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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

"EU FI-LO PORQUE QUI-LO"


“Pater noster, qui es in caelis:
Sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua,
sicut in caelo et in terra.
Panem mostrum cotidianum
Da nobis hodie;
Et dimitte nobis debita mostra,
Sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
Et ne nos inducas in tentationem;
Sed libera nos a malo.”
Assim o Papa concluiu a ultima celebração dele em público, rezou a oração do Pai Nosso em latim.
No dia 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas em pleno exercício da Presidência da República, pressionado a renunciar preferiu suicidar-se com um tiro e, numa carta escrita por um puxa-saco, deixou esse recado: “serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”. Ele mesmo, o Getúlio, escreveu, “deixo à sanha dos meus inimigos o legado da morte...” Bom, o certo é que ele morreu. Pronto.
Outro renunciante famoso no Brasil, Jânio Quadros, assumiu a presidência em janeiro, renunciou em agosto de 1961 e escreveu isso: “Encerro assim, com o pensamento voltado para nossa gente... A mim não falta coragem para renunciar...” Tempos depois um repórter  perguntou o  porquê da  renuncia,  ele teria respondido: “eu fi-lo porque qui-lo”.
Percepção Social – é o processo pelo qual formamos impressão a respeito de uma pessoa ou um grupo de pessoas. Sobre pessoas nunca temos impressões desconexas ou isoladas, mas sempre integramos observações numa impressão unificada e coerente, às vezes temos que inventar ou distorcer características percebidas. Acontece muitas vezes, da gente quebrar a cara com a tal da “primeira impressão é a que fica”, porque o tempo, a convivência, mais informações sobre outrem, costumam desmontar uma percepção que “a priori” alterou nosso comportamento de juízo em relação ao outro.
 Digo isso porque nunca gostei do Sr. Joseph Ratzinger. Primeiro por ele ser alemão, depois, no começo do seu pontificado, sem tato nenhum, provocou os muçulmanos (outros que eu não gosto e morro de medo deles), conservador, endureceu mais os dogmas da Igreja e até o retorno do latim como língua oficial nas celebrações, que representava um retrocesso, tornou-se obrigatória, tudo isso aumentou a cisma que eu tinha pelo seu Ratzinger, e até dando uma de futurólogo, previ que ele não ia terminar o papado, mas eu imaginava que um desses malucos que têm espalhados por aí fosse atentar contra sua vida. Qual nada! Eis a surpresa. O Grande, o Inominável, o Super Joseph Ratzinger, o Supremo, O Sumo Pontífice Bento XVI mostrou grandeza, abdicou da glória e do poder e, num gesto de nobreza entregou o cetro, que é a insígnia do Poder Papal. Quem não lembra João Paulo II, caindo aos pedaços, nem a voz saía mais, era um verdadeiro cadáver ambulante e seguiu até o fim como Papa? Mesmo para quem sonha ser canonizado é muito sofrimento.  
 “Eu não tenho mais força, o mundo está agitado, há muita mudança em movimento”. Palavras do Papa quando anunciou que estava saindo de cena, largando o sapatinho vermelho (o nome oficial é múleo). Essa afirmação soa como uma queixa.  Uma confissão de quem está sem força, de quem não está dando conta de levar o barco a um porto seguro, e não é fácil mesmo lidar com movimentos que juntam multidões de católicos no mundo inteiro gritando em favor da aplicação de células tronco, união de homossexuais, novas núpcias de católicos divorciados, uso de preservativos ou anticonceptivos, acesso das mulheres ao sacerdócio, escândalos sexuais na igreja, roubalheira no banco do Vaticano, fim do celibato, etc.. É seu Padre, não é fácil. Mesmo saindo de conservador a revolucionário, porque soube usar o, digamos artigo - Cânone 332 do Direito Canônico - que prevê a renuncia e saiu fora. É, isso mostra que a igreja clama por mudança, mesmo assim melhor era ele, o Papa, ter morrido, porque depois desse gesto, continuar vivo vai atrapalhar mais do que ajudar.
Por tudo que eu escrevi aqui, Deus me abençoe... Amém.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

TRISTEZA, SOFRIMENTO E MORTE. DOR TEM TAMANHO?




“Morte: uma perspectiva a ser encarada com coragem pelos bons, mas com supremo terror pelos maus” (Platão - filósofo grego)

Que tamanho tem a dor? Existem instrumentos para medir pressão arterial, batimentos cardíacos, glicemia, etc. A dor, tem a mais intensa, e a mais leve. E a maior, existe? Qual tamanho terá?
Em 1961 numa colônia isolada no interior de Abaetetuba, aqui no Pará, uma família de cinco pessoas, marido, mulher e três filhos, o mais velho com quatro anos incompletos e o mais novo com quase um ano, eram os únicos habitantes lá onde o pessoal da Vila de Beja chamava de “centro”. Viviam da roça, criavam galinhas, porcos, algumas aves e animais nativos como capivara, jabuti, mutuns e outros que eles vendiam na vila no “retalho ou inteiro”, no linguajar simples caboclo abaetetubense daquelas épocas.
Aos sábados ele arrumava o que comportava nos dois caçuás, engatava na cangalha presa às costas do cavalo e seguia rumo à vila da onde só retornava depois de ter vendido tudo que levara, e que na maioria das vezes, acabava mesmo era sendo trocado por mercadoria de consumo do dia a dia. Chegava na casa já de noite sempre com umas duas na cabeça. Quase cinco anos de casados e a rotina era essa toda semana. Nesse sábado, ao sair, o Zé beijou um a um dos filhos, coisa que nunca fizera antes. Era pouco mais de sete horas da manhã. Lá pelas nove, com o sol já alto, a Zilda colocou o menorzinho escanchado nas cadeiras, uma bacia cheia de roupa na cabeça e foi para o igarapé lavar roupa, deixando na casa os dois pirralhos maiores que ficaram brincando de caçar. Um se escondia atrás duma moita e o outro “pá!”, disparava com uma fofóia de açaizeiro. No igarapé a mãe desocupou a bacia de roupa seca e na medida que ia lavando devolvia as peças já lavadas para dentro de mesma bacia, e o miúdo sentado na areia a beira da água brincava, sob os olhos vigilantes da mãe. De repente, grito e choro de criança vindo da casa.  
- Meu Deus! Gritou a Zilda. Largou tudo e saiu correndo na direção de casa que era distante do igarapé uns cem metros. Quando ela começou subir a ribanceira que separava a casa do riacho, estancou de chofre, ao ver o filho mais velho com a peixeira (faca de 12 polegadas) que o pai usava para sangrar porcos. A enorme faca estava, assim como o menino, ensanguentada. O filho no alto da ribanceira quando enxergou a mãe assustou-se e caiu por cima da faca que trespassou-lhe o abdome. O corpo da criança ainda rolou e ficou escorado nas pernas da mãe, que totalmente aflita, retirou a faca e carregou-o. Junto com o sangue que escorria ela sentiu esvair-se a vida do filho também. Sem saber se levava o pequeno na água para lavá-lo ou seguia para ver o que tinha acontecido no barraco ela seguiu em frente, correndo. No terreiro da casa deparou com o outro pequeno, estava em decúbito ventral, morto no chão. Fora esfaqueado pelo irmão que, supõe-se, brincava de “matar porco”, haja vista, a furada feita pela arma ter sido na jugular, mesmo lugar onde o Zé “vitimava” os suínos no quintal, sempre na presença das crianças. Em desespero, a mãe que carregava um caiu em cima do outro filho, morto.
Zilda, uma mulher de um metro e sessenta, magra quase raquítica, mas era forte não derramara uma lágrima até aquele momento. Com muito esforço ela conseguiu erguer as duas crianças e cambaleando como uma bêbada, totalmente ensopada de sangue, começou caminhar de volta para o igarapé. Um filho em cada braço apertado contra o corpo. Ela lembrou do menor que todos o chamavam de mimim, queria andar ligeiro, correr, mas as pernas não obedeciam. Ao chegar encontrou o caçulinha dentro da água. Estava morto. Ele engatinhou para a morte.
 Sem assistência psicológica, (por aquelas paragens ninguém sabia sequer o significado da palavra “psicólogo”) o casal começou se culpar pela tragédia que atingiu a família.  A Zilda, coitada, passou a vagar por dentro do barraco dia e noite sem se alimentar nem dormir, surtou, morrendo duas semanas depois. O Zé, que só bebia nos finais de semana quando ia fazer venda na vila, passou a se embriagar diariamente. Morreu afogado no rio Jarumã, duas semanas após a morte da mulher, quando saiu para pescar sozinho (estava bêbado) num casquinho a remo. Assim, a fatalidade decretou em menos de dois meses, o extermínio de uma família, duas gerações.
Tragédia, como que aconteceu em Santa Maria/RS, onde morreu muita gente, causa comoção nacional e dor, não é, todavia, maior que a pequena desgraça onde morre só uma pessoa. Para o parente mais próximo – pais principalmente – a dor é a mesma. Minha pergunta: Em Santa Maria tem família que está sofrendo muito porque perdeu quatro filhos. A dor, é maior de quem perdeu só um?
Estatísticas sobre mortes no Brasil, por ano. Trânsito: 40.000; homicídios: 50.000. Em todo lugar por onde passamos, diariamente, tem uma armadilha armada contra a nossa vida. Umas são tão estúpidas, que não dá nem para usar a eterna frase de natureza conformista: foi a vontade de Deus...

Glossário
Caçuás - espécie de cestos gigantes feitos de cipó timbuaçú
Fofóia - parte que fica presa à árvore e sustenta a folha do açaizeiro
Miúdo - criança
Peixeira - faca de 12 polegadas
Casquinho - embarcação pequena movida a remo

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

APEDEUTA, MENTIROSO, INOCENTE E EX-PRESIDENTE



"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário."
                                                                                                           (George Orwel)



                    

Início de ano. Imaginemos a seguinte cena: O ex-presidente Luis Inácio da Silva, o Lula, (O Leonel Brizola o chamava de sapo barbudo) sentado na cadeira da presidência do Instituto Lula. Uma sala ampla e confortável, meio escura e uma fila enorme de “afilhados”, se curvando em reverência, beijando-lhe a mão. Na fila: José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, Silvio Pereira, Paulo Okamoto, Aloizio Mercadante, Marco Maia, Fernando Hadad, Lulita (Dilma), Marta Suplicy, Marco Maia, e fechando a fila, Jader Barbalho, Romero Jucá, José Sarney, Paulo Maluf e Fernando Collor (aquele...). E o homem lá, enfatiotado, só abençoando, sem falar nada.
O ex-retirante é um vencedor, chegou onde sempre sonhou sem o academicismo de outros. Só na base da coragem. No grito. Se especializou em  fazer-se invisível quando o cerco vai fechando ao seu redor. Usa muito a técnica do gambá, que se enrosca numa carapaça formada pelo próprio pêlo fingindo-se de morto – só se movimenta quando o perigo vai embora - ou solta uma catinga horrível (no caso são as calunias como forma de defesa) que mantém afastados os inimigos. Hoje encarna com perfeição o papel de Poderoso Chefão. Um Don Corleone, made in Brazil, versão séc. XXl.
 Mais tarde, já na outra sala, depois de servido o manjar dos deuses, acompanhado de Romanée Conti (o vinho de preferência do poderoso), todos os afilhados renovam os juramentos de fidelidade.
 Em cada canto da enorme sala têm seguranças, que mais parecem com armários vestidos de casaca preta, todos chefiados pelo Freud Godoy, homem de confiança do padrinho desde os tempos das vacas magras. Em pouco tempo todos vão saindo nos carrões pretos. Fim da primeira reunião anual da Família. E o chefão ainda dá um ultimo conselho, com uma voz rouca e gutural, quase um grunido. Uma espécie de ultimatum. Com a soberba daquele que tem o controle de tudo e que, matreiramente, finge não saber nada, justo para mostrar que é esperto, diz: “Cuidado! Mantenham seus amigos por perto. E os inimigos também!...”
 Esperteza. Essa é uma das principais características dos chefes dessas famílias. São safos. Parecem revestidos de teflon, nada gruda neles e quando alguém tem a ousadia de denunciar algum “mal feito” do chefão, em sua defesa vêm políticos, polícia e judiciário, onde, como parte da estratégia para ser um chefe respeitado, eles plantam tentáculos. E no baixo clero? No meio da patuléia é que ninguém pode falar mal do padrinho, que por meio de artimanhas e retóricas, se transformou em defensor dos pobres. Afinal esses também recebem as bolsas de ajudamento para, no momento certo, levantarem a cerca de proteção ao bem feitor.
 O Pai dos pobres sabe que apesar de todo poder que tem, ele, no fundo é triste e solitário. Sabe que a maioria dos afilhados são catedráticos, têm doutorado, ou pós-graduado em algo ou alguma coisa; sabe que, no mínimo, todos conhecem seus truques, segredos e artimanhas, logo, é um imbecil/prepotente/útil; uma pedra no tabuleiro que só pode ser mexida numa direção para evitar desmoronamento. É possível que tema pela própria vida, haja vista que, a organização costuma cobrar um preço alto pelos chefes, ou padrinhos, que se rebelam (lembram Celso Daniel, prefeito de Santo André, assassinado em 2002?).

 Enquanto isso os afortunados assistidos pelas bolsas batem palmas, dão vivas e loas, não sabem que pai narcisista, demagogo, verborrágico, o “deus martasuplicyano”, expert em malabarismo acrobáticos na arte de convencer as massas, no momento (hoje é dia 08/02/2013) está sumido, escondidinho, debaixo de algum tapete persa ou de um luxuoso sofá de couro chesterfield, de onde só vai sair quando Marcos Valério e Rosemary Noronha, os ex-amigos e colaboradores (afilhados proscritos), jurarem silêncio eterno. Quando isso acontecer, ele sai da toca, sorridente e fagueiro, pleno de inocência. É assim que funciona a dignidade dos cínicos. Até quando, só Deus sabe...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O PAI NOSSO, E O NOSSO FIM DO MUNDO

Anos atrás aí por volta de 1977 mais ou menos eu estava na casa da minha irmã, em Benevídes. Era um domingo, início da noite e desabava um temporal. De repente, um estrondo ensurdecedor, as luzes da casa e da rua se apagaram, ao mesmo tempo que um clarão iluminava tudo na rua. Algo assustador jamais visto por ali. O pavor tomava conta de todo mundo causando histeria. Ouviam-se gritos e choro nas duas casas vizinhas mais próximas.
 Na residência de um dos vizinhos, a dona da casa, Dalva, ajoelhou-se diante do marido que surpreso, atônito e estupefato, ouviu da madame uma inesperada confissão: a jovem senhora, em desespero, ajoelhada ,contou-lhe que o traía com um cidadão que, na época, era prefeito local. Contou tudo e implorou que a perdoasse. Ela estava certa que aquele estrondo seguido do enorme clarão era o fim do mundo. Queria morrer “limpa”. Perdoada.
Tudo acalmou. Voltou escurecer. Aquele destampatório todo foi causado por um  transformador da rede de energia que tinha estourado e incendiou a fiação em toda a extensão da rua. Velas acesas, e começou outra solitária gritaria com muito choro e pedido de socorro. Corremos para ver o que estava acontecendo. Deparamos com a Dalva caída numa poça d’água no terreiro da casa, ao lado de uma trouxa de roupa com olho roxo, muito machucado. Chorava. Chorava muito. Pois não é que pobrezinha pensando em ir para o céu, depois de ter “pulado a cerca” abriu o jogo? A coitada se deu mal. Quando caiu na real, apanhou. Apanhou muito, e  nesse tempo não tinha a Maria da Penha.
Em 1999 quando anunciaram, de novo, o fim do mundo, o Tio Isaac, irmão do meu pai,  mas que já tinha 60 anos, se suicidou à véspera do dia anunciado para o fim. Disse antes para alguns colegas e gente da família que não queria morrer junto com todo mundo.
Estamos a menos de uma semana do início de mais um ano, o dois mil e treze, e os profetas do apocalipse falharam mais uma vez. O dois mil e doze vai entregar o bastão para seu sucessor, o dois mil e treze, lépido e fagueiro, na boa. É a 12ª derrota dos anunciadores do fim do mundo. E o mais interessante é que a próxima data para o outro fim, já está marcada: será em 2060, segundo previsões do físico Isaac Newton.
Na realidade, segundo pesquisas, o fim acontece diariamente para 6.178 e começa para 211 mil pessoas no mundo todo – essa é a relação de mortos e nascimentos/dia - Nas duas guerras mundiais que aconteceram o mundo  findou, no atacado,  para mais de 90 milhões de pessoas. Desastres naturais como terremotos, maremotos, tsunamis e mais os conflitos armados, tudo isso faz findar o mundo de multidões, e seria terrível se não fosse assim. São fins extremamente necessários. Pensemos: a população mundial tem sete bilhões de pessoas. Não tivessem acontecido as duas grandes guerras e outras hecatombes, qual seria a população do mundo hoje? Vinte, trinta bilhões? Provavelmente...Aí, canibalismo seria algo já bem natural. Bom, aquele número estimado de mortos aí no alto destes escritos é uma balela, porque segundo a ONU, a cada um minuto morrem doze crianças, só de fome, no mundo.
                É isso. Como eu estou postando este texto hoje na noite de Natal, vou terminá-lo refletindo a oração que todos rezam ou oram, O PAI NOSSO. Antes desejando para os que leem estas “coisas” qu’eu escrevo um abençoado Natal; um 2013 pior que 2011 e muito, muito mesmo, melhor que 2012. Amém?...
“SE EM NOSSAS VIDAS NÃO AGIMOS COMO FILHOS DE DEUS, FECHAMOS O CORAÇÃO PARA O AMOR, SERÁ INUTIL DIZERMOS: PAI NOSSO QUE ESTÁS NO CÉU; SE NOSSOS VALORES SÃO REPRESENTADOS PELOS BENS DA TERRA, SERÁ INUTIL DIZERMOS: SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME; SE NO FUNDO O QUE NÓS QUEREMOS É QUE TODOS OS NOSSOS DESEJOS SE REALIZEM, SERÁ INUTIL DIZERMOS: VENHA A NÓS O VOSSO REINO; SE ACHAMOS MAIS SEDUTORA A VIDA AQUI, CHEIA DE SUPÉRFLUOS E FUTILIDADES, SERÁ INUTIL DIZERMOS: SEJA FEITA A VOSSA VONTADE ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU. SE PREFERIMOS ACUMULAR RIQUEZAS DESPREZANDO NOSSOS IRMÃOS QUE PASSAM FOME, SERÁ INUTIL DIZERMOS: O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE; SE NÃO NOS IMPORTAMOS EM INJUSTIÇAR, FERIR, MAGOAR OS QUE ATRAVESSAM NOSSOS CAMINHOS, SERÁ INUTIL DIZERMOS: PERDOAI NOSSAS OFENSAS, ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS QUEM NOS TEM OFENDIDO; SE ESCOLHE SEMPRE O CAMINHO MAIS FÁCIL, QUE NEM SEMPRE É O CAMINHO DE CRISTO, SERÁ INUTIL DIZERMOS: NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO; SE, PELA NOSSA VONTADE, PROCURAMOS SÓ OS PARAZERES MATERIAIS E TUDO QUE É PROIBIDO NOS SEDUZ, SERÁ INUTIL DIZERMOS: LIVRAI-NOS DO MAL; SE, SABENDO QUE SOMOS ASSIM, NADA FAZEMOS PARA NOS MODIFICAR, SERÁ INUTIL DIZERMOS: AMÉM

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

PROIBIÇÃO: A "IDIOTOCRETINICE" PERMITIDA


No final da década de sessenta, 1967, mais ou menos, eu fui barrado na porta do Olympia (queria assistir o Dólar Furado). Motivo: estava de chinelo. Eu era um pequeno cinéfilo, classe “D”. Fazia parte de um grupo de ferradinhos que, aos domingos, estendia revistas nas calçadas na frente dos cinemas para fazer um escambo ou descolar algum trocado, vendendo. Era Fantasma, Mandrake, Zorro, Capitão América, Batman, Homem Aranha, etc...Tudo preto e branco, não existia ainda as coloridas.
Depois dos negócios, o lazer. Cinema. Às vezes três sessões por tarde.  O meu gênero preferido: o faroeste (bang bang). Nos cinemas Palácio, Nazaré, Moderno, Independência e Ópera (o Ópera daqueles tempos, porque o de hoje...) não podia entrar de chinelo. Esse complemento do vestuário só era permitido nos cinemas da periferia, São Jorge e Paraíso, na Pedreira; Guarany, na Cidade Velha, Cine Art, na Praça Brasil; Cine Brasilândia, na Sacramenta e Cine Marambaia.
                Proibição. São normas que impõem regras de comportamento. Foi por causa do excesso de proibições que surgiram os anarquistas. A doutrina do anarquismo pregava a liberdade total, sem qualquer forma de autoridade e dominação. Seria um tipo de convivência baseada na autogestão, onde os indivíduos pudessem viver em propriedades coletivas, de forma solidária e pacífica, sem a formalidade de governos constituídos. Nada de polícia, escola tradicional, casamentos, etc. Isso está tudo lá na bíblia dos anarquistas, o livro Que é a Propriedade, escrito em 1840 por um dos principais defensores dessa forma de viver, o filósofo, político e teórico Pierre-Joseph Proudhon.
 Tive a oportunidade de viver em mini-países, ex-colônias europeias, onde a população nativa é 100% negra descendentes de povos africanos. Lá, em alguns lugares, o homem pode tranquilamente colocar a manipeba para fora e mijar, mesmo tendo mulher por perto. Normal. Falta grave é sacudir o grandão. (aquela sacudidela básica que faz cair os dois últimos pingos). Dá até cadeia. É um pouco do anarquismo já normatizado, afinal, balançar faz parte do ritual da mijada masculina.
                 Quando eu era menino assistia um jogo de futebol no Terêterê, um povoado lá no Rio Tauá. Era o Marituba e o Pau Sêco que pelejavam em campo. O árbitro era o “Tio Constâncio”. Detalhe que não esqueço: ele ficava de cócoras no meio do campo de onde apitava o jogo. O Manduca, atacante rápido, em determinado momento dominou a bola no campo de defesa do “Pau” e disparou. Foi embora em velocidade passando por todo mundo. Quando ele se aproximou da grande área do Marituba, trrriiiii. A jogada foi interrompida. O Manduca, morto de cansado e muito santo da vida, parou, colocou as mãos nas cadeiras e gritou:
- Que foi, tio Constâncio?
O juizão, passivo, lá de onde estava, respondeu:
- Tu correstes mais que os outros. É falta.
A falta foi cobrada e o jogo continuou. Era a lei do Tio Constâncio. O juiz daquele jogo. Uma idiotice, mas ele fez valer e pronto.
                Eu iniciei esta escreveção lembrando da proibição de entrar de sandálias, ou chinelas em alguns cinemas de Belém nos tempos de antanho,  em virtude do festival de filmes de faroeste (bang bang) que aconteceu de 04 a 10/12/2012, no cinema Olympia. No segundo dia do festival eu fui barrado (a segunda barração em 45 anos), porque estava de camiseta tipo regata. Não tinha lido o aviso que advertia a respeito do traje.
- Pelo amor de Deus meu amigo, eu venho de Marituba só pra assistir esse filme. Deixe-me entrar, eu disse.
Resposta:
- Enquanto gente que vem de fora, de São Paulo (fez questão de frisar o foribundo funcionário, aliás, um velho preto parecido comigo) num entra, magine tu.
Em pouco tempo já tinha um jovem e musculoso segurança de braço cruzado na minha frente. Eu não podia ficar da área interna e envidraçada do espaço. Aí chegou a Nazaré, turismóloga e gerente da casa, pós-graduada na USP (informações dela). Mais choradeira minha, mais irredutibilidade. Por fim, a minha mulher foi na Loja Americana, ao lado do cinema, comprou uma blusa baratinha que eu vesti. Só assim eu pude entrar para ver o resto do filme. Ufa! Ah, ia esquecendo: é proibido entrar com pipocas, também, na sala do cinemão. É verdade. Acredite!
 É um pouco festival de idiotices. Mas não poder se encostar em canhões ,que estão ao ar livre levando sol e chuva, do Forte do Castelo para tirar fotos; não poder falar alto na Igreja de Santo Alexandre (Museu de Arte Sacra), onde acontecem concertos sinfônicos que atingem decibéis altíssimos;  não poder fotografar portando câmeras amadoras com flash de led embutido (que não agride pois, não emitem raios infra vermelhos) na Igreja da Sé, onde é totalmente escuro. Vá entender...
Proibições esquisitas, idiotas e até bizarras não é exclusividade nossa. Em Israel, por exemplo, é proibido meter o dedo no nariz, aos sábados; em Cingapura não se pode fazer sexo oral, a não ser que seja como entretenimento; no Bahrein médico só pode examinar genitais das mulheres se for olhando pelo espelho, direto lá, não! Na Indonésia quem for flagrado batendo uma punhetinha, (masturbando-se) é decapitado. Credo em Cruz! No Brasil, em 1894, uma lei proibia a população comer melancia.
São proibições idiotas. E falo só das nossas. Como ser social, temos que conviver com elas. Duro mesmo é suportar a grossura dos estufados bucéfalos (como o funcionário do Olympia, que disse, “enquanto gente de fora...”) agentes, que com ares de prevalência nos empurram no peito e espumando pelos cantos da boca, rangem os dentes, grunhindo: “Aqui, não!”.  Se acham... 
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