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segunda-feira, 15 de abril de 2013

IRMÃO, COMO SE CHAMA O FUNDADOR DA TUA IGREJA, E ANTES ELE FAZIA O QUÊ?


Eu não lembro-me quantos anos eram. Só sei que era festa de aniversário dum templo da Igreja do Evangelho Quadrangular da Cidade Nova V.  O evento foi em frente ao prédio, que fazia aniversário, na avenida arterial 18. A minha filha caçula participava do grupo de dança dos jovens que fez uma linda apresentação naquela  noite maravilhosa. Eu e minha companheira somos católicos, agentes pastorais e missionários consagrados da Congregação de São José, e naquelas alturas fazíamos curso de Lideranças Cristãs pelo Ipar – Instituto da Pastoral Regional Norte II – que obedece diretrizes da CNBB, Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil. Somos bons católicos, razoavelmente esclarecidos. Atualmente estamos noutro curso de formação para líderes da Pastoral do Idoso da Paróquia do Bom Pastor, em Marituba, onde moramos. Residimos bem distante do local dos festejos, mas fomos convidados para a festa e lá estávamos.
       Senhoras protestantes muito bem vestidas, homens elegantes com seus paletós impecáveis e muita, muita barraca com venda de doces, bolos, comidas típicas, enfim, acepipes para todos os gostos. Sentamo-nos na primeira fila, bem de frente para o palanque. Eu sou partidário daquela filosofia de que “deve-se aprender sempre, até mesmo com um inimigo”, por isso quando estou em conferências, seminários, palestras, assistindo uma discussão – de discurso ou de briga, quebra pau mesmo, etc., estou sempre atento. Agindo assim aprendo sempre alguma coisa. Como sempre nestas ocasiões, a autoridade maior é a que fala por último, e lá estava para encerrar a programação: Sua Alteza Imperial, o Grão Duque Monsieur Martinho Carmona, que junto ao Josué Bengtson (ambos “filhos de deus”, principalmente o segundo, de vez em quando estão envolvidos em escândalos financeiros, mas são políticos  milionários e neles não gruda nada), o Bengtson, inclusive,  já renunciou a um mandato de deputado federal para evitar ser cassado, já que ele fazia parte da máfia dos sanguessugas, grupo de empresários e deputados que roubaram o Ministério da Saúde em 2004; o filho, Marcos William, matou um sem terra na fazenda da família em Santa Luzia do Pará. Esses são os líderes do escalão superior da Ieq. no Estado.
O Martinho Carmona fez o fechamento da programação. E o fez bem. Maceteado, acostumado com plateia e microfone, se empolgou e, num trecho da falação berrou a plenos pulmões: “eu sou líder de uma igreja que glorifica um Deus vivo e não dessa outra religião falida que está aí”. Ele referia-se ao catolicismo. No mesmo momento, eu, até de forma grosseira, levantei-me, tomei  as mãos da minha companheira, olhei-o bem nos olhos, (estávamos a menos de três metros, frente a frente) e retiramo-nos. Foi a minha forma silenciosa de protestar. Isso é passado. Ok.
Pecadora Sim, falida não! São 1, 2 bilhão de fiéis, 3 mil bispos, um milhão de padres e religiosas, sem contar o contingente de Leigos com título especial que se entregam a serviço da Igreja Católica, a segunda mais antiga instituição do mundo, com mais de dois mil anos de história e que agora, por ocasião da apresentação do novo Papa, cento e trinta e duas delegações de Chefes de Estados do mundo inteiro estavam presentes no Vaticano, aliás, o País Vaticano ocupa uma área bem menor do que o tamanho das terras onde ficam as fazendas desses “homens de deus”.
Um comentário do Pastor da Assembleia de Deus, Samuel Câmara, em artigo publicado no jornal “O Liberal” no dia 23/02 pp., reflete o respeito de alguém que pensa e age como irmão, filho do Deus Verdadeiro, que nós adoramos: “não posso deixar de admirar o gesto desprendido do Sr. Joseph Ratzinger, o papa, principalmente porque sua renúncia visa o bem da Igreja. Isso mostra o coração de um grande líder que não olha somente o imediatismo do seu mandato, mas para benefício das gerações futuras...” É verdade que o Pastor Samuel está travando uma briga de foice no escuro com o outro Pastor, José Welington, pela presidência da CGAB - Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (a eleição aconteceu na semana passada e o Pastor Samuel foi derrotado, de novo).
Há muito se escuta a falácia de que o catolicismo precisa se renovar, buscar novos rumos, que precisa se atualizar com os novos tempos. Será que precisa mesmo? Acho que  não! É a opinião desse escriba que escreve aqui, dum pé duro, meio lambão. Digo não às mudanças “modernosas” (como casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo). Mudança trás ruptura. Não foi á toa que o emérito Bento XVI revogou a excomunhão dos quatro bispos que tinham sido ordenados por D. Marcel Lefebvre – falecido em 1991 – que havia rompido  com a igreja romana em 1988. Já temos a Renovação Carismática Católica no Brasil, logo, não há necessidade de protestanização/próspero/teológica no catolicismo.
Vestir um paletó de grife, berrar, gritar, satanizar quem pensa e age diferente; lotear vagas no céu, construir prédios suntuosos que funcionam como shoppings centers da fé; autointitular-se com atributos divinos,  viajar em avião particular, morar em suntuosas mansões. Ah! Esses prazeres, como bens supremos da vida, só os “enviados de deus” os têm. Claro.
O catolicismo como principal religião e, ainda a maior do Brasil, continua como sempre foi: cheia de falhas, mas segue forte e mais qualificada, até. Papa, Cardeais, Patriarcas, Bispos, Padres e até Diáconos  sabem: O Rebanho é numeroso. Mas é uma construção perfeita, tem bom comprimento, largura ideal, altura no ponto certo, peso correto, muita resistência e durabilidade.
 Du-ra-bi-li-da-de. Assim é a minha Igreja. Mas Ela não nasceu da disputa  de nenhum membro revoltado, briguento, ganancioso. Foi criação Divina. Está lá em Mateus 16-18: “Pois eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...” Obrigado Senhor pelo privilégio de ser Católico. Amém!

quinta-feira, 14 de março de 2013

UM FRANCISCO SEM DELONGAS- "ENTREVISTA"


Zé Brocoió, o entrevistador do blogdojambu, conseguiu uma inédita entrevista com o novo Papa, o Francisco. Acompanhe:

ZB- S. S., seu nome eu já sei, mas porque Francisco?
V.S.- Porque é mais fácil. O povo com certeza vai me chamar de Chico.
ZB- Apesar de ser filho de italianos S.S. nasceu na Argentina, e não se dá muito bem com a madame Kichiner. Como será a sua relação com ela?
V.S.- Credo em cruz! Não quero saber de relação nenhuma, mesmo ela sendo viúva e que sonha ter a fama da Evita Perón.
ZB- Desculpe, Santidade, mas eu quis dizer relações institucionais...
V.S.- Ah sim, eu que te peço desculpa. A Cristina tem aquele ar de poderosa, mas o que ela gosta mesmo é dum puchero regado a cerveja. A gente vai s’intender. Eu também gosto de puchero, só que com um vinhozinho. Vai dar certo, espero.
ZB- Mil anos depois um papa não europeu e logo latino americano. Fale sobre isso?
V.S.- Pois é. Já tava chato, né.
ZB- Em 2005 quando o Ratzinger foi eleito dizem que S.S. foi bem votado, teria sido o 2º, naquela época o Senhor disse que não queria ser papa. O que mudou?
V.S.- Eu tava muito novo, ainda tinha a carne fraca.
ZB- S.S., só uma curiosidade: porque os papas andam encurvados?
V.S.- Tu já viste a quantia de pano que tem na roupa da gente, e mais aquele chapelão na cabeça? Tanto tempo carregando isso tudo. É, filho, ser Papa não é fácil não.
ZB- Por falar em carne fraca, a igreja nos Estados Unidos pagou milhões de dólares como reparação por causa de padres e bispos supostamente pedófilos...
V.S.- Isso é mentira! Foi chantagem. A mesma coisa que fizeram com Michael Jackson, que se tivesse envelhecido ia morrer na miséria de tanto pagar indenizações por calunias e chantagens.
ZB- Como João XXIII, S.S. mostrou-se muito humilde depois de ser eleito Papa. Foi o gesto de curvar-se para a multidão que o aplaudia e pedir a bênção. Gostaria que S.S. comentasse.
V.S.- Tu já viste filho de pobre quando passa no vestibular de Universidade particular e faz uma festa desse tamanho, quando tá estudando só vive triste porque num sabe se vai poder ter dinheiro pra continuar no curso? Pois é, eu sei que vem coisa braba pela frente, logo, porque arrogância...
ZB- Santo Inácio de Loiola, que fundou a Companhia de Jesus em 1540, e de onde o Sr. saiu pra ser papa, deve estar todo feliz lá no céu.
V.S.- Ele eu não sei. Eu tô.
ZB- Vou voltar ao assunto pedofilia de religiosos nos Estados Unidos. As indenizações foram pleiteadas muitos anos depois dos supostos atos e mesmo assim a igreja pagou?
V.S.- Lá não é Brasil onde crime prescreve com cinco anos. Lá a lei é de verdade. Hum!
ZB- Pelo que eu sei o Ratzinger era hitec. S.S. vai usar redes sociais?
V.S.- Inda num sei. Disso os meus puxa sacos vão s’incarregar.
ZB- No Rio de Janeiro o padre Emilson Soares, que teria abusado de uma criança,  foi preso e logo afastado da igreja. Porque não fizeram assim com outros religiosos?
V.S.- Eu não sabia disso. Mas, esse padre é preto ou branco? Como? É preto? Intão tá explicado.
ZB- Das coisas que estão acontecendo pela primeira vez com sua eleição para Papa, uma delas é o encontro com um ex que o antecedeu. Vai pedir conselhos?
V.S- Eu lá sou homem de pedir conselhos! Inda te digo mais, eu vou bater forte  naqueles colegas do baixo clero que faziam e aconteciam na Cúria. Eles que me aguardem...
ZB- Amália é o nome da menina que aos 12 anos o Senhor se apaixonou e ela lhe deu um tôco. Naquele momento ela ouviu-o dizer: ”Amália, me destes um fora. Não me interessarei por outra moça. Se você não se casar comigo eu me tornarei padre”. Foi verdade?
V.S.- Ah, a Amália ela era um pitéuzinho. Ó vida! Quanta saudade daquele tempo...
ZB- S .S., agora é ping pong:
V.S.- É o quê?
ZB- Ping pong. Perguntas curtas.
ZB- S.S. é Jesuíta, e quando adolescente trabalhou em fábrica de meias. Sapatinho vermelho ou sandálias franciscanas?
V.S.- Franciscanas, quando eu tiver no Castel Gandolfo.
ZB- Palácios Suntuosos ou uma moradia humilde?
V.S.- Bem que eu queria uma casinha mais humilde, mas...
ZB- Povão ou a elite  sempre?
V.S.- Os dois, filho. Os dois.
ZB- Amigados, ou só casados?
V.S.- Vou estudar a situação.
ZB- S.S. tem só um pulmão e vai precisar de muito fôlego para enfrentar a maratona papal. Vai dar conta?
V.S.- Num sei, mas se eu num der conta eu renuncio e o que mais tem é gente pra ocupar a minha vaga.
ZB- S.S., essa é forte. Esses dias a justiça da Argentina condenou a prisão perpétua o ex-ditador Reynado Bignone e mais quatro oficiais que cometeram atrocidades no período da ditadura  lá no seu País e, segundo informações, S.S. teria colaborado com governos militares. O Senhor confirma?
V.S- Isso eu não vou responder e a entrevista tá encerrada. Saia já daqui!!! Bora, rasgue, já, já! Ora me compre um bode! Cada pergunta...
ZB- Té mais padre. Benção...
(acabou a “entrevista”)


Glossário
ZB- Zé Brocoíó
V.S.- Vossa Santidade
S.S.- Sua Santidade
Puchero- prato típico argentino

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

"EU FI-LO PORQUE QUI-LO"


“Pater noster, qui es in caelis:
Sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua,
sicut in caelo et in terra.
Panem mostrum cotidianum
Da nobis hodie;
Et dimitte nobis debita mostra,
Sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
Et ne nos inducas in tentationem;
Sed libera nos a malo.”
Assim o Papa concluiu a ultima celebração dele em público, rezou a oração do Pai Nosso em latim.
No dia 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas em pleno exercício da Presidência da República, pressionado a renunciar preferiu suicidar-se com um tiro e, numa carta escrita por um puxa-saco, deixou esse recado: “serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”. Ele mesmo, o Getúlio, escreveu, “deixo à sanha dos meus inimigos o legado da morte...” Bom, o certo é que ele morreu. Pronto.
Outro renunciante famoso no Brasil, Jânio Quadros, assumiu a presidência em janeiro, renunciou em agosto de 1961 e escreveu isso: “Encerro assim, com o pensamento voltado para nossa gente... A mim não falta coragem para renunciar...” Tempos depois um repórter  perguntou o  porquê da  renuncia,  ele teria respondido: “eu fi-lo porque qui-lo”.
Percepção Social – é o processo pelo qual formamos impressão a respeito de uma pessoa ou um grupo de pessoas. Sobre pessoas nunca temos impressões desconexas ou isoladas, mas sempre integramos observações numa impressão unificada e coerente, às vezes temos que inventar ou distorcer características percebidas. Acontece muitas vezes, da gente quebrar a cara com a tal da “primeira impressão é a que fica”, porque o tempo, a convivência, mais informações sobre outrem, costumam desmontar uma percepção que “a priori” alterou nosso comportamento de juízo em relação ao outro.
 Digo isso porque nunca gostei do Sr. Joseph Ratzinger. Primeiro por ele ser alemão, depois, no começo do seu pontificado, sem tato nenhum, provocou os muçulmanos (outros que eu não gosto e morro de medo deles), conservador, endureceu mais os dogmas da Igreja e até o retorno do latim como língua oficial nas celebrações, que representava um retrocesso, tornou-se obrigatória, tudo isso aumentou a cisma que eu tinha pelo seu Ratzinger, e até dando uma de futurólogo, previ que ele não ia terminar o papado, mas eu imaginava que um desses malucos que têm espalhados por aí fosse atentar contra sua vida. Qual nada! Eis a surpresa. O Grande, o Inominável, o Super Joseph Ratzinger, o Supremo, O Sumo Pontífice Bento XVI mostrou grandeza, abdicou da glória e do poder e, num gesto de nobreza entregou o cetro, que é a insígnia do Poder Papal. Quem não lembra João Paulo II, caindo aos pedaços, nem a voz saía mais, era um verdadeiro cadáver ambulante e seguiu até o fim como Papa? Mesmo para quem sonha ser canonizado é muito sofrimento.  
 “Eu não tenho mais força, o mundo está agitado, há muita mudança em movimento”. Palavras do Papa quando anunciou que estava saindo de cena, largando o sapatinho vermelho (o nome oficial é múleo). Essa afirmação soa como uma queixa.  Uma confissão de quem está sem força, de quem não está dando conta de levar o barco a um porto seguro, e não é fácil mesmo lidar com movimentos que juntam multidões de católicos no mundo inteiro gritando em favor da aplicação de células tronco, união de homossexuais, novas núpcias de católicos divorciados, uso de preservativos ou anticonceptivos, acesso das mulheres ao sacerdócio, escândalos sexuais na igreja, roubalheira no banco do Vaticano, fim do celibato, etc.. É seu Padre, não é fácil. Mesmo saindo de conservador a revolucionário, porque soube usar o, digamos artigo - Cânone 332 do Direito Canônico - que prevê a renuncia e saiu fora. É, isso mostra que a igreja clama por mudança, mesmo assim melhor era ele, o Papa, ter morrido, porque depois desse gesto, continuar vivo vai atrapalhar mais do que ajudar.
Por tudo que eu escrevi aqui, Deus me abençoe... Amém.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

TRISTEZA, SOFRIMENTO E MORTE. DOR TEM TAMANHO?




“Morte: uma perspectiva a ser encarada com coragem pelos bons, mas com supremo terror pelos maus” (Platão - filósofo grego)

Que tamanho tem a dor? Existem instrumentos para medir pressão arterial, batimentos cardíacos, glicemia, etc. A dor, tem a mais intensa, e a mais leve. E a maior, existe? Qual tamanho terá?
Em 1961 numa colônia isolada no interior de Abaetetuba, aqui no Pará, uma família de cinco pessoas, marido, mulher e três filhos, o mais velho com quatro anos incompletos e o mais novo com quase um ano, eram os únicos habitantes lá onde o pessoal da Vila de Beja chamava de “centro”. Viviam da roça, criavam galinhas, porcos, algumas aves e animais nativos como capivara, jabuti, mutuns e outros que eles vendiam na vila no “retalho ou inteiro”, no linguajar simples caboclo abaetetubense daquelas épocas.
Aos sábados ele arrumava o que comportava nos dois caçuás, engatava na cangalha presa às costas do cavalo e seguia rumo à vila da onde só retornava depois de ter vendido tudo que levara, e que na maioria das vezes, acabava mesmo era sendo trocado por mercadoria de consumo do dia a dia. Chegava na casa já de noite sempre com umas duas na cabeça. Quase cinco anos de casados e a rotina era essa toda semana. Nesse sábado, ao sair, o Zé beijou um a um dos filhos, coisa que nunca fizera antes. Era pouco mais de sete horas da manhã. Lá pelas nove, com o sol já alto, a Zilda colocou o menorzinho escanchado nas cadeiras, uma bacia cheia de roupa na cabeça e foi para o igarapé lavar roupa, deixando na casa os dois pirralhos maiores que ficaram brincando de caçar. Um se escondia atrás duma moita e o outro “pá!”, disparava com uma fofóia de açaizeiro. No igarapé a mãe desocupou a bacia de roupa seca e na medida que ia lavando devolvia as peças já lavadas para dentro de mesma bacia, e o miúdo sentado na areia a beira da água brincava, sob os olhos vigilantes da mãe. De repente, grito e choro de criança vindo da casa.  
- Meu Deus! Gritou a Zilda. Largou tudo e saiu correndo na direção de casa que era distante do igarapé uns cem metros. Quando ela começou subir a ribanceira que separava a casa do riacho, estancou de chofre, ao ver o filho mais velho com a peixeira (faca de 12 polegadas) que o pai usava para sangrar porcos. A enorme faca estava, assim como o menino, ensanguentada. O filho no alto da ribanceira quando enxergou a mãe assustou-se e caiu por cima da faca que trespassou-lhe o abdome. O corpo da criança ainda rolou e ficou escorado nas pernas da mãe, que totalmente aflita, retirou a faca e carregou-o. Junto com o sangue que escorria ela sentiu esvair-se a vida do filho também. Sem saber se levava o pequeno na água para lavá-lo ou seguia para ver o que tinha acontecido no barraco ela seguiu em frente, correndo. No terreiro da casa deparou com o outro pequeno, estava em decúbito ventral, morto no chão. Fora esfaqueado pelo irmão que, supõe-se, brincava de “matar porco”, haja vista, a furada feita pela arma ter sido na jugular, mesmo lugar onde o Zé “vitimava” os suínos no quintal, sempre na presença das crianças. Em desespero, a mãe que carregava um caiu em cima do outro filho, morto.
Zilda, uma mulher de um metro e sessenta, magra quase raquítica, mas era forte não derramara uma lágrima até aquele momento. Com muito esforço ela conseguiu erguer as duas crianças e cambaleando como uma bêbada, totalmente ensopada de sangue, começou caminhar de volta para o igarapé. Um filho em cada braço apertado contra o corpo. Ela lembrou do menor que todos o chamavam de mimim, queria andar ligeiro, correr, mas as pernas não obedeciam. Ao chegar encontrou o caçulinha dentro da água. Estava morto. Ele engatinhou para a morte.
 Sem assistência psicológica, (por aquelas paragens ninguém sabia sequer o significado da palavra “psicólogo”) o casal começou se culpar pela tragédia que atingiu a família.  A Zilda, coitada, passou a vagar por dentro do barraco dia e noite sem se alimentar nem dormir, surtou, morrendo duas semanas depois. O Zé, que só bebia nos finais de semana quando ia fazer venda na vila, passou a se embriagar diariamente. Morreu afogado no rio Jarumã, duas semanas após a morte da mulher, quando saiu para pescar sozinho (estava bêbado) num casquinho a remo. Assim, a fatalidade decretou em menos de dois meses, o extermínio de uma família, duas gerações.
Tragédia, como que aconteceu em Santa Maria/RS, onde morreu muita gente, causa comoção nacional e dor, não é, todavia, maior que a pequena desgraça onde morre só uma pessoa. Para o parente mais próximo – pais principalmente – a dor é a mesma. Minha pergunta: Em Santa Maria tem família que está sofrendo muito porque perdeu quatro filhos. A dor, é maior de quem perdeu só um?
Estatísticas sobre mortes no Brasil, por ano. Trânsito: 40.000; homicídios: 50.000. Em todo lugar por onde passamos, diariamente, tem uma armadilha armada contra a nossa vida. Umas são tão estúpidas, que não dá nem para usar a eterna frase de natureza conformista: foi a vontade de Deus...

Glossário
Caçuás - espécie de cestos gigantes feitos de cipó timbuaçú
Fofóia - parte que fica presa à árvore e sustenta a folha do açaizeiro
Miúdo - criança
Peixeira - faca de 12 polegadas
Casquinho - embarcação pequena movida a remo

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

APEDEUTA, MENTIROSO, INOCENTE E EX-PRESIDENTE



"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário."
                                                                                                           (George Orwel)



                    

Início de ano. Imaginemos a seguinte cena: O ex-presidente Luis Inácio da Silva, o Lula, (O Leonel Brizola o chamava de sapo barbudo) sentado na cadeira da presidência do Instituto Lula. Uma sala ampla e confortável, meio escura e uma fila enorme de “afilhados”, se curvando em reverência, beijando-lhe a mão. Na fila: José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, Silvio Pereira, Paulo Okamoto, Aloizio Mercadante, Marco Maia, Fernando Hadad, Lulita (Dilma), Marta Suplicy, Marco Maia, e fechando a fila, Jader Barbalho, Romero Jucá, José Sarney, Paulo Maluf e Fernando Collor (aquele...). E o homem lá, enfatiotado, só abençoando, sem falar nada.
O ex-retirante é um vencedor, chegou onde sempre sonhou sem o academicismo de outros. Só na base da coragem. No grito. Se especializou em  fazer-se invisível quando o cerco vai fechando ao seu redor. Usa muito a técnica do gambá, que se enrosca numa carapaça formada pelo próprio pêlo fingindo-se de morto – só se movimenta quando o perigo vai embora - ou solta uma catinga horrível (no caso são as calunias como forma de defesa) que mantém afastados os inimigos. Hoje encarna com perfeição o papel de Poderoso Chefão. Um Don Corleone, made in Brazil, versão séc. XXl.
 Mais tarde, já na outra sala, depois de servido o manjar dos deuses, acompanhado de Romanée Conti (o vinho de preferência do poderoso), todos os afilhados renovam os juramentos de fidelidade.
 Em cada canto da enorme sala têm seguranças, que mais parecem com armários vestidos de casaca preta, todos chefiados pelo Freud Godoy, homem de confiança do padrinho desde os tempos das vacas magras. Em pouco tempo todos vão saindo nos carrões pretos. Fim da primeira reunião anual da Família. E o chefão ainda dá um ultimo conselho, com uma voz rouca e gutural, quase um grunido. Uma espécie de ultimatum. Com a soberba daquele que tem o controle de tudo e que, matreiramente, finge não saber nada, justo para mostrar que é esperto, diz: “Cuidado! Mantenham seus amigos por perto. E os inimigos também!...”
 Esperteza. Essa é uma das principais características dos chefes dessas famílias. São safos. Parecem revestidos de teflon, nada gruda neles e quando alguém tem a ousadia de denunciar algum “mal feito” do chefão, em sua defesa vêm políticos, polícia e judiciário, onde, como parte da estratégia para ser um chefe respeitado, eles plantam tentáculos. E no baixo clero? No meio da patuléia é que ninguém pode falar mal do padrinho, que por meio de artimanhas e retóricas, se transformou em defensor dos pobres. Afinal esses também recebem as bolsas de ajudamento para, no momento certo, levantarem a cerca de proteção ao bem feitor.
 O Pai dos pobres sabe que apesar de todo poder que tem, ele, no fundo é triste e solitário. Sabe que a maioria dos afilhados são catedráticos, têm doutorado, ou pós-graduado em algo ou alguma coisa; sabe que, no mínimo, todos conhecem seus truques, segredos e artimanhas, logo, é um imbecil/prepotente/útil; uma pedra no tabuleiro que só pode ser mexida numa direção para evitar desmoronamento. É possível que tema pela própria vida, haja vista que, a organização costuma cobrar um preço alto pelos chefes, ou padrinhos, que se rebelam (lembram Celso Daniel, prefeito de Santo André, assassinado em 2002?).

 Enquanto isso os afortunados assistidos pelas bolsas batem palmas, dão vivas e loas, não sabem que pai narcisista, demagogo, verborrágico, o “deus martasuplicyano”, expert em malabarismo acrobáticos na arte de convencer as massas, no momento (hoje é dia 08/02/2013) está sumido, escondidinho, debaixo de algum tapete persa ou de um luxuoso sofá de couro chesterfield, de onde só vai sair quando Marcos Valério e Rosemary Noronha, os ex-amigos e colaboradores (afilhados proscritos), jurarem silêncio eterno. Quando isso acontecer, ele sai da toca, sorridente e fagueiro, pleno de inocência. É assim que funciona a dignidade dos cínicos. Até quando, só Deus sabe...
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