
- O meu tem dois. Um que ele usa no dia a dia e outro que nós vamos pro nosso sítio lá em Petrópolis. 
O Lucas fez mais umas duas perguntas, depois não perguntou mais nada, foi emendando: 
- O teu pai não tem fazenda o meu tem, o teu pai não tem paletó o meu tem uma coleção, teu pai não tem apartamentos alugados o meu tem, o teu pai não é amigo do governador o meu é, o teu pai não tem retrato no jornal o meu tem.
Aí não, isso era demais. Foi como se tivessem enfiado um espeto quente no Jorginho que meteu a mão no bolso do calção velho, tirou um pedaço de jornal todo amassado, estufou o peito, abriu o recorte que parecia já carregar a bastante tempo, enfiou na cara do Lucas e cheio de orgulho falou nervoso: 
- Táqui ó, tu tá pensando que é só tu que tem pai ladrão!




domingo, 26 de fevereiro de 2012

Somos Humanidade [3]

Embora o numero de brancos que frequentam os terreiros dos cultos afro brasileiros já seja  quase maior do que de negros, as religiões de matriz africanas ainda sofrem discriminação. A religião dos orixás se desenvolveram no Brasil ao lado do catolicismo e do protestantismo, vieram junto com os escravos traficados da África, tanto que até hoje essas religiões são conhecidas pelas lideranças dos Movimentos Negros como autenticas expressões culturais da negritude. Hoje  além dos brancos brasileiros muitos descendentes de japoneses e coreanos aderiram o candomblé e a umbanda, que como produto de exportação já está na Alemanha, depois, claro, de se adaptar as leis e costumes locais.
As religiões afro- brasileiras formaram-se em diferentes regiões e estados do Brasil, também em diferentes momentos da nossa história, por isso que esses cultos tem formas, rituais e versões mitológicas diversificadas. Já no final da escravidão, quando os africanos foram assentados nas cidades, que eles passaram a viver mais próximos uns dos outros resultando daí  um  grande processo de interação, liberdade de movimentos que antes não tinham, isso fez com que eles se organizassem, podendo dessa forma dar continuidade as tradições religiosas africanas.
candomblé, na Bahia; xangô, em Pernambuco; tambor de mina, no Maranhão e no Pará; batuque, no Rio Grande do Sul; macumba e umbanda, no Rio de Janeiro, são os diversos  e diferentes nomes pelos quais os cultos afros são conhecidos.
Os Orixás são divindades nada moralistas nem éticas, dizem os estudiosos. No candomblé não existe um código de conduta geral aplicável à todos os seres humanos. É assim: cada seguidor tem seu orixá, seu deus pessoal, logo, a distinção entre o bem e o mal vai depender da relação de cada "filho", cada devoto. A pessoa descobre quem é seu orixá através do jogo de búzios, forma de atendimento pessoal que é uma prerrogativa exclusiva do pai de santo, o babalorixá, se mulher, ialorixá, no caso, mãe de santo. O jogo de búzios é um serviço pago. Um detalhe interessante: do total de mais ou menos 400 orixás que tsão cultuados na África, só uns 20 sobreviveram no Brasil. As cores das roupas, das contas, objetos, adereços, batidas de atabaque, as canções, bebidas e alimentos, cada um desses ítens tem função distinta própria de cada orixá tem, também, um grito de saudação diferente e individualizado dirigido somente àquele orixá: Larô-yê! para Exu, Kaô Kabiessi! para xangô, Ora yêyê ô!, para Oxum, Eparrei!, para iansã e Epa Babá, para Oxalá...
No próximo segmento, dentro deste assunto, vou relacionar o nome dos orixás e o santo que corresponde no catolicismo, oK? (tô cansado, minha costa tá doendo...)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Eles brigam, nós apanhamos

Belém é linda. Linda porque recebe a brisa da água doce na cara, na lata mesmo, de frente, mas seus habitantes a tratam com ódio, raiva, tantos são os maltratos de que ela é vítima. É lixo, lixo e lixo. Nas calçadas, nas ruas, nos canais, pra onde a gente se vira tem lixo. E o pior de tudo são os aiatolás que o povo dá-lhes, pelo voto, a responsabilidade pela sua administração. Agora mesmo a prefeitura e o governo do Estado estão numa briga de foice (BRT e AÇÃO METRÓPOLE), o que faz recordar outros episódios muito parecidos.
Não vou colocar nomes porque eu só tenho o dia e a noite, que é um bem comum, e "eles" são safos, logo, qualquer descuido...Então, essa briga atual revive aquela em que a prefeitura quiz fazer um túnel passando sob a Almirante Barroso até a Dr. Freitas com 1º de dezembro (Paulo II, hoje) e elevados ligando as avenidas por cima. Não saiu. É que no trajeto subterraneo tinha uma tubulação (adutora o nome certo, eu acho) da cosanpa, não houve cooperação, boa vontade do governo, e a obra foi inviabilizada; aí o troco veio logo depois. O governo pagou uma nota preta à um escritório de engenharia/arquitetura que elaborou o projeto dos túneis e elevados no Entroncamento, e a idéia era muito boa, consistia em esticar a 1º de dezembro até onde é hoje a alça viária (é uma Pa., não sei o número) que atravessaria por elevados a BR, ligando com a rodovia do trabalhador, que nunca foi concluída, mas tudo sairia lá pelas obras do Entroncamento. Era o SIT - Sistema Integrado de Transporte. Isso tudo foi travado por causa duma pracinha, a praça da Bíblia que não existe mais, a prefeitura não quiz retirar do caminho, e aí, lá, depois de muitos anos o que é que tem? um túnel e passarelas que servem de sentina, retrete, cagador, depósito de merda. Ninguém usa a não ser pra esses fins. Hoje, a prefeitura mostra no vídeo institucional o Brt pronto, acabado, lindo, funcionando, só que no início dos anos 80 a Saab Scania do Brasil fabricou e trouxe aqui pra Belém o onibus articulado, que era pra uns cento e pouco passageiros, na época foi descartado o uso do grandão aqui e a razão seria, segundo os "outros" que estavam no plantão naqueles tempos, que a temperatura beira os 40° que amolece o asfalto que com a chuva vem a infiltração que depois vem os buracos. É bom lembrar, no intuito facilitar a vida da cambada, dos "ricos" das periferias, já teve estação de transbordo de passageiros na Julio César, na Br, no coqueiro, e todas já foram desativadas. O grandãodão do Brt é pra 250 passageiros, deve ser pesadão...Joguem suas fichas, Brt x Ação Metrópole. Quem ganha? Porque quem perde nos já sabemos. Ah! sim, o detalhe que desune uszomi: são de partidos diferentes...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Banquinho do seu Odorino

O Deblandino era um desses caminhantes inveterados. Naquela época (década de sessenta) era bom andar. Vivia-se num mundo menos violento. Pois é. Mochila encardida na costa, roupa surrada, suor na testa,  estrada e muita poeira. A tarde morria e as sombras das árvores faziam a escuridão da noite chegar mais cedo naquele mundão de meu Deus. Um latido ao longe anunciou: tinha morador por perto. E logo apareceu um terreno grande cercado por estacas e arame farpado, um bom numero de vacas pastavam na propriedade, uma casa grande de alpendre, um homem branco e gordo abastecia uma rede, ao avistar o estranho se aproximando da porteira, gritou lá da casa:
- Se achegue homi, pode entrá. Os dois se cumprimentarm e logo estavam conversando como se já se conhecessem de longo tempo. Na casa morava só o casal, seu Odorino e dona Budiba que fez um prato extra pro visitante de ultima hora. Os dois já tinham jantado. Depois da bóia os dois emendaram um papo.
- Tú trabaia in quê, macho?
- Em qualquer serviço.
- Entonce amaiã tu vai tirá leite das vaca, qui quando eu tiro sai vinte trinta litro, quando eu contrato genti só rendi dez no máximo quinze. Vamu drumí, de madrugada eu ti chamu. Acertaram mais alguns detalhes e foram dormir.
Eram tres da manhã quando o seu Odorino acordou o Deblandino. Entregou-lhe um balde, uma bacia e um banquinho. O rapaz pegou as vasilhas, estranhou um pouco o banquinho, mas foi embora pro curral. Daí a pouco era um barulho lá pra fora de coisa grande caindo que o chão chegava a tremer. A dona Budiba com um pouco de medo, alertou o marido: "Odô, vá vê o que tá acontecendo, eu acho que as vaca tão estranando o homem". Ele também estava preocupado, mas não saiu da rede. Não gostava de se meter no trabalho dos outros.
Tudo calmo. Cinco e meia da manhã. O velho meteu a cara no curral. Viu logo as duas vasilhas cheias de leite, um escavacado no chão e o Deblandino completamente ensopado de suor, nem esperou o chefe perguntar, foi logo se justificando:
- Olhe, seu Odorino, tirar leite eu sei, porque já fiz isso outras vezes, agora fazer estas vacas sentarem nesse banquinho é que foi difícil. Deu trabalho mas eu fiz,todas tiraram o leite sen-ta-di-nhas...


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Só o Juquinha sabe

A professorinha bem jovem e no primeiro dia de aula quis interagir com a criançada, e começou:
-Bom diaaaa! Eu vou fazer a chamada, e no final da aula vou chamá-los um por um sem olhar o livro mas eu quero que voces também decorem o meu nome, combinado? E a turma toda aceitou o desafio. Atenção, continuou a professora, o meu nome é Vlagina. Não esqueçam: Vla-gi-na. Enfatizou.
Findo a aula, a criançada agitada pra querer vazar, mas trato é trato e a professora começou e conseguiu chamar todos pelo nome e cobrou:  
- E agora, como é o meu nome? 
Era um tal de moleque olhando um na cara do outro na esperança de ver no olhar do coleguinha o nome da professora ou qualquer sinal que delatasse o que todos queriam descobrir, e nada. Até que o Juquinha se levantou todo feliz, já arrastando a mochila no movimento de saida, gritou todo vitorioso:
- já sei fessora, é BLU-CE-TA!
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