Dia 12 de
outubro, dia das crianças, é comum os mais velhos recordarem as peripécias,
engraçadas ou não, dos tempos da infância. E esse ano de 2014 o dia dos miúdos
coincidiu com o círio de Nazaré e da Padroeira do Brasil Nossa Senhora
Aparecida, aí foi uma trilogia
festiva.
Na casa da
dona Natércia na rua 3 de maio, na cremação; entre garfadas de pato no tucupi,
maniçoba e gargalhadas cada um lembrava e contava proezas e até incidentes que
causaram algum vexame naqueles tempos idos. Memorizei essa que irmãzinha trouxe
contada pela Luci, na época com sete anos: naquele tempo o plástico não era a
embalagem “da hora”. No Ver o Peso,
por exemplo, o peixe era embrulhado em folhas de guarumã, nos açougues o
açougueiro usava um amolador de faca que tinha um furo, aí ele varava a carne,
metia a fibra naquele furo, puxava dava um nó e pronto. A gente levava a carne
pra casa pendurada. E assim caminhava a humanidade. Pois é. Mas a estória de
criança da Luci aconteceu assim:
A dona
Sinamor, a mãe da Luci, fez como todas as donas de casa, um saco comprido
exclusivo para transportar o pão comprado no único local perto de casa, que era
a taberna da dona Mundica. E dos sete irmãos, Pedro, Alípio, Carlos, Lulu,
Chico, Ester e Luci, passavam por um revezamento, ou seja, todos cada um no seu
dia tinha que ir cedo antes do pai, seu Cazuza, sair para o trabalho, lá na
taberna da dona Mundica comprar os barrocos
indispensáveis para o café da manhã. E quem não ia de manhã tinha,
obrigatoriamente, que ir a tarde.
- Eu era a mais chata – conta a
Luci – no meu dia de ir na taberna eu já me deitava com raiva na véspera. Um
dia eu tava escalada pra comprar o pão quentinho das quatro da tarde, mas eu
com raiva não achava, de propósito o saco do pão. Eu já tinha reparado um monte
de roupa bem branquinha na bacia que tinha sido lavada naquele dia. Foi quando
a mamãe deu um berro indicando que o saco tava no meio das roupas lavadas e que
eu tratasse logo de encontrar se não ela ia procurar e esfregar na minha cara.
Como eu sabia que uma ameaçava dela era fatal,
tratei de ir lá na bacia revirei rápido, peguei o “saco”, enrolei na mão e saí com raiva pra taberna. Fiquei na fila. Quando
chegou a minha vez, pedi os cinco pães e o Nilson filho da dona Mundica que
atendia no balcão, mandou eu abrir o saco, quando eu abri, olha o vexame: era
uma ceroula, a cuecona do papai. E o Nilson pra querer ser engraçado ainda
falou bem alto:
- Ei menina! Mas isso é a cueca
do Seu Cazuza.
Foi quando eu
me dei conta de que, com preguiça e com raiva acabei não reparando que no meio
das roupas eu tinha tirado justamente a cueca do papai.
Eu, morta de
vergonha, disparei, parti na carreira batendo todos os recordes de velocidade, entrei
em casa chorando. Na minha cabeça eu ouvia as risadas das pessoas que estavam na fila. A mamãe correu preocupada
com a minha choradeira. Quando eu consegui contar o que tinha acontecido, ela
deu-me duas lambadas com um cinto que ela já tinha lá pendurado na parede só
pra essas emergências. Acabou sobrando pra um dos meninos que eu nem lembro
quem foi comprar o pão naquela tarde. Meu Deus! Até hoje o meu estado emocional
se abala quando eu lembro...
Só não me
mudei de bairro porque não tínhamos nem um parente onde eu pudesse me abrigar e
mesmo a mamãe e o papai jamais permitiriam que eu, menina ainda, fosse morar
com outra família. Como eu já não gostava de ir na taberna da dona Mundica, por
um bom tempo eu não fui mais. Na verdade nem na rua eu queria sair...



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