Ética, Respeito e Humanização. Sonhos impossíveis na política?
Na Grécia Antiga,
período que vai de 1.100 ao ano 146 a.C., o
maior castigo que se podia impor a um ser humano, como pena a ser
cumprida, não eram castigos físicos e nem pena de morte. Era o isolamento. O
desterro. Era impedir o apenado de se comunicar com outras pessoas. E a
comunicação entre criaturas é tão importante quanto comer e beber. A incomunicabilidade é capaz de nos levar à morte. O homem se revela pelo que fala, pelo que escuta, e até
pelo que lê. Logo, falar, escutar e ler pode ser terapêutico. A palavra certa
dita no momento certo pode curar; mas
também a palavra errada, no caso, ofensiva, e dita na hora errada pode adoecer,
quem sabe até, matar. Não pode haver
forma mais eficiente de se aproximar do semelhante do que pelo exercício da palavra. Relacionar-se pelo exercício da
palavra é uma chance preciosa de crescimento. É a vitrine que expõe de verdade
quem você é para si e para os outros. Tá.
No dia 17/07/2014
aconteceu no auditório do IESP, aqui em Marituba, uma audiência pública. Era o
executivo municipal fazendo um demonstrativo da LDO – Lei de Diretrizes
Orçamentárias – para o exercício de 2015 (foi o que eu entendi). Mas o
inusitado não foi a audiência, e sim, o que aconteceu na véspera. Eram
quase dez horas da noite o telefone em
casa tocou, a minha mulher atendeu, me passou o aparelho e deu-se o seguinte diálogo:
- Alô, é seu
Orlando?
- Sim. Sou eu, quem
fala?
- Seu Orlando, aqui
é o Mário...
- Que Mário?
- Mário Filho, seu
Orlando.
- Mário Filho, o
prefeito?
- Sim, seu Orlando.
- Bom, tô surpreso.
A que devo a honra?
- Seu Orlando amanhã
tem uma audiência pública lá no IESP e eu queria o senhor lá representando o
Conselho do idoso...
Despedimo-nos com um
“boa noite” recíproco e eu fui comentar com a irmãzinha o “estranho” e quase inacreditável telefonema,
ponderando: - Caramba! O prefeito tem tanto secretário, assessor e puxa-sacos e
ele mesmo faz essa convocação. Ah! Tô lisonjeado. Brinquei...
Bom, audiência pública é instrumento democrático de
participação popular e um dos seus principais instrumentos é a oralidade. É quando
executivo e legislativo ficam frente a frente com o eleitor reivindicante. Por isso que detentores
de mandato nesse momento se escondem. Não aparecem. É que uma boa parte deles
depois de eleitos costumam fugir do povo
como o diabo foge da água benta. Lá na audiência do IESP só dois vereadores
apareceram, o presidente da Câmara e outro que está no primeiro mandato (ainda
não exala o mau cheiro dos políticos profissionais).
O telefonema do prefeito pode até ser marketing pessoal, se
for o alcaide vai economizar, e muito, dos R$ 2.400.000,00 previstos na LDO
como despesa de ENCARGOS COM PUBLICIDADE DO PODER EXECUTIVO para o ano 2015, já
que não vai precisar pagar marqueteiro, e além do mais, boa imagem se faz com
trabalho e isso, felizmente, já é visível no município. Amém! O gesto do
prefeito, também, é um “upgrade” na
nova funcionalidade da gestão. Manter linha direta com pessoas do povo funciona
como um catalisador de humanização. O Zé
Mané que atende a ligação tende a se sentir
o tal..., e isso é bom.
Na audiência, os dois minutos que me foi permitido falar, eu usei quase todo para fazer esta reivindicação que está neste ofício:
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LEI 112/2013
MARITUBA - PARÁ
Ofício nº
002/2014
Ilustríssimo
Sr. Mário Filho
Prefeito
Municipal de Marituba
Eu,
Orlando Mescouto Ramos, Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da
Pessoa Idosa no município de Marituba, sirvo-me do presente para,
valendo-me do Artigo 3º da Lei 10.741 – Estatuto do Idoso, que diz: Dentre outros atores que é obrigação do
poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, direito ao
trabalho. Reforçado no parágrafo único do capítulo VI, artigo 27. Textuais:
“o primeiro critério de desempate em concurso público é a idade, dando-se
preferência ao de idade mais elevada”. Dito isto venho solicitar a Vossa
Excelência a recondução ao quadro funcional da Prefeitura desse município,
do Sr. HENRIQUE PENICHE BARBOSA, 62 anos, que há cinco anos era
funcionário da Prefeitura, trabalhando na função de vigia e ultimamente
exercia essa atividade no colégio Santa Tereza D’Ávila, tendo como
agravante o fato de ter sido contratado, para substituí-lo, funcionários
mais jovens.
Em
anexo, cópia dos documentos do
referido ex-funcionário.
Certo de que a solicitação será
atendida, fique com meus votos de estima e consideração.
Marituba, 17 de julho de 2014.
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Orlando
Mescouto Ramos
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O diplomata americano Henry Kissinger dizia que noventa por cento dos políticos dão aos dez por cento exemplos de péssima reputação. Entristece-nos esta constatação. Ainda não sei o resultado desta minha solicitação, mas o fato de um idoso, com 62 anos que não cometeu falhas graves, há cinco anos na mesma função, trabalhando no mesmo emprego, ser demitido para a vaga ser ocupada por funcionário mais jovem (provavelmente pagamento de favores políticos) é a confirmação de que a velha prática de fazer política continua metendo um pé na bunda dos gestos nobres e bem intencionados. Infelizmente...


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