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quinta-feira, 26 de junho de 2014

SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO HOMENAGEADO

Rindo, sorrindo, ou apenas mostrando os belos dentes, no cartaz gigante todos mostram só a felicidade que sentem quando são fotografados
              Em 2009, quando o prefeito eleito nas eleições de 2008 foi empossado, Marituba parecia ressurgir. O prefeitão  que largava o osso depois de oito anos, (dois mandatos)  vivia mergulhado até o pescoço em denúncias de corrupção. Roubalheira. Roubalheira. Roubalheira.
             Na base da pirâmide dos expert em canalhice roubar é o verbo que os vigaristas aprendem conjugar desde criança. Honestidade vem de berço, mas essas criaturas hediondas parece que foram criadas em balaios ou cocheiras. Não sabem ser honestas. Tem um detalhe que só a sociologia da corrupção deve explicar, é que muitas vezes alguns nasceram em famílias ricas, mas o DNA parece que  já veio deformado, ou deteriora-se, na hora que o pirralho escapole do bojo onde ficou curtindo a terrível espera, antes de pular fora e respirar o cheiro da turma da qual vai herdar as manhas e mumunhas. A chegada de mais   um seteunzinho é sempre motivo de festa, é a certeza que o sobrenome da família vai continuar em evidência. Eles. Todos eles, políticos profissionais, fazem dos filhos seus continuadores, logo, quando que corrupção vai acabar? Nunca! Nunquinha da silva...
               Quando o alcaide maritubano eleito em 2008 assumiu, menos de seis meses depois ele já estava “ganhando prêmios” nacionais. Dentre tantas “premiações” teve o “Destaque Brasil” (recebido em Santa Catarina). Seria cômico se não fosse trágico, mas tem outro desses “prêmios” que é difícil de esquecer, se não me engano em 2011, que foi o de  prefeito luz. Pô! Prefeito luz. Isso significa sabe o quê? Não sei. Aliás, só mesmo a assessoria de imprensa e comunicação do chefe da época tem a explicação. Mas o homem fez até declarações de amor à esposa  em grandes e vistosos outdoors espalhados pela beirada da BR. Bom, isso é passado (graças a Deus). Mas vieram outros, e cada um que passou deixou a sua marca registrada em propaganda visual do modelo pôster ou cartaz gigante. Muito bem.
                 Pôster ou cartaz gigante. Foi assim que o prefeito atual foi homenageado agora no dia 19 de maio passado. Deve ter sido data do seu aniversário. Lá estava escrito: “Parabéns Mário Filho, 19 de maio”, e a citação bíblica Feliz a nação cujo Deus é o Senhor (Salmo 33,12)- “homenagem vereador RAÍ”. Ponto.  Na foto o homenageado está sorridente. Feliz da vida. Merece. Afinal o homem lutou, lutou, lutou e chegou lá. É prefeito. Os homenageadores também são os de sempre e não são bajuladores. Faz parte do processo. Todos que ocuparam a cadeira mais cobiçada do município (sete em dois anos) foram agraciados com tais honrarias. Segundo o historiador francês Marc Bloch prestar homenagem é vassalagem, que significa submissão daquele que presta a homenagem,  mas este é um conceito da idade média e naquele tempo não eram cartazes ou placas gigantes. Eram atos práticos, lúdicos e românticos. Mais ou menos assim: o adulador ajoelhava-se aos pés do adulado, pronunciava umas palavras, e pra simbolizar o acordo e a amizade entre os dois,  beijavam-se na boca. Isso mesmo, na bo-qui-nha ..Argh! Pior, na época não tinham os cremes dental. Listerine? Nem pensar.
                Isso foi na época feudal, lá pelo século XIII, mais ou menos. Magine. O prefeito atual além da vassalagem natural que o cerca, ele ainda por cima é evangélico. Hum! Fosse igual como naqueles tempos de antanho o coitado já não tinha mais saliva.
 Acho até, que não tinha mais nem beiços...

terça-feira, 3 de junho de 2014

A NOSSA SENHORA DOS ESPINHOS, O VATICANO E O JOSÉ DE ANCHIETA SANTO

À esquerda, figura perfeita: o olhar de ódio do silvícola na direção do padre santo. À direita, nus com os pintos livres, soltos e felizes mas, para a igreja, pecadores.

        Nossa Senhora dos Espinhos (Bragança), São Miguel dos Macacos (Baixo Amazonas), Santo Antônio das Panelas (Oriximiná), São João do Furo (São Miguel do Guamá), São Benedito de Urupé (Marajó). Esses são nomes de “santos” agregados a vilarejos e seus respectivos municípios/sede, aqui no Pará. São os primos pobres da Nossa Senhora de Guadalupe, São Francisco de Assis, Santiago de Compostela (México, Itália e Espanha, respecivamente).
Pois é. Antigamente, santos eram figuras míticas da fé cristã, pessoas de conduta e virtudes ímpares, capazes de se submeter às mais terríveis provações em nome da religião que professavam. Depois de mortas e já candidatas à santidade, eram responsáveis por milagres e feitos extraordinários. Com essas exigências, ser santo era uma meta quase inatingível para seres humanos normais, repletos de defeitos e fraquezas e expostos às tentações e ao pecado.
O Papa João Paulo II foi o recordista absoluto na fabricação de Santos. Fez Santo por atacado. Ao todo canonizou mais de 400 (447, exatamente). Duma tacada só proclamou 120, que segundo ele descobriu, foram cristãos martirizados na China, no período de 1648 a 1930. Detalhe, durante os 22 anos que ele reinou no comando da Igreja Católica, foram promovidas mais de 1000 (exatas 1052) beatificações, que é o penúltimo, ou ultimo (não sei bem direito) estágio para o coroamento da santidade.
Pois bem, mas, e o José de Anchieta, Santo, não é demais? Eu acho que a mão pesada do favorecimento papal pesou em favor do seu Zezinho Anchieta.
 Se não vejamos: uma das regras para a santificação é ter, pelo menos, dois milagres comprovados. Nunca ouvi falar de  nenhum milagre anchietano. O que se sabe, e não precisa ser historiador, é que todos que vieram nas canoas da portuguesada, chegaram aqui na terra brasilis, a serviço da coroa portuguesa,  e religiosos, como o Anchieta, tinham como função específica a missionaridade de catequização, conversão e civilização da turma de cabelos lisos, que andavam pelados, e eram os únicos moradores da terra invadida e apelidada de “Santa Cruz”. Os métodos tradicionais conhecidos hoje, com perguntas feitas pelo catequista, ex. “quem é Deus?” certamente que não existiam. É mais provável que o primeiro beabá da lição era: “Matai vosso Tupã”. O hoje, santo Anchieta, não morria de amores pelos índios tanto que numa carta enviada aos patrões  ele trata os tupinambás como inimigos carniceiros, e se alegra com a estratégia de, aproveitando-se quizila que reinava entre os índios, os franceses e portugueses ele conseguiu fazer os nativos lutarem entre si. Um trecho da carta diz:
 “E foi coisa maravilhosa que se achavam e encontravam a flechadas irmãos com irmãos, primos com primos, sobrinhos com tios e mais ainda dois filhos que eram cristãos e estavam do nosso lado contra seu pai que estava contra nós”.
Outro trecho de um poema do Zé Anchieta, dedicado ao governador Mem de Sá, referindo-se aos índios que ele combateu:
 “para este gênero de gente não há melhor pregação do que o ferro e a espada”.
E mais:
“Lá os índios são“lobos vorazes, furiosos cães e cruéis leões que nutriam o ávido ventre com carnes humanas”. Estes índios “selvagens e animalescos” abandonaram Deus e precisavam ser catequizados para escaparem “das garras de Satanás”.
Garras do satanás. Hum, hum...
Mas  a raiva do Anchieta não deixa de ter uma razão, pô! No meio das bugigangas que os índios recebiam não estavam só espelhos, fósforo, apito, não! Tinham escapulários, que eles inocentemente penduravam nos pescoços dos macacos, cotias, veados e tatus que eram criados nos terreiros das ocas. Bom, pelo menos, o caçula dos santos latino não é do pau oco, já que foi canonizado, diferente da  Nossa Senhora dos Espinhos, São Miguel dos Macacos, Santo Antônio das Panelas, São João do Furo e do São Benedito de Urupé. Os coitadinhos estão orgulhosos achando que ganharam, com a santificação do Anchieta, um parceiro. Tadinhos...
Devo estar cometendo uma heresia,  mas,  acho que interesses geopolíticos fizeram  o Anchieta santo, só pode. Na minha modesta e pirenta opinião, o Papa Francisco deu uma bola fora. Pisou feio no tomate. Para este santo, nem altar. Nem andor. Não! Não mesmo...!!!
O Conselho Indigenista Missionário órgão ligado a CNBB, produziu esse documento, em 1979, numa assembleia geral realizada em Goiânia:
“Reconhecendo os erros que cometemos como Igreja na nossa atuação missionária junto aos povos indígenas, pedimos perdão a eles e a Deus”.
E mais, o CIMI se comprometeu mudar a prática e respeitar as religiões indígenas, inclusive, assumindo os mitos e a vida religiosa, através dos quais cada povo recebe a Revelação de Deus.
É, os supapuaçus, os morubichabas, os  anuari, que morreram pelas atrocidades da cambada invasora, da qual fazia parte o novo santo, o Anchieta, devem estar encarando o Tupã, e com certeza, dizendo em tom ameaçador:
- Ah, esse santo qué reza. Ah qué! I si ele qué, ele vai tê...

quarta-feira, 14 de maio de 2014

DESPENCAMENTOS - O DNA DO ENVELHECIMENTO

Greta Garbo, linda para a eternidade. Será que valeu a
pena?
Gravidade. O nome do filme vencedor do Oscar 2014 fez-me lembrar os tempos idos, vividos lá na colônia chicano, lugar onde nasci. Lugarejo que parecia um quilombo, haja vista que mais de noventa por cento da população nativa era negra, e o acesso pra chegar lá era só de canoas. Os rios funcionavam como avenidas, os igarapés como travessas e os “furos” eram as passagens e alamedas. Sendo que esses últimos –“furos”- só tinham serventia quando a maré estava alta, o que possibilitava passar nas canoas de um rio a outro.
 O título do filme, gravidade, trouxe as recordações  de como desafiávamos essa  lei. Quando subíamos nos açaizeiros e descíamos em velocidade, segurando, muitas vezes, mais de dois cachos de açaí que  era quase o dobro do nosso peso. Éramos crianças, e leves, por isso e porque as árvores eram quase sempre fininhas,  o perigo de quebra era iminente. Eu mesmo levei uma queda horrível. A Árvore quebrou comigo no momento que eu descia com um enorme cacho de açaí, e na queda fiquei com a cara atolada no tijuco da beira do rio, só não me finei porque o meu anjo da guarda estava no plantão naquele dia. E os banhos na maré? Tomávamos distância e nos atirávamos de cabeça no rio a uma altura de mais de quinze metros.
Muito pano de chão já foi toalha de mesa.
Tenho 65 anos de idade e estou mais do que esculhambado. Caidaço  mesmo. Mas fiquei muito surpreso quando me encontrei com a Rosa. Dez anos mais nova que eu. Tentei namorá-la quando éramos jovens. Na realidade, eu fui um franco atirador. Muito bela a Rosa certamente que não ia me querer nunca. Eu, muito feio, era justamente o oposto do perfil da bela Rosa. Nasci feio e com o passar dos tempos essa feiura só fez se acentuar mais. Bom, o certo é que o tempo passou, nossos destinos tomaram rumos diferentes, e o reencontro, Orlando x Rosa, deu-se ao acaso, num ajuntamento de idosos em baile da terceira idade, agora esses tempos, mais de quarenta anos depois que um pretencioso Orlando tentou incursionar nos sentimentos da bela Rosa.
 Bochechas, lóbulos das orelhas, peles do antebraço, ventre, mamas, papada embaixo do queixo, sobrancelhas, e bunda. Tudo, tudo arriado. As pernas, outrora tão lindas, estão deformadas por veias que mais parecem esculpidas em alto relevo. Varizes. Um espectro. Até os lábios parece que ficaram maiores e pesadões. Assim está a Rosa. E eu? Por ser negro e praticar esportes (natação e corrida de rua) estou bem mais inteiro, mas também, feiudão, claro.
Na época que eu fui preterido (na verdade esnobado), a bela Rosa vivia aquela primeira fase –18/25 anos- quando a mulher só casa-se com o homem que aparece em um transatlântico cheio de diamantes. Ela olha de cima e diz: “quem eu quiser”; na segunda fase -25/30 anos- ela já aceita um que venha num navio carregado com  meia carga de ouro, e a frase já muda, no caso: “quem me com vier”; de 30 anos para mais, já é a terceira fase, aí ela, já no desespero, acolhe com carinho e gosto, um caboclinho que venha numa canoa movida a remo carregada de palha de açaí, e a frase é: “quem vier...”.
O fato é que, brincadeiras a parte, de todos os ciclos da vida, a velhice é um naufrágio catastrófico, especialmente para as pessoas (principalmente as mulheres) que têm um excessivo apreço por si mesma, quando se refere a própria imagem, o que acaba implicando num narcisismo as avessas, que é a fuga pra longe do espelho quando o envelhecimento chega.
Um conselho: tem um jeito de não ver-se e nem mostrar os efeitos devastadores que a velhice trás, é só fazer o que fez a Greta Garbo, atriz sueca considerada a mais linda mulher do século passado, que se tornou reclusa em pleno verdor da existência, aos 40 anos. Escondeu-se do mundo, viveu só, até morrer com mais de 80 anos, sem que ninguém contemplasse sua decadência física.
Ser velho é ser feio, principalmente se for um velho neurastênico, chato e insuportável. Como eu.

Eh eh eh eh...

sexta-feira, 18 de abril de 2014

NÓS, FABRICAMOS MONSTROS?

Na contramão da vida, todos na desvantagem.

-Ei, sabe quem morreu? O Marquinho. A pergunta e a resposta foram feitas pela mesma pessoa. Que ouviu em seguida várias manifestações do tipo: “bem feito” ou “já foi tarde” ou ainda, “demorou, com certeza tem festa no inferno...” E por aí foi, e isso quer dizer o seguinte: que o Marquinho era um sujeito inestimado, odiado, desprezado.
 E a bem da verdade ele era, de fato, tudo isso. Também pudera! A curta existência do Marquinho, menos de 25 anos de idade, pode-se dizer que ele morreu velho. Explico: depois de cometer o primeiro latrocínio, aos 16 anos, o homem gostou e não parou mais. Já tinha mais de quatro no currículo. Jovem bem afeiçoado, calmo, fala mansa. Impiedoso e cruel, o primeiro assassinato cometido foi contra um velho desarmado que trabalhava a noite como vigia.
Protótipos – “O homem não é mau, a natureza que o transforma”(Jacques Rousseau). Concordo. Ninguém nasce ladrão, criminoso, assassino. Ninguém! Toda criatura como o Marquinho, ou pior, foi uma criancinha engraçadinha, meiga e doce. Os acontecimentos entre a fase criança/adolescência são determinantes para o comportamento que vai permear o futuro. Família, Estado e sociedade são protagonistas nesse contexto e por isso mesmo são os que cometem as maiores falhas. Exemplos: o Marquinho, ainda fedelho, não era de amanhecer dormindo. Esperto. Acordava cedo. Às cinco da manhã já estava dando uns bordejos nos quintais das casas nas circunvizinhanças onde catava os cupuaçus que caiam à noite. E não escapavam as panelas ou outros utensílios domésticos que tinham pernoitadas  nos jiraus que ficavam do lado de fora das casas. Na época os quintais das casas na Estrada da Pirelly eram interligados e sem muros.  Portanto, vulneráveis as atividades da gatunice imberbe.
“O homem não é mau...”. Pois é. Os pais do Marquinho guardavam, cuidadosamente, os produtos que ele subtraía. Ele cresceu. E morreu. Sem honra e sem glória. Um confronto com a polícia, umas balas no peito e na cabeça e, c’est fini. Acabou. Finou-se. Esse final, mesmo previsível, causa angústia e tristeza até em quem o odiava. Detalhe: O irmão mais velho do finado Marquinho também é do ramo, só que mais perigoso. Está preso. É outra vítima dos desvios de conduta da infância, brandamente tolerados, por adultos com  expertises em camuflar, transformar golfinhos em tubarões predadores... Vem mais lágrimas por aí.
Eu sou o Estado, e colaboro assim:
“Orlando, eu trabalhei um ano e oito meses na ‘casa de passagem’. Na época passou por lá o Adriano. Ele só não fazia quebra-quebra quando eu estava no plantão. Uma vez ele chegou muito doido num domingo de noite. Chegou perto de mim e disse:
-A senhora num tem medo de mim?.
Respondi:
-Eu não. Tu não és bicho.
- Como ele estava muito machucado eu peguei material de curativo e fiz limpeza nos ferimentos. Aí ele falou:
- Eu posso lhe chamar de tia?
-Pode sim. Aí ele me abraçou e dormiu abraçado no meu colo.
Hoje ele está adulto e de vez em quando vai na minha casa pedir alguma coisa. Continua me chamando de tia. Vou te contar por que eu saí da ‘casa de passagem’. Nós tínhamos instruções para não nos envolvermos emocionalmente com os problemas dos internos. Mas um dia chegou uma menina de 12 anos que morava no Santa Lúcia. O padrasto e a mãe eram viciados. Desapareceu um dinheiro na casa deles, micharia, como eles achavam que era a menina que tinha roubado, queimaram as mãos e a língua da garota que ficou totalmente em carne viva. Ela era alimentada por um canudinho. Eu chorava muito em  ver a situação daquela menina, e por isso a assistente social me chamou atenção. Eu não aguentei. Entreguei meu lugar. E lá é horrível! Eles (funcionários) batem nos menores que passam por lá com lençol molhado, que é pra não deixar marcas. Eles apanham muito...(Este é o depoimento duma ex-funcionária pública que trabalhava na "casa de passagem" com menores infratores)

E é assim, com a colaboração da família, do Estado e da sociedade, que funcionam as eficientes fabriquetas, de onde saem da linha de produção os protótipos de marquinhos, aptos a atazanar  vidas...

sexta-feira, 14 de março de 2014

SEU LADRÃO, CUIDADO! VAI TER UM FORUM T'OLHANDO..

O registro fotográfico da comissão fundante do Forum


Em 1549, quando o Tomé de Souza assumiu como governador geral do Brasil, foi levado até ele um índio que tinha matado um colono. Vejam a punição: ele mandou amarrar o índio na boca dum  canhão e ordenou que disparassem a maquinona.  Resultado: o maior pedaço que sobrou do pobre índio não dava pra encher um pastel. Era uma cruel demonstração de força para dar exemplo, e intimidar quem pensasse cometer alguma transgressão. Em 1835, quando Diogo Feijó tomou posse como regente do império, uma das suas principais metas era acabar com a impunidade. Isso lá, em 1835. Magine... E é justo por causa da impunidade, que a roubalheira nunca vai acabar no Brasil.
É muito complicado, num país como o nosso, combater a roubalheira. Lembro-me dum caso que presenciei em Belém, no bairro da pedreira. Um ladrão foi flagrado com uma televisão roubada. Ele carregava a grandona na cabeça. Uma turba de justiceiros pegou o homem,  e bateram tanto, que mataram o pobre do larápio em plena Avenida Marquês de Herval. Detalhe: quando os ânimos serenaram e a polícia chegou, a televisão tinha sumido. Alguém do grupo de “justiceiros” simplesmente praticou uma ratonice no espólio do rapinante, isto é, cometeu um crime bem mais grave, latrocínio, contra quem praticava um roubo. Um roubo simples.
A cultura da esperteza leva-nos ao enfraquecimento na luta contra a corrupção. Justo por querermos levar vantagem em tudo. Exemplos reais: no bairro da cabanagem, em Belém, um vendedor de açaí adicionava farelo de farinha de tapioca para engrossar o açaí, e cobrar mais caro pelo litro (“do grosso”); na estrada Nova, bairro pobre, também em Belém, o dono da venda misturava no açaí, papel higiênico. Amassava tudo junto, assim  “engrossava” o produto e, claro, vendia mais caro (“açaí papa”); empresas revendedoras de carros usados fraudam a quilometragem pra vender mais caro o possante “pouco rodado”; o gerente do banco usa contas encerradas e manipula-as para, usando mecanismos técnicos,  auferir lucros; casas bancárias pregam os avisos sobre taxas e outros serviços, que podem favorecer os clientes, numa coluna ou parede do banco lá no alto, fora do alcance da vista do cliente; o taxista frauda o aparelho que marca quilometragem e preço; supermercados, que têm praça de alimentação, aproveitam frangos estragados e fazem pratos saborosíssimos que são consumidos na boa; queijos fatiados e vendidos na embalagem do mercado são produtos vencidos, etc.,etc.,etc., Enfim, somos vítimas de toda forma de roubalheira. Mas, e nós, somos santos...? Não, claro que não. Como, então, cobrar honestidade de políticos?
Que a corrupção é um câncer que   destrói o país, estamos carecas de saber; que políticos canalhas, ladrões e hipócritas sugam, se tiverem oportunidade, até a última gota das veias financeiras que estejam sob seus controles, todos sabemos. É fato que a súcia está infiltrada nos poderes judiciário, legislativo  executivo, e em todos os níveis, estadual, municipal e federal. E “eles” morrem de morte natural, aos 98 anos de idade...
Fazer o quê? No início desta escrevinhação, lá em cima, tem o exemplo dado pelo portuga Tomé de Souza, explodindo o supapuaçu que tinha matado um colono. Só que o portugão-chefe, também ladrão mas com autoridade de governador, usou o poder que tinha para mandar pelos ares índio, que era o verdadeiro dono da terra invadida. A explosão que esfarelou o nativo foi um ato de justiça? Acho que não. Foi, sim,  mais uma das barbáries cometida pelos invasores?
O certo é que leis existem para combater crimes de todo tipo. Depois do exemplo que o seu Tomé deu as coisas só pioraram. Leis não são cumpridas. Aí os  embusteiros deitam e rolam. Melhor, rolam nos  dinheiros larapiados e deitam-se nas mordomias que a rapinagem lhes proporciona.
Sou morador de Marituba a mais de 40  anos. Pobre. Ferrado. Militante. E agora estou presidente do Conselho Municipal da Pessoa Idosa – serviço voluntário, sem renumeração-. Convocado participei,  junto com o Dr. Lázaro Falcão, Dr. Alberto Primo, Danuzia Sônia, Ivan de Melo, Joana Santos e o Reginaldo Cardoso (fora os doutores, eu e os demais somos representamos  da sociedade civil do escalão inferior), da reunião de criação do fórum permanente do controle social e cidadania do município de Marituba. 
 Participei dessa primeira reunião, mas estou consultando um dos meus neurônios que ainda funciona. Ele que vai acender a seta indicando se fico ou não na comissão de criação do tal fórum. Sou cismado. Detesto ser usado como massa de manobra. Ademais, é muito rato ao redor do queijo, logo, não tem gato que dê conta...

Ah, os objetivos principais do fórum é fiscalizar aplicação do dinheiro público. Hum hum...
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