Quando eu era criança que morava no interior
(colônia Chicana, na época município de Ananindeua, hoje, Santa Bárbara), uma
das atrações que animava os domingos era quando jogadores do Progresso (time
local), formavam um “solteiro x casado” que saía faísca. Era muito bacana. E o
melhor, não tinha briga. Eu, por causa do papai, que era goleiro do time,
torcia sempre pelos casados. Acabou que isso praticamente se transformou numa
filosofia de vida, pois, passei a ficar mais a vontade no meio de pessoas mais
velhas, que, aliás, me tratavam com muito carinho. E eu gostava. Quando comecei
namorar o meu broto (linguajar da
época, lá pelos idos de 1965) ela tinha dez aninhos a mais, e por aí foi. Hoje vejo que esta minha particularidade
perdeu um pouco a graça. Envelhecí. Agora sou um velho no meio dos velhos. E um
desvio de rota está marcando a linha de chegada quando o fim se aproxima, o
destino me prega uma peça: a minha mulher atual é quinze anos mais nova. Não
foi fácil a adaptação, mas, sabe-se, desde o nascimento, nós, humanos, vivemos
num constante processo de interação com nossos semelhantes, e a conclusão é que,
praticamente, todos os comportamentos da humanidade são resultantes da
convivência com os demais. Sou feliz com a com a minha novinha. Agora um novo paradigma prevalece: um velho com uma “mina”
mais nova, ou uma velha com um “gato” mais novo, talvez seja essa uma das
idéias mais criativas que existem para embelezar a velhice.
Assistindo uma
entrevista do arquiteto Oscar Niemayer quando ele fez 103 anos, o repórter
perguntou: “como o senhor se sente fazendo 103 anos?”. Resposta: “me sinto uma
merda, preferia tá fazendo 20”. Sinceramente, ao invés de 20, eu preferia mesmo
ter morrido com 40, ou no máximo 50; com 63, também, me sinto uma merda. Só que
do cavalo do bandido...Pior para os
jovens de hoje quando envelhecerem - os que...-, já que com o avanço da ciência a longevidade aumenta,
com certeza a lei 10.741 que dispõe
sobre o estatuto do idoso vai ser alterada. Idoso? Só a partir dos 75. Esses
que vão estar ferrados, principalmente se forem velhos e pobres, como eu.
Brigava com meu pai porque ele
bebia o caldo na beirada do prato e fazia aquele barulinho de água quando está no
fim sendo sugada pelo cano da pia; com a d. Osmar, minha mãe, eu implicava quando
ela estava mastigando nada; e aquele limpar de boca , ou o nariz, na base do esfregão com a costa da mão em diagonal, que
pega meia cara e em vez de limpar espalha na fuça o material que o velho quer
ser ver livre. Terrível!
Eu hoje: já
estou na rua quando sinto um friozinho resfriando a minha coxa. Esqueci a
braguilha aberta. A minha companheira de vez em quando me adverte: “para, Orlando, tu já estás mastigando de
novo”. E não adianta eu me justificar dizendo que falo só “por que gosto de conversar e ouvir uma
pessoa inteligente”. É mera justificativa cheia de ufanismo de um velho
caducando, que vive conversando com um interlocutor inexistente; aquele cochilo
com a cabeça pendida para baixo, o queixo quase encostado no peito, o lábio
inferior fica meio arriado com umas gotas de saliva pingando (acho que por isso
o termo “velho babão”); e a eterna mania de dar palpites em tudo, achando que
sempre tem razão; desfiar detalhes intermináveis de mazelas e doenças; a
repetição de coisas, histórias e causos contados e recontados. Ah, meu Deus!
Ninguém merece. É ,tudo isso faz parte do comportamento e atitudes no processo
de envelhecimento, que eu não gostaria de viver, mas, fazer o quê, já está
acontecendo. Meu Deus, não sei por que vivemos tanto! Chego a ter inveja de outros
mamíferos que morrem logo.
Para que serve a velhice?
Biologia, genética, e fisiologia geriátrica talvez tenham a resposta. Qual,
portanto, a justificativa para o envelhecimento, que não seja um processo que
nos leva a inutilidade, e depois a morte? A única liberdade que um velho pode
usufruir é da imaginação. E aí entra nível cultural, econômico, educação, religião,
família e meio social. Nos devaneios imaginativos dos vovôs está presente a
sexualidade, que, segundo alguns pesquisadores do comportamento humano na
velhice, no velho a fantasia é mais enfocada nos órgãos; na velha, é mais
imprecisa e abrangente. Exemplo: Se uma mulher é muito velha ela é visitada por
pensamentos de beijos românticos embaixo de uma árvore ou no banco de uma
praça; já no homem velho, o pensamento é uma vagina escorregadia num ato sexual
feito em pé apoiado na borda da mesa do escritório. Esses pensamentos levam o
velho, já impotente, incharem os órgãos genitais (não endurece, incha); aí ele
quer aproveitar, começa um ato sexual, quase inútil, porque a lubrificação feminina
da velha está seca, e a ereção masculina murcha, (é como um balão de
aniversário cheio que a gente deixa escapar o ar) como se isso não bastasse, a
ansiedade aumenta, e o fracasso do desempenho é inevitável. É a tragicomédia de
corpos envelhecidos tentando funcionar. Segundo alguns especialistas em
reprodução humana e sexualidade, os ovários nas mulheres e a capacidade sexual
dos homens declinam mais depressa do que qualquer outro órgão do corpo, aí não
tem jeito: pênis e vagina se tornam decorativos, fantásticos e ridículos.
É errado dizer que velho não
serve para nada. Serve sim. É um excelente material para massa de manobra de
gestores, que aproveitam, principalmente em anos de eleição. Eles sabem que
cada velho assistido nos centros de referência sustenta cinco pessoas, em
média, com seu salário. Isso faz com que os velhos sejam assediados,
contemplados com festas e muitos, muitos abraços. Outra provável serventia: será
que velhos moribundos internados em hospitais públicos, não são submetidos a
algumas experiências médicas antes de morrerem? (medicamentos recém lançados, por
exemplo, quem sabe hem...); velhos pobres, claro.
Os ricos. Os ricos são as
jóias da coroa dos planos de saúde, e de médicos, que tentam de tudo, com
tratamento de ponta, transferência para centros mais adiantados, até no
exterior, mesmo sabendo que o doutor bunda branca já é pré-defunto; a luta esganiçada
para mantê-lo vivo é proporcional ao seu saldo bancário. Quanto mais dias numa UTI
do frustrado “tratamento”, mais dinheiro no caixa.
Ambição, subir na vida, carreira,
classe social, estar entre pessoas bonitas, subir no pódio, ser o último
biscoito da lata; tudo isso não nos atrai mais, porque, também, deixamos de ser
atração. O poeta americano, Carl Sandburg, disse que velho, “é um balde de cinzas”. É mais,
acrescento: é um monte de coisas caídas.
Na velhice a lei da gravidade passa dominar sobre o corpo humano. O
psicanalista James Hillman, no livro a força do caráter, descreve esse vir abaixo como o Grande Despencamento:
tudo pende para o chão – pálpebras, queixo, mandíbulas, seios, a pele sob o
antebraços, barriga, nádegas, lábia vaginal, pinguelo, testículos (o culhão do
velho parece com uma laranja dentro de uma meia, engraçado: o pinto encolhe,
some), até o lóbulo das orelhas desce.
O olhar é para baixo – olhamos para o chão com medo de tropeçar,
cair.
Essas sinalizações do corpo é um
recado: estamos a caminho do cemitério...