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domingo, 12 de abril de 2015

"CRIADORES" MATAM A PRÓPRIA "CRIA"


     
Da esquerda pra direita na foto abaixo: Eu, Orlando, Venâncio e Danuzia (marido e mulher), Dr. Lázaro Falcão, Prefeito Mário Filho, Ivan Perequeté e o ultimo é o Alberto. Exceto o Prefeito, todos faziam faziam parte da comissão fundadora do Fórum Permanente de Controle Social e Cidadania do Município de Marituba

      
“Jaz aqui uma ideia. Assassinada pelos seus idealizadores”.
Epitáfio. São frases escritas nas placas, quase sempre de mármores, colocadas nos túmulos ou mausoléus para homenagear os mortos enterrados nos cemitérios. Epitáfio foi, também, a música de maior sucesso da Banda, Os Titãs, gravada em 2001, e Fazia parte do Álbum “A melhor Banda de todos os Tempos da Última Semana”.
Pois é. A frase do início desta escrevinhação é a elocução que encaixaria perfeitamente na lápide do finado Fórum Permanente de Controle Social e Cidadania do Município de Marituba, fundado exatamente no dia 26/03/2015. Portanto, a criatura, se ainda viva estivesse, teria feito um aninho no dia 26/03 pp. Um aninho. E foi só unzito. Ele nasceu cheio de pompa e circunstância. Musculoso. Fortão. E até um pouco arrogante. (Postei um texto no dia 14/03/2014, com o titulo “Seu ladrão, cuidado! Vai ter um Fórum t’olhando”) Também pudera! Marituba vivia maus dias e piores noites. Botando o bofe pela boca e labutando com repugnâncias. Na realeza das falcatruas, o caçula dos municípios metropolitanos era o príncipe encantado no reino das roubalheiras. (segundo notícias da rádio Cipó teve um Alcaide que em dois meses de mandos & desmandos teria torrado 16 milhões de reais não se sabe em quê. Parece que já o pegaram).
Bom. Havia, de fato, uma enorme necessidade da sociedade se manifestar contra os desmandos pelos quais o Município passava. A ideia do Fórum foi legitima. Foram convidadas várias autoridades, entretanto, a de maior peso que se fez presente foi justamente o atual prefeito, Mário Filho, que naquelas alturas estava numa luta de cachorro grande na briga pela cadeira mais cobiçada do Município. Ele falou. E falou bonito. Tenho o registro gravado e arquivado. Filmei tudo.
Na verdade, a pergunta que não quer calar é: o que foi feito do Fórum... E a resposta é: morreu. Finou – se.  E a morte prematura do espúrio aconteceu por uma boa razão, afinal, com a vitória (na justiça, e a bem da verdade nas urnas, onde teve mais de 55/% dos votos na eleição regular) do hoje prefeito, as coisas mudaram. E mudaram muito. Tanto que até os idealizadores do Fórum foram obrigados a mudar. De lado. Ninguém mais quer saber de órgão fiscalizador de contas públicas. E veja que por ocasião das reuniões que antecederam a criação do bastardo, este plebeu cabeça de bagre aqui, ainda falou assim: “que me desculpem, mas sinceramente, eu não vejo a necessidade de criar mais um órgão desses, haja vista que, já existe Lei de Responsabilidade Fiscal, Tribunal de Contas dos Municípios, etc., etc., etc...”. Mas onde, que pessoas com tantas capacidades e conhecimentos iam dar confiança para um pé duro como eu...  Sinceramente, onde?
Uma vez num seminário de segurança pública que eu participei no IESP, em 2010, no final das minhas falas eu disse assim: “Tem três maneiras de os donos do poder calar quem não tem medo de falar. Uma, é alguém desqualificar o falador; outra (segunda) é dando-lhe um emprego; e por último, a mais eficiente, é uma bala perdida acertar a cabeça da vida falante ou um acidente fortuito qualquer. Esta terceira, além de calar definitivamente, ainda intimida outros que gostariam de falar”.
Pois é. Seis dias depois do desabafo que eu fiz lá no auditório do IESP, pessoas em um carro passaram por mim e alguém gritou: “Cuidado negão tu tá falando muito”. Uma semana depois dispararam cinco tiros com arma de baixo calibre no muro da minha casa. Era uma advertência. Não sou besta. Calei-me. Nunca mais falei em seminários de segurança pública. O aviso funcionou. Mas antes tinham oferecido uma função numa secretaria pra minha mulher, que tem nível superior em economia, e eu abestado, fiz a pobre recusar. Isso só porque eu queria continuar bocudo. E foi justamente, o doce cantar da sereia que na antífona do oferecimento a palavra chave é emprego, que decretou a morte precoce do nosso querido Fórum.
Hoje, os mentores do estrovenga falecido, são funcionários da Prefeitura Municipal. O Lázaro Falcão, que é Advogado, já foi vereador em Ananindeua, é ex-Delegado de Polícia, agora é subprocurador do Município. O Ivan, o Perequeté, é assessor municipal, e por aí vai. Os donos dos discursos mais inflamados pró-Fórum estão devidamente empregadinhos da silva (ou inveja, Senhor!). Bom, não precisa dizer né, que ninguém quis saber desse negócio de órgão fiscalizador. Até por que, parece que a nuvem negra que pairava sobre a população Maritubana, foi extirpada. Com o empossamento do atual gestor o cenário agora é outro. Em pouco tempo tudo passou a funcionar melhor, e com uma perfeição tão grande que o reflexo está nos resultados. O prefeito não tem oposição nem na Câmara Municipal. Tanto que na escolha dos novos membros do Legislativo Mirim, os chefes (presidente, vice, secretário, e não sei o que mais) foram escolhidos em escrutínio de acordo com o Regimento do Parlamento. Tudo certinho. Mas o placar foi 13 x 0. Isso mesmo. Treze a zero. É mole? O Nelson Rodrigues dizia que “toda unanimidade é burra”. Será...?
Bom. Politico-ideológica à parte travestida de força popular, ou empulhação, com alguns retoques, a constatação indeclinável, e a verdade inescapável, na real, o que todo mundo quer mesmo, é uma boquinha. Até eu, meu Deus, que sou adepto do não puxa-saquismo (a gente pode elogiar sem bajular e criticar sem ofender) de vez em quando me flagro, como um combatente entrinheirado na frente de batalha, defendendo o nosso Alcaide dos ataques “gratuitos”. E olha que eu ainda não fui convidado a dar umas mordidinhas no queijo...
Órgão Fiscalizador... Pra quê, meu Deus! Tédoidé... ?
As tá! Remunda... (frase da minha avó, quando a tia Raimunda contava uma prosa que a ela não acreditava...)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

PIRELLY, CORREDOR AMBIENTAL OU DISTRITO INDUSTRIAL?


Discursos, Acordos, Promessas, Esperanças e Interesses. E assim caminha o mundo da política onde o povão está na base da pirâmide a espera do que há de vir


Pelo calendário litúrgico da Igreja Católica, depois da quarta feira de cinzas começa a quaresma, e quaresma para nós, católicos, é um tempo de verdade e de esperança, que vem nos responder que sim, que é preciso ser verdadeiro, tirar o sorriso plastificado do rosto, ser mais sincero conosco mesmo e com a sociedade. Não é porque Deus é rico de bondade e misericórdia que temos que estar mentindo, inventando. Enganando. Somos todos convidados a reconhecer que, se alguma coisa não anda bem, temos que mudar, nos converter, virar o jogo.
Virar o jogo. No executivo municipal o atual gestor não está decepcionando, claro, não agrada a todos, não é possível, mas no geral o município na atual administração está ganhando. Obras de Santa Engrácia, (aquelas obras que nunca acabam) tinham no ginásio coberto, recém inaugurado, um símbolo. Um verdadeiro monumento ao desperdício e desrespeito a comunidade. Bom, mas não é de bom alvitre ficar desenterrando esses esqueletos. Eles exalam mau cheiro.
Resolver pequenos problemas para obter grandes resultados e ser honesto. Esse deve ser um dos mandamentos para um bom gestor. Eu acho que é por que eu nunca fui prefeito ou vereador, nunca ocupei cargo público que me deixasse com a cumbuca ao alcance das minhas mãos, será que não é por isso que eu fico conjecturando dessa forma chata, batendo na tecla “honestidade”? Benza Deus, sabe lá se não é...
Bom, aproveitando: como é tempo de verdade e de esperanças, me custou muito sacrifício, que eu acabei não fazendo: que foi bater palmas hoje, no auditório do IESP aqui em Marituba, para um dos políticos que é o rei do fisiologismo nacional: Gilberto Kassab, Ministro das Cidades. Eu não o conhecia pessoalmente. Cumprimentamos-nos com um aperto de mãos. E o homem é parceirão do nosso gestor. Os dois representam a mesma sigla. O problema é que ele tem sede de poder, e está na lida para refundar outro partido com a intenção de empurrar a turma do vice presidente e ficar mais a ilharga dos atuais donos do poder. Ouvi duma senhora que estava ao meu lado cochichando com outra: “esse homem parece um boneco de neve...” Eu, francamente não sei fazer comparações. Só sei que dos planos de crescimento futuro para o nosso município no discurso do nosso gestor, uma coisa me preocupou: foi a afirmativa de que a reserva ambiental da Pirelly será transformada em distrito industrial. Lembrei-me que a ex-governadora Ana Julia (Sai azar, Pé de Pato, Mangalô, Três Vêzes!) quis construir 19 mil casas do projeto Minha Casa Minha Vida, que ia transformar aquela área num Favelão metropolitano. A sociedade organizada conseguiu reverter o quadro.
Progresso, progresso, progresso. Sinceramente, não quero viver para ver as chaminés fumaçantes, fumegantes, jogando monóxido de carbono na atmosfera, onde ainda consigo respirar um oxigênio mais puro. Como sou maratonista, moro próximo a reserva onde faço meus treinos prefiro sim, de verdade, partir para o além com a melhor das recordações de quem viveu, aproveitou e amou de verdade o verde natural das matas.
Ah! É verdade. Estamos na Quaresma...             

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

É VERDADE. EU MINTO, TU MENTES, ELES MENTEM; NÓS MENTIMOS...

Não é lenda. Quando a pessoa começa contar uma mentira, principalmente se for cabeluda, micros vasos sanguíneos alojados no septo nasal dilatam, inflam. O nariz fica vermelho, provocando comichão, por isso o mentiroso fica coçando o nariz o tempo todo.



O Paizote é um senhor de quase 60 anos, tem um filho de oito. Uma gracinha de garoto. Esperto. Inteligente. Falante. O menino brincava na moto movida à pilha na praça do residencial quando a motocicletinha enguiçou. O pai mexeu, remexeu, escarafunchou.  Consertou a máquina e entregou ao irrequieto garotinho.
- Taí.  Tá boa. Pode montar. Ordenou.

 O guri montou rápido, mas não deu partida. Pensou um pouco, desceu e testou a moto. Quando montou de novo, o pai resmungou: - Não acredita em mim, caralho?
Testar primeiro. Até alguns casais, antes de casarem “de verdade”, costumam passar por um período de amigação (espécie de estágio), que nesse caso, talvez nem seja porque um não acredita no outro, mas o fato é que os dois querem ter a certeza que a união vai dar certo. Crer e confiar, para aí sim, atar o nó definitivo.
As duas coisas que eu achei interessante no episódio entre o pai, já quase sessentão, e o miudinho: o guri se certificar que o pai não estava mentindo, que, de fato, o equipamento estava cem por cento. E a reação do pai, admoestando o filho com a frase: “não acredita em mim, caralho?”.
Aí me veio aqui na bola pensante: com certeza esse pai já prometeu coisas para o filho, e não cumpriu. Mentiu. O menino está ressabiado (Cachorro mordido de cobra tem medo até de linguiça...).
Bom, na real mesmo, a mentira, com certeza é uma instituição universal. Em qualquer lugar do mundo, se mente. Um ser humano comum que não tem fama de engrupir ninguém; que não é um enganador inveterado; um inocentinho qualquer; mente, em média, 200 vezes por dia. Du-zen-tas... E isso é confirmado por especialistas no assunto, que até recomendam aos pais quando a criança não mente levarem ao médico. Porque não é normal não mentir. Mentir é sinal de evolução. E faz não apanhar da avó. Vejamos o exemplo:
 A Karine, 7 anos, brincava com a Bia, 8. No meio das peripécias alguém bateu no vaso que decorava a sala, que não quebrou (que vale!), mas espalhou areia e flores pelo ambiente todo. Aí começou um corre corre liderado pela mais nova, a Karine, que  murmurava baixinho: “bora limpar rápido antes da vó ver. Bora Bia, mais rápido...” (eu estava deitado numa rede na sala e fingia que dormia). A limpeza ficou mal feita e o vaso retornou para o lugar dele com as flores meio desarrumadas. Quando a vó viu a desarrumação as duas falaram ao mesmo tempo: “a Malu passou correndo e derrubou o vaso. Nós ajeitamos...”. A Malu é a cadela da casa. As duas articularam e executaram uma mentira, porque sabiam se falassem a verdade seriam punidas.
No livro “Porque as Pessoas Mentem” do filósofo e psicólogo David Smith, especialista em estudo do comportamento, diz que: “Mentir é o pilar das relações sociais. É um sinal de evolução, sem ela o mundo seria um caos...” Mas... Hum!
Veja isso: O Cornélio, marido da Odentina, já tinha se acostumado com a situação. Ele chegava do serviço sempre à noite, e tinha reparado que a mulher, de vez em quando recebia, ou trazia para casa, algum objeto de valor – Tv, som, móveis ou dinheiro vivo - e justificava dizendo que ganhava no “Bingão”, uma casa de jogo que funcionava no outro bairro. Até que num dia de muito frio com a temperatura beirando os 10 graus, na hora do banho, o Cornélio verificou que a Odentina estava com a ducha de água direto no sexo, que fazia uma assepsia só na vagina, evitando molhar-se por completo. Aí ele olhou de esguelha o banho inglês da madame, e perguntou em tom de ironia: “E aí, hoje vai lavar só o cartão do bingo...?.
 Chato. O mentiroso cai do galho. Fica sem graça quando descobre que a pessoa a quem ele mente conhece a verdade verdadeira das suas inverdades. O mentiroso eventual. O mitômano, o inveterado, esse não tá nem aí...
O filósofo Confúcio deixou uma frase: “Os idiotas da época antiga eram honestos. Os idiotas modernos mentem...”.
A gente nasce, cresce e morre mentiroso. A mentira assim como a alegria, a tristeza e a raiva é parte inseparável da índole humana. E para ajudar, existem profissões que exige do profissional habilidade para mentir. Separemos apenas duas: advogado e político. Qual dos dois mente mais? A minha mulher, a irmãzinha, respondeu que é o político. Não sei. Mas tenho um exemplo recente. Há bem poucos dias atrás, este Zé Mané aqui, num evento público restrito aos idosos, foi chamado à parte pelo prefeito Municipal do nosso Município, que propôs ao escriba cá escrever a sua biografia, a partir da batalha que ele teve que enfrentar até assumir o cargo máximo como gestor Municipal. Vixi! Fiquei como diria o falecido Jamelão, parece pinto no lixo, todo serelepe. Me achando. De repente, murchou tudo. Eu acho que o homem esqueceu. Ah! Meu Deus. Será que era mais uma mentira social...?
A dona mentira que me perdoe. Com toda sua boa fama e o know-how que você tem na arte da manipulação e seu renome como imprescindível nas relações humanas, mas a franqueza, a honestidade, a verdade, ditas com jeito e muito carinho, devem ser sempre privilegiadas em uma relação.
“eu ví o teu marido em bundas, tod’inrolado cum dois viado lá num motel perto de casa. Ele num me viu, mas pelamô de deus num vai dizê que fui eu qui te contei. Ah! Na verdade num sei nem por que tô te contando... Tchau!

Com uma verdade contada desse jeito qualquer versão mentirosa que diminua ou elimine o impacto da notícia é muito mais saudável. Por isso, mentira, tu és a tal. Reinas poderosa e impávida com o nariz empinado no meio das bundas moles e chatas de algumas verdades. N’est pas...?

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A MINHA PRISÃO ESTAVA DE PORTAS ABERTA

Rua não é moradia. Viver na rua é castigo, é sofrimento
Era um meio de tarde dum dia qualquer do mês de dezembro. Eu dormia um sono solto em plena praça do relógio embaixo duma mangueira, no Ver o Peso, num banco que eu já considerava “meu”. De repente, um susto! Levantei-me dum salto. Sentei-me. Olhei para os lados e não passava ninguém. A praça estava deserta naquela hora. Também pudera! Era domingo. Aí que eu fui verificar que tinha sido uma folha da própria mangueira que me dava o conforto da sombra que caíra no meu peito e me pregou aquele susto. Calmão da silva deitei de novo, mas não consegui dormir mais. É que eu caí na real. Pensei, caramba, já vem chegar o inverno.
Ô meu Deus, mais um inverno. Não me recordava   certo quantos anos eu já estava morando na rua. Uma coisa, porém, eu não esquecia. Não dava para esquecer: o período chuvoso era o pior tempo para quem tinha como teto o céu e como cama papelões. Aí, logo imaginei com meus botões, vou cometer um delito leve, serei preso por, no máximo seis meses, e lá estarei protegido da chuva, do frio e com a vantagem de não ter que encarar trampo em troca de comida. Tudo planejado. Mãos às obras.
 Entrei num restaurante lá na praça do Carmo, sentei-me, e o garçom com vontade de expulsar-me. Não expulsou, mas perguntou com a sutileza de um elefante:
-Fala! O que queres?
-Claro que eu quero comer. Respondi com cara de raiva também. Fiz o meu pedido: um bife de fígado bem suculento com dois ovos estrelados e uma garrafa de refrigerante.
Me saciei. Pensando: “não pago, ele chama a polícia, eu vou preso e pronto. O plano tá perfeito.”
Deu tudo errado. Quando eu falei que tava liso o homem enfurecido agarrou-me pela gola da camisa, me arrastou até a calçada, deu-me um tapa tão forte que eu caí  e mesmo caído ele ainda me deu uns chutões, só parou porque um ciclista que ia passando parou e encarou o garçom caloteado, e os dois ainda quase saem no tapa também. Aproveitei a discussão dos dois e saí meio correndo, meio cambaleando. Ainda escutei o meu salvador gritar: “tu só bate em mendigo...”
A primeira tentativa flopou. Parti para a segunda.
Dei uns bordos por várias ruas da Cidade Velha com um olho roxo inchado, corpo todo dolorido e uma ideia fixa: ser preso.
Cheguei à praça do Arsenal de Marinha (Praça da Armada) que estava com uma movimentação inusitada para um domingo inicio de noite. Crianças andavam de motocicletas de brinquedo, bicicletinhas, velocípedes, patinetes. As senhoras mães tomando conta da gurizada. E guardas. Vários guardas. Pensei: “agora dá”. Me aproximei duma senhora que estava perto do policial, botei a manipeba pra fora e comecei mijar quase no pé da madame. O guarda pegou-me pelo cós da calça foi me empurrando até chegar ao meio fio do outro lado da rua, quando eu fiquei longe do alcance da visão das pessoas ele deu uma cacetetada tão forte no meu membro que acabei me mijando sem querer. Agora de dor. Em seguida deu-me mais um pescoção tão forte que eu saí catando cavaco com o nariz rés ao chão. Escutei o homem da lei vociferando: “isso é pra ti aprender respeitar, vagabundo...” Ele foi embora. Eu fiquei lá me contorcendo de dor.
Mas brasileiro não desiste. Me recuperei,  e continuei a minha via crucis. E um pensamento obsessivo: “tenho que ser preso...”.
Já eram mais de oito da noite. Cheguei à praça da Sé a Igreja estava aberta, lotada, e a música era de natal. Caramba! Me lembrei: além de domingo era noite de Natal também.  Eu já estava com fome. Fui me aproximando. Fiquei na porta esperando que alguém me desse algum trocado. Pela movimentação percebi que antes da Missa do Galo haveria um casamento. Uma jovem se aproximou com um pacotinho na mão, entregou-me junto com uma cédula de cinco cruzeiros. Quando eu disse “muito obrigado” ela fixou o olhar no meu rosto e disse:
-Parece que eu conheço a sua voz. Como é o seu nome? Eu relutei em dar o meu nome verdadeiro, mas, enfim, respondi:
-Meu nome é Edelvanio mais conhecido como Edel... A menina enlouqueceu saiu correndo pelo centro da igreja gritando:
-É ele é ele é ele!!! O papai tá aqui.
Foi um furdunço. A noiva que ia casar era a minha filha mais nova, que eu não lembrava nem quantos anos tinha, e a mais velha foi que me reconheceu.
Meia noite. Eu, banhado, barba raspada, cabelo cortado, todo cheiroso, roupa social limpa e bonita, sapato novo, participava ainda todo encabulado, da ceia natalina e do regabofe do casório. Triste. A minha ex-mulher morrera fazia dois anos.
Conclusão: Procurava um cárcere, achei minha família. E justo na Noite de Natal. Prometo: álcool e drogas nunca mais! Nunca mais...







quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"AH! VOCÊ ESTÁ TÃO MAGRA"

Corpos perfeitos.  A ditadura da beleza é assim: impõe sacrifícios, mas...

Ah, você está tão magra!
 É o elogio que as mulheres mais gostam de ouvir. Ganha até do “eu te amo”, que fica em 3º lugar.
 Pois é. Esses dias eu ganhei na pracinha, do conjunto próximo de casa, onde faço meus alongamentos umas inimizades, digamos, gordurosas. No mesmo local tem um camarada que é deficiente visual parcial e ex- corredor de rua federado. Com a experiência adquirida como “atleta” corredor, aproveitou a oportunidade que pintou e resolveu ganhar unszinhos, usando os conhecimentos de atividades físicas que aprendera quando estava competindo e aplicando a um grupo de jovens senhorinhas que estão correndo atrás das belas formas.
 O meu “crime” deveu-se a um arroubo verbal. Na verdade, reconheço, eu cometi uma verdadeira hediondez, chamei duas pupilas do Léo (nome do personal trainer) de Gordas. Pois não é que uma das alunas, a quem eu nem tinha me dirigido, irou-se. Pegou santo mesmo. A enfurecida aluna do mestre Léo falou quase nas minhas fuças de que eu estava “querendo era levar uns tapas na cara pra aprender respeitar as pessoas”...
Eu acho que todos nós somos portadores de transtornos explosivos internos. E eu, mesmo sem querer, entrei numa perigosa rota de colisão com uma jovem senhora que ameaçou estapear-me. Caramba! Logo na cara... E o mais incrível: a exuberante senhorinha era (para mim, ainda é) minha amiga. Agora eu estou numa sinuca de bico. Reconheço a minha indiscrição, mas nunca pensei que uma palavrinha de nada viesse causar um bug numa relação de amizade adulta, quase velha. 
Brigar nunca é bom, porque apequena o ser humano e ainda mais quando se trata de algo tão bizarro. Na realidade foi uma intromissão do bem. Aconteceu assim: o “professor” estava com seis “alunas”. Das seis, duas estão bem redondinhas. Como eu sei que ele não sabe por onde passa a fisiologia do exercício, não conhece o que é biomecânica do esporte, essa coisa toda que quem tem formação acadêmica, conhece eu fui lá e disse: “Léo, separa as duas gordinhas e passa atividades aeróbicas, e as magras mete exercício de média e grande intensidade, os anaeróbicos...” Eu penso que tanto o “professor” quanto as suas discípulas de tudo que eu falei só entenderam uma palavra: “gordinhas”. E só uma se aborreceu. Mas se aborreceu muito. Meu Deus!
“Quem não tem colírio usa óculos escuros...” Já dizia o poeta barbudo maluco beleza Raul Seixas. O sonho de um corpo perfeito (no caso, magro), o caixa baixo, a preocupação com a boa forma e a saúde, acaba muitas vezes colocando as pessoas diante dessa dicotomia, que é por em risco a saúde justamente em busca da boa forma e mais saúde. Pior, têm umas criaturas que correm com blusão de frio e isso, segundo os entendidos no assunto, pode até ser prejudicial, porque aumenta a temperatura do corpo e causa hipertermia. É verdade que, como efeito imediato, por causa do corpo abafado e os poros não transpirarem a pessoa vai suar mais, logo, perde mais líquido, que retorna ao organismo assim que é feita a reidratação. Conclui-se daí que os gramas perdidos foram líquidos, e não calorias. É isso.
Pô! Eu não sei é nada. Corri durante quarenta e cinco anos. Tenho sessenta e seis. E o que eu queria mesmo era poder correr de costas. Correr pra trás. Assim mesmo, olhando pra frente. Voltando no tempo. Enganar a morte. Porque eu sei que ela tá pega não me pega. Tá no meu calcanhar. Poder recomeçar, ou começar, tudo de novo, pra ter vergonha na cara e aprender que não se chama de gorda pra uma mulher. Mesmo que ela não esteja assim, tão magra...


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