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sábado, 27 de outubro de 2012

CUIDADO! NEM TUDO QUE PARECE, É.


A doutora Raimunda Nazaré já não sabia mais o que fazer. Depois que a d. Maria, doméstica que trabalhou mais de vinte anos na casa dela, e que foi praticamente mãe substituta das duas filhas – atualmente uma tem 19 outra 17 anos – ambas já são universitárias, de repente a família ficou sem a faz-tudo da casa. O problema é que a d. Maria de tanto ser explorada pelo clã classe média alta, adoeceu. Feriu o pé ao pisar descalça em um caco de vidro. Só deram merthiolate pra ela passar na sisura (no linguajar da doutora um “golpezinho de nada”). Só que a pobre velha, com mais de cinquenta anos de idade, era portadora de diabetes. O ferimento piorou. E foi nesse tempo que ela foi mandada embora do emprego.
Um ano depois, muitos anúncios em jornais, cadastro no SINE (SISTEMA NACIONAL DE EMPREGO), que toda semana mandava uma candidata lá para a casa da Dra. Raimundinha, e nada. Não parava ninguém. Até que apareceu a Érica. Um perfil diferente. Alta, loura, rosto fino. “Até se parece com a minha filha”. Chegou a comentar com amigas, a patroa.
O certo é que, depois de dois telefonemas para pessoas que a Érica indicou e que a referendaram como uma pessoa “de bem”, zás trás. A Érica estava empregada. A dra. sequer pediu os documentos da nova funcionária (a moça, afinal, era branca e loura) que além de bonita tinha bom nível de escolaridade – médio completo – e falava um pouco francês. Foi simpatia na primeira vista. Toda família foi contaminada pela alegria e educação da nova empregada. Até o Doutor Ferdinando, sempre muito sisudo, passou dar uns sorrisinhos e uns olhares de esguelha à doméstica diferente.
Já há oito meses na casa, saía de vez em quando com as meninas. Era de confiança. Nunca atrasara um dia. Dava conta do trabalho, esticava o expediente sem brigar pela renumeração das horas extras. Era eficaz e eficiente. Quiseram contratar uma auxiliar, ela disse logo que “não precisa doutora, eu dou conta do serviço”. E dava mesmo. Na boa, nem se importava em ser explorada.
O que tem de dar errado, vai dar errado. É a Lei de Murphy.
Era uma segunda feira. A Érica ainda estava trocando de roupa quando a doutora bateu forte na porta do quarto, quase gritando, ordenou:
- Vem rápido aqui que queimou a lâmpada do meu quarto.
                E lá foi a pobre da Érica, toda agoniada ajeitando a saia porque não tinha dado nem tempo de vestir a calça comprida que ela gostava de usar no serviço. Quando chegou na suíte da madame esta já tinha posicionado a escada e a Érica foi logo subindo. A doutora se segurava na escada com a mão direita e na esquerda ela tinha a lâmpada nova que entregou para a Érica. Neste momento ela olhou para cima e, de repente, deu um grito. Um grito desesperado. Grito de susto. Gritou e deslizou para o chão, desmaiando. As filhas ouviram no outro cômodo da casa o berro da mãe e invadiram a suíte, foram direto acudir a velha. A Érica estava lá em cima, estática. A madame se recuperou logo e sem olhar apontava para cima sinalizando que às filhas olhassem também. Elas obedeceram. As meninas olharam e o que viram deixou-as paralisadas,  estupefatas, admiradas.
A Érica era um travesti. E bem dotado. Estava sem “calcinha” e, involuntariamente, mostrava aquele montão de coisa lá, pendurado, balançando acima da cabeça das três. Era um visual incrível! Uma surpresa inesperada. Foi o maior furdunço.
 As meninas tinham que sair. A madame também. Assim foi feito. A Érica ficou só, triste, executando suas tarefas, preocupada.
À noite o patrão chegou. A situação era tensa, mas reinava calma. Foi feito um relato. A mãe e as duas filhas apelaram para que a Érica ficasse, mas o doutor estava uma fera e não quis acordo. Não admitia de jeito nenhum, nem um minuto a mais a presença daquela aberração que tinha visto sua mulher e filhas peladas muitas vezes, e até despertara nele uns pensamentos meios safadinhos... ”Não! Aqui não! Não quero ver mais a cara dessa, sei lá, desse troço aqui”.
 A Érica foi demitida. Perdeu o emprego que ela conseguiu manter por quase nove meses. Trabalhou e viveu honestamente naquele período. É, mas acabou.
 Duas semanas depois uma carta intimava a família a comparecer na justiça do trabalho. O ex-empregado doméstico Onório Orlando de Oliveira, pleiteava seus direitos trabalhistas.
Érica...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

TÔ ELEITO, MÃOS AO ALTO!


Festa da Democracia. A campanha eleitoral, onde o povo participa de verdade, acabou.  Aff! Graças a Deus. Fotografias tamanho gigante, bandeiras, carros som, jingles, “santinhos”, gritarias, discussões e brigas. Essas manifestações verbais, sonoras e policrômicas, confirmam, na real, onde a população participa de verdade.  Uns ganharam uns trocados empunhando bandeira (bandeirantes do asfalto da era moderna), outros levam um capilezinho a sorrelfa, e até uma promessa de emprego deixa o fanatismo tomar conta do eleitor, fazendo dele um ardoroso defensor do seu candidato podendo até sair no braço em defesa do seu “preferido”. Mas a festa do povaréu termina por aí.
Depois que o candidato eleito assume, entra no gabinete com sua entourage, c’est fini. Acabou. Já era. O povo sai de cena. Aquele carinho com intimidade, o abraço aconchegante, o aperto de mão; aquele sorriso gracioso e alegre dispensado aos eleitores no período dos festejos na caça ao voto, é substituído pelo isolamento do reizinho ou da princesa, que dentro do seu palácio vai olhar a massa pelas frestas das persianas ou pelo vão do balancim do banheiro aonde ele vai se esconder quando alguém procurá-lo no seu domicílio. Ah! Sim, na rua ele passará por aquela criatura, um ex-abraçado, no seu possante com o vidro fumê levantado. E lá no gabinete? Lá, os assessores funcionarão como uma barreira de proteção. É aí que o ex-todo poderoso e paparicado eleitor vai descobrir que ajudou eleger alguém que não tem vínculo com os anseios coletivos.
                A maioria deles passam representar a si mesmos e por tabela os interesses espúrios do submundo da política. Traição de candidato? Não! Ingenuidade do eleitor que se deixou empolgar pelos paparicos e logo depois da eleição esquece o candidato eleito, deixa de lado, só o procurando quando, individualmente, precisa de algum favor; que não se junta a outros eleitores para fiscalizar as condutas suspeitas e repugnantes dos seus parlamentares. Infelizmente, para o eleitor brasileiro, depois que ele aperta os botões da urna, pronto! Tudo acaba ali. Não temos o hábito de marcar no corpo a corpo nossos legisladores, saber o que eles fazem na vida pública, cobrar. Isso é ótimo para os eleitos. Eles têm a certeza que seis meses, ou antes até, depois de eleitos, ninguém lembra mais nem em quem votou, e isso só reforça o que “eles” já usam como filosofia, a de que não estão subordinado a ninguém, principalmente os mais calhordas, aqueles que enxovalham a vida pública, já tão  fértil de malfeitorias.
Amoralidade. O eleitor não é vítima, é apenas uma espécie de vírgula em uma redação maior cujo tema são artimanhas que de republicanas não têm nada, a não ser o desejo de atingir e se manter no poder. Existem políticos nas casas legislativas com inúmeros mandatos emendados um no outro. Alguém acha que essa cambada dedica uma vida inteira em favor da causa alheia? Claro que não! O que interessa são seus próprios interesses, seus sonhos, que até são os sonhos do eleitor também, só que o pobre do eleitor dorme e acorda com pesadelos, a realização dos sonhos fica para o ilustre candidato que ele ajudou eleger; candidato que eleito financia sua boa vida, de familiares e amigos com o dinheiro dos desdentados; que se transformam (ou às vezes já são) em delinquentes políticos especializados em roubar cofres públicos; aves de rapina que são capazes de subir no cangote da própria mãe como suporte para decolar em voos mais altos.
Uns se perpetuam no poder e formam feudos, outros menos espertos – ou mais burros – se ferram. Ganham (?), esbanjam e empobrecem. Conheço um que foi vereador duas vezes e prefeito uma, nadava em benesses, hoje, já velho, sobrevive com um BPC - Benefício de Prestação Continuada. Bem feito!
Curiosidades. Esse ano, na Hungria, Alemanha, Nova York, não foi roubalheira, mas por algum deslize menor, Presidente, Primeiro Ministro e Governador, respectivamente, renunciaram; no regime Talibã o castigo para um furto simples é ter uma das mãos amputadas. Aqui políticos ladrões (oh, desculpe, corruptos) são cheios de pose e orgulhosos. Ah! Também não queremos um país de manetas...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O Zezinho pé de Ferro e a biografia eleitoral

O Zezinho Pé de Ferro recebe um lançamento do goleiro ainda no campo do seu time, avança e dribla seis adversários, quando o goleiro sai, já desesperado, prevendo que pode acontecer o pior para ele, acontece. O Pé de Ferro dá-lhe um chapéu, recebe a bola de volta descaindo, mata no peito, gira no próprio eixo, de costa eleva o corpo no ar e faz um gol de bicicleta. Um golaço. Se o time dele é de primeira divisão o lance vai ser repetido no jornal do esporte no dia seguinte ao jogo. E só. Quem fez o gol, afinal, foi o Zezinho Pé de Ferro.
O lateral direito do time do Neymar dribla toda a defesa adversária e entrega a bola de “mão beijada” para o craque que com um simples toque faz o gol. O gogó do narrador quase arrebenta com o grito de gooll-laço-laço-laço. O lance vai ficar sendo repetido a semana inteira em todos dos “melhores momentos” nos programas de esportes. O Neymar é um dos jogadores mais feios em atividade nos times do grupo “A” no Brasil; tem uma cara de quati, topete de iguana e canelas de cambito, mas aonde ele chega as “mariazinhas chuteiras” berram, se descabelam, choram, ficam histéricas, é, mas ele, segundo a rádio grama de campo, tem um salário com cifras que somam uns três milhões de reais por mês, logo...
Na política também é assim. Quem leva não é o mais qualificado, na realidade os melhores ficam de fora. Ficam fora porque muitas vezes não têm dinheiro para fazer campanhas milionárias; éticos, se recusam fazer alianças com Deus e o diabo ao mesmo tempo; evitam a mentira deslavada prometendo solução para tudo (sinceridade em política é fatal); não atacam adversários com termos chulos e grosseiros,  não nivelam  campanha por baixo. Com esses defeitos ninguém ganha eleição.
No meu Município, Marituba/Pa, os três candidatos majoritários que estão polarizando a atenção do povão é o Cinquenta e Cinco, o Quarenta e Cinco e o Vinte e Três. E o eleitor cérebro de galinha, coitado, esquece tudo em pouco tempo. Por isso que muitas vezes os escolhidos nem sempre são os melhores. Veja:
 O 45. Já esteve à frente da governança municipal por oito anos. Nesse período na inauguração da caixa acústica na praça principal da cidade uma parte da construção caiu e acidentou vários operários; uma caixa d’água caiu no bairro do Japão matando um vigia; um trator da prefeitura passou por cima de um motoqueiro entregador de gás, matando-o (não foi culpa do chefão, claro, apenas mão de obra despreparada a serviço da prefeitura); um ginásio coberto foi demolido para a construção de outro, iniciou-se a construção, só iniciou, a edificação está apodrecendo – é dinheiro do povo jogado fora. O slogan da campanha é pra Marituba voltar a brilhar. Dá para acreditar?
O 23. Esse cumpriu o primeiro mandato, disputa a reeleição e nas pesquisas informais, o boca a boca, tem um alto índice de rejeição. O slogan de campanha é pra Marituba não parar de crescer. Hum hum...
O 55. Tenta pela segunda vez. Tem uma claque poderosa e faz uma campanha muito forte. Nesta segunda tentativa o candidato já não é um aventureiro presunçoso, é barulhento e está a caça dos votos com alguma chance. O slogan é pela reconstrução de MaritubaI. Re-cons-truir...Ó meu Deus, perdoai-vos.
Nos carros som dos candidatos escuta-se de tudo e o tempo inteiro. É um festival de paródias ridículas. Parece  corrutela  dos garimpos de ouro na década de setenta. Era um cabaré no lado do outro com música em som de péssima qualidade num volume altíssimo, a gente ficava zonzo sem saber o que escutar. Assim estão as principais ruas da nossa cidade. Que coisa! Meu Deus. Somos vítimas dessa barafunda sonora horrível, com carros se cruzando até alta hora da noite. Será que essa lambança resulta em votos? Sei não... No vale-tudo das promessas e soluções para qualquer problema, nos estridentes e berradores carros som, não sei por que na gritalhada dos comícios, os candidatos só não prometem acabar com a corrupção, despotismo, e o tráfico... Porque será, hem?
             No meio desse cipoal de mesmice repetitiva existe coisa boa: tem gente com perfil diferenciado dos outros em tudo. É o candidato que nem parece ser candidato. Ele é Filósofo (formado pela UFPa), Avaliador de projetos de captação de recursos, Técnico em Planejamento Estratégico, Participante efetivo em Conferências e Seminários onde se debatem Problemas Sociais, Políticos, Econômicos e Ambientais; atualmente é Assessor no Instituto da Pastoral Regional 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB. Ele é o 50. Ele é o Adelino Bessa. Ele deve ser também o Zezinho Pé de Ferro nessa corrida. Tem as melhores propostas, é o mais bem preparado, mas não tem marqueteiro e nem faz parte do festim de acordos e conchavos espúrios. Com o slogan Mudança com certeza o candidato se apresenta ao eleitorado portando o grave defeito da sinceridade, logo, quem aposta nele?

domingo, 9 de setembro de 2012

E a sua, onde está?


No dia 16 de setembro se comemora o Dia da Imigração Japonesa no Pará. Foi a Lei 7.319 sancionada pela ex-governadora Ana Julia, em 2008, quando fez cem anos da vinda dos japoneses para o Brasil. Não sei se noutros Estados “eles” têm o dia deles, Aqui tem, também pudera, fora São Paulo no Sudeste, o Estado do Norte onde mais ficaram japoneses foi aqui no Pará, principalmente em Tomé-Açu.
Na terra do “fura filas”, do “jeitinho”, os japoneses não se deixaram contaminar e conseguiram se manter como referência em cultura, educação, serenidade e respeito coletivo onde no bem “dos outros” é “meu” também. É a influência budista, penso eu. E olhe que o Getúlio Vargas proibiu, durante a segunda guerra mundial, todas as manifestações culturais e até uso do idioma japonês em todo o Brasil.
Em 1960, cinco anos depois de emancipado, Tomé-Açu tinha tanto issei ( 1ª geração de imigrante do Japão) que mais parecia um território japonês. E foi lá que aconteceu um caso inusitado.
No Município quase não existiam estradas, e as que tinham eram para carroças puxadas por boi ou cavalo, e na área rural mesmo eram só caminhos estreitos. Casas eram muito distantes uma das outras. E foi numa dessas rotas a caminho da roça de pimenta do reino (forte da cultura e economia do município) que um velho japonês, o “seu” Kagaru Nutashu foi flagrado pela Itelvina, uma mulher gorducha, que usava um pano amarrado na cabeça e cara de poucos amigos. O velho Japonga como todos o chamavam pelas redondezas, estava com as calças arriadas, de cócoras, um chapéu de palha na cabeça.
No primeiro momento a d. Itel, como era conhecida se irritou porque tinha levado um enorme susto. Ela ia fumando um porronca que tinha um cheiro horrível, mas ajudava espantar muriçoca e cantarolava bem baixinho uma música “du tempu da mucidade”, quando deparou com “aquela arrumação”- no dizer dela. O pior, no susto, o cigarro que ainda estava pela metade, quando ela gritou “aai! Que diabo é isso..”, caiu da boca para dentro da blusa invadiu o porta seio e se aninhou entre os dois enormes peitões, e no espalhafato para se livrar da baganona que já estava queimando ela jogou o facão no chão, arrancou a blusa que estava por dentro da saia e um dos seios ficou a mostra. Só então ela percebeu que o seu Japonga tinha cagado na beira do caminho. Um pecado imperdoável! Ah, que raiva. Que fedor.
Aí ela desancou o "seu" Kagaru Nutashu. Xingou durante uns cinco minutos. E o velho japonês lá, impassível, silencioso, nem se limpou. Ergue-se, levantou a calça, sempre de costa com cuidado para não mostrar “outras coisas”. Só se manifestou quando a d. Itel, sem mais o que dizer já indo embora ainda gritou:
- tamanho velho e não tem vergonha na cara .
Foi quando ele respondeu, com a característica calma oriental:
- Japonês caga assim, de frente pro mato e de costa pro caminho, porque japonês tem vergonha na cara, japonês não tem vergonha no cú...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Jesus, meu Deus! Que cor tu tens?


“Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’strela
tu t’escondes,
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás Senhor Deus? “    (Castro Alves-1868)

Quem me dá a honra de ler estes textos deve pensar: ele sempre bate na mesma tecla, vire e mexe o assunto é racismo e a questão da velhice, ou envelhecimento, com todas as agruras que essas duas coisas trazem de forma intrínseca à quem o é ou vive essa circunstância.
Bom, quem é velho vive ocasionalmente essa condição que logo, logo a morte chega e com ela tudo acaba. Com o negro é diferente, porque ele sempre foi negro e a negritude trás sofrimento que junto com a velhice, digamos, o sofrimento é dobrado.
Um dia desses no  Detran, a médica especialista em medicina do trânsito, que submeteu-me aos testes da saúde para revisar minha carteira é negra. Negra mesmo. Tivemos uma conversa cheia de informalidade a ponto de eu perguntar se durante a vida dela (tem 60 anos) alguma vez tinha sido vítima de racismo. A resposta foi não. Eu não me admirei com a resposta. Preto é assim mesmo, quando sobe dois degraus na vida ele passa a achar que os outros negros sofrem de analgesia congênita, ou seja, não sentem dor, e isso não é uma característica do negro brasileiro.
Andando pelas estradas da vida tive a oportunidade de conhecer as ex-colônias de França, Holanda e Inglaterra, (Guiana Francesa, Suriname, Martinica, Guadalupe) e Haiti. São espécies de mini países cujas populações nativas são cem por cento negras. Na realidade foi a primeira vez que eu vi um negro dirigindo um automóvel Mercedes sendo ele o dono do carro e não apenas motorista. Foi por lá também que eu constatei que pouca coisa mudou da época que negro caçava e prendia negros para vender como escravos; que negros escravos em troca de alguns privilégios se transformavam em capitães do mato, caçadores de escravos foragidos. Por lá ainda existe – e muito – negro sendo escravizado por outro negro.
Tenho um parente próximo que é negro puro, africano, e que nos tempos de vaca magra quando morava na casa da minha mãe um dia, ao ver passar ricaços nos seus carrões em frente onde morávamos, na estrada da Pirelly, falou-me assim:
- olha Jambu, esses quando nasceram Deus estava olhando pra eles.
 Um tempo depois, já com o burro na sombra, no enfrentamento com um vizinho que enchia o saco, vociferou:
- Pôrra! Por isso que eu tenho raiva de pobre.
Hoje, alto executivo em uma estatal de mineração angolana, vem duas vezes por ano em Belém onde plantou profundas raízes familiares, nessas ocasiões costumamos bater sempre longos papos e foi num momento desses que eu perguntei, - até lembrando que quando o Pelé, já milionário, fez o milésimo gol ele gentilmente dedicou as crianças pobres do Brasil – a maioria negra, deve ter se alimentado bem naquela época. Bom a pergunta foi a seguinte:
- Por que negro rico parece detestar negro pobre?
A resposta foi quase uma dissertação, que no final confirma minha afirmação e isso é histórico. O Zumbi que é cultuado por nós, negros, como herói, o mais inteligente estrategista que liderou o quilombo dos Palmares, como comandante em chefe, também tinha escravos e mandava matar os rebelados. Em 1804 o Haiti se tornou a 1ª República Negra do mundo, de lá para cá dá um passo a frente e dois, três para trás. A fome, a doença, a miséria, parecem se perpetuar naquele país, onde o maior símbolo de resistência, espaço social e cultural do país é o vodu, sistema misto de magia negra e branca, religião primitiva que predomina em todos os 38 países da África Negra – que vivem se matando em guerras tribais –, guerras e conflitos que gera desgraça, que gera fome, que gera miséria.
Ditadores cruéis como Haile Salassié (Etiópia), Bokassa (República Centro Africana), Mobutu (Congo), Idi Amin (Uganda) e o Papa Doc e Baby Doc (Pai e filho) esses dois do Haiti; criaturas hediondas que juntas mataram mais de 5.000.000 de outros negros. Mas existem também negros presidentes “bonzinhos” em países africanos que, democraticamente, a custa de esquemas corruptos, são eleitos e reeleitos, se perpetuam no poder numa ditadura disfarçada. Esses também matam, mas recebem aplausos internacionais porque não são ditadores, isto é, não comem carne humana... Em 1830 o americano Joseph Smith fundou os Mórmons, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, colocou lá no livro “sagrado” deles que um anjo (com certeza o coitado não conhecia as coisas da terra) entre outras coisas, falou-lhe o seguinte: “você vê alguns grupos de família humana que são negros, desajeitados, feios, desagradáveis e baixos em seus costumes, selvagens e aparentemente sem a benção da inteligência que é normalmente dada à humanidade...”.
O anjo que o deus racista do Smith mandou era só um porta-voz, tanto que até bem pouco tempo atrás os catadores de fiéis dessa organização religiosa andavam em dupla, sempre dois americaninhos branquinhos de pasta na mão faziam a “praça”. Hoje mudou, já vem um pretinho compondo o dueto.
Mas, e os negros elevados a condição de elite, porque não mudam em relação aos outros negros, colocando um braço social de inclusão, lutando por melhorias que facilite, que abra mais oportunidades, ou que pelo menos, passe pelo negro ferrado e não o torne mais invisível.
Um sorriso, um aceno, um bom dia. O negro pobre, casca grossa, pé no chão, com certeza sorrirá feliz, achando que quando nasceu “Deus estava me olhando...” 
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