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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Jesus, meu Deus! Que cor tu tens?


“Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’strela
tu t’escondes,
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás Senhor Deus? “    (Castro Alves-1868)

Quem me dá a honra de ler estes textos deve pensar: ele sempre bate na mesma tecla, vire e mexe o assunto é racismo e a questão da velhice, ou envelhecimento, com todas as agruras que essas duas coisas trazem de forma intrínseca à quem o é ou vive essa circunstância.
Bom, quem é velho vive ocasionalmente essa condição que logo, logo a morte chega e com ela tudo acaba. Com o negro é diferente, porque ele sempre foi negro e a negritude trás sofrimento que junto com a velhice, digamos, o sofrimento é dobrado.
Um dia desses no  Detran, a médica especialista em medicina do trânsito, que submeteu-me aos testes da saúde para revisar minha carteira é negra. Negra mesmo. Tivemos uma conversa cheia de informalidade a ponto de eu perguntar se durante a vida dela (tem 60 anos) alguma vez tinha sido vítima de racismo. A resposta foi não. Eu não me admirei com a resposta. Preto é assim mesmo, quando sobe dois degraus na vida ele passa a achar que os outros negros sofrem de analgesia congênita, ou seja, não sentem dor, e isso não é uma característica do negro brasileiro.
Andando pelas estradas da vida tive a oportunidade de conhecer as ex-colônias de França, Holanda e Inglaterra, (Guiana Francesa, Suriname, Martinica, Guadalupe) e Haiti. São espécies de mini países cujas populações nativas são cem por cento negras. Na realidade foi a primeira vez que eu vi um negro dirigindo um automóvel Mercedes sendo ele o dono do carro e não apenas motorista. Foi por lá também que eu constatei que pouca coisa mudou da época que negro caçava e prendia negros para vender como escravos; que negros escravos em troca de alguns privilégios se transformavam em capitães do mato, caçadores de escravos foragidos. Por lá ainda existe – e muito – negro sendo escravizado por outro negro.
Tenho um parente próximo que é negro puro, africano, e que nos tempos de vaca magra quando morava na casa da minha mãe um dia, ao ver passar ricaços nos seus carrões em frente onde morávamos, na estrada da Pirelly, falou-me assim:
- olha Jambu, esses quando nasceram Deus estava olhando pra eles.
 Um tempo depois, já com o burro na sombra, no enfrentamento com um vizinho que enchia o saco, vociferou:
- Pôrra! Por isso que eu tenho raiva de pobre.
Hoje, alto executivo em uma estatal de mineração angolana, vem duas vezes por ano em Belém onde plantou profundas raízes familiares, nessas ocasiões costumamos bater sempre longos papos e foi num momento desses que eu perguntei, - até lembrando que quando o Pelé, já milionário, fez o milésimo gol ele gentilmente dedicou as crianças pobres do Brasil – a maioria negra, deve ter se alimentado bem naquela época. Bom a pergunta foi a seguinte:
- Por que negro rico parece detestar negro pobre?
A resposta foi quase uma dissertação, que no final confirma minha afirmação e isso é histórico. O Zumbi que é cultuado por nós, negros, como herói, o mais inteligente estrategista que liderou o quilombo dos Palmares, como comandante em chefe, também tinha escravos e mandava matar os rebelados. Em 1804 o Haiti se tornou a 1ª República Negra do mundo, de lá para cá dá um passo a frente e dois, três para trás. A fome, a doença, a miséria, parecem se perpetuar naquele país, onde o maior símbolo de resistência, espaço social e cultural do país é o vodu, sistema misto de magia negra e branca, religião primitiva que predomina em todos os 38 países da África Negra – que vivem se matando em guerras tribais –, guerras e conflitos que gera desgraça, que gera fome, que gera miséria.
Ditadores cruéis como Haile Salassié (Etiópia), Bokassa (República Centro Africana), Mobutu (Congo), Idi Amin (Uganda) e o Papa Doc e Baby Doc (Pai e filho) esses dois do Haiti; criaturas hediondas que juntas mataram mais de 5.000.000 de outros negros. Mas existem também negros presidentes “bonzinhos” em países africanos que, democraticamente, a custa de esquemas corruptos, são eleitos e reeleitos, se perpetuam no poder numa ditadura disfarçada. Esses também matam, mas recebem aplausos internacionais porque não são ditadores, isto é, não comem carne humana... Em 1830 o americano Joseph Smith fundou os Mórmons, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, colocou lá no livro “sagrado” deles que um anjo (com certeza o coitado não conhecia as coisas da terra) entre outras coisas, falou-lhe o seguinte: “você vê alguns grupos de família humana que são negros, desajeitados, feios, desagradáveis e baixos em seus costumes, selvagens e aparentemente sem a benção da inteligência que é normalmente dada à humanidade...”.
O anjo que o deus racista do Smith mandou era só um porta-voz, tanto que até bem pouco tempo atrás os catadores de fiéis dessa organização religiosa andavam em dupla, sempre dois americaninhos branquinhos de pasta na mão faziam a “praça”. Hoje mudou, já vem um pretinho compondo o dueto.
Mas, e os negros elevados a condição de elite, porque não mudam em relação aos outros negros, colocando um braço social de inclusão, lutando por melhorias que facilite, que abra mais oportunidades, ou que pelo menos, passe pelo negro ferrado e não o torne mais invisível.
Um sorriso, um aceno, um bom dia. O negro pobre, casca grossa, pé no chão, com certeza sorrirá feliz, achando que quando nasceu “Deus estava me olhando...” 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Tenho fome, meu voto é seu.

Estive nos dias 11 e 12/08/2012 na cidade de São João dos Patos, interior do Maranhão, em encontro de leigos que atuam como agentes pastorais da igreja católica, a serviço da Congregação das Irmãs de São José. Entidade religiosa que atua em todo Brasil e em mais de 55 países. É a segunda vez que participo desse encontro, e para a enorme tristeza viajei sem a companheira, cúmplice dos momentos felizes e tristes da nossa caminhada de mais de oito anos, minha mulher Nazaré. A irmãzinha, como eu gosto de tratá-la.

O suplício do viajante começa pela estação rodoviária de Belém onde uma quadrilha do setor de bilhetagem da empresa de transportes Guanabara, vendeu-me, por R$ 20,00, o passe gratuito destinado ao idoso. A eficiente intervenção do funcionário da ANTT, acionado por mim, reverteu a situação. Os espertinhos funcionários devolveram os meus vintinhos. Bem feito. Não quis nem fazer a ocorrência por escrito. Livrei a cara dos malandros. Não sei se fiz o certo.
Essas viagens são verdadeiros périplos. Ao descer do ônibus, doze horas depois de sair de Belém, fica-se no terminal do Peritoró onde a gente paga 1,00 para dar uma mijadinha, a característica principal das cidades que ficam no trajeto de Peritoró a São João dos Patos é o desconforto e a imundície dos banheiros.
 Mas é isso aí, nesses casos os fins justificam os meios. Finalmente cheguei ao destino final da minha viagem, São João dos Patos. Fui acolhido por uma família, que é confirmação de que a Comunhão é a realidade mais profunda, ela unge, dá sentido e razão ao que somos, é essa a causa do existir do amor, da benquerença, da amizade, da doação entre os humanos. Éramos três pessoas na mesma casa e não nos faltaram atenção e carinho em nenhum momento. ISA E TANIÇON, o casal que nos acolheu vão ficar perenes e indeléveis no meu coração.
 Missão cumprida. O retorno. No domingo a noite comecei voltar para casa. São cinco horas de viagem de São João dos Patos a Peritoró. Tudo igualzinho. O diferente é que quando o coletivo chegou à cidade de São Domingo tinha um comício político do candidato a prefeito, olhe o nome, Tratorzão. Incrível! Nada mudou. A relação entre o coronelismo antigo com o atual está na forma, hoje esses senhores não rasgam mais uma cédula no meio para entregar a outra metade depois da confirmação do voto – o lendário voto de cabresto – os tratorzões da vida exploram a miséria do povo.
A quantia de gente nas ruas da cidade impediu a passagem do ônibus, que não conseguiu chegar à estação rodoviária. Um emissário foi enviado com recado aos passageiros que tiveram de carregar as bagagens na cabeça para ir ao encontro do coletivo. E o povaréu? Ah, os políticos aproveitadores sabem que a nossa composição social é uma polifonia de vozes, ideias e sentimentos, embalados em costumes, tradições, culturas regionais e fome. Muita fome. Por isso eles mandam tocar forró e distribuem mingau. Lá em São Domingos o povo andava nas ruas com copos de mingau na mão e pratinhos plásticos. Comiam, riam alegres. E o mais chocante: um enorme contingente de crianças. Caminhonetes, com dois andares improvisadas, superlotadas e, segundo uma religiosa que viajava no ônibus, aquelas pessoas viajariam umas duas horas naquelas conduções e condições, sem nenhuma segurança, até as comunidades de Viola e Bancos, comendo poeira e tendo como sobremesa cem por cento de risco de vida. Não fiz um registro fotográfico porque quem tem joelho tem medo. É, e eu tenho dois, logo...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

POBRE, EIS AÍ O TEU INFERNO


 Pobreza. Segundo os dicionários, estado ou qualidade de pobre, mendigo, pedinte. No popular: ferrado, lascado; aquele que vive coçando o cú com garfo, que tem que viver fritando ovo nas labaredas do inferno. É o meu autorretrato. Assim sou eu. Gosto de pensar. Escrever. Por isso criei neste espaço, aproveitando as facilidades da tecnologia, esta espécie de semanário on line – não me considero um blogueiro , até porque não tenho seguidores e os meus leitores não passam de três (Oh, glória!). Enfim, fiquei mais de um mês sem postar nada porque fui atravessar correndo a Almirante Barroso escapando da chuva, o meu óculos que estava pendurado na blusa caiu e o ônibus passou por cima; a internet que eu tinha era um equipamento emprestado que eu tive que devolver ao dono. Situações vividas só por quem não tem dinheiro. Mesmo sem fazer parte daqueles dezesseis milhões que vivem abaixo da linha da miséria por ter onde morar, engolir as duas mil e quinhentas calorias necessárias do dia-dia e, às vezes, me dou algum lazer, sou pobre. Um liso inveterado. Quando consigo fazer alguma reserva dá, no máximo, para comprar uma cartela de aspirina. É, mas já foi pior. Bem pior.
No ano de 1964, com treze anos, o picolezeiro negrinho, dentes cariados, cheio de pano branco no corpo (que o deixavam esquisitamente malhado), maltrapilho, olhava para dentro de um carro estacionado em frente a um bar onde todos bebiam conversando em voz alta e gargalhando animados. Volante, alavanca, painel de controle, bancos, espelhos, tudo era novidade. E os olhos espichados num êxtase de pura admiração, quase hipnotismo, quando, de repente, o cidadão branco, fortão, prendeu violentamente com a parte dentada de duas tampinhas de garrafa de cerveja as orelhas do indefeso vendedor de picolés que admirava o possante e o afastou para longe, vociferando: ”quer me roubar neguinho filho da puta...”. Chorando e com a orelha sangrando, o negrinho do picolé saiu dali quase correndo, sem nenhum motivo para encarar o futuro com otimismo. Detalhe: a orelha torturada foi a mesma que poucos anos antes, depois de uma traquinagem, tinha levado um aperto tão forte que a unha do polegar da tia castigante trespassou, furou, a ponta da unha varou de um lado para o outro. O certo é que essa orelha, como o próprio dono, nasceu mesmo sem sorte, o ultimo dano que ela sofreu foi causado por uma cacetada dada pela ex-mulher, que num momento de raiva pura, bateu tão forte que o lóbulo arriou. Foi costurado no pronto socorro da cidade nova Vll. Eu acho que essa orelha veio ao mundo de bunda para o sol. Eu acho, já que os sortudos nasceram de bunda para a lua...
O ser humano é um invólucro de pele que acondiciona células, sangues e componentes químicos. Por isso é um resistente especialista em sobrevivência nas situações extremas.
 Cinquenta anos se passaram e pouca coisa mudou. As cicatrizes da orelha desapareceram. Da alma não, vai sangrar sempre. Mas, será que tem alguém que gosta de ser pobre? Tem. Tem sim. Vejamos:
Participava, no auditório do Centro Social Sagrada Família, em Ananindeua, de um seminário promovido pela Cáritas Brasileira dirigida a recicladores (catadores) que trabalham no lixão do Aurá e de vários municípios do Estado, quando, no terceiro e ultimo dia do encontro na hora da minha fala, provoquei com a seguinte pergunta: “alguém aqui tem orgulho, está feliz com o trabalho que faz? O médico, advogado, o engenheiro querem que os filhos sigam a carreira dos pais. Vocês gostariam que seus filhos continuassem no mesmo serviço que vocês fazem?”. Pois é, a maioria disse sim. Eu falei que não acreditava disse o porquê, mas passei por um sufoco! Quase apanhei. No auge da discussão que se sucedeu até arrancaram  o microfone da minha mão.
“É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha, que um rico entrar no reino dos céus” (Lucas 18,24). A Bíblia, em Lucas e Mateus, conforma os pobres com a promessa de uma vida eterna no céu, talvez por isso as pessoas mesmo sem ter onde morar, sem ter o que comer, vestir; não ter como tratar seus doentes, nem um tostão para comprar remédio; viver remendando coador de café, juntando sobras de sabonete para fazer uma bola só; todo mundo usar o vaso para dar só uma descarga, passar o fio dental e cheirar para ver se os dentes estão fedendo; passar óleo queimado no vira latas para matar pira, secar cueca atrás da geladeira, rodar o pau da antena e gritar lá de fora, “melhorou”, e exagerando: usar papel higiênico dos dois lados...Pô! Passar por tudo isso e ainda achar-se uma pessoa virtuosa, cheia de desapego, em favor do crescimento espiritual, ou até criar uma autoimagem positiva do tipo “sou pobre, mas sou honesto”.
 Tudo, tudo isso não passam de belas e filosóficas frases de conformismo, mas não garantem acesso a bens sociais.Eu sei bem disso..
A propósito, será mesmo que depois de passar a vida toda sofrendo agruras, se alimentando com o pão que o diabo amassou, tomando sopa de pedra, alma de pobre ainda vai para o inferno? Não, não acredito que o nosso bom e poderoso Deus faça isso. Conosco, os pobres...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Velhos "Fora das Leis"


Faz aproximadamente um mês que um padre, numa cidade no Sul do Pará, foi flagrado junto com um adolescente dentro de uma Kombi, ambos pelados.  Outro: Quarta, dia 13, às 23 horas, um padre foi preso dentro de um carro numa vicinal em Castanhal com um garoto de 12 anos. O padre, coitadinho, disse que foi “aliciado” pelo garoto. Os sacerdotes estão presos. Se esses padres pilantras fossem castrados o castigo ainda seria pouco, mesmo que fosse castração química.
 O que vai acontecer, se forem julgados e condenados, a pena máxima para esses crimes são 15 anos de prisão, que numa equação simples vem o presente: pegarão no máximo três anos de cadeia – réu primário, bom comportamento... É a lei. Esse é o Brasil. Perdoados pelos chefes serão transferidos para outra arquidiocese bem distante, e lá serão de novo, párocos. É assim com a igreja católica, outras organizações religiosas, até policiais que cometem delitos graves dentro da corporação. Os desapadrinhados, claro.
O Ivan Lessa dizia que “de 15 em 15 anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos 15 anos anteriores”. Eu acho que é por isso que nós temos um exagerado número de Leis. Umas que pegam fazem lembrar outras que não pegam.
No dia 15 de junho, foi o Dia Mundial Contra Maus Tratos a Idosos. O Conselho Estadual da Pessoa Idosa aproveitou a data e promoveu uma audiência pública na Assembleia Legislativa, no auditório João Batista. O Presidente do Cedpi/PA, José Eduardo Pontes, coordenou os trabalhos. Na composição de Mesa representando o Ministério Público Estadual/Promotoria do Idoso e Deficiente Público, o Doutor Waldir Macieira; Soranda Nascimento, titular da DEAI (Delegacia Especializada no Atendimento ao Idoso);  Francimar Lopes de Oliveira, Coordenador  Municipal da Saúde do Idoso; Guilherme, Coordenador Estadual da Saúde do Idoso; Walquiria Cristina Batista Lopes e Emídio Ribeiro, Conselheiros. A Secretária Adjunta da Secretaria de Estado de Assistência Social/Seas, Meive Ausonia Piacesi (Que nome!), chegou atrasada, falou, pediu desculpas, e saiu... Adiantada.
O papo nessas reuniões é o de sempre.  São os representantes do governo de plantão, cada qual com suas planilhas, explicando, justificando, acrescentando um pouco mais naquilo que está sendo feito e nunca pedindo desculpas pelo que não estão fazendo. Faz parte da liturgia do cargo e produz aplausos.
Audiência Pública na Assembléia Legislativa no dia 15/06/2012
Só o conselheiro Emídio Ribeiro usou a palavra num tom mais crítico. Reportou-se ao não cumprimento da legislação em vigor. E eu concordo. No papel está sempre tudo perfeito. Nos discursos idem. Na prática, nem sempre. E dissemos acima, lei é que não falta. Exemplo:
Em 1994 quando foi sancionada a Lei 8.842, o maior instrumento legal de proteção aos velhos brasileiros, foi festejado, e merecia. Só que o filhote nascido dez anos depois, o Estatuto, Lei 10.741, parece que foi gerado de um útero podre. É um acinte, verdadeiro esbulho a forma desrespeitosa como essas leis são ignoradas. Melhor para alguns segmentos.
Os amigos do Rei se locupletam em funções renumeradas com criação de conselhos de fiscalizadores. É como a madame que contrata uma empregada extra para monitorar o marido que está de olho na babá gostosona. Enquanto Conselheiros oficiais renumerados fazem discursos, os velhos vivem uma espécie de purgatório público em filas de banco, hospitais, ponto de ônibus, etc.
Coloquei há dias atrás um texto neste blog com o título “ÓDIO, NOJO, REPUGNAÇÃO. REVOLTA!”. É uma demanda pessoal que, dependendo do resultado, terá reflexos abrangentes aos idosos usuários dos transportes coletivos, especialmente as cooperativas de micro-ônibus, que fazem o trecho Benevídes/Belém, essa foi a razão de eu ter participado da audiência pública na Assembleia Legislativa em busca de apoiFora dFFo. Na 2ª feira estarei na DEAI com a Doutora Soranda Nascimento (jovem e muito linda delegada, por sinal) e quando tudo terminar seja qual for o resultado, os leitores destes textos ficarão sabendo, portanto, você que me lê e que tem idoso na família que anda de ônibus, torça, me apoiem. Fim.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

BAILANDO NO INFERNO


O Zangão e a Abelha Rainha há dias, meses, não saiam do casulo, a não ser aquelas saídas triviais obrigatórias. Psicólogos e terapeutas em orientação de casal e familiar recomendam que, para desligar o hemisfério direito do cérebro, que é a parte responsável pela sensação de preocupação e medo, é necessário além de ocupar a mente com leitura, por exemplo, praticar atividades físicas.
O exercício físico melhora a oxigenação cerebral, que é uma forma de liberação das energias negativas, tensões e preocupações. Bom, existem outras recomendações como evitar álcool, chocolates, refrigerantes, café, etc... Seguir essas recomendações significa ganhos na qualidade de vida porque diminui a irritabilidade, aumenta o gasto energético e corporal, a capacidade de concentração e resolução de problemas. Principalmente para quem já passou a bastante tempo dos 40, que é o caso do Zangão com a Abelha Rainha.
Os dois têm uma rotina de exercício físico. Praticam corrida de rua três vezes por semana, e o Zangão ainda faz natação. Para sair da rotina o casal foi a um baile de debutantes das jovens da terceira idade do projeto Vida Ativa, no salão nobre da sede social da Assembléia Paraense, isso no dia 31 de maio. Domingo, 3 de junho, resolveram apelar: decidiram ir a um baile de saudade. Os dois são dançarinos amadores de um ritmo só: brega saudade. Pela localização escolheram o Cangalha, um dançará que fica às margens da BR próximo ao ponto de ônibus.
Tinha chovido muito a tarde. Ingressos nas mãos, apalpadelas dos seguranças e a chegada no “salão de dança”.O trecho que separa o portão de entrada até o espaço de dançante é feito por pontes e completamente cheio de água por baixo, a noite com o reflexo da luz artificial fica com uma visão bucólica, parece um clube de pesque & pague. Guarda chuva guardado com a vendedora de balas, os dois começaram o enfrentamento, ou seja, o sofrimento. Enfrentaram o rusch e chegaram ao espaço de dança. Em 10 minutos já tinha arrebentado as duas alças do sapato da Abelha Rainha. Mas a festa não pode parar.
Cotoveladas, rasteiras, empurrões, safanões e suor. Muito suor. Seis pessoas por metro quadrado é o parâmetro usado para conferência de aglomerados humanos, isso se estiverem juntinhos, espremidos. Agora imagine essa mesma quantia, ou a metade disso, “guerreando” em ritmo de dança (?), e ainda mais com uns “dançarinos” que para mostrar categoria de verdadeiros pés de ouro arregaçam os braços e ficam parece alça de chaleira, aí já viu, o cotovelo do “Carlinho de Jesus ao tucupi” se transforma numa arma. É um perigo. Mas tudo bem resolvido. Tudo na paz. O bom no ser humano é que nosso corpo e cérebro reagem a partir do momento que precisamos sobreviver. E para sobreviver precisa se adaptar. Um filósofo alemão, não lembro o nome, dizia que “a natureza da maleabilidade humana é inimaginável, o homem é capaz de adaptar-se até ao inferno”. E é. Nessa espécie de sub-mundo da diversão, o Zangão e a Abelha Rainha ficaram lá durante 120 minutos dançando. Perfeitamente adaptados...
Existe uma Lei Federal nº 9.605/1998 que preconiza: durante o dia é permitido altura máxima de som em 55 decibéis, a noite 50. A fonte sonora lá no baile do Cangalha era o Rubi Saudade. Painéis com luzes de led, verborragia do DJ (assim que eles gostam de ser chamados) e som altíssimo de péssima qualidade. A gritaria do matraca berrador, misturado ao som mal equalizado,  na altura máxima, acaba transformando boas músicas num quiprocó melódico.  E a Secretaria de Meio Ambiente, porque é tão permissiva com essas empresas donas dessas aparelhagens sonoras que escancaram, botam no doze, (no linguajar da moçada) o volume nos espaços de diversão popular, prejudicando a saúde auditiva dos usuários, dos vizinhos desses locais e até dos trabalhadores das tais aparelhagens, que com certeza sofrerão, se já não sofrem, as conseqüências dessa irracionalidade.
Pior, fazem propaganda enganosa. Anunciam Baile de Saudade e empurram tecnobrega pancadão no freqüentador “de maior”, que quando se empanturra, é cerveja mesmo, não usa outros estimulantes próprios dos festões tecnos que são freqüentados pela juventude que curte um som, digamos, mais avassalador. É, além de terrivelmente barulhentos, enganam também.
Baile, festa, arrasta pé, rala bucho, seja lá que nome for, com esse tipo de som, a Abelha Rainha e o Zangão, fecharam: Nunca! Nunca mais mesmo... E já conheço muitos madurões que estão deixando de freqüentar os bailes com esses aparelhões.
E pensar que um ilustre vereador de Belém queria transformar isso tudo em patrimônio cultural do Estado. Pode? Eu hem...
 NB. O Zangão e a Abelha Rainha citados acima são, respectivamente: 
Eu, Orlando/Jambu e Nazaré, minha querida companheira nos bailes da vida.
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