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sexta-feira, 18 de maio de 2012

ÓDIO, NOJO, REPUGNAÇÃO E REVOLTA


Precisava pensar. Criei um blog. Não um folhetim de denúncias, e sim, crônicas, fatos do cotidiano com pitadas de ironia encorpadas com críticas rápidas. Preâmbulos sempre maiores do que o assunto com escopo crítico, até porque o que tem de blogueiro assassinado nos últimos tempos... blogueiro de verdade não um bundão que nem eu, um velho sonhador que pensa saber escrever, mas hoje dia 17 de maio de 2012, eu dei um cartão de visita a uma inspetora da Polícia Rodoviária Federal e pedi para ela acessar o blogdojambu. A posuda inspetora disse que sim e eu não quero desapontá-la.
                                                                                             
O FATO
Benevides, 17/05/2012, quinta-feira, 11h. da manhã. Entrei no microônibus placas nº JVJ 5455 e apresentei a carteira emitida pela CTBEl conhecida por passe fácil, que dá ao portador idoso o direito à gratuidade em transportes coletivos. Ao mostrar o documento fui desacatado pelo condutor que parou o micro, levantou-se e mandou-me descer para entrar pela porta traseira. Desci e ele arrancou em velocidade. Eu apanhei uma moto fui até o posto da Polícia Federal que funciona lá mesmo em Benevides.
Um bom tempo de espera e fui atendido por um impostor, digo, inspetor que demorou atender-me porque conversava ao celular – devia estar resolvendo algum problema muito sério – contei o que aconteceu, fui ouvido e levado a um outro que veio logo perguntando se eu tinha o documento que me permite andar de graça, provei que sim; segunda, anotou a placa do carro?, quando eu disse que sim e mostrei o número anotado, aí o inspetorzão  disse que nada podia fazer porque ali é um setor administrativo.
Peguei outro ônibus e fui ao posto da Federal de Ananindeua. Quando lá cheguei a cabine de ar condicionado naquele momento estava habitada por duas inspetoras. Uma gorda e outra magra, essa última me atendeu. Relatei e ouvi de novo - as duas me olhavam como se eu fosse uma formiga - que função da PRF não tem nada a ver com a minha demanda. Humilhado, vilipendiado, com o rabo entre as pernas, fui-me embora num sol de 13h. caminhando até o próximo ponto de ônibus, me sentindo como um lixo. Fui atirado outra vez para fora, agora da confortável cabine dos inspetores prfs. Se eu fosse avô ou pai dessas criaturas especiais, será que o comportamento deles seria o mesmo?
Eu podia colocar aqui alguns artigos da Lei 10.741 de agosto de 2003 que dispõe sobre o Estatuto do Idoso, se o fizesse seria mais uma perda de tempo. Se fosse um jornal impresso em papel os personagens aqui descritos certamente usariam para limpar o cu, mas como isso é só mais um instrumento de comunicação onde a gente coloca nossas idéias e opiniões, e tem que ter muito cuidado, de repente posso falar muito, colocar nomes e entrar em fria porque sou pobre e negro, dispondo somente do dia e da noite, que é um bem comum a todos, não teria como pagar indenizações por danos, ou enfrentar penas alternativas. Sou voluntário em projetos sociais, já trabalho muito sem renumeração.
Ódio, nojo, repugnação e revolta. A culpa é da Lei, confiamos e nos ferramos. Noutros tempos eu deixaria passar uns dias e me vingaria bacana. Era ferro no ferro. Quando subíamos pela porta traseira nos coletivos e descíamos pela frente, motoristas respeitavam mais, porque quem tem, tem medo.
Taí, d. inspetora. Leia, critique e compartilhe com seus nobres colegas de farda.
Au revoir.


sábado, 12 de maio de 2012

VIVER É PRECISO, ENVELHECER PRA QUÊ?

Quando eu era criança que morava no interior (colônia Chicana, na época município de Ananindeua, hoje, Santa Bárbara), uma das atrações que animava os domingos era quando jogadores do Progresso (time local), formavam um “solteiro x casado” que saía faísca. Era muito bacana. E o melhor, não tinha briga. Eu, por causa do papai, que era goleiro do time, torcia sempre pelos casados. Acabou que isso praticamente se transformou numa filosofia de vida, pois, passei a ficar mais a vontade no meio de pessoas mais velhas, que, aliás, me tratavam com muito carinho. E eu gostava. Quando comecei namorar o meu broto (linguajar da época, lá pelos idos de 1965) ela tinha dez aninhos a mais, e por aí foi.  Hoje vejo que esta minha particularidade perdeu um pouco a graça. Envelhecí. Agora sou um velho no meio dos velhos. E um desvio de rota está marcando a linha de chegada quando o fim se aproxima, o destino me prega uma peça: a minha mulher atual é quinze anos mais nova. Não foi fácil a adaptação, mas, sabe-se, desde o nascimento, nós, humanos, vivemos num constante processo de interação com nossos semelhantes, e a conclusão é que, praticamente, todos os comportamentos da humanidade são resultantes da convivência com os demais. Sou feliz com a com a minha novinha. Agora um novo paradigma prevalece: um velho com uma “mina” mais nova, ou uma velha com um “gato” mais novo, talvez seja essa uma das idéias mais criativas que existem para embelezar a velhice. 
Assistindo uma entrevista do arquiteto Oscar Niemayer quando ele fez 103 anos, o repórter perguntou: “como o senhor se sente fazendo 103 anos?”. Resposta: “me sinto uma merda, preferia tá fazendo 20”. Sinceramente, ao invés de 20, eu preferia mesmo ter morrido com 40, ou no máximo 50; com 63, também, me sinto uma merda. Só que do cavalo do bandido...Pior para  os jovens de hoje quando envelhecerem - os que...-, já que  com o avanço da ciência a longevidade aumenta, com certeza  a lei 10.741 que dispõe sobre o estatuto do idoso vai ser alterada. Idoso? Só a partir dos 75. Esses que vão estar ferrados, principalmente se forem velhos e pobres, como eu.
Brigava com meu pai porque ele bebia o caldo na beirada do prato e fazia aquele barulinho de água quando está no fim sendo sugada pelo cano da pia; com a d. Osmar, minha mãe, eu implicava quando ela estava mastigando nada; e aquele limpar de boca , ou o nariz, na base do  esfregão com a costa da mão em diagonal, que pega meia cara e em vez de limpar espalha na fuça o material que o velho quer ser ver livre. Terrível!  
Eu hoje: já estou na rua quando sinto um friozinho resfriando a minha coxa. Esqueci a braguilha aberta. A minha companheira de vez em quando me adverte: “para, Orlando, tu já estás mastigando de novo”. E não adianta eu me justificar dizendo que falo só “por que gosto de conversar e ouvir uma pessoa inteligente”. É mera justificativa cheia de ufanismo de um velho caducando, que vive conversando com um interlocutor inexistente; aquele cochilo com a cabeça pendida para baixo, o queixo quase encostado no peito, o lábio inferior fica meio arriado com umas gotas de saliva pingando (acho que por isso o termo “velho babão”); e a eterna mania de dar palpites em tudo, achando que sempre tem razão; desfiar detalhes intermináveis de mazelas e doenças; a repetição de coisas, histórias e causos contados e recontados. Ah, meu Deus! Ninguém merece. É ,tudo isso faz parte do comportamento e atitudes no processo de envelhecimento, que eu não gostaria de viver, mas, fazer o quê, já está acontecendo. Meu Deus, não sei por que vivemos tanto! Chego a ter inveja de outros mamíferos que morrem logo.
Para que serve a velhice? Biologia, genética, e fisiologia geriátrica talvez tenham a resposta. Qual, portanto, a justificativa para o envelhecimento, que não seja um processo que nos leva a inutilidade, e depois a morte? A única liberdade que um velho pode usufruir é da imaginação. E aí entra nível cultural, econômico, educação, religião, família e meio social. Nos devaneios imaginativos dos vovôs está presente a sexualidade, que, segundo alguns pesquisadores do comportamento humano na velhice, no velho a fantasia é mais enfocada nos órgãos; na velha, é mais imprecisa e abrangente. Exemplo: Se uma mulher é muito velha ela é visitada por pensamentos de beijos românticos embaixo de uma árvore ou no banco de uma praça; já no homem velho, o pensamento é uma vagina escorregadia num ato sexual feito em pé apoiado na borda da mesa do escritório. Esses pensamentos levam o velho, já impotente, incharem os órgãos genitais (não endurece, incha); aí ele quer aproveitar, começa um ato sexual, quase inútil, porque a lubrificação feminina da velha está seca, e a ereção masculina murcha, (é como um balão de aniversário cheio que a gente deixa escapar o ar) como se isso não bastasse, a ansiedade aumenta, e o fracasso do desempenho é inevitável. É a tragicomédia de corpos envelhecidos tentando funcionar. Segundo alguns especialistas em reprodução humana e sexualidade, os ovários nas mulheres e a capacidade sexual dos homens declinam mais depressa do que qualquer outro órgão do corpo, aí não tem jeito: pênis e vagina se tornam decorativos, fantásticos e ridículos.
É errado dizer que velho não serve para nada. Serve sim. É um excelente material para massa de manobra de gestores, que aproveitam, principalmente em anos de eleição. Eles sabem que cada velho assistido nos centros de referência sustenta cinco pessoas, em média, com seu salário. Isso faz com que os velhos sejam assediados, contemplados com festas e muitos, muitos abraços. Outra provável serventia: será que velhos moribundos internados em hospitais públicos, não são submetidos a algumas experiências médicas antes de morrerem? (medicamentos recém lançados, por exemplo, quem sabe hem...); velhos pobres, claro.
Os ricos. Os ricos são as jóias da coroa dos planos de saúde, e de médicos, que tentam de tudo, com tratamento de ponta, transferência para centros mais adiantados, até no exterior, mesmo sabendo que o doutor bunda branca já é pré-defunto; a luta esganiçada para mantê-lo vivo é proporcional ao seu saldo bancário. Quanto mais dias numa UTI do frustrado “tratamento”, mais dinheiro no caixa.
Ambição, subir na vida, carreira, classe social, estar entre pessoas bonitas, subir no pódio, ser o último biscoito da lata; tudo isso não nos atrai mais, porque, também, deixamos de ser atração. O poeta americano, Carl Sandburg, disse que velho, “é um balde de cinzas”. É mais, acrescento: é um monte de coisas caídas. Na velhice a lei da gravidade passa dominar sobre o corpo humano. O psicanalista James Hillman, no livro a força do caráter, descreve esse vir abaixo como o Grande Despencamento: tudo pende para o chão – pálpebras, queixo, mandíbulas, seios, a pele sob o antebraços, barriga, nádegas, lábia vaginal, pinguelo, testículos (o culhão do velho parece com uma laranja dentro de uma meia, engraçado: o pinto encolhe, some), até o lóbulo das orelhas desce.
O olhar é para baixo – olhamos para o chão com medo de tropeçar, cair.
Essas sinalizações do corpo é um recado: estamos a caminho do cemitério...

domingo, 29 de abril de 2012

Jeitos de falar


Língua – objeto fonador. Linguagem – forma de expressão. A mamãe tem 85 anos e quando eu me entendi ela dava um recado bem maneiro, mais ou menos assim: “ele é pávulo cheio de mitra mas muito impulificante, trastejou ele tá fazendo imbuância, mas dequandenvez tinha um tapuio plantando-lhe um trampêsco no tutiço”. Tradução: ele é exibido, tem postura, boa conversa, mas muito encrenqueiro, por qualquer motivo está criando confusão, mas de vez em quando tem alguém metendo-lhe uns tapas no pé do ouvido.
No início dos anos setenta eu escutei dois ladrões conversando. O diálogo era assim: “é irmão, eu meti os cinco no porão traseiro dum bode, saquei o coringa dele. Saí de pinote, de repente pintou um maluco de quatro na minha cola, perdi o breque dei de chavasca com a dura, fui em cana e levei muito produto d’amazônia no teto. A minha mina passou um fio pro adêvo que me tirou do xaxado”. Tradução: é colega, eu meti mão no bolso de trás dum velho, roubei a carteira dele, saí correndo com um cachorro atrás de mim, perdi o sapato e dei de cara com a polícia, fui preso e levei muita cacetetada na cabeça (os cacetetes da polícia eram de borrachas). A minha namorada ligou para o advogado que me tirou do xadrez .
É o modo de falar de dois segmentos sociais diferentes. Um é o normal do caboclo iletrado que conserva traços e características regionais; o outro é gíria da boca do lixo, do submundo. Nos dois tipos de linguagem há influências geográficas e econômicas; enfim, toda a gama de elementos que, circunscritos a um território , fazem dele uma região distinta das demais até no modo de se comunicar. 
O russo Vladimir Maiakóvski, que era escritor, poeta e pensador, dizia: o povo inventa línguas. E é verdade. Agora um exemplo de erudição no modo de dar um recado simples onde o emissor quer mostrar que sabe falar e falar bonito. Um juiz (é só um exemplo, uma simulação) do alto da sua sapiência, justificando uma sentença proferida a respeito de um bêbado que fora estuprado:
 “O orifício circular corrugado de 37 rugas localizado na região ínfero-lombar de um cidadão, em elevado grau etílico, deixa de estar em consonância com os ditames referentes ao direito individual de propriedade.” O meritíssimo disse: cu de bêbado não tem dono. Só isso. Simples. Bem simples. Ininteligível, porém, o enunciado aos simples mortais que não têm formação com o academicismo necessário para o entendimento da linda falação. (Ou falácia?). 
Outro exemplo: “a peça prembular exordial está de acordo com a increpatória e espeque. O indigitado que é consorte supérstile ficará no ergásculo público”. Traduzindo: “a peça inicial está bem fundamentada. O réu, que é viúvo, será recolhido a cadeia pública”. É mole...?
Foi com esse linguajar rebuscado que os semideuses, juízes do Supremo, passaram dois dias, 11 e 12/04/2012, desfilando palavras que só eles sabem os significados para decidirem: podem matar os anencéfalos (crianças sem cérebro). O magistral truque lingüístico dos magistrados: uso abusivo do hermetismo, falam coisas que ninguém entende; latinórios, textos latinos mal empregados e mal traduzidos. Por quê? Esperteza, claro. Os togadões sabem, o emprego de termos enigmáticos de línguas mortas, como o latim, serve justamente para que a patuléia não entenda bulhufas do que eles falam. 
Foi assim no julgamento dos fichas sujas. Discursos longos invocando até direito romano e alguns dos salafrários mais notórios do País receberam licença especial para continuarem batendo bumbo, caçoando da nossa cara. Ah, porque será que todo endinheirado condenado pela justiça comum que recorre ao supremo dificilmente perde? Sei não...E os Meretíssimos são pródigos. Em 1997 a juíza Sandra Mello, mulher do então Ministro do Supremo Marco Aurélio de Mello, que é primo do ex-presidente e atual senador Collor de Mello, presidia o Tribunal do Júri de Brasília quando, com palavras lindas em bom juridiquês desclassificou o crime cometido por jovens bandidos da classe média alta de Brasília que tocaram fogo no índio pataxó Galdino, de crime doloso para lesão corporal seguido de morte. Uma brincadeira de adolescentes.
Paradoxo: a reação humana dos mantos de lã, acontece sim, quando o arranca rabo é entre eles. Ministros Barbosa e Gilmar Mendes, discutindo no plenário do STF - quase saindo aos tapas; Barbosa e Peluso, também sairam dos espevitamentos oficiais no espaço vestuto e ao vivo mostraram que sabem falar nosso idioma. É isso, quando a kizumba é entre eles saem coisas do arco da velha. Não parece, mas eles são humanos sim...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

HELÔO, BOFES! FUI EU TÁAA...


Meu avô materno eu não conheci. Os paternos sim, e morreram bem velhinhos. Lembro muito bem do tratamento carinhoso, o amor, o cuidado dispensado pelos parentes no final de suas vidas. Os índios ainda são assim, têm sempre um respeito muito grande por seus anciãos. Nas cidades grandes, as famílias que tem dinheiro não gastam tempo cuidando dos seus velhos, por mais que este tenha tido uma vida toda de sacrifícios para prover de conforto a descendência toda. Esses idosos terão que conviver com seus “cuidadores”, e existem empresas especializadas nesse métier.
Um dia desses conversando com uma técnica em enfermagem, que é cuidadora, ela contou-me: cuida de um paciente de 93 anos, ao higienizá-lo, o velhinho todo nervoso pegou a mão dela levou até ao pênis que, revelou a enfermeira: “tava duro parecia um guardanapo”, e suplicou balbuciando todo trêmulo:
- “Bata uma bronha pra mim minha filha,  bata!”.  
-“E aí, que tu fizeste?” Perguntei.
Ela entortou o canto da boca numa meia careta, fez um trejeito e não respondeu. Acho que nem gostou da minha pergunta.
 Minha opinião: isso não é coisa de “velho tarado”. É parte da luta que a razão trava contra os sentimentos.
 Luxo, ódio, amor, ambição, ciúme, altivez, ferocidade e brandura, são matérias palpáveis da vida e que fazem parte do nosso cotidiano. Quantas vezes nós rimos para uma pessoa que na verdade gostaríamos mesmo era de esganá-la; ou temos que ser indiferentes e mostrar até desprezo por alguém que amamos tanto. Muitas vezes precisamos nos mostrar cruéis para sermos bons ou nos fazer de idiotas para sermos admirados. Foi mais ou menos que aconteceu com o personagem que relato a seguir:
Portugal. Universidade de Coimbra. Evento: Uma conferência. Conferencistas defendiam seus grupos, escola ou classe social a qual pertenciam, respectivamente. No auge dos debates alguém que figurava como espreita solta um formidável peido: “puuumm!”. Naquele ambiente de acústico perfeito o som ressoou na sala e foi escutado por todo mundo.
Fingindo admiração, palestrantes se olharam e um deles perguntou, com certa dose de cinismo:
- Que foi isso?
- A meu ver, respondeu um médico, são gases odóríficos repelidos pelo ânus provenientes de matérias cagais;
- Pois para mim, disse o filósofo, essa é a ridícula pretensão do cu querer falar;
- Pois eu acho, falou o poeta, que esse é o suspiro do coração saído pelo cu, por engano;
- Não! Gritou o comunista, isso é um grito de desespero de merda oprimida;
- Estão todos enganados! Gritou um militar, colérico, isso é um grito de guerra de um cu revoltoso;
Levantou-se então um padre, todo calmo e apaziguador, que falou com voz pausada:
- Calma meus irmãos! Esta com certeza é a alma do feijão subindo ao céu.
As opiniões se sucederam cada vez mais contraditórias, como não chegassem a uma conclusão foi feito um acordo, no caso se apresentaria o autor do peido que com suas próprias palavras definisse o estranho fenômeno.
Apresentou-se então um pederasta, que passivo e de mãos postas, assim se expressou:
- “Maus.Todos maus.Não têm o menor respeito por um cu que suspira a-pai-xo-na-da-men-te...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

QUEM AMA, NÃO MORDE


"Se voce recolher um cão faminto nas ruas, ele nunca te morderá! É a principal diferença entre um cão e um homem". (Mark Twian)
Amor. Sentimento inexplicável e fácil de conceituar. O filósofo vai dizer que amor é a arte de dizer da boca para fora: “eu amo”; o poeta dirá que amor está na flor que desabrocha ou num coração afligido pelo desejo de felicidade do outro; o tarado compulsivo vai afirmar que amor é um nervo duro arrodeado de pêlos (pentelhos); enfim, para o sentimento de dedicação total e absoluta de um ser a outrem, objeto de simpatia ditada por laços de família, inclinação sexual forte por outra pessoa; isso tudo define a palavra Amor e Amizade - que é o esteio da vida, o reflexo da nossa existência. Num momento que até para fazermos amor condicionado a sexualidade já o fazemos separados pelo uso do preservativo, o homem vive se cobrando: será mesmo o amor tudo isso...
E no mundo animal, como explicar a dedicação, por exemplo, de um cachorro pelo seu dono? Ou, que leva por impulso instintivo, o animal saber que uma pessoa está morrendo e usar os meios disponíveis para tentar livrá-la da morte? Vejam este caso:
Pelos fartos, gorda, dengosa e bem tratada. No primeiro olhar dava para perceber logo: o brilho lustroso na pelagem. Era o tratamento vip dispensado nos banhos semanais com uso de xampus e cremes de ervas naturais; biscoito, iogurte, nescau, sorvete, sucos de fruta natural, eram ingredientes indispensáveis nos acepipes de degustação alimentar;  cama, espaço reservado no sofá para assistir o desenho  preferido; vaga  no banco da frente do carro da família  e visitas periódicas no veterinário. Era assim, cheia de mordomias, a vida da maria bianca, a cadela da família do seu Zé. Ela não provocava inveja só nos outros parceiros da mesma espécie, alguns humanos também nutriam o mesmo sentimento e outros tinham raiva, justo pelo tratamento a ela dispensado. Era o caso do Márcio, genro do seu Zé, que não conseguia disfarçar que detestava a maria bianca.  Começava pelo nome que, coincidência, era o mesmo duma “ex” que ficara lá atrás no passado, diziam os tiradores de sarro, e ainda o excesso de privilégios e boa vida da cadela.
O seu Zé mora no telégrafo em Belém e lá tudo é motivo para festas. Ô povo que gosta de molhar as palavras!
E foi numa dessas celebrações de alegria explícita regada com muitas geladas num sábado, que comilanças e beberagens entraram pela madrugada de domingo. Lá pelas quatro horas, já exaustos e quase todos pra lá de Marrakesh, foram dormir. Menos o Márcio. Entornou poucas. Estava desde cedo sentindo um leve mal estar; um pouco de dor na cabeça e no peito. Não disse nada para não preocupar ninguém. Não queria estragar a festa. Eram quase cinco horas e o mal estar e enjôos forçaram uma ida ao banheiro. Um pensamento o atormentava: “esquisito: tontura, náuseas e não tenho vontade de vomitar; dor no peito e esse formigamento...”. Abriu a porta entrou e a dor foi ficando insuportável. Quis gritar, pedir socorro, não deu, a garganta parecia se estreitar o grito não saiu. Procurou se sustentar nas paredes, tentou, mas os braços pareciam pesar uma tonelada cada. Tontura, desfalecimento, e como um raio uma última recordação: quando ele pisara por pura maldade no rabo da maria bianca.  
O corpo quedou-se no solo frio, úmido e nada higiênico do banheiro; os joelhos curvados, a cabeça encostando-se ao vaso sanitário, os pés na direção da porta. Agora as imagens que passavam na mente era ele dentro de uma espécie de túnel esfumaçado cor cinza claro cheio de pessoas já falecidas, que flutuavam, com acenos e sorrisos o chamavam. O Márcio passava por um EQM – estado de quase morte - Nestas ocasiões o último sentido que apaga é a audição. Por isso Márcio, mesmo sem ter o domínio dos outros sentidos (visão, tato, paladar) ainda escutou o som bem distante dos latidos da maria bianca...
 E somente ela não dormia. Deitada no sofá preferido viu quando o Márcio passou para o banheiro e ficou atenta. Ela sabia que ele não a suportava. Enroscada estava, enroscada ficou. Não se mexeu e ainda pensou: “pisastes no meu rabo, seu...” Acompanhou-o olhando de soslaio. Estranhou quando viu os pés saindo pela porta do banheiro sem o corpo do dono. Curiosa, saltou do sofá foi verificar “in loco”. Assustou-se ao ver que o homem estava desfalecido. Sem pensar duas vezes deu alarme. Começou latir. Desesperada ela literalmente gritava e chorava latindo. (Lembra música do Roberto Carlos: “meu cachorro me sorriu latindo...”). Correndo, ia a todos os cômodos da casa onde tinha pessoas; latia voltava dava umas três lambidas na cara do Márcio. Latia e latia. A cadela só sossegou quando alguém despertou. Com todo mundo acordado, sob choro e tristeza levaram o desmaiado para um hospital. Findo o alvoroço, o coração ainda bastante acelerado, porém tranquila, a maria bianca voltou à sua zona de conforto.  Enroscadinha, fingiu que estava dormindo...
Infarto. Uma artéria semi-obstruída impedia a passagem de sangue para o aurículo ventrículo esquerdo do coração. Desfibrilador, cateterismo, ponte de safena, respiração por aparelhos e duas semanas na UTI. Tudo ajudou. Mas decisivo mesmo foi o socorro prestado a tempo. Dez minutos a mais seriam fatais. Era óbito certo. Enfatizou o médico cardiologista, que sabendo da estória ainda brincou: “dêem um abraço na Maria Bianca. Ela me ajudou também!”.
Dois meses depois. Em forma e refeito do susto, Márcio foi visitar o sogro, seu Zé. Para variar tinha uma festa preparada com tudo de direito. Até champagne! Era uma verdadeira  saudação à vida! Todos queriam abraçá-lo. Sônia e Samara, amigas da família, foram de Marituba participar dos cumprimentos festivos ao “renascido”, que chegou trazendo um pacote volumoso logo aberto por gente da casa imaginando ser a “intéra”, tira gosto. Surpresa! Só tinha sorvete, biscoito, nescau e enlatados finos para cachorros. Tudo com etiqueta do destinatário: “maria bianca”.
 Abril de 2012. A maria bianca ainda vive, mas está bem velhinha. Os pelos perderam o viço e assim como os dentes, estão caindo; a vista está embaçada, perdeu o apetite. Vive doente, sorumbática, macambúzia, depressiva. A única pessoa que dá amor, tem paciência e a trata com todo carinho, é ele: O Márcio...
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