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terça-feira, 22 de julho de 2014

"EI, ATENDE LOGO! É O MÁRIO...O PREFEITO..."



Ética, Respeito e Humanização. Sonhos impossíveis na política?

Na Grécia Antiga, período que vai de 1.100 ao ano 146 a.C., o  maior castigo que se podia impor a um ser humano, como pena a ser cumprida, não eram castigos físicos e nem pena de morte. Era o isolamento. O desterro. Era impedir o apenado de se comunicar com outras pessoas. E a comunicação entre criaturas é tão importante quanto  comer e beber. A incomunicabilidade é capaz de nos levar à morte. O homem se revela pelo que fala, pelo que escuta, e até pelo que lê. Logo, falar, escutar e ler pode ser terapêutico. A palavra certa dita no momento certo pode curar;  mas também a palavra errada, no caso, ofensiva, e dita na hora errada pode adoecer, quem sabe até, matar.  Não pode haver forma mais eficiente de se aproximar do semelhante do que pelo exercício  da palavra. Relacionar-se pelo exercício da palavra é uma chance preciosa de crescimento. É a vitrine que expõe de verdade quem você é para si e para os outros. Tá.
No dia 17/07/2014 aconteceu no auditório do IESP, aqui em Marituba, uma audiência pública. Era o executivo municipal fazendo um demonstrativo da LDO – Lei de Diretrizes Orçamentárias – para o exercício de 2015 (foi o que eu entendi).  Mas o  inusitado não foi a audiência, e sim, o que aconteceu na véspera. Eram quase dez horas da noite o telefone   em casa tocou, a minha mulher atendeu, me passou o aparelho e deu-se o seguinte diálogo:
- Alô, é seu Orlando?
- Sim. Sou eu, quem fala?
- Seu Orlando, aqui é o Mário...
- Que Mário?
- Mário Filho, seu Orlando.
- Mário Filho, o prefeito?
- Sim, seu Orlando.
- Bom, tô surpreso. A que devo a honra?
- Seu Orlando amanhã tem uma audiência pública lá no IESP e eu queria o senhor lá representando o Conselho do idoso...
Despedimo-nos com um “boa noite” recíproco e eu fui comentar com a irmãzinha o “estranho” e quase inacreditável telefonema, ponderando: - Caramba! O prefeito tem tanto secretário, assessor e puxa-sacos e ele mesmo faz essa convocação. Ah! Tô lisonjeado. Brinquei...
Bom, audiência pública é instrumento democrático de participação popular e um dos seus principais instrumentos é a oralidade. É quando executivo e legislativo ficam frente a frente com o eleitor reivindicante. Por isso que detentores de mandato nesse momento se escondem. Não aparecem. É que uma boa parte deles depois de eleitos costumam fugir  do povo como o diabo foge da água benta. Lá na audiência do IESP só dois vereadores apareceram, o presidente da Câmara e outro que está no primeiro mandato (ainda não exala o mau cheiro dos políticos profissionais).
O telefonema do prefeito pode até ser marketing pessoal, se for o alcaide vai economizar, e muito, dos R$ 2.400.000,00 previstos na LDO como despesa de ENCARGOS COM PUBLICIDADE DO PODER EXECUTIVO para o ano 2015, já que não vai precisar pagar marqueteiro, e além do mais, boa imagem se faz com trabalho e isso, felizmente, já é visível no município. Amém! O gesto do prefeito, também, é um “upgrade” na nova funcionalidade da gestão. Manter linha direta com pessoas do povo funciona como um catalisador de humanização. O Zé Mané que atende a ligação tende a se sentir o tal..., e isso é bom.
Na audiência, os dois minutos que me foi permitido falar, eu usei quase todo para fazer esta reivindicação que está neste ofício:
CONSELHO MUNICIPAL DOS DIREITOS DA PESSOA IDOSA
LEI 112/2013
MARITUBA - PARÁ

Ofício nº 002/2014
Ilustríssimo Sr. Mário Filho
Prefeito Municipal de Marituba

Eu, Orlando Mescouto Ramos, Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa no município de Marituba, sirvo-me do presente para, valendo-me do Artigo 3º da Lei 10.741 – Estatuto do Idoso, que diz:  Dentre outros atores que é obrigação do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, direito ao trabalho. Reforçado no parágrafo único do capítulo VI, artigo 27. Textuais: “o primeiro critério de desempate em concurso público é a idade, dando-se preferência ao de idade mais elevada”. Dito isto venho solicitar a Vossa Excelência a recondução ao quadro funcional da Prefeitura desse município, do Sr. HENRIQUE PENICHE BARBOSA, 62 anos, que há cinco anos era funcionário da Prefeitura, trabalhando na função de vigia e ultimamente exercia essa atividade no colégio Santa Tereza D’Ávila, tendo como agravante o fato de ter sido contratado, para substituí-lo, funcionários mais jovens.
Em anexo, cópia dos documentos  do referido ex-funcionário.
Certo de que a solicitação será atendida, fique com meus votos de estima e consideração.
Marituba,  17 de julho de 2014.
____________________________________
Orlando Mescouto Ramos
O diplomata americano Henry Kissinger dizia que noventa por cento dos políticos dão aos dez por cento exemplos de péssima reputação. Entristece-nos esta constatação. Ainda não sei o resultado desta minha solicitação, mas o fato  de um idoso, com 62 anos que não cometeu falhas graves, há cinco anos na mesma função, trabalhando no mesmo emprego, ser demitido para a vaga ser ocupada por funcionário mais jovem (provavelmente pagamento de favores políticos) é a confirmação de que a velha prática de fazer política continua metendo um pé na bunda dos gestos nobres e bem intencionados. Infelizmente...


















sexta-feira, 4 de julho de 2014

FILHO, SEGUE TEU TRILHO, QUE O ESTADO TE ABENÇOE...

Último momento. A foto da turma após uma dinâmica. O André Franzini é o camisa preta na fila dos agachados.
O politicamente correto hoje aqui no GIGANTÃO PELA PRÓPRIA NATUREZA é falar bem de índio, mesmo daqueles que falam dois ou mais idiomas e só andam com filmadora a tiracolo e têm sky na aldeia, dizer sim para o estatuto da criança e do adolescente batendo palmas para o SINASE, não virar a cara quando ver duas mulheres se beijando na boca ou homens (?) fazendo juras de amor, fazer campanha para retirada dos símbolos sagrados catolicismo (imagem do crucifixo, ex.) dos tribunais alegando a laicidade do Estado, e tem a questão do negro, bolsa família, etc.
Eu sou negro e velho, logo, tenho que ter muito cuidado quando assumo uma posição contrária à maioria. Quando isso acontece sou olhado como se eu fosse uma jiboia de biquíni que rebolativamente começa uma sessão de strip-tease. Por pena, ou respeito, as pessoas do grupo onde estou me poupam. Tá. Mas hoje, 03/07, eu passei por um massacre. Uma derrota acachapante. Não sei bem quantos éramos, mas certamente que o grupo tinha aproximadamente 30 pessoas e participávamos de uma oficina que visava minudenciar o SINASE – Sistema Nacional do Atendimento Socioeducativo – Lei 12.594, e a exposição era feita por um dos luminares do assunto no Brasil e que ajudou na elaboração da Lei, o ítalo-brasileiro boa praça André Francini,  que presta consultoria à prefeitura de Marituba. A plateia era predominantemente composta de mulheres assistentes sociais, pedagogas, psicólogas e conselheiros. Homens? Só cinco, aliás, só quatro: três homens e um velho, no caso eu, e mais o preletor e um psicólogo.
Sala com ar condicionado perfeito, merenda farta e saborosa e um explicador muito, muito competente. Domina o assunto. Não é norma, mas nessas situações para os atentos aprendizes o sim é incontestável. Então. É nesses momentos que eu lembro Nelson Rodrigues. Ele cunhou a frase: “toda unanimidade é burra”. Provoquei:
- O Estado entrou tão forte nas famílias que agora não podemos criar nossos filhos segundo a nossa vontade. São tantas as leis e estatutos que a gente só faz o que o estado quer... Hum! Sofri um mas-sa-cre. Uma desqualificação branca. Os argumentos  foram reforçados com exemplos da "presença" do Estado na vida (bpc, acs, estatuto do idoso, até o Contran entrou na lista...) e não nas famílias como eu perguntei, deixaram-me mais mudo do que a Múmia de Ramsés. Também pudera. Perdi de 30 a 1. Mas será que foi uma derrota mesmo assim esmagadora?
Sabe jumento velho quando empaca que nem fogo debaixo da barriga o tira do lugar? Às vezes eu sou assim, teimoso. Mas a pergunta que eu fiz, na realidade, foi essa: 1 “se as  políticas convencionais de direitos humanos são hipocrisias políticas  institucionalizadas utópicas?”. A avalanche de argumentos factuais como resposta tomou mais de quinze minutos (exatos 18 minutos) da palestra/aula. E eu? Claro, sou teimoso, mas não sou tão burro, logo, calei-me. Detalhe: o professor/palestrante foi ajudado por algumas das escutantes da plateia.
Um dia antes, numa fila  da lotérica eu escutei duas pessoas conversando, transcrevo aqui: “pois é vizinho! Porque a senhora não quis dá o bombom o menino que devia ter uns três anos, mas era todo gordinho, deu uma tapa tão forte na cara da mãe dele que ela lagrimou. Senti que ela ficou com vergonha...” O senhorzinho contra argumentou, com gestos fortes e uma cara de raiva: “ eu tenho um filho de oito anos e digo mesmo pra ele, o dia que eu não puder mais contigo eu te meto uma bala na cabeça. E ele tem medo de mim...”A dúvida é: Qual dos dois está errado, a que cumpre a lei ou o que descumpre? Ou será eu ambos estão certos?
Um político mineiro que em votações complicadas sempre ficava em cima do muro e ainda argumentava que não era “contra nem a favor  muito pelo contrário...”  Pois sim, eu às vezes sou até  inconsequente no que digo, mas prefiro-me assim do que  ter problemas de refluxo com aquilo que ficou entalado na garganta por medo de falar. Dou sim, minhas opiniões. Sofro reveses, mas eles (os reveses) me fazem bem. Aprendo. E aprendo muito.
Lei da palmada, proíbe pais infligirem qualquer ação que resulte em sofrimento com suposta intenção de educar;  
ECA, conjunto de normas do ordenamento jurídico brasileiro que tem como objetivo a proteção integral da criança e do adolescente;
Sinase, regulamenta a execução das medidas socioeducativas destinadas a adolescentes que praticam ato infracional.
Bom, a mãe apanha uma tapa do filho que não pode devolver porque o Estado a proíbe; o “de menor” mete uma bala na cabeça no momento que rouba o celular,  só porque a vítima olhou-o no rosto, e é protegido pelo Estado (sob a tutela do Estado o amizade não é bandido e nem mais menor infrator é um “socioeducando”); jovens e até crianças se envolvem mais cedo e mais rapidamente na criminalidade em comparação com algumas décadas atrás, quando não era só palmada mas cinturãozada, rimpada, cipoada com galho de goiabeira (um conselheiro tutelar anda com uma borracha pregada num pau para ilustrar as palestras dele, que foi mostrada  para ajudar me desqualificar e uma lamparina. Não entendi o por quê da lamparina). Eu sei que o super André Franzini não vai perder tempo lendo as baboseiras que eu escrevo aqui. Mas, para encerrar,  eu vou fazer mais perguntas.
Pergunta 2 (a 1 está lá em cima): Será que os ideólogos/humanistas/esquerdistas não estão querendo a todo custo anular o conceito de submissão de autoridade dos pais para submetê-los (filhos) ao domínio do Estado?
Pergunta 3: Será que esses atores não estão ansiando tornar a família um laboratório de pesquisa para psicopatias ideológicas com a intenção de implantar na sociedade uma consciência anestesiada incapaz de reagir às intromissões do Estado em assuntos privados (lembrar Hitler)?
Ultima pergunta, a 4:
Será que não é hora da sociedade brasileira reagir ao esvaziamento da autoridade dos pais antes que venha uma lei que decrete a total impossibilidade deles (pais) impor disciplina aos filhos?
Bom, irmãozinhos, é assim que eu penso...Quem concordar, maravilha,  Vá Fá I. Quem não concordar, paciência, Vá Fá II...

quinta-feira, 26 de junho de 2014

SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO HOMENAGEADO

Rindo, sorrindo, ou apenas mostrando os belos dentes, no cartaz gigante todos mostram só a felicidade que sentem quando são fotografados
              Em 2009, quando o prefeito eleito nas eleições de 2008 foi empossado, Marituba parecia ressurgir. O prefeitão  que largava o osso depois de oito anos, (dois mandatos)  vivia mergulhado até o pescoço em denúncias de corrupção. Roubalheira. Roubalheira. Roubalheira.
             Na base da pirâmide dos expert em canalhice roubar é o verbo que os vigaristas aprendem conjugar desde criança. Honestidade vem de berço, mas essas criaturas hediondas parece que foram criadas em balaios ou cocheiras. Não sabem ser honestas. Tem um detalhe que só a sociologia da corrupção deve explicar, é que muitas vezes alguns nasceram em famílias ricas, mas o DNA parece que  já veio deformado, ou deteriora-se, na hora que o pirralho escapole do bojo onde ficou curtindo a terrível espera, antes de pular fora e respirar o cheiro da turma da qual vai herdar as manhas e mumunhas. A chegada de mais   um seteunzinho é sempre motivo de festa, é a certeza que o sobrenome da família vai continuar em evidência. Eles. Todos eles, políticos profissionais, fazem dos filhos seus continuadores, logo, quando que corrupção vai acabar? Nunca! Nunquinha da silva...
               Quando o alcaide maritubano eleito em 2008 assumiu, menos de seis meses depois ele já estava “ganhando prêmios” nacionais. Dentre tantas “premiações” teve o “Destaque Brasil” (recebido em Santa Catarina). Seria cômico se não fosse trágico, mas tem outro desses “prêmios” que é difícil de esquecer, se não me engano em 2011, que foi o de  prefeito luz. Pô! Prefeito luz. Isso significa sabe o quê? Não sei. Aliás, só mesmo a assessoria de imprensa e comunicação do chefe da época tem a explicação. Mas o homem fez até declarações de amor à esposa  em grandes e vistosos outdoors espalhados pela beirada da BR. Bom, isso é passado (graças a Deus). Mas vieram outros, e cada um que passou deixou a sua marca registrada em propaganda visual do modelo pôster ou cartaz gigante. Muito bem.
                 Pôster ou cartaz gigante. Foi assim que o prefeito atual foi homenageado agora no dia 19 de maio passado. Deve ter sido data do seu aniversário. Lá estava escrito: “Parabéns Mário Filho, 19 de maio”, e a citação bíblica Feliz a nação cujo Deus é o Senhor (Salmo 33,12)- “homenagem vereador RAÍ”. Ponto.  Na foto o homenageado está sorridente. Feliz da vida. Merece. Afinal o homem lutou, lutou, lutou e chegou lá. É prefeito. Os homenageadores também são os de sempre e não são bajuladores. Faz parte do processo. Todos que ocuparam a cadeira mais cobiçada do município (sete em dois anos) foram agraciados com tais honrarias. Segundo o historiador francês Marc Bloch prestar homenagem é vassalagem, que significa submissão daquele que presta a homenagem,  mas este é um conceito da idade média e naquele tempo não eram cartazes ou placas gigantes. Eram atos práticos, lúdicos e românticos. Mais ou menos assim: o adulador ajoelhava-se aos pés do adulado, pronunciava umas palavras, e pra simbolizar o acordo e a amizade entre os dois,  beijavam-se na boca. Isso mesmo, na bo-qui-nha ..Argh! Pior, na época não tinham os cremes dental. Listerine? Nem pensar.
                Isso foi na época feudal, lá pelo século XIII, mais ou menos. Magine. O prefeito atual além da vassalagem natural que o cerca, ele ainda por cima é evangélico. Hum! Fosse igual como naqueles tempos de antanho o coitado já não tinha mais saliva.
 Acho até, que não tinha mais nem beiços...

terça-feira, 3 de junho de 2014

A NOSSA SENHORA DOS ESPINHOS, O VATICANO E O JOSÉ DE ANCHIETA SANTO

À esquerda, figura perfeita: o olhar de ódio do silvícola na direção do padre santo. À direita, nus com os pintos livres, soltos e felizes mas, para a igreja, pecadores.

        Nossa Senhora dos Espinhos (Bragança), São Miguel dos Macacos (Baixo Amazonas), Santo Antônio das Panelas (Oriximiná), São João do Furo (São Miguel do Guamá), São Benedito de Urupé (Marajó). Esses são nomes de “santos” agregados a vilarejos e seus respectivos municípios/sede, aqui no Pará. São os primos pobres da Nossa Senhora de Guadalupe, São Francisco de Assis, Santiago de Compostela (México, Itália e Espanha, respecivamente).
Pois é. Antigamente, santos eram figuras míticas da fé cristã, pessoas de conduta e virtudes ímpares, capazes de se submeter às mais terríveis provações em nome da religião que professavam. Depois de mortas e já candidatas à santidade, eram responsáveis por milagres e feitos extraordinários. Com essas exigências, ser santo era uma meta quase inatingível para seres humanos normais, repletos de defeitos e fraquezas e expostos às tentações e ao pecado.
O Papa João Paulo II foi o recordista absoluto na fabricação de Santos. Fez Santo por atacado. Ao todo canonizou mais de 400 (447, exatamente). Duma tacada só proclamou 120, que segundo ele descobriu, foram cristãos martirizados na China, no período de 1648 a 1930. Detalhe, durante os 22 anos que ele reinou no comando da Igreja Católica, foram promovidas mais de 1000 (exatas 1052) beatificações, que é o penúltimo, ou ultimo (não sei bem direito) estágio para o coroamento da santidade.
Pois bem, mas, e o José de Anchieta, Santo, não é demais? Eu acho que a mão pesada do favorecimento papal pesou em favor do seu Zezinho Anchieta.
 Se não vejamos: uma das regras para a santificação é ter, pelo menos, dois milagres comprovados. Nunca ouvi falar de  nenhum milagre anchietano. O que se sabe, e não precisa ser historiador, é que todos que vieram nas canoas da portuguesada, chegaram aqui na terra brasilis, a serviço da coroa portuguesa,  e religiosos, como o Anchieta, tinham como função específica a missionaridade de catequização, conversão e civilização da turma de cabelos lisos, que andavam pelados, e eram os únicos moradores da terra invadida e apelidada de “Santa Cruz”. Os métodos tradicionais conhecidos hoje, com perguntas feitas pelo catequista, ex. “quem é Deus?” certamente que não existiam. É mais provável que o primeiro beabá da lição era: “Matai vosso Tupã”. O hoje, santo Anchieta, não morria de amores pelos índios tanto que numa carta enviada aos patrões  ele trata os tupinambás como inimigos carniceiros, e se alegra com a estratégia de, aproveitando-se quizila que reinava entre os índios, os franceses e portugueses ele conseguiu fazer os nativos lutarem entre si. Um trecho da carta diz:
 “E foi coisa maravilhosa que se achavam e encontravam a flechadas irmãos com irmãos, primos com primos, sobrinhos com tios e mais ainda dois filhos que eram cristãos e estavam do nosso lado contra seu pai que estava contra nós”.
Outro trecho de um poema do Zé Anchieta, dedicado ao governador Mem de Sá, referindo-se aos índios que ele combateu:
 “para este gênero de gente não há melhor pregação do que o ferro e a espada”.
E mais:
“Lá os índios são“lobos vorazes, furiosos cães e cruéis leões que nutriam o ávido ventre com carnes humanas”. Estes índios “selvagens e animalescos” abandonaram Deus e precisavam ser catequizados para escaparem “das garras de Satanás”.
Garras do satanás. Hum, hum...
Mas  a raiva do Anchieta não deixa de ter uma razão, pô! No meio das bugigangas que os índios recebiam não estavam só espelhos, fósforo, apito, não! Tinham escapulários, que eles inocentemente penduravam nos pescoços dos macacos, cotias, veados e tatus que eram criados nos terreiros das ocas. Bom, pelo menos, o caçula dos santos latino não é do pau oco, já que foi canonizado, diferente da  Nossa Senhora dos Espinhos, São Miguel dos Macacos, Santo Antônio das Panelas, São João do Furo e do São Benedito de Urupé. Os coitadinhos estão orgulhosos achando que ganharam, com a santificação do Anchieta, um parceiro. Tadinhos...
Devo estar cometendo uma heresia,  mas,  acho que interesses geopolíticos fizeram  o Anchieta santo, só pode. Na minha modesta e pirenta opinião, o Papa Francisco deu uma bola fora. Pisou feio no tomate. Para este santo, nem altar. Nem andor. Não! Não mesmo...!!!
O Conselho Indigenista Missionário órgão ligado a CNBB, produziu esse documento, em 1979, numa assembleia geral realizada em Goiânia:
“Reconhecendo os erros que cometemos como Igreja na nossa atuação missionária junto aos povos indígenas, pedimos perdão a eles e a Deus”.
E mais, o CIMI se comprometeu mudar a prática e respeitar as religiões indígenas, inclusive, assumindo os mitos e a vida religiosa, através dos quais cada povo recebe a Revelação de Deus.
É, os supapuaçus, os morubichabas, os  anuari, que morreram pelas atrocidades da cambada invasora, da qual fazia parte o novo santo, o Anchieta, devem estar encarando o Tupã, e com certeza, dizendo em tom ameaçador:
- Ah, esse santo qué reza. Ah qué! I si ele qué, ele vai tê...

quarta-feira, 14 de maio de 2014

DESPENCAMENTOS - O DNA DO ENVELHECIMENTO

Greta Garbo, linda para a eternidade. Será que valeu a
pena?
Gravidade. O nome do filme vencedor do Oscar 2014 fez-me lembrar os tempos idos, vividos lá na colônia chicano, lugar onde nasci. Lugarejo que parecia um quilombo, haja vista que mais de noventa por cento da população nativa era negra, e o acesso pra chegar lá era só de canoas. Os rios funcionavam como avenidas, os igarapés como travessas e os “furos” eram as passagens e alamedas. Sendo que esses últimos –“furos”- só tinham serventia quando a maré estava alta, o que possibilitava passar nas canoas de um rio a outro.
 O título do filme, gravidade, trouxe as recordações  de como desafiávamos essa  lei. Quando subíamos nos açaizeiros e descíamos em velocidade, segurando, muitas vezes, mais de dois cachos de açaí que  era quase o dobro do nosso peso. Éramos crianças, e leves, por isso e porque as árvores eram quase sempre fininhas,  o perigo de quebra era iminente. Eu mesmo levei uma queda horrível. A Árvore quebrou comigo no momento que eu descia com um enorme cacho de açaí, e na queda fiquei com a cara atolada no tijuco da beira do rio, só não me finei porque o meu anjo da guarda estava no plantão naquele dia. E os banhos na maré? Tomávamos distância e nos atirávamos de cabeça no rio a uma altura de mais de quinze metros.
Muito pano de chão já foi toalha de mesa.
Tenho 65 anos de idade e estou mais do que esculhambado. Caidaço  mesmo. Mas fiquei muito surpreso quando me encontrei com a Rosa. Dez anos mais nova que eu. Tentei namorá-la quando éramos jovens. Na realidade, eu fui um franco atirador. Muito bela a Rosa certamente que não ia me querer nunca. Eu, muito feio, era justamente o oposto do perfil da bela Rosa. Nasci feio e com o passar dos tempos essa feiura só fez se acentuar mais. Bom, o certo é que o tempo passou, nossos destinos tomaram rumos diferentes, e o reencontro, Orlando x Rosa, deu-se ao acaso, num ajuntamento de idosos em baile da terceira idade, agora esses tempos, mais de quarenta anos depois que um pretencioso Orlando tentou incursionar nos sentimentos da bela Rosa.
 Bochechas, lóbulos das orelhas, peles do antebraço, ventre, mamas, papada embaixo do queixo, sobrancelhas, e bunda. Tudo, tudo arriado. As pernas, outrora tão lindas, estão deformadas por veias que mais parecem esculpidas em alto relevo. Varizes. Um espectro. Até os lábios parece que ficaram maiores e pesadões. Assim está a Rosa. E eu? Por ser negro e praticar esportes (natação e corrida de rua) estou bem mais inteiro, mas também, feiudão, claro.
Na época que eu fui preterido (na verdade esnobado), a bela Rosa vivia aquela primeira fase –18/25 anos- quando a mulher só casa-se com o homem que aparece em um transatlântico cheio de diamantes. Ela olha de cima e diz: “quem eu quiser”; na segunda fase -25/30 anos- ela já aceita um que venha num navio carregado com  meia carga de ouro, e a frase já muda, no caso: “quem me com vier”; de 30 anos para mais, já é a terceira fase, aí ela, já no desespero, acolhe com carinho e gosto, um caboclinho que venha numa canoa movida a remo carregada de palha de açaí, e a frase é: “quem vier...”.
O fato é que, brincadeiras a parte, de todos os ciclos da vida, a velhice é um naufrágio catastrófico, especialmente para as pessoas (principalmente as mulheres) que têm um excessivo apreço por si mesma, quando se refere a própria imagem, o que acaba implicando num narcisismo as avessas, que é a fuga pra longe do espelho quando o envelhecimento chega.
Um conselho: tem um jeito de não ver-se e nem mostrar os efeitos devastadores que a velhice trás, é só fazer o que fez a Greta Garbo, atriz sueca considerada a mais linda mulher do século passado, que se tornou reclusa em pleno verdor da existência, aos 40 anos. Escondeu-se do mundo, viveu só, até morrer com mais de 80 anos, sem que ninguém contemplasse sua decadência física.
Ser velho é ser feio, principalmente se for um velho neurastênico, chato e insuportável. Como eu.

Eh eh eh eh...
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