O ano era 1972, Rio de Janeiro. Um tempo romântico. O molequinho preto e magrelo de 9 anos descia o morro, vestido no seu calção surrado, e ia mostrar o talento inato de futebolista mirim nas areias da praia, onde, na hora da divisão dos times era sempre disputado, todos queriam-no em seus times. Jorginho o nome do pirralho.
Dos colegas de bola tinha um da mesma idade, o Lucas, branco, bonito, bem criado, que sempre trazia no meio de seus "utliles" uns bringuedinhos eletrônicos que só ricos podiam ter.
Jogo acabado. O Jorginho nesse dia jogou na equipe do Lucas que meteu um chocolate no outro time, 8 a 1, e o Jorginho fez, nada mais, nada menos que 7, sete gols.
O Lucas gostava do Jorginho no time dele, mas nutria um certo despeito porque o moleque favelado, preto, todo esfarrapado, tocava a redonda com maestria e sabia fazer gol. Já o Lucas, se não fosse dono da bola não tinha vaga no time. Mas na partida daquele dia foi demais. "Sete". Isso não saia da cabeça de Lucas, que resolveu maquinar uma vingança. Reteve o Jorginho de propósito e como quem não quer nada, puxou conversa:
- Jorginho, na tua casa tem tapete?
- Não
- Em casa tem até no quarto da empregada.
- Teu pai tem carro?
- Não.
- O meu tem dois. Um que ele usa no dia a dia e outro que nós vamos pro nosso sítio lá em Petrópolis.
O Lucas fez mais umas duas perguntas, depois não perguntou mais nada, foi emendando:
- O teu pai não tem fazenda o meu tem, o teu pai não tem paletó o meu tem uma coleção, teu pai não tem apartamentos alugados o meu tem, o teu pai não é amigo do governador o meu é, o teu pai não tem retrato no jornal o meu tem.
Aí não, isso era demais. Foi como se tivessem enfiado um espeto quente no Jorginho que meteu a mão no bolso do calção velho, tirou um pedaço de jornal todo amassado, estufou o peito, abriu o recorte que parecia já carregar a bastante tempo, enfiou na cara do Lucas e cheio de orgulho falou nervoso:
- Táqui ó, tu tá pensando que é só tu que tem pai ladrão!

